segunda-feira, dezembro 12, 2005

O Rei da Boca


O Rei da Boca” (1982) é um destes filmes épicos, tão gratos no cinema brasileiro de policiais e marginais, sobre a ascenção e queda de um dos maiores bandidos da Boca do Lixo, ponto de prostituição e vagabundagem de São Paulo.

Mitificada, retratada em várias obras do cinema, do teatro e da literatura – leiam “Boca do Lixo”, inesquecível romance-documentário escrito pelo cafetão Hiroito Joanides de Morais, tão bem redigido que já se duvidou ter sido escrito pelo próprio – a Boca era área degradada e decadente na São Paulo que orgulhosa, crescia um prédio por hora. Desta antítese e paradoxo, anunciadora do colapso urbano/social, criou-se o folclore de um espaço, um tempo e seus protagonistas.

Um destes foi Pedro Cipriano da Silva. Nascido e criado em um matagal qualquer, em um ponto também qualquer e inacessível do Brasil, o nome é cabalístico, composto de três símbolos que explicam a origem e as maldições de ser a escória, um nada. “Pedro”, como o apóstolo que nega Cristo por três vezes; “Cipriano”, como o bruxo, anti-bíblico que contradiz a citação anterior; “da Silva” como um dos sobrenomes mais arquetípicos das classes populares no país.

A trajetória de Pedro (Roberto Bonfim) é linear até certo ponto. Da roça vai ao garimpo. Lembrem-se que em 1982, ano de “O Rei da Boca”, a referência aos garimpos como mecanismo de ascensão social ainda era factível, e não a preciosidade arqueológica de hoje em dia. Até filme infantil rendeu – o bilionário “Os Trapalhões na Serra Pelada” –, além de inúmeros prêmios para reportagens ora verídicas, ora lacrimoniosas, tendendo para o sensacionalismo barato, fácil de comover a multidão.

Espaços restritos, confinados – diz uma das regras de ouro da dramaturgia –, criam um ânsia de liberdade interessante de ser contada. Misturando-os com a necessidade de sobrevivência – ou a ganância, no caso –, o inferno rola solto. Em “O Rei da Boca” o inferno é encarnado, por exemplo, em Satã, vulgo Melquíades França Neto, ex-lutador de telecatch, grande amigo de José Mojica Marins. Satã é um dos que trabalham para Dr. Lourenço, impedindo o roubo de pedras pelos mineradores. Closes cerebrais de Clery Cunha, diretor do filme, demostram a demência dos assalariados de Lourenço, raivosos como o delegado local, tentando descobrir o paradeiro da pepita sonegada por Pedro.

Fustigam o rapaz, colocam em pau de arara, nu, de cabeça para baixo, obrigam a tomar óleo de rícino, vasculham suas fezes e, depois de todas as negativas, Pedro comete o primeiro assassinato, pré-São Paulo, degolando o delator. Pega-o de tocaia, mata pelas costas. No espírito de jagunço, não há sentimentos éticos, devaneios de hombridade. Há vida ou há morte.

Encerrado o ciclo interiorano, Pedro vende o ouro por um preço risível, sai a São Paulo – mais precisamente os quarteirões da Boca do Lixo – com a trouxa de roupa embrulhada em papel de pão. Logo a seguir, estréia nos pavilhões do Carandiru. O rosto ainda suavizado, um modo de pedir desculpas e de se maravilhar diante do desconhecido. É chamado, ato contínuo, de “otário” pelo trio que o recebe na cela.

Um deles – que durante todo o filme mantém o cacoete de quicar uma bolinha de tênis contra o chão ou a parede – será parceiro de crime. Inicia-o no tráfico de maconha, vendendo em estande de feira, misturada com laranjas. Neste período, Pedro será o cara bacana, protetor das prostitutas locais, o humilde que aceita o fato de não saber ler ou escrever. Mas em breve retorna ao presídio e associa-se com Gringo, este sim traficante de cocaína, dotado de um esquema de grande porte que marca o terceiro ciclo do aprendiz: o de estrela.

Munido com a infra-estrutura dos grandes tóxicos, que se espalha desde a compra de advogados à prostituição de menores, Pedro acaba mordendo o próprio rabo. Num crescendo de onipotência, o imigrante que sonhou ao ouvir a palavra “rei” e jurou tê-la pra si, perde a administração de um esquema antes caseiro, agora dantesco. Piora ao decidir pelo seqüestro de uma jovem virgem, filha de delegado, violentada para pagar uma dívida de jogo. Os mensageiros também não cooperam – Jesse James Costa mais uma vez presente – e como os bárbaros invadindo Bizâncio, a grandiosidade de um império embora tosco e simplório, é destruída. Pedro assassina ainda três garotas no fosso de um elevador, porque, claro, aprendeu com o advogado a como sumir com as provas do delito.

Guardem que a todo momento o espectador é tratado pela direção de Clery – responsável pela adaptação do original de Tião Valadares – como um igual ou pelo menos alguém de sensibilidade extrema para não se chocar com as imposições do cotidiano dos personagens. As prostitutas – uma delas interpretada por Zilda Mayo, comandadas por Wilza Carla – lavam-se depois de fazerem sexo – o ato carnal, e não amor – com homens horrorosos que ainda despidos são obrigados a pagarem o tarifário. Existe ódio, vontade de morrer e de matar, que somente por instantes pode ser ligada àquela indolescência geralmente apreciada em “Quinzinho” – Joaquim Pereira da Costa, o porta-voz do auge da Boca, fonte de muitos causos narrados pelo cinema brasileiro e homenageado no início do filme com uma inscrição.

O que se revela na audiência de um filme do porte de “O Rei da Boca” é a paixão pela verdade. Pela procura de se mostrar o descaso com a vida alheia em um panorama da “selva” – assim chamada literalmente a cidade grande, em um cartão colocado nos últimos segundos. A metrópole é um objetivo sangrento, ela é soma de pessoas que se nutrem e vão se sobrepondo, sabendo que para desafiarem o estado de coisas seria preciso uma força impossível. Sorte de quem está do lado forte da corda – pensam os autoritários. E para manterem-se lá, vale de tudo entre o céu e a terra. Mesmo que amanheçam mortos; nada mais natural. Para muitos, neste “Scarface” paulistano, a morte é apenas a conseqüência de se estar vivo.

6 comentários:

fernando disse...

Poucos filmes souberam trabalhar tão bem com os personagens provenientes da Boca do Lixo paulistana, e o personagem Pedro é o exemplo perfeito de como se sobrevive nesse universo difícil localizado nessa imensa cidade, a sobrevivência acima de qualquer sentimento. Vi esse filme há muitos e muitos anos atrás, adoraria ver novamente. Maravilha de texto, Andréa! Abraços!

Matheus Trunk disse...

Depois de ler o seu texto Andréia eu gostaria muito de ver o filme. Vocêm o alugou ? pq nunca passou nenhum filme do Clery no Canal Brasil que eu saiba. Abraços, Matheus.

Andréa Ormond disse...

oi Fernando, "Rei da Boca" é mesmo um épico ao reverso do sonho de "fazer São Paulo". Desde a primeira vez que o vi, tb há muitos anos e na tv, fiquei com vontade de falar algo sobre ele. Tem certos filmes que com certeza dão um livro e este é um deles :) Abração!

oi Matheus, é verdade, o Canal Brasil não passa mesmo os filmes do Clery, nem esse nem Joelma tb nunca vi na programação. Existia e ainda existe aqui no Rio, em Ipanema, uma locadora com um acervo enorme de vhs brasileiros. Aluguei "Rei da Boca" de lá, depois de vê-lo na tv, acho que na Bandeirantes :) Abração!

Eduardo Aguilar disse...

Mais uma vez: Excelente!!!! Ao contrário do Matheus, eu acho o Clery um diretor insipido, meia-bôca mesmo p/ não perder o trocadilho, mas esse filme justifica uma carreira e não sei o q. vc. acha, mas eu fiquei estupefato com a atuação de Bonfim, qdo tive a oportunidade de conhecê-lo por conta do trabalho num curta, foi a 1.ª coisa de q. falei e ele curte o trabalho e contou algumas histórias, não lembro de todas, mas de um certo desconforto com a equipe e o elenco, por terem chamado um ator carioca p/ um papel tão ligado a sampa e de algumas idéias q. ele teve como o excesso de ouro q. o personagem usa.

Andréa Ormond disse...

oi Edu, não tinha visto ainda seu comentário perdido aqui embaixo :) Acho o Clery um diretor razoável, que fez um ou dois grandes filmes, sendo "Rei da Boca" com certeza o melhor. Interessante o Roberto Bonfim ter comentado sobre esse desconforto, pq tb o senti como espectadora, principalmente por conta do sotaque forte do ator, que descaracteriza um pouco o personagem paulistano. Talvez com um ator da própria Boca o filme fluísse um pouco melhor.

O jornalista disse...

fiz uma pontinha neste Rei da Boca, pouca coisa mais valeu, estava do lado do bem(rs, o filme finalizava num close do meu distintivo; lemro-me o sucesso foi muito grande, valeu.
petro miranda.