segunda-feira, outubro 03, 2005

A Menina do Lado


Apesar de parecer óbvio, é errado buscamos uma aproximação entre “Menina do Lado”, de 1987, e o sempre citado “Lolita”. O romance de Vladimir Nabokov, que deu origem ao filme de Kubrick (e a uma refilmagem recente), trata do fetichismo doentio de um homem de meia-idade por uma adolescente. Em “A Menina do Lado”, percebemos uma verdadeira relação de amor, mútuo, entre os protagonistas – ainda que, evidentemente, sujeita a nuvens e trovoadas.

Mauro (Reginaldo Farias) é o jornalista cinqüentão que aluga uma casa de praia na tentativa de concentrar-se no trabalho. Alice (Flávia Monteiro) é a vizinha de 14 anos, freqüenta a cidade sozinha, às vezes recebe visitas da mãe. Nos arredores, o fiel escudeiro de Mauro e Alice: Paulo Maurício (Sérgio Mamberti), que serve de ponte entre os dois mundos, torcendo para que tudo dê certo. “Quando duas pessoas estão bem juntas, elas ficam bem... juntas”, diz.

Por este pequeno resumo de uma parte da história, podemos ver que existem diferenças imensas em relação ao romance nabokoviano. O filme brasileiro, dirigido por Alberto Salvá – realizador que já freqüentou as páginas deste blog em “Um homem sem importância” – não mostra a história de uma criatura perversa, uma quase-diva, quase-demônio, corporificada no rosto ingênuo de criança. Isto é trabalhado por Kubrick.

Alice é frágil, filha de uma mãe problemática (Débora Duarte). Surfista e fotógrafa nas horas vagas, não tortura o jornalista ao ponto da escravidão sexual e emocional. Pelo contrário, ela se mescla com ele e preenche, através deste relacionamento, um espaço criado provavelmente pela ausência do pai. Não sei se era esta a intenção dos roteiristas (Salvá e Elisa Tolomelli), mas ao menos passa ao espectador a impressão. O pai de Alice nunca vem à tona, inexiste, é um vazio que piora na medida em que a mãe se demonstra uma tresloucada completa.

Por sua vez, Reginaldo Farias não precisa temer o confrontamento com James Mason. Mauro e Professor Humbert Humbert (Mason) são opostos. O primeiro é imbuído de amor; o outro, de necessidade doentia, que atinge o cume no assassinato de Clare Quilty (personagem vivido, em plenitude, por Peter Sellers). Quilty, aliás, representa mais um fosso entre “Lolita” e “A Menina do Lado”. Ele é o vértice do triângulo que forma juntamente a Lolita (Sue Lyon) e Humbert. Um sujeito amoral, intoxicante, sociopata que transtorna ainda mais a vida do casal destinado à tragédia.

Paulo Maurício, não. É o amigo mente aberta, que toma cerveja com Mauro e Alice (sim, ela bebe direto de uma lata de Malt 90), acredita em sexo como uma extensão prazerosa do indivíduo e mantém laços de amizade com um menininho mais novo – que, por sinal, não aparece na tela.

Fica claro, portanto, que “A Menina do Lado” possui ingredientes ficcionais próprios, e devemos afastar dele os rótulos fáceis. Datado de 1987, me parece bem mais próximo da cinematografia nacional dos anos 70. Mistura lirismo, observação, delicadeza. Fecho os olhos e imagino-o ombro a ombro com filmes produzidos antes da onda de pasteurização que contaminou muitas das produções dos anos 80. Mas basta, porém, ver os logos da Redley, da Benetton, os mullets e os bugres na praia, para perceber que a era Sarney estava ali, subjacente a todos esses dados iconográficos.

Alberto Salvá demonstrou em “A Menina do Lado” o relacionamento de um casal de namorados. As bobagens do dia-a-dia, a imaturidade, o sexo, o choro incontido de Mauro quando transa com a esposa e sente a ausência de Alice. O encantamento de um pelo outro, por motivos que lhes são pessoais e instranferíveis. Mauro toma uma taça de sorvete e sorri da voluptusiodade de Alice. Alice abraça-o, diz que é feliz. Brigam, voltam às boas. Há, porém, um bucolismo – acentuado pela trilha sonora de Tom Jobim – que faz da agressividade um impulso coadjuvante, mínimo, no meio do caldeirão de emoções que compartilham. Alberto Salvá conseguiu o que queria. Retratou uma vida a dois, inusitada mas plausível.

19 comentários:

Matheus Trunk disse...

Esse do Salvá ainda não vi, embora eu tenha visto um que o Carlão fotografou, que é um clássico da pornochanchada. É um com a Matilde Mastrangi, se chama "SOS Sex Shop" e ele escreveu o roteiro de uma obra- prima do Beco da Fome que é "A Mulata Que Queria Pecar" do grande Victor di Mello, que sinceramente, eu gosto muito.

Ailton disse...

Eu fiquei apaixonado pela Flávia Monteiro com esse filme.

sergio andrade disse...

Filme bem simpático, esse!

Carolina disse...

Assisti este filme ainda nos tempos da Band, mas me lembrei bastante lendo a resenha e somente agora conclui a diferença entre este filme e "Lolita" e quanta diferença! Flávia Monteiro desempenha bem o papel da personagem, um dos filmes dos anos 80 (que realmente lembra os anos 70) do qual gostei muito.

Andréa Ormond disse...

fala matheus, outro dia vi tb uma pornochanchada q teve fotografia do Carlos Reinchenbach: "Made in Brazil"...q luxo, bons tempos do cinema brasileiro! rs
ailton, toda uma geração de vcs meninos se apaixonou por ela, não foi?
é sim, sergio, um desses filmes belos e descompromissados q o cinema brasileiro deixou de produzir e precisa reaprender a fazer.
carol, a história de Lolita rende muitas variações, mas no caso deste, a delicadeza no trato do tema fez a diferença, não acha? :)

lucio disse...

Lolita é uma história de obssessão enquanto a menina do lado é uma história de amor.

Anônimo disse...

Assisti o filme de Salvá em 1996, quando eu namorava uma garota de 14 anos, portanto, muito mais nova que eu. Impossível não comparar minha experiência com a ficção, pois tal como Alice a minha menina parecia ser a sempre solitária, afetiva, sonhadora e sensualmente ingênua adolescente que está eternamente presente em nossos sonhos quase nunca realizados...Quanta saldade!

Anônimo disse...

Em tempos de debate contra a pedofilia esse filme não passaria assim por uma análise de tanta pureza e simplicidade como você o mostra.

Andrea Ormond disse...

Anônimo, as razões da pureza e da simplicidade do filme estão expostas no texto. Isso só prova o quanto o mundo emburreceu e piorou de 1987 pra cá.

Anônimo disse...

Tive a oportunidade de assistir apenas um trecho do filme, gostaria de assisti-lo inteiro. Por gentileza alguém sabe onde posso baixá-lo ou encontra-lo Obrigado

Anônimo disse...

É um filme bom, uma história delicada. Nenhum tipo de relação entre o filme e pedofilia. Apesar dos pesares os 80 foram anos interessantíssimos.

Ivan Bittencourt disse...

Discordo de você em diversos pontos. Esse filme é sim muito semelhante a Lolita e vou explicar-lher o porque.

Você diz "O romance de Vladimir Nabokov, que deu origem ao filme de Kubrick (e a uma refilmagem recente), trata do fetichismo doentio de um homem de meia-idade por uma adolescente."

Errado. Humbert não sente um fetichismo doentio por Lolita. Ele tenta se aproximar dela, ele tenta entendê-la, lê as coisas que ela lê apenas para participar de seu mundo, sente-se mal com as coisas que faz e, mesmo ela estando grávida de outro homem e não sendo mais uma ninfeta, ele continua a amando. Continua fiel a ela.

VocÊ diz "a história de uma criatura perversa, uma quase-diva, quase-demônio, corporificada no rosto ingênuo de criança. Isto é trabalhado por Kubrick."

Mas não por Nabokov. É claro que na época o filme tinha que ser adaptado por causa da censura e tal... Kubrick foca em uma característica de Lolita que não é marcante mas não é a principal. Sinceramente, quando vi Menina do lado achei o comportamento da Alice muitíssimo semelhante ao que li em Lolita.

Você diz "não tortura o jornalista ao ponto da escravidão sexual e emocional"

Lolita também não faz isso. O próprio Humbert é quem o faz consigo mesmo.

Você diz "O primeiro é imbuído de amor; o outro, de necessidade doentia, que atinge o cume no assassinato de Clare Quilty"

Humbert matou Quilty não por ciúme. Lembre-se que ele nem ao menos cogitou a idéia de matar o marido de Lolita, Dick. Humbert matou Quilty porque, como diz no poema, ele se aproveitou de sua maior fraqueza, ele roubou a chance de "rendenção". Um cara que fica tão mal a ponto de não se importar com sua própria vida simplesmente porque nunca mais terá a chance de ter o perdão de sua amada, demonstra um amor pouco visto ou lido até hoje.

Lembre-se sempre. Se Humbert fosse tão obcecado por Lolita quanto você diz, ele a teria sequestrado ou feito coisas piores, ele poderia força-la a fazer sexo.

Humbert nunca a estuprou. Humbert nunca a forçou a fazer nada. Ele negociava com ela.

Ele se contentou em não ficar com ela porque sabia que ela não o queria mais. Isso não mostra obsessão mas sim um amor puro e verdadeiro, porém proibido.

Você diz: "Quilty, aliás, representa mais um fosso entre “Lolita” e “A Menina do Lado”"

É claro. Ninguém tá dizendo que são histórias iguais, mas com certeza há muita influencia.



Menina dos olhos é um filme sensibilíssimo, apesar do toque erótico típico dos filmes nacionais da época. Realmente é chocante, e a influencia que sofreu do livro de Nabokov é visível em pequenos detalhes...

O jeito como ele olha sua criança. A forma como a toca quando estão na cama. O situação "pós-sexo". O choro pela distância da amada.
O 'cansaço' das meninas devido a uma 'rotina' que não foram preparadas.

Enfim, se você olhar os detalhes, verá que há muito de Lolita em A Menina do Lado.

Andrea Ormond disse...

Vc supõe "certo" e "errado" de maneira eufórica e equivocada. A forma com que vc dimensiona o amor entre Humbert e Lolita é apenas uma aproximação possível para com o romance. Fato é que o próprio Nabokov ao retratar o relacionamento dos dois não a via como uma criatura doce e ingênua, entre carinhos e olhares apaixonados. Há ali envolvimento caudaloso. Para Humbert, existe em Lolita uma representação estética, um encontro de ideais e de danação que não aparecem em "A Menina do Lado". Mauro não busca uma aproximação desta forma. Há no filme uma simbiose e um encantamento bem mais leves, que seguem o que a melhor tradição do cinema popular brasileiro sempre soube fazer: descortinar os clichês, mostrar a convivência humana tal como é.

O que vc expôs incorre, além disso, em uma escorregada epistemológica grosseira: esquecer as diferenças entre os referenciais da literatura e os do cinema. Não compreende, inclusive, o que está de fato escrito no texto. Lendo-o, vc verá que a "Lolita" de Kubrick é bem mais presente nele, justamente pelo fato de Salvá e Kubrick se utilizarem de um mesmo substrato: a imagem em movimento.

fcnuts disse...

Esse filme é excelente...esse filme é dos tempos que a palavra politicamete correto nao fora invetada ainda...a menina fuma,bebe e transa com um kra casado que tem idade pra ser seu pai...a menina é uma deusa... um dos melhores filmes que ja vi, e ja assisti mais de dois mil filmes.
recomendo a todos.

hectorlima disse...

acabei de ver agora - em novembro de 2009, veja você - e gostei muito. lembro dele na estréia mas eu tinha 11 anos e não me interessei em assistir.

realmente é um filme muito delicado, muito mais do que se esperaria na época de um filme brasileiro sobre esse tema [o preconceito com o cinema nacional, nascido do elitismo contra a chanchada estava bombando].

preciso ver mais filmes desse diretor. essa semana mesmo vi INQUIETAÇÕES DE UMA MULHER CASADA e vim procurar mais sobre ele aqui.

parece que está virando hábito eu pegar as sessões das 00h30 no Canal Brasil e vir aqui ver se vc resenhou, Andrea. mais uma vez, parabéns.

Hector Lima

hectorlima2gmail.com
http://gomademascar.net

Anônimo disse...

gostaria de ver cenas do filme, nessa época era apenas uma criança

Anônimo disse...

Vi esse quando passou pela 1a. vez na TV. Era 1989, na extinta Rede Manchete de Televisão: Saudades daquele tempo quando trazem de volta as minhas memórias onanistas. Tem uma cena, no filme, que passa de relance e muito rápida, aonde mostra um único nu frontal da atriz e ela está toda depilada. Depois desse filme, logo em seguida, e já com 15 anos, ela filma um outro, aonde também tem um pouco de erotismo; tem uma cena em que ela toma banho de cachoeira, e aparece completamente nua, e toda depilada também.

Em 1987, ano em que foi feito esse filme, a lei que regulamentava a vida dos menores de idade no país era o C.A. e não o E.C.A.. E o C.A. permitia que esse tipo de filme fosse feito, contanto que tivesse o concentimento dos pais da menor em questão e da aprovação de um juíz de menor.
É uma pena que o mundo ficou tão burro e conservador de lá pra cá, pois esse filme merecia um remake: Podiam dessa vez fazer uma versão lésbica do filme. Eu até tenho algumas idéias: Podim escalar A. P. Arósio, Letícia Spiller ou Bárbara Paz no papel de "Mauro"; e, no papel de "Alice" (a ninfeta) podiam escalar Pérola Faria, Isabelle Drummond, Lara Rodrigues, Bruna Marquezine, Bianca Comparato ou Laura Neiva.

Anônimo disse...

Foi a melhor resenha q eu já li sobre o filme. Despida de preconceitos, analisando o filme como ele é. Sinto falta de filmes brasileiros assim. Apesar da diferença de idade, acho o relacionamento do casal mais inocente do q q.q. outro q já vi. Gostaria mto q ele fosse relançado em dvd, mas acho difícil pois o politicamente correto está aí, e seria considerado pedofilia. Por causa desse conservadorismo, perde-se a chance de admirar uma estória assim. Nos EUA o filme "Menina Bonita" q traz Brooke Shields aos 12 anos vivendo um relacionamento amoroso com um adulto, foi lançado em dvd. No Brasil, nenhuma distribuidora se interessou em lançá-lo. Maldita hipocrisia brasileira. Parabéns pela resenha!

ADEMAR AMANCIO disse...

O único senão do filme é a cena escatológica do vaso sanitário,totalmente dispensável.