domingo, fevereiro 12, 2006

Mar de Rosas


“Mar de Rosas” (1977) é o primeiro filme da conhecida trilogia realizada pela diretora Ana Carolina. Seguiram “Das Tripas Coração” em 1982 e “Sonho de Valsa” em 1987, revelando o processo que W. H. Khouri – com quem Ana trabalhou em 1968, na continuidade de “As Amorosas” – chamaria de “unidade ficcional”.

Isto porque todos os três filmes abordam explicitamente a condição feminina, apesar de tratarem de personagens em cronologias diferentes. “Mar de Rosas” investiga a infância; “Das Tripas Coração”, a adolescência e “Sonho de Valsa”, a maturidade.

Com bastante humour – surrealista e, via de regra, caótico –, o resultado final da investigação não é um tratado sociológico, o que muitas obras com foco no feminino parecem ser. Ana Carolina trabalha micro-relações e com isto o painel se torna bem mais sofisticado.

Exemplo prático: em “Mar de Rosas” Betinha (Cristina Pereira) é filha de Felicidade (Norma Bengell) e Sérgio (Hugo Carvana). O take inicial acompanha Betinha no acostamento de uma estrada, no papel da criancinha insuportável – apesar de Cristina já estar longe de ser criança na época. Betinha precisa ir ao banheiro no meio da viagem, e o impacto do close na poça de urina que vai se formando no chão explica a primeira metade do filme: papai e mamãe se odeiam, estamos assistindo a um road movie e Betinha é aloprada demais para ser tomada como uma cópia fiel da realidade.

Não demora muito, a mãe soturna e um tanto folclórica assassina o marido no banheiro de um hotel, vê um casal morto dentro de um carro no mangue e é perseguida por um fuscão preto. O motorista permanece uma incógnita até que ao sentir as pernas em chamas por culpa da filha – Betinha ateara fogo, no meio de um posto de gasolina -- Felicidade aceita o socorro de Olavo (Otávio Augusto), que sai do Fusca aos gritos.

A garganta perfurada por um alfinete – motivo pelo qual permanece enfaixada com um lenço – e o rosto borrado de maquiagem preta servem de alvo para a fúria da menina que não sossega e que continuará atormentando Felicidade de todas as maneiras esdrúxulas possíveis, entre cânticos religiosos, frases folclóricas e gestual tong-in-cheek.

A dupla segue viagem com Olavo. Chegam em uma cidade do interior e Felicidade é atropelada por um ônibus – novamente por obra de Betinha, a filha sádica –, o que os obriga a ser cuidados por um casal de dementes (Ary Fontoura e Myriam Muniz), surgindo aí a segunda metade do filme: fora da estrada e no interior da residência.

No circo do absurdo, Myriam Muniz – falecida em 2004, após estrelar “Nina”, de Heitor Dhalia, no mesmo ano – reina com folgas, misturando cinismo e a irreverência que era de se esperar da situação. Felicidade toma banho com uma gilete incrustada no sabonete e ao sobreviver, pensando que poderia encontrar coisa melhor com Olavo e Betinha, é empurrada de um trem em movimento tempos depois, em um gato e rato entre mãe e filha de fazer inveja a qualquer Joan Crawford.

Betinha não acochambra – está aí uma frase que poderia constar no roteiro de Ana Carolina – e vence a disputa, como se sugasse o poder maternal com a ponta do chiclete que vira e mexe insiste em puxar com o dedo. Como as coisas não iam muito bem no lar, pode-se dizer que a batalha campal foi completa e “entre mortos e feridos” – esta aí outro exemplo de frase – Betinha sobrevive.

Sobrevive e, quem sabe, aterrissa em “Das Tripas Coração” na personagem de Maria Padilha. Transmutada em colegial de meia soquete, estudante do colégio co-habitado por Dina Sfat, Xuxa Lopes e Antonio Fagundes, a garota “cresce e aparece” em “Sonho de Valsa” – alter-ego da diretora, aos 30 anos.

Heloísa Buarque de Hollanda, crítica literária e célebre editora da geração 80, participou em “Mar de Rosas” na cenografia, detalhe que nem sempre é lembrado. Ana Carolina, por sua vez, quase seguiu carreira na Medicina, aluna da USP.

Por sorte de quem se interessa pela arte produzida no país, Ana Carolina também freqüentou as aulas da Escola Superior São Luiz em São Paulo – como um dia fizeram Carlos Reichenbach, Enzo Barone e João Callegaro. A emoção incerta do cotidiano cinematográfico – ao contrário da estabilidade de uma outra profissão – foi se impondo vulcanicamente para aquela que ainda permanece como uma das poucas diretoras brasileiras.

5 comentários:

sergio andrade disse...

Valeu a pena esperar pela resenha, gostei bastante. Mar de Rosas é genial! E o elenco então...Aliás, por onde anda Cristina Pereira, hein?
E a julgar pelos resultados a São Luiz foi uma das melhores escolas de cinema do mundo!!! :)
Beijo!

Andréa Ormond disse...

Oi Sérgio, a Cristina Pereira dá aula de teatro aqui no Rio e estava com uma peça até pouco tempo atrás. Em breve vou falar de São Paulo S/A. Imagina ter o Person de professor... :) Beijos

walner disse...

A cena da gilete está até hoje gravada na minha retina.

Andréa Ormond disse...

Walner, esta e a inicial permanecem mesmo. Assim como o desempenho da Myriam Muniz, impressionante, a cara do filme.

Tikuna72 disse...

Acrescento a cena em que um caminhão de terra é despejado na sala onde está a mãe e os dois velhos, que continuam a conversar como se nada estivesse acontecendo...