quinta-feira, julho 27, 2006

Se Meu Dólar Falasse


Desde “Os Campeões” (1982) – filme interessantíssimo sobre os bastidores da Fórmula 1 – Carlos Coimbra não reaparece como diretor. Talvez tenha se atrelado demais à fama – auto-defendida, por sinal – de ser um “contador de histórias” e não um “autor”, no sentido mais incensado do termo.

“Contador de histórias”, “faz-tudo” e “intuitivo” são adjetivos, porém, que não podem perder de vista o fato de que desde os tempos de cineclubismo em Campinas – terra natal –, Coimbra fez o mesmo movimento de outros tantos garotos que, encantados pela tela grande, encontravam em meados do século XX uma indústria que dava toda a pinta de crescer e se diversificar, absorvendo a demanda do público.

Foi desta forma que aterrissou na Atlântida, figurante em “Também Somos Irmãos” (1949) – marco na problematização do preconceito racial no Brasil –, de José Carlos Burle, estrelado por Grande Otelo. E foi assim que lentamente se estabeleceu na atividade de montador, trabalhando, por exemplo, em “Fronteiras do Inferno” (1959), de Walter Hugo Khouri; “O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo Duarte; “O Marginal” (1974), de Carlos Manga; e até em “O Exorcismo Negro”, a releitura de José Mojica Marins para “O Exorcista”, sucesso no ano de 1974.

Como diretor, Coimbra tentou, dentre outros, filmes na linha cangaceira – “Cangaceiros de Lampião” (1967), com Milton Ribeiro; “Corisco, o Diabo Loiro” (1969), com Leila Diniz. Mas em “Se Meu Dólar Falasse” (1970), lá está ele criando o argumento original – ao lado de Alexandre Pires –, o roteiro, a montagem e a direção de uma comédia planejada a toque de caixa para aproveitar o contrato que chegava ao fim entre Dercy Gonçalves e a Cinedistri, de Oswaldo Massaini.

Temos, de um lado, o estilão “Cala a Boca, Etelvina” de Dona Bisisica (Dercy). De outro, os mendigos Tisíu (Grande Otelo, em papel que deveria ser de Oscarito, que havia falecido recentemente e ao qual consta uma homenagem depois dos créditos), Profeta (Sadi Cabral), Comendador (Borges de Barros) e Catifunda (Zilda Cardoso) – estes dois últimos, atores do finado “A Praça da Alegria”. Coimbra tem o mérito de, no meio tempo, dar asas a um nonsense que mistura chanchada, drogas, rock n’roll, hippies e, quem sabe, alguma crítica social.

Dona Bisisica é a proprietária de uma boutique, ludibriada pela cliente “chics”, Madame Veruska (Zélia Hoffman). Veruska pede à pobre que compre em seu lugar uma estatueta da dinastia Ming, em troca de uma notinha sobre a loja nas colunas sociais. Bisisica coloca os 15 mil dólares da compra numa caixa de sapatos que vem a ser jogada no caminhão de lixo por uma empregada, antes de ser guardada no cofre.

Na busca pelos 15 mil mangos, a patroa se alia à filha (Lúcia) e ao namorado de Lúcia, Gustavo (David Cardoso, também assistente de produção). Enquanto isso, em algum ponto remoto da cidade, os mendigos fazem a festa com o montante misturado entre cascas de laranja, papelão e detritos em geral. O problema é que quando começam a gastar de verdade, surge no seu encalço Sempre Alerta (Milton Ribeiro), detetive contratado pela inquieta Bisa.

“Se Meu Dólar Falasse” cresce bastante quando esses dois grupos de monstros sagrados da comédia – Dercy e os “antagonistas” – se deparam frente a frente. Dali por diante, juntos ou separados, começam a freqüentar lugares como um clube psicodélico, naquela que é de longe a melhor seqüência do filme e até hoje das melhores na comédia nacional.

Cores saturadas, o som do conjunto Blow Up ao fundo, tela dividida no efeito estroboscópio e o inusitado de vermos Grande Otelo, Borges de Barros e Zilda Cardoso, velhinhos da antiga, numa bad trip com anfetaminas, lsd, marijuana e psicotrópicos vários colocados em pratos de comida.

A certa hora, a música vai se diluindo no crescendo da mítica “Se Não Tem Abelha, Não Tem Mel”, composição de Grande Otelo cantada pelo ator com a língua pra fora, peruca black power, cordões de ouro e os braços erguidos em delírio, num trinado inconfundível.

O roteiro tem ainda outras boas sacadas, como a suposta morte de todos os personagens, revertida do nada, quando então o Tisíu redivivo grita para a câmera dizendo que na verdade é Grande Otelo, com mais de 71 filmes e anos de serviços prestados ao cinema, exigindo um final feliz. Ou o programa de televisão com Dercy Gonçalves, entrevistando cinicamente Bisisica e lhe oferecendo um prêmio pela trama.

Somado à trilha de Carlos Castilho, o filme costura a São Paulo suburbana numa saraivada de humor radiofônico e chanchadeiro, indissociável dos protagonistas. Ao contrário do western spaguetti “O Dólar Furado” – sucesso na época, e uma das fontes para o título –, “Se Meu Dólar Falasse” assume as peculiaridades da sua origem e apresenta ao público um país que é a cara da esculhambação refletida na tela.

4 comentários:

Leonardo Bomfim disse...

Esse filme é muito legal!

"eu quero uma maconha à mineira, cortadinha com tutu e torresmo!" impagável!

Andréa Ormond disse...

Oi Leonardo, os diálogos dessa parte são insuperáveis, incluindo os nomes dos pratos rsrs

Anônimo disse...

Andrea, boa tarde
comentário ...
'o filme costura a São Paulo suburbana'.
Voce saberia me dizer qual o aeroporto que foi filmado a cena ?
grato
nelson.poletto@gmail.com

Anônimo disse...

O aeroporto em questão é o de Viracopos, em Campinas, o único da época que realizava vôos internacionais em São Paulo. No filme, também é possível ver alguns bairros ora emergentes de São Paulo em suas modestas origens. O lixão no Tatuapé de outrora talvez não passe de uma metáfora pros dias atuais. Realmente, o filme tem boas cenas de São Paulo.