sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Ipanema Adeus


Espiado sob a ótica da tragédia sócio-comportamental de hoje, o Rio de Janeiro dos anos 70 lembra uma Xangri-Lá balneária e esplendorosa. Alguma coisa de muito ruim aconteceu com a cidade desde então.

Uma análise suficientemente boa do que aconteceu e por que aconteceu, ainda está por ser feita, despidos os véus da hipocrisia e do ufanismo barato. Em parte, a decadência carioca talvez reflita a decadência da cultura e do orgulho nacional como um todo. Por outro lado, certos fenômenos abusivos são estritamente locais. Quem sobrevive no Rio e pouco sai da cidade, não consegue ter parâmetro do quanto a urbe piora; ao mesmo tempo, quem viaja bastante ou se resguarda no oba-oba -- de tecer loas às belezas naturais e afins -- ou se espanta e parte sem querer voltar.

O que oprime no Rio de Janeiro contemporâneo parece um sentimento difuso de perda, de orfandade daquilo que um dia foram e -- parodiando o Capitão Nascimento -- nunca (mais) serão.

É como a piada marota do português que migrando para a Inglaterra não aprendeu o inglês, e esquecendo o idioma natal, tornou-se mudo para o resto da vida. A angústia dessa eterna rivalidade consigo mesmo no passado transformou os cariocas em um povo perdido, atônito; e o cotidiano público em um simulacro de "One Flew Over the Cuckoo's Nest". Lançado em Portugal pelo adorável e sonoro título de "Voando Sobre Um Ninho de Cucos".

Todas essas questões me vieram à mente quando assisti a "Ipanema Adeus" (1975) que já tratava de angústia e fuga no auge da Guanabara. Escrito e dirigido pelo iniciante Paulo Roberto Martins, o filme reuniu elenco luxuoso, locações caprichadas e um roteiro polêmico para contar a história de Carlos (Hugo Carvana), jovem executivo que pairando sobre o ninho de cucos cariocas, enfia na cabeça o sonho de "se mandar", "transar outras", botar o pé na estrada e ir morar em Porto Seguro, Bahia.

Àquela altura dos anos 70, Porto Seguro ainda podia ser chamada de paraíso e servir de contraponto dialético ao caos de uma grande metrópole. Um preâmbulo enorme é gasto mostrando como e por que Carlos toma a decisão: saturado, neurótico -- "A neurose é a poluição da alma!" -- chega ao ponto de esmurrar um homem vestido de palhaço na festa de aniversário do filho. Na cópia em vídeo, totalmente reeditada, a famigerada surra no palhaço acaba sendo exibida duas vezes -- na abertura e no meio -- como prova definitiva de que um homem que odeia palhaços está mesmo no fim da linha.

Além disso, Carlos trai a esposa Helena (Bibi Vogel) com um infinidade de mulheres; e tenta ser demitido a todo custo da empresa onde trabalha. Vogel, uma linda pantera que gravou discos e trabalhou também com Carlos Hugo Christensen no clássico "A Morte Transparente", não merecia tamanha desfeita. Mas Carlos cede na separação "todos os seus bens", e ruma com uma nova namorada, Gilda (Monique Lafond) para a tão sonhada vida de pescador baiano.

Embora quisesse mandar seu protagonista embora, Paulo Roberto Martins faz a câmera lamber com carinho alguns marcos importantes do Rio Xangri-Lá: o extinto Tivoli Park, na Lagoa; e o famoso Píer de Ipanema, uma construção feita pela Companhia de Saneamento em 1971, que serviu de point para a geração de intelectuais, hippies e surfistas que florescia no bairro. Sinal dos tempos, quando o filme chegou aos cinemas o Píer já não existia -- e tal qual o Palácio Monroe, na Cinelândia, alguns sonhadores defendem até hoje sua reconstrução, como se a engenharia pudesse trazer de volta um abstrato melhor e desaparecido.

Feliz da vida, Carlos mergulha no seu sonho particular. Não demora, claro, toda a idealização vai por água abaixo: ele não tem a mínima vocação para pescador, a namorada flerta com um amigo, o silêncio o aflige. Acaba retornando. Enlouquecendo novamente.

O personagem mais interessante da trama não é Carlos, mas seu sogro. Velho sombrio, que critica Chico Buarque ("Onde já se viu fazer fado na terra do samba?"), ele secretamente apóia os desvarios do genro, e realiza um daqueles pensamentos setentistas típicos, fac-simile da obra de outro diretor, Xavier de Oliveira: "Vai Carlos, vai. Chegar até onde eu cheguei você chega, mas pra quê? (...) O nosso barco é de palha, e nós vamos afundar. Nosso mundo é feito de papel, ilusão e saudade. Saudade do tempo que a gente podia ter optado por outro mundo. Se a gente ficou com esse é porque teve medo dos nossos pais (...) Nossa opção é morrer agora, para não morrer depois de tristeza (...)".

Apesar disso, o Carlos de Paulo Roberto Martins distingue-se bastante dos personagens de Xavier por sua vocação histérica, incisiva. Colabora nesta distinção a exuberância de Hugo Carvana, que equilibra o teor heideggeriano do personagem com a típica cafajestagem carioca. Contracenando com Maria Lúcia Dahl, uma aparição naquela metade da década, Carvana parece reencarnar Dino, o anti-herói de "Vai Trabalhar Vagabundo", e faz uma apologia de Eros, onde obviamente havia o inconsciente de Tânatos operando.

A inexplicável reedição do VHS, em algum ponto dos anos 80, prejudicou bastante essas nuances reflexivas, tropical-filosóficas. Introduziu-se uma banda sonora artificiosa, executada por um grupo de músicos ao qual pertencia o próprio diretor. Em uma investigação cheia de tempos mortos e coisas não-ditas, os comentários instrumentais geram efeito cômico -- ou irritante.

"Ipanema Adeus" merece nova chance, pois é de uma sinceridade comovente. Paulo Roberto Martins traçava ali uma quase autobiografia, e de se espantar que suas angústias acabem tendo um sentido manifesto para a Ipanema e o Rio dos anos 2000. O pior é que não podemos sonhar em fugir para a Bahia, porque nem aquela Bahia existe mais.

8 comentários:

Márcio disse...

Que texto melancólico Andréa! Vou procurar pelo filme que não assisti, mas que me deixou curioso a partir da linda crítica que você escreveu.

A propósito do texto de "Um Trem Para as Estrelas", gostaria de lhe pedir que comente sobre "Chuvas de Verão", meu filme preferido do Cacá juntamente com "A Grande Cidade". Um forte abraço.

Daniel P disse...

Andréa, que bom que vc está escrevendo mais.
Outro dia vi no Canal Brasil Bordel- Noites Proibidas (esquisitíssimo) e gostaria que vc comentasse, caso vc tenha visto. Estou conseguindo ver mais filmes porque comprei o sistema da Net que permite a gravação (nao tenho mais VCR), assim não preciso perder horas de sono.

Alexandre disse...

Nossa! Que coincidência ler alguém pedir um comentário sobre o filme "Chuvas de Verão" logo hoje! Acabei de assistir ao filme e entrei no site exatamente pra procurar comentários sobre ele (risos).

Sérgio Alpendre disse...

tb fiquei querendo ver esse filme.

Rodolfo disse...

Pelo seu texto, o protagonista me lembrou o angustiado Carlos de São Paulo S/A, porém numa versão potencializada.

Andrea Ormond disse...

Procure sim, Márcio. Como eu falei no texto, foi lançado em vhs há muito tempo. Na tv, me lembro de ter passado no Canal Brasil. Quanto ao "Chuvas de Verão", post publicado :) Um grande abraço

Daniel, vou fazer uma série sobre os filmes do Oswaldo de Oliveira e incluo este no pacote, realmente é um filme muito esquisito rsrs Este sistema é bom mesmo, dá para se agendar conferindo a programação. Eu fazia muito isso de programar no tempo do videocassete, mas muitas vezes eles atrasavam o horário e perdia os filmes.

Alexandre, pedido atendido :)

Sérgio, como eu estava falando com o Márcio, o problema é encontrar. O "Ipanema Adeus" tem um quê de Xavier de Oliveira, diluído, e bem interessante.

Rodolfo, alguma coisa, realmente. Mas vejo o Carlos do Person em um outro tipo de cinema, mais lírico, com uma grife fortíssima do diretor. O "Ipanema Adeus" é bom, mas não alcança o mesmo patamar, não.

Anônimo disse...

Filmaço de um dos grades diretores da história do cinema nacional. Um filme de rara sensibilidade e de muita poesia que retrata como poucos as angústias e contradições de uma época. Sem dúvida um dos trinta melhores filmes brasileiros de todos os tempos.

Anônimo disse...

Queria muito assistir a este! Não acho em lugar algum.

Márcio de Souza
Cascavel - PR