quarta-feira, junho 07, 2006

Roleta Russa


Na época do lançamento, o hoje quase esquecido “Roleta Russa” (1972) foi considerado o “Blow Up” brasileiro. Como em grande parte da produção cinematográfica nacional, criava-se uma rotulação divertida e apelativa para que o filme, de alguma maneira, encontrasse seu público-alvo.

Mas o conceito do fotógrafo de moda – no caso, a fotógrafa Nina – blasé e surreal, é apenas um ponto de partida que leva a situações diferentes no enredo. Não há Hyde Park, Swinging London, Julio Cortázar – o conto “Las Babas del Diablo” deu origem ao filme de Antonioni – e nem Vanessa Redgrave.

O que se destaca em “Roleta Russa” é o hype carioca dos anos 70, visto pelo argumento, roteiro e direção de Bráulio Pedroso – famoso autor de novelas –, com a trilha sonora de Guto Graça Mello, a montagem do onipresente Ismar Porto e a produção de... Ibrahim Sued!

Sim, Ibrahim Sued produtor. E como cavalo não desce escada – expressão criada por ele –, o colunista aproveitou para encomendar em seu filme a “participação especial da pantera” Sílvia Amélia Chagas – neta do sanitarista Carlos Chagas e do jurista Afrânio de Mello Franco, ex-modelo de Andy Warhol e atual baronesa de Waldner. Não bastasse isso, citamos o patrocínio, dentre outros, de “Rosinha das Perucas” e eis que o nosso “Blow Up” tupiniquim se diferencia essencialmente do europeu.

Verdade que a cenografia de Marilda Pedroso – ex-esposa de Bráulio – tenta reforçar o clima de mod londrino, mas acontece que o diretor encoraja a semelhança neste ponto e acentua a separação em outros. Bráulio imprimiu em “Roleta Russa” o estilo lisérgico de experiências suas na televisão, tanto anteriores quanto posteriores ao filme. Logo, o que se vê de “modernoso” não é fruto de influências ou mera cópia, mas apenas um prolongamento de uma atitude natural do autor.

Tudo começa com o diálogo entre Raul (Daniel Filho) e sua jovem esposa, a cocadinha Sheila (interpretada laconicamente por Suzana Gonçalves – irmã da global Suzana Vieira). Raul, em clara encenação teatral, empunha um revólver e joga roleta–russa contra a própria cabeça, para provar o amor à mulher, vinte anos mais nova.

Em outro ponto da cidade temos Nina (Ítala Nandi, belíssima) –, a fotógrafa prafrentex, que transa homens, mulheres, chicotes e apetrechos delicados. Chama atenção o assistente de Nina (interpretado por Antonio Pedro), um ancestral do Riff Raff de “The Rocky Horror Picture Show” (1975). Quasímodo diminuto, verticalmente prejudicado, o assistente serve de sparring e contraponto às idas e vindas da mestra sádica.

Sem suspeitar de que viria a ser engabelado por Nina, Raul encomenda a ela um retrato da esposa. Sheila, por sua vez, mantém um caso mal explicado com Maria (Marieta Severo, em rara oportunidade de ser observada fora da personagem de mãe).

Como os três acabam na cama, o envolvimento evolui para um ponto tal em que Nina têm acesso ao cofre no qual Raul guarda o revólver e as balas de festim, material necessário para o golpe da falsa roleta-russa, praticado para impressionar os convidados de sua mansão. Nina troca as balas de festim por reais e Raul morre com os miolos estourados, num pseudo-suicídio no meio da sala de estar. A garota assume então a posse de Suzana e a fortuna do rival, num desfecho lésbico corajoso de Bráulio.

No meio desse fiapo de argumento, o filme guarda outras curiosidades. Katzuo Kon – o massagista japonês presente também em outro clássico do cinema brasileiro, “O Homem Sem Importância” – repete em “Roleta Russa” o papel de si mesmo. Mas desta vez, ao invés de acalmar o proletário Vianinha em sua caminhada sem rumo pela cidade, ele sapateia sobre as nádegas do “quasímodo” sado-masô. Também temos Luiz Carlos Vinhas, tocando ao vivo num piano-bar do Beco das Garrafas, feliz da vida antes das incertezas que destruiríam os famosos night-clubs localizados na pequena rua sem saída de Copacabana.

Em suma, se visto por quem se interessa pelo desbunde moral e artístico early 70´s na Cidade Maravilhosa, o filme é um achado.

Levantando os dedos em “V” de “paz e amor” e contornando os detratores que batam desavisadamente na tecla de uma suposta incompetência ou mediocridade, o espetáculo poderia conter a frase preferida no discurso de Ibrahim: “Meus amigos, me desculpem, mas ademã que eu vou em frente.” E ser apreciado como diversão datada e inofensiva, de gente que tinha criatividade para dar e vender.

4 comentários:

Domingos Junior disse...

Nossa! A "pantera" Sílvia Amélia Chagas será que é irmã da (ex-)cantora Ana Margarida. Achava que a Ana é que tinha se tornado baronesa (!) na França (!!)
E o Luiz Carlos Vinhas? Deve ter sido na época em que ele gravou um disco ao vivo no Flag, com texto da contracapa escrito pelo Ibrahim Sued! Que coisa...
E o melhor de tudo foi "a cocadinha"...
Muito bom, Andréa!

dr_lorax disse...

muito,muito bom isso,"quasimodo diminuto" e "verticalmente prejudicado" hehehehehe,que vontade de assistir isso,eu tenho TVA,e outro dia zapeando lá estava o canal Brasil,no canal 79,aproveitei e gravei o Trilogia de Terror,de 68,mas no dia seguinte,nada do canal Brasil.Será que foi um teste?vi no blog do Carlão Reichenbach que eles estão fazendo pesquisas pela net...

Matheus Trunk disse...

Que genial Andréia, o Ibrahim produziu mais filmes ? Belo achado hein Andréia. Parabéns.

Andréa Ormond disse...

Domingos, acho que não é irmã da Sílvia, não. Procurei e não encontrei nenhuma referência nesse sentido. Mesmo assim, ficamos com o inusitado: baronesa de Waldner, que não é pra qq um, só para a pantera rs

Dr. Lorax, o Roleta Russa eu peguei em uma locadora especializada em nacionais, ainda não vi passar no Canal Brasil, é uma ótima pedida. Fazer as pesquisas é uma atitude inteligente, a maioria dos espectadores de cinema nacional (sem ser dos blockbusters atuais) está online, com certeza :)

Matheus, o Ibrahim foi co-produtor do Quelé do Pajeú, o filme mais "underground" do Anselmo Duarte rs Sério mesmo.