
Tenho alguns conhecidos que costumam "analisar" filmes a que assistem pela seguinte premissa: quando aprovam moralmente a conduta dos personagens, julgam o filme bom. Quando desaprovam, desandam a falar mal, defendem censura, no palavrório ingênuo em que misturam recalques tácitos com a fobia de aceitar o diferente.
Tal configuração de pensamento não me parece exclusiva deles, é um dos males do século XXI. Quanto pior a perspectiva de vida, quanto menor o universo de experiências, mais alguns neocidadãos se prendem a supostos paradigmas de conduta e ordem. Falta Nietzsche na cuca dessas gerações -- inclusive da minha, a de meados dos 70. E falta, principalmente, Marcuse, Reich e a compreensão de que toda aspiração pode ser artificiosa, ilegítima. E de que todo recalque precisa ser desbaratado pelo corpo antes que o espírito adoeça.
Filhos de uma revolução sonhada que não aconteceu, chegamos aos trinta e poucos anos, vigiando e sendo vigiados, interditando a felicidade alheia porque não conseguimos atingir a nossa. "Não fume!", "Não beba!", "Pense duas vezes antes de transar!" -- e o problema é que tropeçamos por esses slogans medrosos, derrotistas, sem ao menos a certeza de acharmos um Zabriskie Point por aí.
Regra número um da existência: o Estado, a Globo, Hollywood, a Igreja Católica, o anão Chumbinho, o raio-que-o-parta, não têm que se meter na transa do indivíduo se ele quer encher a cara, fumar um baseado ou um Montecristo, comer sanduíche de pernil, fazer sexo doce ou selvagem. A Interdição, a Culpa, são indústrias que movimentam milhões através das campanhas demagógicas -- como diria a Übermensch, Carla Perez.
Quando assisti a "Nosso Lar" (2010) foi que essas constatações baixaram e estão me rondando até agora. Ou convocava uma sessão de mediunidade com John Stuart Mill ou escrevia esse texto.
Centrados na presença e na força imagética de Chico Xavier, tanto a cinebiografia de Daniel Filho quanto o clássico “Joelma” (1975), de Clery Cunha, soavam bastante diferentes da premissa original e criativa de “Nosso Lar”. Aqui Chico não aparece, é citado uma única vez nas últimas cenas e praticamente esquecemos sua relação com o caso. Presos ao mundo pós-vida, nos surpreendemos ao constatar que o “Umbral” -– arremedo de purgatório -– lembre a desolação gelada e agonizante dos infernos de Zé do Caixão (prova de que Mojica nunca errou). E que a “Colônia” signifique uma ode à organização urbanística visionária, quase um plágio dos projetos de Jacque Fresco e Eero Saarinen -- embora as referências da crítica nacional nunca tenham ido além de Oscar Niemeyer.
Provável que este apuro traduza grande parte do sucesso do filme: as representações estéticas de "Nosso Lar" finalmente consolidaram uma iconografia, representação em imagens, daquilo que durante décadas praticamente só existiu nos livros de Chico e na tradição oral de sua doutrina.
O médico André Luiz (Renato Prieto) descobre no outro plano que sofrimentos diminuem na proporção em que sua obediência desperta. Evoluído para a Colônia, inicia o aprendizado através de Lísias (Fernando Alves Pinto) e das consultas aos Ministros. Destaca-se Genésio (Paulo Goulart), que recebe pacientes em uma sala ampla e os atende aos pares, como a demonstrar que em “Nosso Lar” não há segredos individuais nem privacidade de sentimentos.
Vinhetas moralizantes massacram suas lembranças e incluem o jovem doutor, bem sucedido e egoísta, fumando charutos (na Confeitaria Colombo), além da culpa imensa de um temperamento egocêntrico, luxurioso, natural ao homem. Tal esquema de princípios apavora o pecador comum -– que deve sair do cinema com a sólida sensação de que um lugar em “Delírios de um Anormal” (1978) o espera, dicotomia simplista perseguindo todas as almas.
Rever a mãe (Selma Egrei) tem para André Luiz quase um sentido khouriano, de ascese através do feminino, coincidentemente muito bem representado por uma das atrizes preferidas de Walter Hugo Khouri. Outras etapas de seu crescimento, como a volta à Terra para observar esposa e filhos unidos a outro, dão ensejo a certas dúvidas sobre o valor da transcendência. Não basta ser obediente, humilde e submisso: é necessário ser também corno manso.
Questões de emprego, moradia e aspectos práticos fabricam quantas mensagens de autoritarismo o espectador quiser comprar. Trabalha-se para um Estado imune a tudo que não seja o "bem comum", liberto até de organização civil corporativa, já que as antigas profissões terrenas não significam nada. André Luiz varre o piso, transforma-se em auxiliar de enfermagem. Desconstruir certezas para depois remontá-las, sob “reeducação” insistente, é o tom monocórdio daquilo que executa. Abraçar a ideologia da Colônia guia seus méritos e o livra dos grilos. Ele deve ser não mais consciência livre; apenas uma fonte de mão de obra. Para piorar, assexuado. O prazer carnal vira hype ultrapassada.
Salva-se o incrédulo (eu) da catequese hermética, do “estatuto doutrinário”, quando não o incorpora a ferro e fogo. Isso porque existem muitas maneiras de vermos e revermos o filme. Quem crê naquilo, sem abstrair o sentido religioso do tema, não entenderá o aspecto metafórico que a história possui. É quase involuntário, eu sei. Só que a estética da “Colônia” me pareceu antes exercício futurista que sobrenatural. Podemos extrair um sentido amplo. De fábula.
Pois "Nosso Lar" merece ser observado como aquilo em que as pessoas de carne e osso estão se transformando. Indivíduos fraquinhos, mesmerizados por normas diligentes, absolutas e estupefacientes. Quem se opõe perturba-se, discrimina-se, vai parar no Umbral da sociedade. Os não-contestadores, os mansos da Colônia toleram uma coletividade draconiana pela promessa duvidosa de um dia voltarem a existir como indivíduos. Enquanto isso, no Umbral, aqueles que ainda se vêem como tais (presos às delícias e conflitos terrenos) sucumbem em um gulag à margem das benesses vigilantes, ultra totalizantes e ultra politicamente corretas.
É como se toda a "estética moralista" surgida depois da Retomada, toda a vontade de matar a sacanagem pós-Embrafilme, toda a paranóia pseudoedificante das sociochanchadas, tivesse se materializado nesse imenso elefante branco, nessa bad trip de ácido malhado chamada "Nosso Lar". Se Wagner de Assis queria me provocar medo, sou como Josefel Zanatas: não tenho medo do além. Tenho é pavor do que os próximos anos ainda nos reservam, baseados na contracultura do tédio e na amplidão das boas intenções fascistas. A “Colônia” já está em construção, aqui e agora.
Tal configuração de pensamento não me parece exclusiva deles, é um dos males do século XXI. Quanto pior a perspectiva de vida, quanto menor o universo de experiências, mais alguns neocidadãos se prendem a supostos paradigmas de conduta e ordem. Falta Nietzsche na cuca dessas gerações -- inclusive da minha, a de meados dos 70. E falta, principalmente, Marcuse, Reich e a compreensão de que toda aspiração pode ser artificiosa, ilegítima. E de que todo recalque precisa ser desbaratado pelo corpo antes que o espírito adoeça.
Filhos de uma revolução sonhada que não aconteceu, chegamos aos trinta e poucos anos, vigiando e sendo vigiados, interditando a felicidade alheia porque não conseguimos atingir a nossa. "Não fume!", "Não beba!", "Pense duas vezes antes de transar!" -- e o problema é que tropeçamos por esses slogans medrosos, derrotistas, sem ao menos a certeza de acharmos um Zabriskie Point por aí.
Regra número um da existência: o Estado, a Globo, Hollywood, a Igreja Católica, o anão Chumbinho, o raio-que-o-parta, não têm que se meter na transa do indivíduo se ele quer encher a cara, fumar um baseado ou um Montecristo, comer sanduíche de pernil, fazer sexo doce ou selvagem. A Interdição, a Culpa, são indústrias que movimentam milhões através das campanhas demagógicas -- como diria a Übermensch, Carla Perez.
Quando assisti a "Nosso Lar" (2010) foi que essas constatações baixaram e estão me rondando até agora. Ou convocava uma sessão de mediunidade com John Stuart Mill ou escrevia esse texto.
Centrados na presença e na força imagética de Chico Xavier, tanto a cinebiografia de Daniel Filho quanto o clássico “Joelma” (1975), de Clery Cunha, soavam bastante diferentes da premissa original e criativa de “Nosso Lar”. Aqui Chico não aparece, é citado uma única vez nas últimas cenas e praticamente esquecemos sua relação com o caso. Presos ao mundo pós-vida, nos surpreendemos ao constatar que o “Umbral” -– arremedo de purgatório -– lembre a desolação gelada e agonizante dos infernos de Zé do Caixão (prova de que Mojica nunca errou). E que a “Colônia” signifique uma ode à organização urbanística visionária, quase um plágio dos projetos de Jacque Fresco e Eero Saarinen -- embora as referências da crítica nacional nunca tenham ido além de Oscar Niemeyer.
Provável que este apuro traduza grande parte do sucesso do filme: as representações estéticas de "Nosso Lar" finalmente consolidaram uma iconografia, representação em imagens, daquilo que durante décadas praticamente só existiu nos livros de Chico e na tradição oral de sua doutrina.
O médico André Luiz (Renato Prieto) descobre no outro plano que sofrimentos diminuem na proporção em que sua obediência desperta. Evoluído para a Colônia, inicia o aprendizado através de Lísias (Fernando Alves Pinto) e das consultas aos Ministros. Destaca-se Genésio (Paulo Goulart), que recebe pacientes em uma sala ampla e os atende aos pares, como a demonstrar que em “Nosso Lar” não há segredos individuais nem privacidade de sentimentos.
Vinhetas moralizantes massacram suas lembranças e incluem o jovem doutor, bem sucedido e egoísta, fumando charutos (na Confeitaria Colombo), além da culpa imensa de um temperamento egocêntrico, luxurioso, natural ao homem. Tal esquema de princípios apavora o pecador comum -– que deve sair do cinema com a sólida sensação de que um lugar em “Delírios de um Anormal” (1978) o espera, dicotomia simplista perseguindo todas as almas.
Rever a mãe (Selma Egrei) tem para André Luiz quase um sentido khouriano, de ascese através do feminino, coincidentemente muito bem representado por uma das atrizes preferidas de Walter Hugo Khouri. Outras etapas de seu crescimento, como a volta à Terra para observar esposa e filhos unidos a outro, dão ensejo a certas dúvidas sobre o valor da transcendência. Não basta ser obediente, humilde e submisso: é necessário ser também corno manso.
Questões de emprego, moradia e aspectos práticos fabricam quantas mensagens de autoritarismo o espectador quiser comprar. Trabalha-se para um Estado imune a tudo que não seja o "bem comum", liberto até de organização civil corporativa, já que as antigas profissões terrenas não significam nada. André Luiz varre o piso, transforma-se em auxiliar de enfermagem. Desconstruir certezas para depois remontá-las, sob “reeducação” insistente, é o tom monocórdio daquilo que executa. Abraçar a ideologia da Colônia guia seus méritos e o livra dos grilos. Ele deve ser não mais consciência livre; apenas uma fonte de mão de obra. Para piorar, assexuado. O prazer carnal vira hype ultrapassada.
Salva-se o incrédulo (eu) da catequese hermética, do “estatuto doutrinário”, quando não o incorpora a ferro e fogo. Isso porque existem muitas maneiras de vermos e revermos o filme. Quem crê naquilo, sem abstrair o sentido religioso do tema, não entenderá o aspecto metafórico que a história possui. É quase involuntário, eu sei. Só que a estética da “Colônia” me pareceu antes exercício futurista que sobrenatural. Podemos extrair um sentido amplo. De fábula.
Pois "Nosso Lar" merece ser observado como aquilo em que as pessoas de carne e osso estão se transformando. Indivíduos fraquinhos, mesmerizados por normas diligentes, absolutas e estupefacientes. Quem se opõe perturba-se, discrimina-se, vai parar no Umbral da sociedade. Os não-contestadores, os mansos da Colônia toleram uma coletividade draconiana pela promessa duvidosa de um dia voltarem a existir como indivíduos. Enquanto isso, no Umbral, aqueles que ainda se vêem como tais (presos às delícias e conflitos terrenos) sucumbem em um gulag à margem das benesses vigilantes, ultra totalizantes e ultra politicamente corretas.
É como se toda a "estética moralista" surgida depois da Retomada, toda a vontade de matar a sacanagem pós-Embrafilme, toda a paranóia pseudoedificante das sociochanchadas, tivesse se materializado nesse imenso elefante branco, nessa bad trip de ácido malhado chamada "Nosso Lar". Se Wagner de Assis queria me provocar medo, sou como Josefel Zanatas: não tenho medo do além. Tenho é pavor do que os próximos anos ainda nos reservam, baseados na contracultura do tédio e na amplidão das boas intenções fascistas. A “Colônia” já está em construção, aqui e agora.
