quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Sobre Nosso Lar


Tenho alguns conhecidos que costumam "analisar" filmes a que assistem pela seguinte premissa: quando aprovam moralmente a conduta dos personagens, julgam o filme bom. Quando desaprovam, desandam a falar mal, defendem censura, no palavrório ingênuo em que misturam recalques tácitos com a fobia de aceitar o diferente.

Tal configuração de pensamento não me parece exclusiva deles, é um dos males do século XXI. Quanto pior a perspectiva de vida, quanto menor o universo de experiências, mais alguns neocidadãos se prendem a supostos paradigmas de conduta e ordem. Falta Nietzsche na cuca dessas gerações -- inclusive da minha, a de meados dos 70. E falta, principalmente, Marcuse, Reich e a compreensão de que toda aspiração pode ser artificiosa, ilegítima. E de que todo recalque precisa ser desbaratado pelo corpo antes que o espírito adoeça.

Filhos de uma revolução sonhada que não aconteceu, chegamos aos trinta e poucos anos, vigiando e sendo vigiados, interditando a felicidade alheia porque não conseguimos atingir a nossa. "Não fume!", "Não beba!", "Pense duas vezes antes de transar!" -- e o problema é que tropeçamos por esses slogans medrosos, derrotistas, sem ao menos a certeza de acharmos um Zabriskie Point por aí.

Regra número um da existência: o Estado, a Globo, Hollywood, a Igreja Católica, o anão Chumbinho, o raio-que-o-parta, não têm que se meter na transa do indivíduo se ele quer encher a cara, fumar um baseado ou um Montecristo, comer sanduíche de pernil, fazer sexo doce ou selvagem. A Interdição, a Culpa, são indústrias que movimentam milhões através das campanhas demagógicas -- como diria a Übermensch, Carla Perez.

Quando assisti a "Nosso Lar" (2010) foi que essas constatações baixaram e estão me rondando até agora. Ou convocava uma sessão de mediunidade com John Stuart Mill ou escrevia esse texto.

Centrados na presença e na força imagética de Chico Xavier, tanto a cinebiografia de Daniel Filho quanto o clássico “Joelma” (1975), de Clery Cunha, soavam bastante diferentes da premissa original e criativa de “Nosso Lar”. Aqui Chico não aparece, é citado uma única vez nas últimas cenas e praticamente esquecemos sua relação com o caso. Presos ao mundo pós-vida, nos surpreendemos ao constatar que o “Umbral” -– arremedo de purgatório -– lembre a desolação gelada e agonizante dos infernos de Zé do Caixão (prova de que Mojica nunca errou). E que a “Colônia” signifique uma ode à organização urbanística visionária, quase um plágio dos projetos de Jacque Fresco e Eero Saarinen -- embora as referências da crítica nacional nunca tenham ido além de Oscar Niemeyer.

Provável que este apuro traduza grande parte do sucesso do filme: as representações estéticas de "Nosso Lar" finalmente consolidaram uma iconografia, representação em imagens, daquilo que durante décadas praticamente só existiu nos livros de Chico e na tradição oral de sua doutrina.

O médico André Luiz (Renato Prieto) descobre no outro plano que sofrimentos diminuem na proporção em que sua obediência desperta. Evoluído para a Colônia, inicia o aprendizado através de Lísias (Fernando Alves Pinto) e das consultas aos Ministros. Destaca-se Genésio (Paulo Goulart), que recebe pacientes em uma sala ampla e os atende aos pares, como a demonstrar que em “Nosso Lar” não há segredos individuais nem privacidade de sentimentos.

Vinhetas moralizantes massacram suas lembranças e incluem o jovem doutor, bem sucedido e egoísta, fumando charutos (na Confeitaria Colombo), além da culpa imensa de um temperamento egocêntrico, luxurioso, natural ao homem. Tal esquema de princípios apavora o pecador comum -– que deve sair do cinema com a sólida sensação de que um lugar em “Delírios de um Anormal” (1978) o espera, dicotomia simplista perseguindo todas as almas.

Rever a mãe (Selma Egrei) tem para André Luiz quase um sentido khouriano, de ascese através do feminino, coincidentemente muito bem representado por uma das atrizes preferidas de Walter Hugo Khouri. Outras etapas de seu crescimento, como a volta à Terra para observar esposa e filhos unidos a outro, dão ensejo a certas dúvidas sobre o valor da transcendência. Não basta ser obediente, humilde e submisso: é necessário ser também corno manso.

Questões de emprego, moradia e aspectos práticos fabricam quantas mensagens de autoritarismo o espectador quiser comprar. Trabalha-se para um Estado imune a tudo que não seja o "bem comum", liberto até de organização civil corporativa, já que as antigas profissões terrenas não significam nada. André Luiz varre o piso, transforma-se em auxiliar de enfermagem. Desconstruir certezas para depois remontá-las, sob “reeducação” insistente, é o tom monocórdio daquilo que executa. Abraçar a ideologia da Colônia guia seus méritos e o livra dos grilos. Ele deve ser não mais consciência livre; apenas uma fonte de mão de obra. Para piorar, assexuado. O prazer carnal vira hype ultrapassada.

Salva-se o incrédulo (eu) da catequese hermética, do “estatuto doutrinário”, quando não o incorpora a ferro e fogo. Isso porque existem muitas maneiras de vermos e revermos o filme. Quem crê naquilo, sem abstrair o sentido religioso do tema, não entenderá o aspecto metafórico que a história possui. É quase involuntário, eu sei. Só que a estética da “Colônia” me pareceu antes exercício futurista que sobrenatural. Podemos extrair um sentido amplo. De fábula.

Pois "Nosso Lar" merece ser observado como aquilo em que as pessoas de carne e osso estão se transformando. Indivíduos fraquinhos, mesmerizados por normas diligentes, absolutas e estupefacientes. Quem se opõe perturba-se, discrimina-se, vai parar no Umbral da sociedade. Os não-contestadores, os mansos da Colônia toleram uma coletividade draconiana pela promessa duvidosa de um dia voltarem a existir como indivíduos. Enquanto isso, no Umbral, aqueles que ainda se vêem como tais (presos às delícias e conflitos terrenos) sucumbem em um gulag à margem das benesses vigilantes, ultra totalizantes e ultra politicamente corretas.

É como se toda a "estética moralista" surgida depois da Retomada, toda a vontade de matar a sacanagem pós-Embrafilme, toda a paranóia pseudoedificante das sociochanchadas, tivesse se materializado nesse imenso elefante branco, nessa bad trip de ácido malhado chamada "Nosso Lar". Se Wagner de Assis queria me provocar medo, sou como Josefel Zanatas: não tenho medo do além. Tenho é pavor do que os próximos anos ainda nos reservam, baseados na contracultura do tédio e na amplidão das boas intenções fascistas. A “Colônia” já está em construção, aqui e agora.

22 comentários:

Anônimo disse...

O título completo do clássico ´disaster-movie´ mesclado com ´filme espírita/sobrenatural´ do Clery Cunha não era JOELMA, Vigésimo-terceiro ANDAR?

Marco Freitas disse...

Ops, postei sem assinar. Sorry.

daniel disse...

Muito bom o desabafo. Fiquei até mais curioso pra conferir o filme. Até porque o que não mata nos torna mais fortes!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Olá, Andrea, ando pensando numa conexão de comentários entre blogueiros que admiramos. Seria uma forma de incentivar o intercâmbio de idéias, favorecendo a blogsfera cinéfila. A cada post seu eu faria um comentário, e vice-versa. Sempre com sinceridade. O que acha? Vamos iniciar?
Abraço bom,

www.ofalcaomaltes.blogspot.com

Marcus disse...

Parabéns pela ótima reflexão. Quando assisti ao filme, não o vi sob essa ótica, achei-o apenas OK, bem produzido. Porém, o que você escreveu está em completo acordo com o que penso sobre nossa época neomoralista-fascita.
As pessoas não entendem quando digo, por exemplo, que constantemente assisto aos filmes do "Como era gostoso o nosso cinema", no Canal Brasil. Assisto porque são um refresco pra minha alma, me fazem lembrar que já existiu uma época de mais liberdade (apesar do govrno militar) de atitude, menos "pudica" (=hipócrita) e que vivi um pouco dela. A partir da década de 2000... muito medo do que vem por aí!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Não vi e não gostei. São filmes como esse que avacalham o cinema brasileiro.

Abraçols

www.ofalcaomaltes.blogspot.com

Alexssandro Duarte disse...

Olá sou um grande fã deste blog pois ele nos faz pensar ao ir além do obvio.

Não vi ainda Nossa Lar, mas qualquer visão de uma vida paradisíaca pós vida me é também apavorante.

Há algo pertubatoramente fascista nessas visões do paraíso de eternas bondades e contemplações bovinas.

Onde ficaram os desafios que em nossas lutas para supera-los é que nos fazem humanos, onde existirá a tristeza que inspirou algumas das mais belas obras de arte?

A felicidade eterna não perverte o próprio sentido de felicidade ? Que paraiso será este que não poderemos nem dizer "Isto aqui esta um saco " ?

Fofão disse...

Escrevo, reescrevo, treino, escrevo de novo e quando acho que tô ficando bom nisso leio um texto da Andrea como este. E aí percebo que tenho que melhorar muito ainda.

O Estranho Encontro é um poço de lucidez onde eu me escondo das sandices que me cercam.

thiago mello disse...

Quero defender o filme, por que gostei dele. Acho que rola um preconceito com esse filme e criticar sem assistir não vale. Recomendo que assistam. Gostei do texto, mas acho que sobre o tom moralista do filme há um equivoco. É uma impressão que depende muito da maneira com que se assite. Como cinema - realização técnica - é um bom filme, apesar de alguns diálogos truncados. Outro ponto, há sim um pensonagem que fala que "tudo aquilo alí está um saco!"... Talvez o moralismo notado, seja reflexo da falta de preocupação em fazer um filme menos espírita. Respeito quem não gostou. Mas não acho que ele deva ser levado "tão" à sério. Como fábula é eficiente. Filmes sobre o além há muitos. Desde Gaspar Noé a Bergman o tema é fascinante. Agora não acho que "Nosso Lar" seja facista. Há de se considerar o peso dessa palavra. O texto inicia criticando justamente quem analisa filmes pelo ponto de vista moral, e depois discorre fazendo exatamente o que criticou no inicio: analisa moralmente. Como se o esforço para ser "bom" do personagem fosse condenável. É um filme que faz pensar. Condená-lo como obra cinematogáfica baseado na moral de uma doutrina religiosa é errado. Para mim "Nosso Lar" deve ser visto como uma homenagem à ficção científica dos anos 70. Um pouco ingênua, engenhosa e com efeitos cinematograficos convincentes.

Andrea Ormond disse...

Esse mesmo, Marcos. Vulgo "Joelma" para os íntimos. Escrevi sobre ele aqui no Estranho Encontro.

Confira lá, Daniel, depois me diga. E nada de morrer, não precisa fazer exercício metalinguístico com este filme rs

Olá, Antonio, acho que o legal dos comentários é eles aparecem sem compromisso, mais pela vontade de debater, trocar experiências. Aliás, veja o filme sim. Vale a pena.

Marcus, as pessoas costumam confundir o clima pitoresco do cinema popular com algo ruim. Mas a pior ruindade é a da contenção boba, a contenção cheia de medo, apesar de parecer liberada na superfície. O texto que escrevi sobre o "Pecado Horizontal" fala sobre esse tema. Vejamos o que vem nesta década dos 2010...

Olá, Alexssandro. A proposta aqui é justamente essa, mexer em verdades com um embasamento crítico, filosófico. O paralelo que se pode fazer entre "Nosso Lar" e algumas inclinações atuais, assusta bastante por conta disso. Josefel que nos ajude.

Andrea Ormond disse...

Obrigada, Fofão, bom te ver por aqui.

Thiago, releia o texto. Não acho condenável a doutrina que "Nosso Lar" prega. Isso vai do livre arbítrio de cada um. Como falei no antepenúltimo parágrafo, existem muitas maneiras de assistir ao filme, e proponho ironicamente a minha. Digo no início do texto que existem pessoas que fazem um julgamento moral e tentam impô-lo ao mundo, coibindo o outro. Perceba que existe uma diferença nada sutil entre simplesmente desgostar de algo, não querer algo para si (postura individual) versus tentar censurar, interditar o barato dos outros (norma coletiva). É o abismo entre desgostar do azul e apoiar a proibição do azul, passando por cima da alteridade. Este é o mecanismo macabro, contrário exatamente ao que defendo no texto.

Rodrigo disse...

bem, não vi o filme mas o (como sempre ótimo) texto da Andrea me remeteu a um livro do Arthur Clarke dos anos 50 chamado o Fim da Infancia em que ele narra a humanidade sob o dominio dos senhores supremos, alienigenas que vem para salvar a humanidade ds si mesma.O mundo entra numa fase de totale stagnação criativa e conformismo. A diferença é que na visão doe scritor esse estágio é o intermediário para o fim da raça humana como nós conhecemos. Tenho interesse mínimo em espiritismo ou "vida depois da morte" portanto não vi este, nem Chico xavier,mas confesso que o texto me deixou intrigado.

Valter Noronha disse...

Sua crítica tem muito fundamento, Andrea. Quando eu vi esse filme, me senti bem incomodado por causa dessa visão do paraíso e por praticamente querer impor tudo aquilo como a verdadeira salvação para a vida eterna. Tudo bem que é um filme feito pra público específico, mas o proselitismo de algumas cenas beira o absurdo. No fim acho que o grande purgatório mesmo é o do cinema nacional, pois a censura não vem mais dos decretos militares e sim do público! Temei!

Moisés disse...

Genial Andrea, sempre que passo por aqui fico extasiado com sua escrita e cultura. Vai de ilustração o link do projeto Venus do Jacque Fresco, a "inspiração" do Nosso Lar http://www.thevenusproject.com/

Andrea Ormond disse...

Muito interessante essa ponte que você fez, Rodrigo. A questão evolutiva tendendo para o caos. Aqui na terra estamos sofrendo de fogo amigo, talvez seja a hora de chegarem os alienígenas. Desta vez, poderíamos ter uma invasão transmitida online, para inveja do Orson Welles.

O nó piorou, Valter. Antes a repressão acontecia de cima para baixo. Agora o aparelho repressivo parece já estar incrustrado na mente de muitos.

Obrigada, Moisés. O "Nosso Lar" é realmente a cara do projeto Vênus.

paulo henrique disse...

Hoje descobri esse interessante blog.
Acho bastante saudável as discussões e debates de ideias e opiniões.
Sobre o filme "Nosso Lar", tenho algumas considerações. Eu assisti e gostei do "Nosso Lar", achei que a produção está acima da média. Não percebei, no entanto, quaisquer tentativas de proselitismo ou afetada visão de paraíso. Aliás, não entendi direito por que alguns nobres comentaristas desse blog temem pelo futuro do cinema nacional.Acho que agora é que o nosso cinema está se tornando mais maduro e profissional!

Andrea Ormond disse...

Paulo Henrique, esse "profissionalismo" não precisa ser sinônimo de caretice extrema. A história do cinema brasileiro demonstra isso. Em relação ao "Nosso Lar", uma de suas leituras serve de metáfora para os tempos atuais, como ressaltei no texto.

Culto e Grosso disse...

Ótima análise! É um filme que não gera nem momentos de diversão...

Francisco disse...

De fato, o filme Nosso Lar é fraco. É de uma chatice sem tamanho. Daí, creio, as críticas no sentido de que o filme seria ultraconservador, moralizante, autoritário e fascista. Reconheço que a película nos passa todos esses sentimentos mesmo. Como é comum no cinema, o filme assassinou o livro. É certo que muitos devem ter saído do cinema cuspindo marimbondos no espiritismo. O que é uma injustiça. Quem já leu algo sério sobre o tema (esqueça o que é retratado em tom de pândega nos folhetins da Globo), sabe que no espiritismo o respeito ao livre arbítrio é inexorável. De sorte que cada um deve fazer aquilo que lhe aprouver. Portanto, se há alguma doutrina que não é conservadora nem fascista, é o espiritismo. Andrea, descobri seu blog após assistir a Giselle. Suas resenhas são uma delícia, e sua contribuição com o cinema nacional é digna de nota. Parabéns.

ademar amancio disse...

Eu não sei porque ensinar boas maneiras seria moralizante no mal sentido.Andrea vc é a favor da Barbárie?

Andrea Ormond disse...

Não, sou a favor da liberdade individual diante das imposições coletivas.

Anônimo disse...

Cara Andrea Ormond, assino embaixo e reconheço firma,no que vai neste texto-um de seus melhores.
Tive o mesmo sentimento de mal estar que tinha quando pequeno ,em Uberaba (meca kardecista no Brasil),frequentava com minha mãe centros espíritas (num deles,o de pessoas ligadas ao Hospital do Penfego,abracei Chico Xavier-tinha eu sete anos): o mesmo discurso de castração da vontade, a sexualidade doentia(o retorno do reprimido vinha na histeria feminina evidente nas frequentadoras do meio espírita), o elogio do sofrimento e da mediocridade e a consagração da covardia como filosofia suprema de vida.Era um meio que povoa minhas piores lembranças de infancia, um ambiente de extrema sucção de energia vital.
O que me ocorreu quando assisti o filme foi a analogia do Norman Mailer no "Exércitos da Noite"com as "cidades da lua,planejadas por professores liberais": o politicamente correto,a supressão de "privilégios" e a polícia do pensamento que utiliza a linguagem que Mailer batizava de "Totalitarês",configurado hoje no politicamente correto.
Vivemos hoje em dia assim -homens castrados com voz modulada,assexuados( Camile Paglia-uma de minhas admirações- notou nos brasileiros maior masculinidade-ela não foi apresentada,decerto,à classe média),que consomem as fantasias da industria da pornografia de temática cuckoldress,onde negros viris e subempregados ( quando não francamente lumpen) dominam seus lares,governados por mulheres dominadoras e destrutivas(Marcuse explica estas fantasias da industria cultural no "Homem Unidimensional").O corno manso do filme e da ideologia conformista cumpre este papel na colonia penal aberta.O filme é todo ele um elogio ao sistema político ao qual os medíocres se sentirão livres,em definitivo,de qualquer complexo de inferioridade,pois aposentados de vez de qualquer função mental.
Um paraíso como aquele convence os espíritos livres a cometer toda sorte de baixezas ,se isto for garantia de não parar ali.O vale dos suicidas do filme é preferível ao Grande Hospital das Pessoas de Bom Coração.
Abraços do ( leitor diário) Fernando Pawwlow