segunda-feira, junho 26, 2006

Cléo e Daniel


Um psicanalista em crise é o tipo de ponto de partida que ninguém quer ver na vida real, mas que na ficção colocou “Cléo e Daniel” como um dos maiores clássicos da literatura para jovens no Brasil.

Escrito por Roberto Freire em 1966, “Cléo e Daniel” foi estouro absoluto de vendas, tanto em livrarias quanto em bancas de jornais, no formato jornal-livro que algumas editoras dos anos 60 e 70 exploravam. Levava-se a milhares de jovens uma literatura complexa e sofisticada, cheia de meandros difíceis de serem compreendidos pelo público-alvo, mas plenamente aceitos por este.

Freire – um terapeuta de mão cheia, que se inspirou na tragédia “Daphnis e Chloe” do poeta romano Longus – ao longo da vida, vira e mexe voltou a lista dos best-sellers: “Sem Tesão Não Há Solução” e “Coiote” são dois exemplos. Mas foi com “Cléo e Daniel” que sua escrita merecidamente se consagrou e criou um paradigma de estilo e qualidade.

Ao levar a obra para o cinema, Freire teve o adendo de Humberto Pereira – que o auxiliou na adaptação, no roteiro e na direção –, e sobretudo o trabalho de mestre, cargo de Rudolf Icsey na fotografia esplêndida, parte integrante, indissociável do todo. Pode-se dizer que, sem Icsey, o diretor estreante – que nunca mais repetiu a experiência – teria rendido 100 minutos absolutamente abaixo do produto final.

Na produção, Fernando de Barros – diretor do primeiro episódio de “Lua de Mel e Amendoim” (1971) – e Alberto Ruschel – o Teodoro de “O Cangaceiro” (1952), de Lima Barreto; um dos produtores de “O Palácio dos Anjos” (1970), de Walter Hugo Khouri – creditado como Alberto Miranda.

Distribuição da onipresente Cinesdistri de Oswaldo Massaini. Trilha sonora com senhas ocultas – caso de trechos da ópera “Daphnis e Chloé”, de Maurice Ravel, remetendo à fonte original do poema de Longus, como citamos acima – e outras nem tão ocultas assim – Chico Buarque, Toquinho, o grupo “O Bando” e Rogério Duprat; este, na direção musical.

A música vem aliás num estilão que impregna “Cléo e Daniel” com inspirações no cinema americano dos anos 40, 50, sabe-se lá se conscientemente ou não, mas o caso é que por vezes se espera Bette Davis aparecer no melhor drama da Warner, com um copo de uísque na mão, reinventando o papel da angustiada mãe de Cléo – dondoca de meia-idade, auto-centrada, vivida por Beatriz Segall.

Levada ao consultório de Rudolf Flugeman (John Herbert) – o psiquiatra em crise –, Cléo (Irene Stefânia) se recupera do aborto imposto a pouco tempo pela mãe. Ricos, do society, mãe, filha e pai não se entendem bem: a filha anda à solta por São Paulo entre festinhas e comprimidos, até que no que era pra ser o porto seguro da situação, o consultório de Flugeman, acaba conhecendo Daniel (Chico Aragão).

Amigo de Marcus (Rodrigo Santiago), "pederasta" sofisticado e novinho – Cléo, Marcus e Daniel têm idade entre 15 e 17 anos, aproximadamente – Daniel chega a Flugeman com a promessa de que o profissional possa liberar doses sem receita das pílulas em que se viciou em tratamento médico recente.

Completamente atormentado, Daniel agride os pais, repete de ano por faltas, repele as investidas sutis de Marcus, transa com uma garota (Sonia Braga, anos luz antes do modelito rural, a la Jorge Amado) observado pelos dois, acastelados em outra cama e em plena atividade.

Em outro núcleo, Flugeman e o amigo Benjamin (Haroldo Costa) confabulam sobre a perda do amor contemporâneo – uma estratégia do roteiro que deixa claro o vazio existencial sofrido pelos personagens, tanto os adolescentes quanto os maduros. Vão ao bordel da srta. Gaby – Myriam Muniz, dos maiores nomes do cinema brasileiro em todos os tempos –, lúgubre como numa citação a “Freaks” (1932), de Tod Browning, a começar pelo sanfoneiro desdentado.

Benjamin morre de câncer, o ceticismo de Flugeman aumenta e ele termina lavando as mãos quanto ao desespero de Cléo e Daniel, agora namorados, afoitos, sem nem entenderem bem o porquê de estarem juntos e nem o porquê de por acaso se separarem. Transam na rua, dentro de uma propriedade religiosa, na cama de Gaby – observados por ela, que enxerga ali a pureza perdida ou a proximidade dos dois em direção ao caos em que ela própria vive, numa cena que é a cara de Edith Piaf.

Sabe-se que o dinheiro da produção se esgotou antes do previsto, e Roberto Freire terminou o filme às pressas, sem o apuro que preferiria. A ausência de diálogos por mais de 20 minutos talvez seja uma característica desse quadro. Idem os takes importantíssimos em que os namorados, supostamente mortos, embrulhados em um lençol, se movem de maneira que não passa batida.

“Cléo e Daniel” consegue deixar, porém, o insight do autor sobre a geração concebida no baby-boom – período que se seguiu ao término da Segunda Guerra Mundial –, prestes a encarar os anticoncepcionais e o sexo sem culpa. O livro aprofunda os excessos de Flugeman, a atitude de indução ao suicídio dos meninos, a prevalência do homem mais velho sobre os dois jovens. O que no livro é expresso, no filme é intuído ou tido como conseqüência dos problemas dos personagens. De qualquer forma, o resultado é satisfatório, revela controle sobre o tema, superando erros que não chegam a comprometer o desenvolvimento da narrativa.

6 comentários:

Luiz com Z disse...

Rudolf Flugeman me lembra aquele instrumento flugelhorn, e por isso talvez pareça pra mim mais nome de maestro do que de psicanalista. Mais um pra minha lista de ver-antes-de-ler-a-resenha-da-Andréa. :) Beijo.

Sergio Andrade disse...

Mais uma bela resenha, Andréa! Mas desta vez vou ter que discordar de vc :) Não li o livro, mas o filme até começa bem, no entanto lá pela metade vira um amontoado de lugares-comuns e clichês, principalmente na figura do tal psicanalista em crise. No final só se salva a beleza e o talento de Irene Stefânia. Beijos!

Matheus Trunk disse...

Que coisa Andréa ! Não vi o filme, nem li o livro, mas achei muito interessante o seu texto. Não sei se você viu mas fiz um TOP 10 Boca do Lixo na Freakium ! www.freakium.com
Abraços,
Matheus.

Andréa Ormond disse...

Oi LUiz, pode ler tranquilo, mesmo porque no caso de "Cleo e Daniel" o final já é contado logo na primeira cena :) Beijo.

Oi Sergio, não discordamos de todo, pois acho o livro muito superior ao filme, talvez por causa dos problemas financeiros envolvendo a produção. Mesmo assim considero que dá para assistir com gosto :) E o Roberto Freire é psicanalista, não diretor de cinema, vamos dar um refresco pra ele rs Beijos!

Oi Matheus, passou um tempo atrás no Canal Brasil de madrugada, depois de muito tempo sem ser reprisado. Vi seu "Top 10 da Boca" na Freakium sim, ficou excelente, vou inclusive te mandar um email comentando. Um beijo.

Didi disse...

Roberto Freire é polêmico até entre psicanalistas por conta de sua "somaterapia".

Eu vi o filme e tive as mesmas impressões que as tuas. O fim do filme fica angustiante mas creio que não tira os seus méritos.

É isso.

LECTER disse...

ÓTIMO! LI ESSE LIVRO EM 1991, TINHA 22 ANOS, UMA LOUCURA, PARECIA O ROTEIRO DA MINHA VIDA, MORAVA EM BRASILIA E VIVIA IMERSO EM ÁLCOOL E DROGAS, OUVIA RENATO RUSSO 24H POR DIA, FOI UM PERÍODO MUITO DURO DA MINHA VIDA; RECOMENDO-O A TODOS, O AUTOR PARECE ESTAMPAR A HISTÓRIA DA MINHA GERAÇÃO: FINAL DA DÉCADA DE 1980 E COMEÇO DA 1990, EMBORA O LIVRO SEJA DA DECADE DE 1960. UMA BOA LEITURA!