segunda-feira, agosto 11, 2008

Copacabana Me Engana


Muito mais do que qualquer outra tentativa, "Copacabana Me Engana" (1969) realiza em 93 minutos uma síntese bem azeitada da esquálida classe-média brasileira dos anos 60. Classe-média que, ainda desconhecendo o milagre econômico dos anos seguintes, vivia entre a recessão e o provincianismo caipira, de um país que olhava o mundo de longe e era folclore para o resto do planeta.

Este Brasil sessentista -- baldio, transitório do rural para o urbano -- tinha um símbolo de modernidade: Copacabana, pedaço de terra e areia imprensado entre os morros e o Oceano Atlântico, inacessível até final do século XIX, a não ser para o nobre transeunte que gostasse de alpinismo e excursões longas. Com a abertura de um túnel, a região integrou-se ao resto do Rio -- e, paradisíaca, ganhou ares de metrópole internacional a partir da construção do hotel Copacabana Palace, no início dos anos 20.

Morar em Copacabana virou, durante décadas, obsessão de quase todo brasileiro, alimentada em filmes, livros, teatros de revista. Argutos, os especuladores ocupavam milimetricamente cada lote possível. Em certo tempo, a construção de prédios de luxo foi abandonada e surgiram os famigerados edifícios de quitinetes: vinte, trinta apartamentos por andar, em funcionalidade espartana. Graças a essa ocupação -- e à favelização nos morros -- o bairro foi se tornando uma babel de classes e origens diversas, convivendo entre tapas e beijos.

No rastro da degradação do Rio (e do país), dos anos 80 pra cá, a percepção do entorno vem piorando progressivamente, e pode-se dizer que grande parte daquele mito sucumbiu violentado por hordas de camelôs, pedintes dos grotões mais distantes e uma quantidade surreal de carros circulando pelas ruas e avenidas calorentas.

"Copacabana Me Engana" -- dirigido pelo estreante em longa, Antônio Carlos Fontoura -- estava na beira deste abismo de decadências e contradições. O flaneur, o dândi carioca cosmopolita, era substituído por jovens imbecis como Marquinhos (Carlo Mossy), uma caricatura de homem. Vinte e tantos anos na cara, crônico excedente no vestibular, Marquinhos se fia na turma -- de fracassados como ele -- que trafega pelas esquinas e observa a vida nas janelas dos edifícios, formigueiros devassados.

Um dia Marquinhos avista Irene (Odete Lara), toda-boa que mora no apartamento em frente, sustentada pelo coroa Alfeu (Paulo Gracindo), com quem aos poucos rivaliza pelo amor da mulher. Covarde, pressionado pelos pais a tomar uma decisão sobre o futuro, Marquinhos entra em crise progressiva. Flagra o pai com uma amante no Centro, Rua do Ouvidor, chega a bater na mãe; mas "rende-se" ao dividir Irene com o irmão Hugo (Cláudio Marzo) -- que admira e inveja -- em um processo de duvidosa purificação.

No período, outros filmes fizeram espelho à mesma temática: "Opinião Pública" e "Marcelo Zona Sul", dos também estreantes Arnaldo Jabor e Xavier de Oliveira, são quase comentários suplementares. Mas, além deste painel, "Copacabana Me Engana" guarda cenas primorosas, em especial duas seqüências: a ménage envolvendo Marquinhos, Hugo e Irene -- ao som de "Try a little tenderness", de Otis Redding -- e a lição de moral paternalista dada por Alfeu em Marquinhos, ambos bêbados, compartilhando frutos do mar e a atração doentia por Irene.

Certa verdade -- incômoda, íntima -- que gruda na memória, deve-se a uma conjunção de sortes: Fontoura, nascido em São Paulo, 1939, mudou-se para o bairro ainda na infância -- e, como todo bom autor, inundou o roteiro de referências autobiográficas. Trabalha com a câmera na mão, amparado pela montagem de Mário Carneiro -- buscando redimir idéias do Cinema Novo com divagações modernas, tropicalistas, em versão bem-comportada dos propósitos que o Cinema Marginal executava naquele instante.

Além disso, teve a felicidade de escolher um protagonista seis anos mais novo, também criado nas imediações -- e que poderia ter sido seu colega de rua, não fosse a diferença de idade. Imaturo, com pinta de Actor´s Studio, Carlo Mossy associou para o resto da vida seu nome ao ethos e à malandragem do personagem.

Lançado entre janeiro e fevereiro de 1969 nos cinemas da Guanabara, o trailer, tão bom quanto o filme, perguntava: "Que tipo de gente mora em Copacabana?". Sobreviventes de um mundo que acabou, ídolos de gerações, vale dizer que nem Fontoura nem Mossy moram mais no bairro. Hoje lá vivem os depressivos, confusos e amedrontados cariocas do século XXI.

6 comentários:

André Setaro disse...

"Copacabana me engana", quando o vi em cinema no seu lançamento, lembro-me que era cinemascope e preto-e-branco. Nos anos 80, a Globo o lançou em VHS, mas em 'full screen'. Reflete bem o espírito da época, o "modus vivendi" dos jovens moradores do famoso bairro carioca hoje em completa decadência. Primeiro longa de Fontoura, que viria a se notabilizar em "Rainha Diaba", "Copacabana me engana" tem, também, um senso de humor bem carioca - como aquelas brincadeiras no bar com Joel Barcellos - e, como você diz muito bem, é uma "versão comportada" que beira o Cinema Marginal ainda nos seus primórdios.

André Setaro disse...

Você tem razão: foi um lapso imperdoável não ter me lembrado do grande crítico Salvyano Cavalcanti de Paiva.

Andréa Ormond disse...

Oi, André. Os cariocas mudaram, os brasileiros idem. Interessante que eu estava vendo uns episódios do "Ciranda, Cirandinha", e dá para se perceber a mão do Fontoura, tanto no roteiro quanto na direção. Os episódios eram coesos, homogêneos, em versão televisiva. O Marquinhos dos anos 60 teria, digamos, se tornado um ripongo de república no final dos 70.

Anônimo disse...

Caro André, o texto é bom, e quem o diz é um rapaz que pode morar alguns ano justo numa quitenete de Copacabana.
Só me preocupa sempre esse revisionismo histórico que tenta abarcar a totalidade de uma época e acaba simplificando demais as coisas.
Dizer que, nos anos 60, a classe média brasileira era esquálida e o que o país passava por uma transição do campo para as cidades me parece um pouco forçado. Não esqueçamos que essa transição já se tornara maciça há ao menos 30 anos, desde o getulismo. E que após o governo JK, nos anos 50, o país se tornara menos "caipira", como quer o texto, seja pela construção de Brasília, abertura de muitas estradas, criação da indústria automobilística, criação de uma indústria do Cinema (Vera Cruz) e outra do teatro (TBC) e daí por diante.
Não cabe aliás simplificar e dizer que os únicos lapsos de modernidade brasileiros se encontravam em Copacabana.
Tratava (como ainda hoje, rivalizando apenas com Ipanema) de nosso rincão mais famoso e internacional, mas não podemos fazer pouco, por exemplo, de uma cidade como São Paulo, já então riquíssima e de outras metrópoles que se consolidavam à época: como Salvador, Recife, Belo Horizonte, Porto Alegre.

No mais, parabéns pelo texto.

Andrea Ormond disse...

Anônimo,

Vc começa a errar me chamando de "Caro André". Sou Andréa. Erra novamente quando não assina seu comentário. E prossegue errando ao não ter lido o texto direito e tirado conclusões esdrúxulas dele, confundindo informação com "revisionismo histórico" (esta idéia, em si, já designa uma leitura tendenciosa e maldosa).

De qualquer maneira, vou respondê-lo com didatismo. O Brasil dos anos 60 estava sim, fazendo ainda a transição do rural para o urbano. Procure nos livros de história. E a classe média, antes do chamado milagre econômico, era minúscula. Comparada com a população brasileira, a classe média nacional permanece ainda hoje diminuta. E olhada a partir da proporcionalidade e do poder de compra de suas congêneres nos países desenvolvidos, é uma piada.

E, me desculpe contrariar seu otimismo, mesmo com a Vera Cruz, TBC ou a construção de estradas, o Brasil era um lugar terrivelmente caipira e provinciano. Nem precisamos mergulhar nos anos 60, basta lembrar que até os anos 80 quase nada podia ser importado. Artistas internacionais, antes do primeiro Rock in Rio, em 1985, pouco se apresentavam aqui. A instalação de uma simples linha telefônica residencial exigia quase uma década. Isso não é "revisionismo histórico". São fatos. Se você quiser uma leitura agradável, tente a coleção de Manchete, de Veja, dos jornais diários, que está tudo lá, descrito em minúcias.

Pra finalizar, em momento algum o texto diz que "o único lapso de modernidade brasileira estava em Copacabana". Diz que Copacabana era "um símbolo de modernidade". Vai uma diferença de anos luz entre o que você leu e o que está realmente escrito.

Filmantes disse...

Ótimo texto. Também escrevi sobre "Copacabana me Engana" aqui: http://pt.shvoong.com/entertainment/movies/2237461-copacabana-engana/

Parabéns pelo blog.