quinta-feira, julho 24, 2008

Na Garganta do Diabo


“‬Na Garganta do Diabo‭” (‬1960‭)‬,‭ ‬assim como o anterior‭ “‬Fronteiras do Inferno‭” (‬1959‭)‬,‭ ‬foi concebido por Walter Hugo Khouri sob a pressão de desenvolver um roteiro previamente encomendado‭ (‬no caso,‭ ‬pela Cinebrás‭)‬.‭

O dinheiro recebido pelo menos deixou-o confortável por um tempo,‭ ‬dando o suporte para continuar longe do canto da sereia que vinha das emissoras de televisão.‭ ‬Seu interesse,‭ ‬como sabido,‭ ‬era o cinema.‭ ‬Para ele encarado como a‭ “‬obra de arte total‭”‬,‭ ‬a ópera do século XX,‭ ‬na junção de dramaturgia,‭ ‬pintura,‭ ‬arquitetura,‭ ‬literatura.‭

De qualquer forma,‭ ‬para se ter uma idéia do que aconteceu por trás das câmeras em‭ “‬Na Garganta...‭”‬,‭ ‬basta dizer que vários‭ ‬closes em tatus,‭ ‬tucanos e bichinhos tropicais foram enxertados contra a vontade do diretor,‭ ‬além de uma epígrafe de D.‭ ‬H.‭ ‬Lawrence‭ – ‬chave-mestra desta e demais obras de WHK‭ – ‬ter sido suprimida.

O filme conta com resquícios do que se pode colocar como‭ “‬inquietações‭” ‬khourianas.‭ ‬Investiga a ambivalência humana,‭ ‬centrada em personagens oprimidos por um todo maior,‭ ‬de certa maneira fantasmagórico,‭ ‬das Cataratas do Iguaçu‭ (‬argentinas e brasileiras‭)‬.‭ ‬Espaços naturais,‭ ‬abertos e gigantescos,‭ ‬que tanto fascinavam o diretor.

A ação se passa em‭ ‬1868,‭ ‬três anos após começada a guerra do Paraguai.‭ ‬Isolados,‭ ‬os desertores Sargento Pedro Tomás de Andrade‭ (‬Luigi Picchi‭)‬,‭ ‬Alferes Reis‭ (‬André Dobroy‭)‬,‭ ‬Ramón Quintana‭ – ‬este,‭ ‬das tropas de Solano López‭ – ‬e um índio‭ (‬Milton Ribeiro‭) ‬caminham pelos‭ ‬chacos,‭ ‬matam um animalzinho cá outro acolá,‭ ‬fogem do cólera e dos ataques silvícolas,‭ ‬na busca de um abrigo até que o inferno bélico termine.

No meio do caminho,‭ ‬cruzam com um estancieiro e suas filhas‭ (‬Odete Lara e Edla Van Steen‭)‬,‭ ‬que trazem do passado roubos de gado e a morte do irmão das meninas,‭ ‬em circunstâncias terríveis.‭

Ressalte-se que Miriam‭ (‬Edla‭) ‬e o irmão têm um vínculo platônico,‭ ‬quase incestuoso,‭ ‬que transcende em muito as exigências tolinhas da Cinebrás.‭ ‬Partindo para o viés psicológico,‭ ‬esta fração da trama de‭ “‬Na Garganta do Diabo‭” ‬observa um‭ ‬case de pura histeria feminina,‭ ‬daqueles que faria Charcot saltitar de alegria.

É desta pulsão que nasce uma das mais belas cenas do filme,‭ ‬que deixa o espectador compartilhar de um enigma lançado por WHK:‭ ‬não à toa,‭ ‬o diretor-argumentista-roteirista faria Miriam submergir propositadamente por alguns segundos em uma piscina de águas naturais.‭

Na fusão criada na sala de montagem‭ – ‬por Mauro Alice e Khouri‭ –‬,‭ ‬o som e a fúria das quedas d’água se misturam com o‭ ‬flashback no qual a garota lembra da morte do irmão,‭ ‬fazendo ali uma busca pesada,‭ ‬brutal,‭ ‬de algo anterior,‭ ‬de uma vida intra-uterina,‭ ‬no terreno das águas,‭ ‬reflexos,‭ ‬transparências.‭ ‬Símbolos psicanalíticos que,‭ ‬por sua vez,‭ ‬levam à própria representação da loucura.

Em outra ponta da trama,‭ ‬Ana‭ (‬Odete Lara‭) ‬cai nos braços de Pedro,‭ ‬para ser depois devidamente dispensada pelo cafajeste,‭ ‬antes do ritual tétrico que os silvícolas fariam com ele,‭ ‬o marginal,‭ ‬outsider sem um pingo de escrúpulos.‭

O rosto coberto por um saco de estopa,‭ ‬as mãos amarradas para trás,‭ ‬a ponta dos pés tateando o desfiladeiro‭ – ‬a própria‭ “‬Garganta do Diabo‭”‬,‭ ‬de Foz do Iguaçu.‭ ‬A morte de Pedro é cruenta,‭ ‬sádica,‭ ‬contradizendo um filme‭ “‬exótico‭”‬,‭ ‬que retratasse pura e simplesmente o conflito entre‭ “‬homens brancos maus‭” ‬e‭ “‬autóctones bonzinhos,‭ ‬dizimados‭”‬.

Ultrapassando o didatismo de outras produções do período,‭ ‬que seguiriam esta linha de raciocínio previsível,‭ ‬a fita conta com momentos céticos‭ – ‬cadáveres boiando nos rios,‭ ‬o discurso transgressor e ressentido dos desertores‭ –‬,‭ ‬mas outros nem tanto,‭ ‬dando um clima final de‭ ‬mezzo mezzo.‭

A música não é a de Duprat,‭ ‬Coltrane ou Schubert,‭ ‬mas sim de Gabriel Migliori,‭ ‬num tom quase ufanista,‭ ‬descaracterizando por si só a dinâmica dos ouvidos acostumados ao filmes‭ “‬com cara de Walter Hugo Khouri‭”‬.

O mesmo pode se dizer sobre as internas e externas rodadas nos estúdios da Vera Cruz.‭ ‬Sets que seriam melhor explorados em outros filmes,‭ ‬como por exemplo‭ “‬Paixão e Sombras‭”‬,‭ ‬apesar de já se perceber a tentativa de construir corredores sombrios,‭ ‬à la‭ ‬Sternberg.‭

Alguns parceiros de praxe estavam na equipe:‭ ‬o montador Mauro Alice,‭ ‬o fotógrafo Rudolf Icsey,‭ ‬o cenógrafo Pierino Massenzi,‭ ‬Luigi Picchi,‭ ‬Odete Lara.‭ ‬Outros mais passageiros,‭ ‬como Migliori e o pintor Aldo Bonadei‭ – ‬responsável pelos‭ “‬costumes dos índios,‭ ‬inspirados em gravuras de Debret e Rugendas‭”‬.‭

Troféu de melhor argumento no Festival Internacional de Mar Del Plata‭ – ‬dizem que por imposição do Joseph L.‭ ‬Mankiewicz,‭ ‬presente na banca de julgadores‭ –‬,‭ ‬o filme alçou WHK ao ambiente internacional.‭

Em comparação a‭ “‬Estranho Encontro‭” (‬1958‭)‬,‭ ‬entre erros e acertos‭ “‬Garganta do Diabo‭” ‬desmorona,‭ ‬aquém do que poderia ter sido.‭ ‬Traz o dado relevante de não conter a estrutura peculiar de Khouri,‭ ‬aquela clássica,‭ ‬insulada em um‭ ‬locus urbano,‭ ‬contemporâneo,‭ ‬supostamente‭ “‬alienado‭” ‬e‭ “‬contemplativo‭”‬.‭

Neste sentido,‭ ‬ao operar um meio oitocentista‭‬,‭ ‬talvez possa trazer um sinal de fumaça,‭ ‬explicando que a‭ “‬alienação‭” ‬khouriana se devia em muito à investigação de temas atemporais.‭ ‬À análise do corpo,‭ ‬do ser,‭ ‬de uma visão toda própria e cosmogônica sobre a vida.‭

7 comentários:

Anônimo disse...

Andrea,
Que maravilha!
Onde você conseguiu esse filme? Nunca vi.
Bjs
Adilson Marcelino

Sergio Andrade disse...

Vi há muito tempo, creio que na Cultura. Nunca mais reprisaram. Mesmo sendo um Khouri "menor" tem belos momentos. Mais uma ótima resenha! Beijo :)

Anônimo disse...

Que curiosidade em assistir este khouri. Apesar da produção tumultuada com a série de intervenções que sofreu, você identifica bem em sua resenha a marca de WHK. Grande abraço Andréa.

Andréa Ormond disse...

Oi, Adilson, vi com um amigo que tinha gravado da Tv Cultura, provavelmente da mesma sessão do Sergio rsrs Beijos

Pois é, Sergio, poderiam reprisar este e alguns outros do Khouri que às vezes até dão a impressão de serem inéditos :) Beijos

Anônimo, o "Na Garganta do Diabo" poderia ter ido além, mas a força de algumas cenas chamam bastante a atenção. Um abraço

Linda Cidade Joanopolis disse...

Deve-se destacar neste filme a participação de um artista que alguns anos mais tarde tornou-se um grande executivo internacional de marketing automotivo (Ford, Volkswagem e Chrysler) e ainda um dos mais respeitados "headhunters" do Brasil, tendo dirigido empresas como Spencer Stuart e WardHowell, entre outras: Andras E. Dobroy, hoje ainda diretor Geral da Dobroy & Partners International

Anônimo disse...

PUXA, NÃO CREDITO, EU PROCURO ESSE FILME, E TAMBÉM "A ILHA", HÁ SÉCULOS! SE ALGUÉM SOUBER COMO ARRUMAR UMA CÓPIA: jodrad@bol.com.br.
OBRIGADO, O BLOG É INCRÍVEL.
JOSÉ LUÍS-SANTOS/SP

Fábio Ribeiro disse...

Parabéns pelo Blog...

Alguém sabe como encontrar este filme?

fabioribeiro2101@gmail.com

Abraços!