quinta-feira, março 02, 2006

Anjos e Demônios


Que a rivalidade Brasil e Argentina é uma besteira, qualquer pessoa um pouco inteligente nota. Tal qual Rio e São Paulo, Nova York e Los Angeles, esse tipo de antagonismo traz mais prejuízos do que supostos benefícios. Se os habitantes de um lugar gastassem metade da energia que gastam criando a sensação de "nós e eles" com um olhar generoso para o outro lado do campo, descobririam maravilhas e se enriqueceriam pela abertura de novas e diferentes possibilidades.

Talvez por isso a nacionalidade argentina de Carlos Hugo Christensen crie uma barreira para os cinéfilos apressados, que costumam desvirtuar opiniões pessoais em discursos de pura xenofobia. Este revanchismo – político ou social ou futebolístico – impede a valorização de Christensen, exemplo muito interessante do profissional que nascido no início do século XX (1914) começava no rádio e de lá migrava para o cinema numa escalada natural, amadurecendo à medida em que o próprio meio também se estruturava.

Foi assim que Christensen inovou em pleno Peronismo – os primeiros beijos na boca e nus (de costas) do cinema argentino foram filmados por ele –, além de excursionar por uma América Latina incipiente – Venezuela, Peru –, até fixar-se em definitivo no Brasil. “Mãos Sangrentas” (1954), da hoje esquecida Maristela Filmes, inaugurou a nova fase, que ainda teria obras-primas como “Crônica da Cidade Amada” e outros clássicos que transformaram definitivamente o cavalheiro portenho em cosmopolita carioca.

“Anjos e Demônios” (1970) faz parte dessa rota ascendente, onde percebe-se uma intimidade muito maior do diretor com seu objeto de estudo, a sociedade brasileira. Sem o olhar de gringo deslumbrado, que tece loas ufanistas ao país de adoção, Christensen enquadra no roteiro – com argumento de Jotta Barroso e diálogos do escritor Orígenes Lessa – a vida cotidiana das meninas e meninos – ricos, sádicos e sem caráter – da zona sul do Rio, onde morava.

Virgínia (Eva Christian), sobrinha de Marcos (o mítico Fregolente), costuma dar festas no apartamentaço onde vive em Copacabana, embebedando o tio com barbitúricos misturados no copo de leite. Órfã de pai e mãe desde pequena, envolve-se com Paulo (Luiz Fernando Ianelli) – punguista explorador de garotas e homossexuais.

A relação do casal, como em todo bom filme brasileiro, é prato cheio para o voyeurismo psicológico. Com menos de dez minutos de conversa estão tirando a roupa, enquanto o moleque assovia para o teto e Virgínia boceja, prevendo com grande conhecimento de causa os passos seguintes até a consumação do sexo fácil e mecânico.

São parte integrante do filme as músicas do pop de terceira categoria da época – não Beatles ou Rolling Stones, mas bandas como 1910 Frutigum Company e Ohio Express, que acompanham os adolescentes nas boates St. Tropez, no Texas Bar e nas malandragens em geral – que incluem uma curra e o pedido onipotente de Paulo, tão comum ainda hoje na juventude carioca, de assistir à Eva transando com outro garoto desavisado.

Menores de idade – fato que conspira contra a idealização do que Carlos Drummond de Andrade chamara de “poder ultrajovem” –, usam o estatuto de coitados para escaparem de qualquer acusação. Eva é auxiliada por Henrique (Geraldo Del Rey), antigo advogado da família, que gradualmente virá a ser manipulado pela garota, a ponto de assassinar o tio.

O roteiro usa algumas guinadas que lembram os novelões dos anos 50, baseados na fórmula crime-tribunal-suspense-reviravolta. “Amar foi minha ruína” (1945) é citação implícita, retrabalhando o desespero do espectador ao aguardar o assassinato de alguém indefeso, cercado de água por todos os lados. São dois minutos em pleno silêncio, tempo da ida e volta de Henrique da beira-mar ao barco em que Marcos pescava.

Descobre-se depois que Eva e Paulo armaram para Henrique. Chantageiam o pobre, que acaba se suicidando no meio do julgamento por homicídio doloso. Chegam em casa felizes, pulando, com os gritinhos de praxe – a turma de amigos inclui Mario Gomes e o saudoso Ivan Setta –, mas são desmascarados por um Fregolente redivivo, que lembra um velho italiano surpreendendo os traidores da Máfia.

Agrada em “Anjos e Demônio” o cinismo do enredo e a segurança de Christensen ao falar para a platéia de jovens da época – afinal, a venda da trilha-sonora “em discos CBS” fez parte da estratégia de marketing. No entanto, não há clichês do tipo mãos dadas ao pôr-do-sol e nem apenas namoros heteros. O gay cafetizado por Paulo ressalta a postura iconoclasta do diretor em mexer no vespeiro machista dos thrillers latinos – existe personagem semelhante em outro filme seu, “A Morte Transparente” (1978), que também reutiliza o gancho da falsa morte no meio d’água; neste caso, uma piscina.

Christensen morreu em 1999, três anos após um hiato de quatorze entre “¿Somos?” e “Casa de Açúcar”. Falante, com mil projetos sonhados que ficarão para sempre longe das telas, foi-se embora como um criador original, erudito, um gentleman da nobre arte. Se o Brasil dá as costas para a Argentina e vice-versa, a carreira cinematográfica de Christensen mostra o quanto duas culturas – que se complementam e se iluminam mutuamente – perdem com essa tola rivalidade.

5 comentários:

sergio andrade disse...

Andréa, já está mais do que na hora mesmo de se fazer justiça ao Christensen, uma vítima da xenofobia a qual você se referiu. Ele soube muito bem compreender a sociedade brasileira. Filmes como "Mãos sangrentas", "Viagem aos seios de Duilia" e "O Menino e o Vento" são provas disso. Se não me engano esse "Anjos e Demônios" foi lançado em vídeo. Sabe qual a distribuidora? Beijos!

Di Carlo disse...

Andréa, após ler seu texto digo: "Não vi o filme e gostei". Vim até o ESTRANHO ENCONTRO através do REDUTO DO COMODORO. Adorei! Tenho que passar pelos posts anteriores! Por fim, posso linkar o ESTRANHO ENCONTRO no NOTURNO VULGAR?

Andréa Ormond disse...

Oi Sergio, o filme foi lançado pela CIC Video em meados dos anos 80. Olha que interessante: o endereço era Rua Vitória, 158 1o Andar. Ou seja, como tantas, funcionava em plena Boca do Lixo paulistana :) Beijos!

Di Carlo, bem legal seu texto sobre o "Gal a Todo Vapor". Uma pena que o Teatro Teresa Rachel tenha virado Igreja, um lugar com tanto valor histórico e cultural :) Um beijão pra vc e parabéns pelo blog, fique à vontade pois vou linkar vc tb :)

Matheus Trunk disse...

Belo texto e bola lembrança Carol. O Cristendersen vi uma coisa e outra. Mas gostei mesmo de "VIAGEM AOS SEIOS DE DUÍLIA", que eu e o Carlão curtimos muito. Há um pesquisador o Anfrânio Mendes Cattani que é professor da USP e fez doutorado sobre a Maristela e escreveu sobre o Cristendersen na Enciclopédia do Cinema Brasileiro e consegui umas duas vezes falar com ele. Ele me falou muito bem do Cristendersen, embora ele Afrânio, pessoalmente, não curtia Viagem aos Seios. Mas queria muito ver este filme, atualmente o meu problema com o Canal Brasil é o mesmo: já vi tudo que passa !

Andréa Ormond disse...

Oi Matheus, vc deve estar visitando o site da Carol ao mesmo tempo e me chamou de Carol rs
Mas falando do Christensen, "Viagem aos Seios de Duília" tb é um dos meus preferidos, acho que uma das poucas vezes em que um filme brasileiro fez justiça a um texto literário (no caso, o conto do Aníbal Machado). Vale a pena assistir "Morte Transparente" de 1978, tb outro grande filme do Christensen, apesar do protagonista ser o Wagner Montes.