sexta-feira, abril 09, 2010

A Fronteira


Antes que "Segurança Nacional" chegue aos cinemas, vale lembrarmos do inacreditável filme anterior de Roberto Carminati, "A Fronteira" (2003). Digo inacreditável sem qualquer ironia, mas por ter duvidado que um diretor, em plenos anos 2000, conseguisse realizar algo tão espontâneo, divertido e envolvente como esse drama sobre os imigrantes brasileiros ilegais em solo norte-americano.

Barato e bem produzido, "A Fronteira" tem vocação honesta de sensacionalismo popular, daqueles longa-metragens que passavam no SBT em 1987 e arrasavam a Globo no Ibope. Em parte filmado na cidade de El Paso, México, inicia-se com a ação dos chamados "coiotes", que guiam o executivo Maurício (Gilberto Torres) na busca da terra prometida. O herói vive o pão que o diabo amassou, até que encontre mulher e filha em Boston.

Sofrível, a construção dos personagens guarda um quê de ancestral estereótipo, principalmente em relação aos mexicanos. Contrariando a utopia de irmandade latino-americana, Carminati demonstra o entreposto entre Brasil e Estados Unidos como uma filial do inferno, onde a mentira e o roubo são leis e nenhuma promessa é cumprida. Não há qualquer alívio ao papel de vilões que os atravessadores exercem, nem arremedos da famosa sociologia de botequim. São criaturas detestáveis e ponto.

Maus feito pica-paus, os coiotes fazem gato e sapato dos brasileiros, cobrando água e comida a preços de supermercado em Higienópolis, além de estuprarem Maria (Bete Correia), mulher de Paulo (Fábio Nassar). Em cena torturante, o filho espia a mãe e grita, tentando desvencilhá-la. Lembra um exploitation setentista, ou uma daquelas aberrações freudianas do Beco da Fome carioca.

Quando finalmente se livram da maldição cucaracha, há todo um exercício de diplomacia na relação entre forasteiros e cidadãos. Maurício trabalha duro, conhece Charlie (Stephen O'Neil Martin), empreiteiro italiano que já esteve na mesma situação precária, e termina adotado como um filho. Já Paulo não fala bem inglês, se mete em confusões, a esposa não parece a mesma.

O esquema é óbvio: uns vencem, outros se ferram (de verde e amarelo). A vida é um livro em branco. Cada um, sorte ou competência, escreve sua história. Chavões existem para serem usados.

Mesmo assim torcemos, torcemos muito. Em "Jean Charles" (2009) sabíamos o fim da coisa, e a luta do brazuca no meio dos gringos era inglória. "Terra Estrangeira" (1995), de Walter Salles, tinha glacê e Gal Costa demais. Aceitando enfiar o pé na jaca, carregando nas tintas, Carminati aproxima-se da angústia que o embaraço exige.

"As coisas aqui funcionam. Não é que nem no Brasil, não", o otimismo de Paulo, repleto de idealização ressentida contra o sul do Equador, terminaria se entendesse o mimo de seu cicerone ao "vendê-lo" em uma pizzaria: "Parabéns, você é proprietário de um brasileiro!", diz o mafioso ao dono do estabelecimento. Por outro lado, o chefe italiano de Maurício elabora curioso paradigma libertário: "Nenhum homem é ilegal", afirma, batendo nas costas do empregado.

Dirigido por um rapaz de vinte e poucos anos nascido nos Eua, contando com esforço do pai, Jaci, imigrante catarinense que arrecadou percentual do dinheiro da produção promovendo festas, “A Fronteira” soa amador para quem não está acostumado ao contraditório de certas realizações que perseguem inspiração hollywoodiana, mas que, não chegando lá, geram um híbrido ingênuo. Tal fenômeno está presente no cinema popular do mundo todo e, no Brasil, sobrevive arrefecido pela influência das organizações Globo, com sua própria receita de pasteurização.

E preparem-se, leitores, para a cena final, arroubo de ufanismo naturalista que empolgaria José de Alencar. Por tanto esforço, “A Fronteira” merece ser revisto e o método da família Carminati notado. Iluminaram amor ao ofício, a criar em tela grande – ainda que o trato em relação a esse amor possa ser discutido pela eterna gente de má vontade.

4 comentários:

Adilson Marcelino disse...

Andrea,
Não conheço esse filme.
Bjs

Andrea Ormond disse...

Adilson, acho que vc vai gostar de "A Fronteira". É bem intencionado. Bjs.

Anônimo disse...

por acaso voce sabe onde eu posso baixar esse filme? Nao acho em lugar nenhum aqui no brasil.

Anônimo disse...

me passa o link do filme??