segunda-feira, abril 03, 2006

Sete Mulheres Para Um Homem Só


O pequeno público que cultua o cinema de Mozael Silveira acostumou-se a vê-lo como protagonista, ao lado da esposa, Lameri Faria, nos filmes que dirigiu e roteirizou em meados dos anos 70.

Estas preciosidades, de maior apelo nas reprises do Canal Brasil, guardam hoje a cara dos primos pobres setentistas: produções cheias de cores, samambaias, penteados exóticos e mulheres de biquíni – ou parte deles –, correndo em torno do malandro pobre que sempre conversava ao lado de uma piscina ou batia um prato de comida, naquele naturalismo exacerbado que fazia do cotidiano a peça central para a aproximação com os espectadores.

Piscinas e as casinhas de classe média baixa ou alta, conseguidas com a lábia de Mozael e com o patrocínio das prefeituras locais – de Araruama, em “Secas e Molhadas” (1977); de Miguel Pereira, neste “Sete Mulheres Para Um Homem Só” (1976) – dão a tônica para se entender melhor a audácia de quem tentou e retentou, desde os tempos da Cinédia, construir o cinema popular no Brasil.

Para os aficcionados, convém lembrar que Mozael era o louco que em 1958 confundia o retirante nordestino (Reginaldo Farias) em “No Mundo da Lua”; o repórter inconveniente de “Assalto ao Trem Pagador” (1962); o co-produtor executivo – o outro era David Cardoso – de “Roberto Carlos a 300 Quilômetros por Hora” (1971).

Todos estes filmes, dirigidos por Roberto Faria, mostram uma pequena parte da trajetória de Mozael e apontam o envolvimento do cineasta com a R.F.F. Produções Cinematográficas. Em “Sete Mulheres Para Um Homem Só” a R.F.F. serviria de palco para a dublagem dos personagens.

Quem espera ver Mozael atuando em “Sete Mulheres...” terá que pôr a ansiedade de lado e se contentar com a participação por detrás das câmeras – salvo a rápida inserção de sua voz numa chamada de rádio –, tanto como diretor e co-roteirista.

De qualquer forma, o bizarro mundo mozaelense permanece intacto: Lameri, a vamp encorpada e distante está lá mais uma vez; Zezé Macedo, a idosa sem muitos atrativos físicos, idem; e Martim Francisco (Ricardão) interpreta um alter-ego fundamental, o papel que por ordem e direito seria do próprio cineasta.

Ricardo espera a saída dos patrões em férias para tomar conta da mansão – na verdade, as instalações da “Pousada Club de Miguel Pereira” –, auxiliado por José, o mordomo, e Isabel, a cozinheira. Pretendem entupir o local – “Rua dos Prazeres, 69” – de moças desamparadas, cobrando de quebra uma pequena taxa a titulo de manutenção.

A maquiagem, creditada a Helena Rubinstein – dando a entender absurdamente que a própria em pessoa aterrissou no set –, é um dos achados que saltam aos olhos nos cartões iniciais. Via de regra, as aberturas dos filmes de Mozael costumam ter os letreiros em branco sobre fundo negro – em mais uma estratégia óbvia a que os realizadores brasileiros recorreram para baratearem as produções. Esses letreiros, por sua vez, eram acompanhados por uma música que dividiria com outra a tarefa de situar a platéia durante a trama.

É assim que ouvimos “Kung-Fu Fighting”, sucesso nas paradas de sucesso da época, em loop permanente, com arranjos variados para a mesma melodia base: beat acelerado ou marcial ou inferninho-discothéque, à medida em que Ricardo e as meninas ficam ou afoitos ou curiosos ou naquela maciota total, de extrema felicidade. “Mambo Number 5”, presença enlouquecedora nas festinhas de criança há uns anos atrás, aparece na versão original, para logo em seguida dar lugar novamente à canção sino-americana.

Escrito em parceria com os velhos amigos Vitor Lustosa e Geraldo Gonzaga, o roteiro reúne, portanto, a dupla de amigos (Ricardão e José) com a galeria de boas – entre elas, uma hippie e a falsa cantora (Lameri), que dará um golpe dentro do golpe (dado pelas hóspedes, que roubam um posto de gasolina) dentro do primeiro golpe (dado por Ricardão e José, ao tomarem a casa na mão grande).

O lojista afetado, “Marcelo du Bois” – sugestivo nome afrancesado para o vendedor da única rua comercial da cidade – e a feia (Zezé Macedo) também correm atrás de Ricardo, fecham o cerco das intenções de Mozael e companhia, ressaltadas pela montagem do grande Leovegildo Cordeiro, o Radar.

Muito se fala sobre a maravilha da cultura popular no país, mas pouco se dá atenção a obras cinematográficas como esta, que vão se perdendo no espaço. Se até hoje é necessária a ocupação de pelo menos um minuto e meio anterior ao início do filme para apresentação dos parceiros corporativos, Mozael, como bom sobrevivente fazia o mesmo: agradecia por exemplo ao DD. Sr. Prefeito, à Pousada Miguel Pereira, ao Ferro-Velho e ao Supermercado Salgadão.

A vida no Beco da Fome, famoso ponto de encontro destes atores e cineastas, podia ser apertada, cheia de problemas e baixa pirotecnia. Mas como mostra "Sete Mulheres Para um Homem Só", os impedimentos não serviam para acabar com o fôlego da trupe. Pelo contrário, davam um gás tremendo para os folgazões que se divertiam em moto perpétuo brincando de fazer cinema -- e ainda ganhavam dinheiro com isso.

8 comentários:

Matheus Trunk disse...

Belíssimo texto Andréia, eu como fã do grande mestre Mozael Silveira, estou muito feliz por achar aqui seu texto sobre ele. O negócio das prefeituras é verdade, no "Seu Florindo e Suas Duas Mulheres" a parceria é com a prefeitura de Ribeirão Preto. Ele e as duas mulheres até vão ao tradicional clássico de futebol da cidade: o Come-fogo (entre o Comercial (onde o Leão começou a carreira de goleiro) e o Botafogo). Nesse filme, o Moza atua e fica gritando para a Wilza Carla: "Vadia ! Vadia !", mas o jeito que ele grita é muito nonsense, muito engraçado.

O Mozael dirigiu também um filme com o Costinha e o Grande Othelo, que é muito, muito engraçado, é absurdo de engraçado. Foi produzido pelo Tanko e se chama "As Aventuras de Robinson Crusué" e ainda foi feita para crianças...Só nos anos 70 mesmo...

Tem que descobrir o nome do ator que faz o lojista afetado, porque ele é um puta ator. O que você disse sobre a música dos filmes do Mozael é verdade Andréia. Há um outro filme dele, o "O Erótico Virgem" que também há somente uma música: Kung Fu Fighting. Muito boa a crítica Andréia, te dou um conselho: aproveitando, faça de toda a obra do Mozael ! Abraços,
Matheus.

Andréa Ormond disse...

Oi Matheus, e sempre agradecendo o apoio do Digníssimo Doutor Prefeito, independente da cidade que fosse. É uma sacada muito boa, os custos caíam bastante nas cidades pequenas, e toda a produção viajando de kombi :) O único problema que eu encontrei no "Seu Florindo" foi a dublagem do Mozael, que perde muito pra voz original, inconfundível. Na direção, fiquei sabendo através do Afrânio que o uma vez eles foram fazer "A Vida de Cristo", e o Poncio Pilatos lavava as mãos numa lata velha de banha rsrs Coisas que se perdem, só uma entrevista ao vivo com ele pra se ter um registro grande, com tudo explicado. Continuamos tentando, até conseguir :) Um abraço!

Anônimo disse...

Ola Andréa.
Sou filho do Mozael e gostaria de corrigir uma informação apenas.
Lameri Faria não era esposa do Mozael, mas meu pai manteve sim um relacionamento extraconjugal durante anos com ela. Minha irmã Emília, que faleceu no ano passado, chegou a conhecê-la, quando Lameri e meu pai moraram em Maricá no interior do estado do Rio de Janeiro.
Atualmente Mozael mora em Brasilia e está separado da minha mãe a muitos anos.
Eu sou atualmente seu único filho e ele tem 6 netos.
Desculpe se o comentário soar meio bizarro, mas vocês já estão acostumados com o Mozael.
Um abraço.

Toninho Guedes disse...

Olá Andréa! Sou um grande admirador da obra de Mozael Silveira e dos atores/atrizes comediantes (Martim Francisco, Zezé Macedo, Geraldo Gonzaga, Wilza Carla ...) que trabalharam com ele. A obra deste cineasta genial pode ser encontrada na íntegra? Alguns filmes podem ser vistos no Canal Brasil ("Sete Mulheres...", "O Erótico Virgem", "Meu Nome É Lampião", "Secas e Molhadas", "Pedro Bó, O Caçador de Cangaceiros", etc ...) mas alguns títulos não se encontram em lugar algum. Seria possível vc verificar com o filho dele (caso tenha o contato) e saber como fazer para adquirir cópias de outros filmes do Mozael?

Toninho Guedes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Andréa e Toninho,

Não tenho um acervo com os filmes em que o Mozael atuou ou dirigiu, mas apenas dois filmes.

Um é o "Assalto ao Trem Pagador", em DVD, quando meu pai conheceu minha mãe nas gravações em São Cristovão e o outro é um filme mais antigo, em VHS: "Rico Ri à Toa", onde ele fez uma de suas primeiras aparições.

Um abraço,

Jose Luis

Andrea Ormond disse...

José Luis, você tem um email? Abraços

Maria Vieira disse...

Uau! Quanta riqueza! Incrível que eu conheço o Mozael e convivo com ele desde que veio para Brasília, para realizar um grande sonho de filmar o primeiro filme evangélico do Brasil, há 12 anos e nada aconteceu. Hoje já houve lançamentos de filmes evangélicos no país e o filme dele não será mais o primeiro, mas eis que surge uma luz no fim do túnel e a igreja Sara Nossa Terra (evangélica) abraçou a ideia e estamos batalhando juntos, à duras penas para que o filme seja brilhante. Pena o Mozael não ir muito bem de saúde, hoje com 80 anos, terá que fazer uma cirurgia de hérnia e tememos as consequências disso. Estamos todos a postos para as gravações e oramos por ele, mais uma vez.
Por: Maria Vieira de Morais.
Contato: 81254612 e 33528341
e-mail: maria.sam@hotmail.com