segunda-feira, março 06, 2006

Fêmeas em Fuga


O subgênero WIP (Women in prison, mulheres na prisão), desponta no cinema exploitation europeu e norte-americano no final dos anos 60, misturado às vezes com narrativas picaretas sobre nazismo – onde as habitantes dos campos de concentração eram judias bem-fornidas ("Love Camp 7” de 1969 é um bom exemplo) – ou pseudo-denuncismo sobre gangues de transviados, que caçam e estupram moças indefesas (caso do clássico de 1965, “The Defilers”). Como tudo de bom que surgiu nos anos 60, o gênero se expandiu nos 70 e praticamente desapareceu ao longo dos 80.

Mas longe destas anotações pitorescas, o que é um WIP? Sadismo mal disfarçado, misoginia erotizada, o gosto por ver uma – ou algumas – mulheres encarceradas, violentadas e brutalizadas, acaba sendo, sem hipocrisias, compartilhado por homens e mulheres na mesma proporção e entusiasmo.

Interessante também dizer que alguns dos “clássicos” do WIP são dos filmes mais assistidos e comentados por lésbicas e/ou praticantes de S/M de todos os estilos. Obras-primas como “Barbed Wire Dolls” do especialista Jess Franco, contêm cenas de lesbianismo – e dominação/submissão – mais bem feitas do que quase toda a prospecção da arte específica do assunto.

Claro que no Brasil algo parecido – e como de praxe, mais divertido e original – haveria de surgir. Filmes como “Presídio das Mulheres Violentadas” e “A Prisão” -- ambos do cineasta da Boca, Oswaldo de Oliveira – são hoje cultuados no exterior pelos adoradores de WIPs, com dublagens em alemão ou inglês.

Outra versão tupiniquim do gênero está na co-produção ítalo-brasileira “Fêmeas em Fuga” (1985), ano em que o diretor Michele Massimo Tarantini também realizou a pérola “Perdidos no Vale dos Dinossauros”. Os dois filmes são estrelados por Suzane Carvalho, ex-atriz, futura campeã mundial de Fórmula-3 e irmã da pastora Simone Carvalho – a starlet que teve alguma atenção nos anos 80 trabalhando, dentre outros, com Cláudio Cunha em “O Gosto do Pecado” (1980).

“Fêmeas em Fuga”, de longe, é o mais conhecido WIP rodado no país, apesar de inferior aos filmes de Oswaldo de Oliveira. O problema é que visando ao mercado internacional – já segmentado, interessado e crescente àquela altura dos anos 80 – e utilizando equipe européia, o resultado aqui deixou uma certa trava, soou estranho, como um daqueles filmes brasileiros que tem vergonha de sê-lo – algo nos moldes de “A Grande Arte”, inacreditável longa de estréia de Walter Salles, e obra maior desse cinema esdrúxulo.

Porém, sublimado o aspecto alienígena, “Fêmeas em Fuga” conta as aventuras de Ângela Duvall (Suzane Carvalho), condenada à prisão ao assumir o crime cometido por Sérgio (Paulo Guarnieri), seu irmãozinho caçula.

Não sabemos se o sobrenome “Duvall” é resquício do famigerado escândalo de 1980 – quando a atriz Dorinha Duval matou o marido – ou é apenas mais um estrangerismo. Mesmo assim, já no trajeto entre o tribunal e a penitenciária, percebemos que Ângela é a mulher idealizada, a começar pelo próprio nome. A heroína que leva cusparadas na cara, que é cobiçada pelos guardas no camburão e que deglutirá calmamente "il pane che il diavolo ha impastato".

Recepcionada pelas colegas, Denise (negra imensa, criatura perturbada, que assume o papel de protetora) e Joana (chefe que comanda a curra entre garotas a que todo wip flick tem direito), Ângela sofre um quase-enforcamento por homens encapuzados que invadem a cela ao descobrirem o tumulto que a grã-fina vem provocando.

Luís (Henri Pagnoncelli), médico do serviço de assistência às detentas, se apaixona e luta para provar a inocência da garota. Entra em conflito com o Capitão Bonifácio (Leonardo José, mais conhecido por sua voz nas dublagens do que pela presença de fato nos filmes).

Ladino, inescrupuloso, Bonifácio esconde provas e conta com o apoio da Inspetora (Rossana Ghessa), seu duplo feminino, que assedia Ângela e consuma uma das mais inebriantes cenas de sexo lésbico, comentada e reproduzida ad infinitum pelas admiradoras e admiradores.

É claro que esta dobradinha entre submissão – por parte de Duvall – e desejo – escancarado pela personagem de Rossana Ghessa – ocupa as fantasias do público, sustentando o filme e abrindo o apetite para a fuga de Ângela e companheiras – muito parecida com a fuga de "Barbed Wire Dolls" – momento crucial da história.

A profusão de balas, espingardas, correria e uma ridícula cobra de isopor no meio da floresta – sim, pois sempre há uma floresta com galhos, bichos e artefatos que gradativamente rasgam as roupas das fêmeas em fuga –, têm como conseqüência a morte dos perseguidores – exceto da Inspetora, que desaparece do nada, após concluir a magistral incursão – e o reaparecimento, em um salto no tempo, do casal Ângela-Luís.

Desmemoriada, casada e com filhos, Ângela vive uma redenção às avessas: está traumatizada, não sabe nada sobre o passado, mas permanece fora do alcance da lei.
Este recurso diz muito sobre as heroínas arquetípicas do cinema machista, infernizadas pelas dificuldades, mas que atingem um grau superior de pureza ao começarem um novo lar, cuidando do marido e da prole. Lembremos de "Kill Bill", quando a Noiva se transmuta de assassina fálica em mãe passiva e cuidadosa.

É no cruzamento de tendências, entre o espúrio e o vendável, que “Fêmeas em Fuga” se destaca e encontra mercado em vários países do mundo até hoje, entrando para a história da cinematografia nacional.
Na dúvida, vale a pena tentar visitar outros presídios femininos – principalmente os produzidos na Boca – cheios da decadência e perversidade 100% brasileiras, e que fazem a maioria dos WIPs gringos – inclusive este – parecerem certinhos e limpos demais.

5 comentários:

Juarez Junior disse...

Depois da sua indicação, sou obrigado a correr atrás de ver "Presídio das Mulheres Violentadas” e “A Prisão”...
Vc achou Fêmeas em Fuga tão forçado assim? Acho que é apenas um reflexo do fim do explotation. Pela proposta, acho até bem legal.

Andréa Ormond disse...

Oi Juarez, não desgosto do Fêmeas em Fuga", mas depois de ver os dois um seguido do outro, passei a achá-lo uma cópia (sem a qualidade e originalidade) do "Barbed Wire Dolls", o que não tira seu aspecto divertido. Os filmes do Oswaldo de Oliveira são muito bons, "A Prisão" é fácil de encontrar, pois foi lançado no mercado estrangeiro com o título de "Bare Behind Bars". E o "Pipoca de Sal" anda ótimo, tenho acompanhado os últimos posts :) Beijos.

Smartt disse...

Falando no Tarantini, estão sabendo que ele morreu?

Anônimo disse...

O destaque,neste filme,é a atriz Zeni Pereira,como a presidiária Denise.Grande artista.

Michael Carvalho Silva disse...

Suzane Carvalho era belíssima, simplesmente maravilhosa e também uma ótima atriz. Suzane abandonou a carreira de atriz para se tornar piloto de corrida além de ser irmã da estrela Simone Carvalho na vida real.