terça-feira, agosto 14, 2007

A Culpa


Se cochilasse durante os créditos e alguém me dissesse que "A Culpa" (1971) foi dirigido por Domingos de Oliveira, custaria a acreditar. Misto de metáfora política com tragédia clássica, de psicanálise freudiana com Octavio de Faria ou mesmo Nelson Rodrigues, "A Culpa" nada tem a ver com o universo que Domingos construiu em seus filmes -- de "Todas as Mulheres do Mundo" (1967) ao ótimo "Carreiras", quarenta anos depois, em 2007.

Inicialmente traça-se um paralelo sutil entre o pai (a interdição/lei freudiana), e a organização social, o Estado. O pai real, construtor de renome, emula o pai-Estado: traz o progresso levantando prédios, mas também impondo controle aos filhos (indivíduos), reféns do "mais forte". A idéia, explícita no voice off inicial, com narração do próprio Domingos, terminará no assassinato do pai real, seu corpo arrastado para uma cova rasa, em um palacete onde moram e que chamam de "reduto".

Os filhos são Heitor (Paulo José) e Matilde (Dina Sfat). Matilde tem um noivo, o arquiteto Henrique (Nelson Xavier), e o trio vira cúmplice no assassinato. Matam para receber a herança, estipulada em milhões de dólares; e matam também para que a lei "desapareça" -- sintam-se livres, quem sabe felizes. Mas a opção de enterrar o corpo por perto deixa claro que esta liberdade nunca será assegurada completamente: a lei continuará rondando a mente atormentada de cada um.

Formam um triângulo amoroso platônico, Matilde e Heitor confiando em Henrique como ao terceiro irmão. Heitor é cineasta frustrado, fraco, sem voz firme, embora queira comandar os pensamentos e o humor de Matilde -- esta, beirando a psicose. Porém, o primeiro candidato à danação será Henrique, farejador de si mesmo, réu da própria sentença até o suicídio.

Acompanhadas por Heitor com certo cinismo, a expiação e morte de Henrique servem para que os dois irmãos concretizem um fantasmagórico incesto. E aliviem a culpa, renovada sobre o terceiro, elemento estranho, "vindo de Minas e sem família", conforme depoimento.

Mas a culpa -- em outras palavras, o temor venal à interdição -- manipula o casal, indeciso entre um triunfalismo maníaco e um torpor paranóico. Voltando dos trâmites da herança, Heitor avisa a Matilde que o dinheiro já está no banco e que trouxe bastante comida; mas que pretende demitir o caseiro, talvez o único vínculo que ainda guardam com a realidade.

Todos mortos e desaparecidos, restarão na casa apenas os irmãos e o temor ao pai. O mal estar, que os rodeia na presença física do cadáver sepulto, é multiplicado: os irmãos se beijam, se fundem em uma só pessoa. E enquanto Heitor vê na irmã uma possibilidade real de desejo erótico, de superação amorosa, Matilde, no ato final, sugere que brotava de sua passividade a força maligna de destruição e horror que aprisionou a família e a razão coletiva. Percorre o rosto, os olhos, com enlevo narcísico, assegurando o triunfo de ter sobrevivido.

Embora o carisma de Dina Sfat, Nelson Xavier e Paulo José sustente grande parte das questões que o filme provoca, deve-se notar também a bela fotografia de Rogério Noel -- morto precocemente, aos 22 anos -- e a trilha-sonora de Nelson Ângelo -- futuro parceiro da cantora Joyce. Além deles, há as andanças da câmera, que passeia serelepe pelo elevado do Joá -- então em construção, sem a pista de cima, direção São Conrado-Barra -- e, mais adiante, pelo coração de Copacabana, no trecho precioso da Av. Copacabana entre as ruas Dias da Rocha e Santa Clara.

Desprezado por muitos admiradores da obra de Domingos de Oliveira, "A Culpa" me parece um dos melhores filmes do diretor -- tão coerente na arte de agradar ao público, que mesmo neste esforço hermético segura as rédeas, mantendo o compromisso de contar uma boa história. E ainda que não consentisse: aquele olhar majestoso e possuído de Matilde diante do espelho, tomada pela soberba e insanidade, valeria os 80 minutos anteriores.

3 comentários:

sergio andrade disse...

Realmente, querida Andréa, um filme atipico na filmografia do Domingos, mas o meu preferido dele. Filmaço!
Aquele final da Dina em frente ao espelho merece entrar em qualquer antologia do cinema brasileiro.
Beijos!

Andréa Ormond disse...

Sergio, aquela "performance" final da Dina líndissima, acho que conquista até o mais renitente dos espectadores :) Beijos!

Ginzburg disse...

olá, parabéns pelo blog e pela iniciativa de comentar cinema nacional, em especial filmes que tem tão pouca popularidade devido a homogeneização do gosto relativo ao consumo cinematográfico. Na verdade eu queria saber se voce poderia dizer onde eu posso encontrar esse filme para donwload, ou mesmo o dvd para compra. Ficaria muito grato caso pudesse me orientar onde encontrar esse filme ok. abraço e espero resposta!!!