segunda-feira, fevereiro 26, 2007

O Amuleto de Ogum


Em tempos remotos, quando a crítica cinematográfica aprendia a amar o cinema de autor e dar a ele com todas as letras a aura de arte, passou-se a exigir do realizador -- qualquer que fosse -- uma tomada de consciência em relação ao seu ofício.

"Rio, 40 Graus" (1955), paradigmático primeiro longa-metragem de Nelson Pereira dos Santos, trazia embutida essa visão de um cinema transformador da sociedade. Preparou o terreno para a cristalização do Cinema Novo e ainda serviu de guia para o tour de fource "uma câmera na mão, uma idéia na cabeça". Afinal, foi elaborado entre amigos, a produção se reestruturava a cada instante conforme os apertos econômicos que iam acontecendo e reuniu atores em sua maioria não-profissionais, num cunho assumidamente influenciado pelo neo-realismo italiano.

Nelson, àquela altura, já era um ex-aluno das Arcádias em São Paulo, freqüentara a Cinemateca Francesa na gestão de Henri Langlois, havia sido quadro do PCB, além de assistente de Alex Viany em "Agulha no Palheiro" (1952) e Paulo Vanderley, no "Balança Mas Não Cai" (1952), espécie de primo mais velho do "A Praça É Nossa".

Desde "Rio 40 Graus", NPS repetiria o mesmo tema-base -- a "realidade social" do país -- sob abordagens ligeiramente diferentes. Em "El Justicero" (1967) trafegou pelo beautiful people carioca; em "Como Era Gostoso O Meu Francês (1971) utilizou o etnocentrismo invertido -- a dominação cultural sob o olhar do dominado -- para driblar a Censura. Ou ainda em "Vidas Secas" (1963) e "Mandacaru Vermelho" (1961), dirigiu nordesterns embebidos da literatura de Graciliano Ramos -- que, por sua vez, retornaria nas "Memórias do Cárcere" (1984).

"O Amuleto de Ogum" (1974) tem sua costura narrativa a partir da observação da Umbanda. Pode-se dizer até mesmo que serviu de exercício preparatório para "Tenda dos Milagres", (1977), baseado no livro homônimo de Jorge Amado.

Trabalhando no terreno do místico, tentava exorcizar (justamente naquele infame biênio 73-74, quando "O Exorcista" era febre nos cinemas do mundo...) a linha autoral-realista, ainda que não cumprisse de todo esse percurso: o realismo permanecia lá, diluído e revisitado com as firulas de uma narrativa fantasiosa.

Argumento de Francisco Santos, roteiro do próprio Nelson, o filme conta as aventuras de Gabriel (Ney Santanna), migrante nordestino que teve o corpo fechado na infância a pedido da mãe -- o pai e o irmão haviam acabado de ser chacinados, nas Alagoas. Há, porém, uma história dentro de outra: o Cego (Jards Macalé) é quem narra a fábula de Gabriel para um trio de assaltantes que o intimida em um beco qualquer.

Percebam que os recursos do Cego -- onisciente, tal qual nas tragédias gregas, e que às vezes aparece na trama principal, indicando que algo de sinistro está para acontecer -- e do nome Gabriel -- tal qual o arcanjo -- apesar de previsíveis, não deixam de ser didáticos.

O Cego repentista fala que ao chegar ao Sul, mais precisamente no município de Caxias -- terra do polêmico Tenório Cavalcanti, editor-chefe do jornal "Luta Democrática" -- Gabriel envolve-se com o jogo do bicho e assassinatos por encomenda. Nos momentos de folga vai ao pitoresco bordel de Dona Moustache e suas Moustachetes, localidade aprazível onde quase sempre se ouve Rolling Stones (?) antes dos comentários sobre o próximo presunto a ser desovado.

A violenta Caxias, Tenório, a "Luta Democrática" e o melting pot dos retirantes tão longe de casa, explicam melhor as intenções do filme. Em 1974, o estado do Rio ainda não contava com a cidade do Rio de Janeiro -- que sozinha denominava-se um outro estado, a Guanabara -- e os municípios periféricos formavam uma bolha de vida e leis próprias. É exatamente este mundo paralelo, aceito com temor e curiosidade pelos cariocas, que o diretor pensou em traduzir e recriar nas telas.

No episódio que justifica o título do filme, Gabriel banca o Super-Homem, ricocheteia tiros à queima-roupa disparados por um amigo e é elevado à condição de milagreiro, chefe de uma nova facção bandida. No rastro de sua "carreira" leia-se o subtexto de anjo pairando acima da brutalidade, imune à morte e à degradação moral.

Balas, afogamentos e outras mumunhas inimigas são pó de pirlimpimpim para Gabriel, que assim enlouquece Severiano (Jofre Soares) -- chefão local, planejador de despachos homéricos contra o rapaz -- e a namorada amiga-da-onça Eneida (Anecy Rocha), ex-amante de Severiano -- também batizada pragmaticamente, a partir do poema de Virgílio.

Flanando pelo insólito e pela crítica social bem azeitada, por alguma razão (sobrenatural?) o filme aterrisa chato pra chuchu. Nem a montagem de Severino Dadá, que garante a eficiência dos cortes entre a história 1 (do Cego) e história 2 (de Gabriel); nem, por outro lado, a trilha-sonora de Jards Macalé e a interpretação talentosa de Anecy Rocha salvam "O Amuleto de Ogum" de parecer uma colagem de boas intenções frouxamente realizadas.

Os assobios recorrentes de músicas como "Eu Sou o Samba", de Zé Ketti, associadíssima a "Rio 40 Graus", servem de consolo ao passado de Nelson Pereira -- e ao futuro, que nos daria obra-primas como "Na Estrada da Vida", em 1980. Quanto ao "Amuleto de Ogum", urge ser refilmado com um olhar mais inspirado por algum jovem diretor, pois se a história permanece atual, a forma como foi contada envelheceu mal, soando praticamente indigesta nos dias de hoje.

14 comentários:

fernando roveri (muzzleman) disse...

Poxa Andréa, eu sou super fã desse filme, fiquei aparvalhado quando vi pela primeira vez! Apesar de ter gongado o filme nas palavras finais, seu texto, mais uma vez, é sublime. Beijo grande, te aguardo em Sampa City.

Márcio/BH disse...

Andréa, passaram-se alguns anos desde que assisti "O Amuleto de Ogum". Tenho boas recordações da película que no meu ponto de vista possui uma notável vitalidade cinematográfica. Concordo que está longe de ser dos melhores filmes de Nélson Pereira dos Santos, de quem obras do porte de "Rio 40 Graus", "Vidas Secas", "Como Era Gostoso...", "Tenda dos Milagres", "Memórias do Cárcere" e - o mais recente e detratado pela crítica "Brasília 18%" - enchem nossos olhos. Recentemente revi "Azyllo Muito Louco" e percebi que o impacto que me causara este filme - quando o assisti pela primeira vez - tornou-se coisa do passado. Este sim, achei frouxo e datado, embora a base literária que lhe inspirou seja fantástica. Embora tenha discordado de tua crítica, mais uma vez quero lhe dar os parabéns pela qualidade de teu texto que é inquestionável. Abraços.

Andréa Ormond disse...

Fernando, não consegui ter com "O Amuleto de Ogum" a mesma química do "Estrada da Vida", por exemplo, que me soa mais verdadeiro. Por isso, o gongo acabou tendo que ser chamado. Beijos

Obrigada, Márcio. Como falei com o Fernando, "O Amuleto" deixou pra mim, infelizmente, a sensação de algo que não conseguiu cumprir com a essência da proposta inicial. Me pareceu artificioso, às vezes, sem o punch de um "Estrada da Vida". Acho ótima essa discordância de opiniões, pois na prática ela sempre ilumina o tema do debate. Abraços

Eduardo Aguilar disse...

Nossa! acho q. essa é a maior discordância q. temos desde q. acompanho seus textos, sob os meus olhos "Amuleto de Ogum" é o melhor filme do Nelson e um dos melhores filmes do cinema nacional.

Enfim, teu olhar é interessante como sp., mas não me convence, não sinto essa tal artificialidade de q. vc. fala, e revi o filme há pouco menos de 01 ano na tela grande, sinto um cinema moderno, pulsante, e extremamente atual e pertinente, acho q. poucas vezes alguém filmou tão bem a religiosidade do brasileiro e isso, óbvio, tinha q. ser feito por um ateu como o Nelson. Vc. percebe q. o filme crê no q. mostra, ou no mínimo, tem um gigantesco respeito por qm. crê no q. ele (filme) mostra. A cena dos garotos pegando as armas e a cena da tortura com os meninos são verdadeiros achados q. remetem a filme atuais como "Cidade de Deus", e nesse sentido, é um filme premonitório de como o crime iria se articular a partir de então. O "quase" plano final rodado no mar com Nei Sant'Anna ressurgindo é na minha opinião o gde plano de toda a história do cinema nacional. Enfim, eu poderia discorrer linhas e linhas sobre esse filme, mas não se trata de querer convencê-la, well...

Andréa Ormond disse...

Edu, achei legal no post essa discordância entre opiniões, o caminho a ser seguido no bom debate deve ser por aí. Em relação ao "Amuleto", não consigo ver nele o tom premonitório (na verdade, me parece simplesmente realista), nem na ressurreição de Gabriel um plano excepcional. Ainda fico com o início de "Eros", com Person, tantos outros. É, a discordância persiste rsrs Beijos

fernando disse...

VOU ME METER NESA DISCUSSAO OK?
EU VI ESSE FILME 8 VEZES!
Porque? alem de adorar esse filme foi muitissimo importante para mim. Vi a filmagem de parte das cenas de MACALÉ na estaçao de trem de Duque de Caxias.
Eu era moleque e tinha tios e primos que moraam em Caxias...dai a minha ligaçao com o filme , o cinema brasileiro em si.
E quando vi o filme pronto adorei...porque tinha tudo ali, bandidagem, amor, religiao, sexo , homosexualismo(o que é madame moustache?)o Brasil esta ali... Tenho muitas estorias com esse filme....ainda comento mais.Ainda nem li a resenha que a dona do blog escreveu!Vou ler agora....

Abraços
Fernando Venancio

Anônimo disse...

Sou fã de Amuleto de Ogum e do protagonista Ney Santana - Hiran Pinel

Paulo Patalano disse...

Passando por aqui, vi esta crítica e, em particular, o ponto de interrogação posto sobre o fato de a trilha sonora do puteiro na baixada incluir os Rolling Stones. Acontece que, na época do filme, eu programava o Clube da Juventude, aos sábados, atração da rádio Difusora de Duque de Caxias, a mesma que havia sido fundada pelo Tenório Cavalcante. O programa durava uma hora, em horário nobre, e nós tocávamos não só Rolling Stones, como Black Sabbath, Janis Joplin, Ike & Tina Turner e muitas outras coisas que a meninada da zona sul jamais poderia imaginar...
Não sei se em algum prostíbulo se ouvia o nosso programa, mas que era com certeza possível ouvir, isto era...

Joel disse...

eu adoraria um remake ! a ressurreição de Gabriel me marcou indelevelmente 35 anos atrás - para mim foi como cruzar um umbral, a visão do mundo nunca mais foi a mesma. Gosto também do aspecto lúdico, veja que para contornar o corpo fechado fazem um trabalho que o torna alcólatra. Para mim a história é superior ao filme, concordo que a realização poderia ser melhorada - mas só de ter feito a obra o NPS já merece todos os elogios.

ademar amancio disse...

Não conheço o filme,mas bordel que toca rolling stones,só mesmo com ponto de interrogação.

Lendo e-m@ginando disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lendo e-m@ginando disse...

Lendo e-m@ginando disse...
Bela resenha. Bastante informativa, sendo impossível discordar das observações feitas. De certo, o filme envelheceu, como envelheceram mais de uma dúzia de filmes feitos nessa época. A começar pela precariedade da produção, pela direção mambembe, pelos diálogos pouco ou quase nada elaborados dentro de uma técnica mais dinâmica, mais, digamos, realista. Mesmo assim, a genialidade da proposta talvez esteja mais na abordagem temática, algo inédito para o momento, e pelo registro de um modelo de vida brasileira que hoje está ausente das telas ou é simplesmente romanceada pelas cores e pela standardização da máquina redeglobalizante.
Apesar de tudo, não deixa de ser um bom filme de referência.

Coluna da Hora - Paulo Verlaine disse...

O detestável no filme "O Amuleto de Ogum" é que todos os personagens, sem nenhuma exceção, são caricatos. Ninguém escapa. Nem mesmo Severiano, interpretado pelo veterano Jofre Soares, na época, já um ator veterano. Nenhum personagem marcante. É o caso de se perguntar: isso foi intencional?

Razorback De Faria disse...

Filmão, assisti nos anos 70, nunca o esqueci, baixei, assisti novamente e gostei mais ainda, e olhem que sou rigoroso com filme brasileiro.