sábado, setembro 18, 2010

Eu Transo, Ela Transa


Quem a olhe nos 2000 desconhece a Copacabana protagonista do convescote nacional, vulcão da classe média carioca – que migrava da zona norte para lá, tal qual os oriundi subindo o rio Hudson. Consultando, porém, a genealogia do bairro, sabe-se que ele não se restringe a mero enclave turístico, de fauna e flora raras, em curioso esplendor.

Berço da civilização judaico-cristã ocidental, reza a lenda que todo aquele que se concentrar na esquina da rua Santa Clara com avenida Nossa Senhora de Copacabana – um dos muitos epicentros do local – experimenta a gnose de uma vida. À míngua de William Blake, podem-se ver elefantes flanando, portas da percepção abertas e tudo parecerá natural. Misturado à quantidade de hotéis, às pochetes dos visitantes e à especulação imobiliária, o tráfego humano acaba sendo intenso, o diálogo nem sempre claro, mas a simbiose, constante.

“Eu Transo... Ela Transa” (1972), produção da Refefê, traz o sal, sol, céu e sul da Guanabara de antanho, concebida pela trilha sonora de Carlos Lyra. Mas atenção: o paraíso acaba sendo transformado pelos elementos perversos do roteiro de Pedro Camargo – também diretor –, adaptação da peça “Copacabana S.A”, de Jota Gama. Note-se que Camargo opta por colocar Ipanema no set, mas o continuum de idéias é o mesmo.

Aliás, a menção ao balneário no título da peça de Jota Gama era prática comum. Batiza, por exemplo, o filme quase-irmão, primo ma non troppo. “Copacabana Me Engana”, rodado cerca de quatro anos antes por Antônio Carlos Fontoura, estabelece um panorama cético, sem final feliz, para a ménage entre família e juventude vazia.

“Eu Transo...” leva habilidade na edição – a cargo do antigo Waldemar Noya, cria da Atlântida – e diálogo esperto com o consumismo – centrado no pai (Roberto, Jorge Dória), catalisador da narrativa. Doura-se a pílula, acontecem concessões otimistas, e aqui o pai é vilão cômico, irresistível, ainda que sem qualquer pudor ou vestígio de caráter.

Para pagar as contas e despendurar os papagaios, Roberto faz a proposta central da trama: oferece a própria casa ao chefe Guimarães (Fernando Torres), hospedando a cocadinha Helena (Sandra Barsotti) e facilitando as escapulidas do outro, que é acompanhado de perto pela esposa – muito chegada, por sinal, de um rapazote.

O trato – típico da “comédia de costumes” que varreu o século XX para o pretenso “despertar da burguesia” – cai feito um prato comido às pressas na Spaguetilândia. A mulher (Dedé, Daisy Lúcidi), o sogro (Afonso, Rodolfo Arena) e a cunhada solteirona de Roberto (Maria Inês, Suzy Arruda) ficam estarrecidos. A última sai de casa prometendo levar depois o pai – e nunca mais volta, deixando o senhor entrevado na cadeira de rodas, lentamente cedendo aos encantos das melhoras no apartamento. Voltar para o subúrbio é que não dá.

Os três filhos, todos com menos de vinte anos, curtem suas respectivas zoadas de adolescentes. Carlinhos (Marcos Paulo) é teúdo e manteúdo de Gilda (Darlene Glória), viúva, amiga de Dedé. Wanda (Rose di Primo) segue a mesma tendência de Helena, atendendo a clientes discretos em casa de Madame Telma. Kiko (Marcelo Marcello) fiscaliza a natureza, sem eira nem beira, investigando a praia com os irmãos.

A crosta de falsa dignidade da família vai, obviamente, se rachando mas não de todo. Num lampejo de civilidade, Carlinhos desafia Roberto, deixa as noitadas no Barril 1800, e foge com Helena para lugar qualquer, pó da estrada, cabelo ao vento, gente jovem reunida.

Financiado parcialmente pela Embrafilme, “Eu Transo... Ela Transa” contou com produção executiva de ninguém menos do que Mozael Silveira – este intrépido mártir do cinema popular –, agregado do clã Faria (responsável pela R.F.F. Produções Cinematográficas, Refefê).

Interessante vermos o patrocínio de um “Hippie Center” nos créditos iniciais, as perucas Funny que embelezam os rostinhos das atrizes – como Rose di Primo e Leda Zeppelin –, além da presença esporádica do Pier (de Ipanema). Pronto, leitor: ei-nos diante das efemérides setentistas.

Em pano de fundo digno de nota, aqui e acolá, como quem não quer nada, pipocam derrières masculinos, nuzinhos em pêlo, e menções a homens que transam homens. A informação pode parecer pequena, mas não é. O tabu permanece e muchachos sacando peças de roupa soa como aberração, algo travado, sem a naturalidade que Pedro Camargo – diretor de “Estranho Triângulo” (1970) – confere às cenas. Michês saindo do quarto abotoando as calças, pulos desbundados no mar, cantadas subliminares de senhores mais velhos. Reside aí aspecto antropologicamente relevante, no inventário que se realiza sobre o cinema brasileiro.

Filosoficamente, está claro que a peça/filme discute o dinheirismo, o “ser” e o “ter”, a tensão que divide o gado dos pensantes. O filme, regado ao alho e óleo, coloca os alívios cômicos de Jorge Dória e dos barzinhos da orla, as incursões ocasionais de longplays com os baianos Gil (“Back in Bahia”), mano Caetano (“You Don’t Know Me”) e Gal (“Sua Estupidez”). Toca de leve na questão da essência, pressuposto que anda faltando na receita dos cotidianos bestializados por aí. Rolando pela avenida pop, “Eu Transo... Ela Transa” constrói uma pequenina crônica da família brasileira, quando os bifes do jantar eram consumidos no centro da mesa, os integrantes reunidos, mas já se percebia o dilúvio dessa fragmentação que teimou em crescer.


7 comentários:

Adilson Marcelino disse...

Querida,
Gosto desse filme, que tem rara atuação do Marcos Paulo no cinema, e que vem aí em estreia como cineasta.
Bj

Andrea Ormond disse...

Aguardemos o moço, Adilson, vejamos o que vem por aí. Bjs

Luiz com Z disse...

Gostei do dilúvio da fragmentação, mas preferi "despendurar os papagaios". :) Um dia faço seu glossário neologístico, beijos.

Nino disse...

Cara Andrea, que análise precisa (mais uma).

Esse filme marcou minha adolescência. Não sei precisar quando o vi, mas foi certamente no finalzinho dos 80, na TV.

Lendo seu texto, foi curioso perceber que embora eu não lembrasse de quase nada do filme, o que eu sinto por ele é uma espécie de "saudade". De que? Eu não saberia dizer... Talvez de um tempo em que eu ainda tentava ver elefantes flanando e abrir as portas da percepção.

Entre os flashes que me vêm à memória, lembro sobretudo da voz da Gal Cantando "Sua Estupidez". Desde então, pra mim Eu transo... "é" essa canção, ou ela "é" o filme.

"Tem muito azul em torno dele, azul no céu, azul no mar"... Se já fosse 1981, o Pedro Camargo usaria essa canção, Blues, cantada pelo Caetano em "Outras Palavras", pra fazer dançar o belo bronzeado do Marcos Paulo e da Sandra Barsotti.

Já estou viajando demais... Há tempos tento rever "Eu Transo..." Seu texto me atiçou ainda mais. Mas ele não passa na TV, não sai em DVD, e eu não acho um link por aí.

Mas não desisto. Enquanto esse azul não me chega, leio seu texto de novo. Bjks.

Jorge Lobo disse...

Esse filme passou mesmo na tv globo nos anos 80, era adolescente quando o vi pela primeira vez. Revi ele, há uns 2 ou três anos no Canal Brasil e a impressão que ficou foi boa. Roteiro bem construído, boas atuações, nostalgia, boas idéias... Aliás, o cartaz do Ziraldo é maravilhoso.

Tenho um blog dedicado ao cinema, política e literatura. Pra quem quiser conhecer o endereço é

http://combateperolasaosporcos.blogspot.com

Um abraço pra Andrea e que ela continue fazendo esse belo trabalho. Quem, na Internet, antes dela, escrevia textos sobre cinema nacional dessa forma sistemática, resgatando pérolas esquecidas e/ou desvalorizadas?

Jorge Lobo disse...

Andrea,

você conhece um filme chamado "O Grande Gozador", do Victor di Mello, com o Claudio Cavalcanti?Eu vi esse filme há uns 20 anos e achei genial!

Abraço,

Jorge

Anônimo disse...

Eu vi Eu Transo.. Ela transa nos anos 70. Me apaixonei, como me apaixonava sempre por filme com trilhas sonoras envolventes. E a assinatura do Carlos Lira nesse filme foi genial. Nao lembro de mais nada afinal foi ha 40 anos, mas lembro da musica do carlos Lyra Transas. . Moro no exterior e gostaria de comprar o dvd ou VHS.
Alguem pode me ajudar . meu email acquaazure@live.com