sábado, junho 20, 2009

Sábado Alucinante


Por mais que esteja baseado em congêneres estrangeiros, "Sábado Alucinante" (1979), quinto filme dirigido por Cláudio Cunha, merece uma releitura além do pastiche. Gastando os estertores da onda disco, suburbanizando o que no mundo já virara bad trip de pó e narcisismo, Cunha aplicou o contexto em terreno fértil, que dominava bem: a observação de costumes, crônica metódica de pequenos personagens.

Se em Profissão Mulher (1982) suas criaturas trabalhavam em uma agência de propaganda, em 1979 bateram ponto na New York Disco Laser. Boate da moda -- situada à Rua Visconde de Pirajá 22, Ipanema, Rio de Janeiro -- vida real fundiu-se com ficção, e aqueles poderiam ser qualquer um de nós. A moça grávida (Simone Carvalho); o garanhão inconsequente (Marcelo Picchi); a dondoca (Heloisa Raso) apaixonada platonicamente pelo pai (Rogério Fróes) -- uma galeria de histórias com pano de fundo da discoteca.

Ouvindo o fino das paradas 77-78 no país, examinamos por dentro a aparência de uma autêntica boate setentista. Dois adolescentes curiosos traçam o aspecto lúdico deste passeio do espectador; querem penetrar na festa a todo custo, impedidos pelo porteiro (Canarinho). Bem-vinda somente a pantera Laura (Sandra Bréa), esfuziante na pista, para quem o discotecário dedica esforços pirotécnicos, imaginando a diva nua entre um chiquê sonoro e outro.

La Bréa, quase um travesti, rivaliza com Bebeto (Marcelo Picchi) as atenções da platéia masculina e feminina. Bebeto ensaia flerte com Laura, mas ela ama um certo Rogério, para quem liga durante as madrugadas, depois da farra, ameaçando se matar. E Bebeto vive a expectativa de ser pai do filho de Gina, cuja gravidez é motivo de especulações da turma, ao nascer do sol no Arpoador.

Cláudio Cunha costumava escrever roteiros em parcerias nobres, como a escritora Márcia Denser e o novelista Benedito Ruy Barbosa. Manifestava, assim, preocupação de filtrar o apelo popular -- de diálogos superficiais e dramas ligeiros -- com uma veia consistente. O interesse dos seus filmes sobreviveu neste equilíbrio entre o aspecto camp e a tentativa sincera de fazer bom cinema para as massas.

Muitas vezes, acertava: Afonso (Rodolfo Arena), garçom da New York, é figura notável. Conhecido pela alcunha de Lesma, velho, doente, açoitado pelo patrão capitalista e pelo baticum imperialista, Lesma planeja um falso sequestro, que esbarra na sua absoluta incapacidade e covardia. Demitido ao som de I Will Survive, Rodolfo Arena como garçom -- e problema social -- de certa forma ironizava o caos dos serviços prestados no Brasil, onde a fronteira entre profissionalismo, informalidade e paternalismo ainda é muito tênue.

Já quando erravam a mão, os filmes guardam indefectível aparência de novela mal-feita. Em "Sábado Alucinante", a pra frentex Baby (Djenane Machado) seduz o escritor gente-bem Werneck (Rogério Fróes), com ar de lolita e seios à mostra -- o que enlouquece Joana (Heloisa Raso), filha de Werneck, patrulheira edípica das aventuras amorosas do pai. Na estrutura típica de folhetim soma-se interpretação de Fróes, ar de "homem contido", contrapondo Djenane -- filha do rei da noite, Carlos Machado -- clichê de menininha espevitada.

Entre o ridículo e o sublime, uma coisa o artista Cláudio Cunha não pode negar: apaixonado pelo Rio de Janeiro e pela dinâmica da vida balneária, sua vontade de realizador carioca sempre traía as origens paulistanas. Soube operar esta circunstância com naturalidade, o que lhe garantia posição privilegiada: acesso ao rico circuito exibidor de São Paulo e intimidades no meio cultural de ambos lados da ponte aérea. No final dos anos 70 obtinha sólido êxito em todo país e na América do Sul. Não raro, os jornais argentinos -- Clarín, La Nacion -- analisavam e divulgavam seus filmes com muito mais interesse que a preguiçosa e preconceituosa crítica nacional.

Mestre em explorar o inconsciente coletivo caipira sobre o Rio -- explicitado em "Amada Amante", diluído em "Profissão Mulher" -- na disco-music fez ode ipanemense ao "dançar até o sol raiar". Os garotos que desejavam penetrar na festa talvez fossem Cunha; o mesmo para Maurício do Valle, no papel de Ivan. Antes inocência que arrivismo, "Sábado Alucinante" copiava, sim, "Saturday Night Fever" e "Thank God It's Friday". Só que vistos pelos barrados na porta da 2001 ou do Studio 54. Diversão brasileira, a experiência glamourosa dos vencedores sob a ótica antropofágica do excluído.

17 comentários:

Renato Vieira disse...

Bem-vinda de volta, Andréa!

Luiz com Z disse...

"La Bréa, quase um travesti"; "açoitado pelo patrão capitalista e pelo baticum imperialista"; como eu consegui ficar sem isso aqui esse tempo todo? (gargalhadas contidas em ambiente de trabalho)

Uma pena que Djenane Machado tenha tomado chá de sumiço junto com a expressão prafrentex. Assim como seu pai marcou a década do teatro rebolado, ela marcou a da boca-de-sino. Outra pena que a dinastia datada tenha falhado em guardar um espécime pra nossa geração, os anos 90 teriam sido melhores com um ícone machadiano. Será que um dia eu esbarro com ela no Cirandinha? Veijos e vem-binda de bolta.

Matheus Trunk disse...

Elogiar os textos de Andrea Ormond, a melhor amiga do cinema brasileiro é cair no mesmismo. Mas você matou a pau sobre este filme, realmente o Cunha era um cara diferenciado e conseguia trafegar bem com a turma do Rio e de São Paulo. O texto muito inspirado, diga-se de passagem. Outra coisa: você viu onde esses textos de jornais argentinos elogiando os filmes do Claudião?

Matheus Trunk
www.violaosardinhaepao.blogspot.com

Adilson Marcelino disse...

Andrea
Que bom vê-la de volta por aqui - já que no Insensatez pude contar com suas ilustres visitas e comentários gentis.
Gosto muito de Sábado ALucinante.
Você viu a Bréa na minha coluna na Zingu?
Aliás, gosto muito do cinema de Claudio Cunha.
Bjs querida.

Rafael Ribeiro, o Lusitano disse...

Como disse o mestre Trunk, elogiar Andrea é redundância...Agora que você está aqui na nossa terra da garoa, em São Paulo, temos a obrigação de marcar uma cerveja e discutir horas a fio sobre a nobre cinematografia brasileira...

Luiz Alberto disse...

Parabéns pelo blog, você tem extremo bom gosto! Sou fã do Calmon e adorei as resenhas dos clássicos Nos Embalos de Ipanema e Eu Matei Lúcio Flávio!

Andrea Ormond disse...

Obrigada, Renato, cá estou :)

Mas é, Luiz, a Bréa está num clima traveco que não passa desapercebido rsrs Bem provável que vc veja a Djenane um dia desses em Copacabana, grande meca dos 70s nacionais. Beijos!

Matheus, os jornais argentinos podem ser consultados no site "Memória da Censura no Cinema Brasileiro". Bjs

Vi o texto sobre a Bréa, sim, Adilson. Aliás, acho até que poderia constar um crédito na sua coluna. Eu percebi que era seu pois conheço o seu estilo inconfundível, adorei. Bjs, querido

Obrigada, Rafael, marquemos a cerveja, é praticamente um dever de ofício! rsrs

Obrigada, Luiz Alberto, volte sempre. Abraços

Adilson Marcelino disse...

Andréa,
Nem tinha percebido que estava sem meu nome. Pedi para o Gabriel acrescentar.
Muito obrigado.
Bjs

Andrea Ormond disse...

Adilson, e aquela foto do "Sábado Alucinante" em cartaz no Marabá? Que linda!

Adilson Marcelino disse...

Linda mesmo.
Foi o Claudio Cunha que, gentilmente, me enviou para ilustrar a coluna. As duas do Marabá são dele.
Bjs

Mike disse...

Oi Andrea, primeiramente parabéns pelo blog! Acabei de ler seu ótimo post sobre o filme O Fotógrafo e gostaria de saber se você teria ele para compartilhar, sendo que é um filme mto importante para mim.

Obrigado!

Andrea Ormond disse...

Mike, "O Fotógrafo" saiu em Vhs nos anos 80. Acredito que ainda tenha em algumas locadoras no Rio e em Sp. Quem souber como gravar e compartilhar, fará um serviço de utilidade pública.

Marcelo V. disse...

E o acesso a essas pérolas para quem não tem Canal Brasil? Algum santo "ripou" e pôs na internet?

Andrea Ormond disse...

Marcelo, no caso deste acho que é fácil. Alguns meses atrás o Claúdio Cunha estava vendendo a maioria dos filmes dele em dvd. Só não sei se continua.

hectorlima disse...

Andréa, achei seu blog meio por acaso procurando algo sobre o SÁBADO ALUCINANTE, do qual só peguei trechos no Canal Brasil.

fiz uma mixtape [1ª de uma trilogia] sobre Disco brasileira e tive de linkar seu post aqui:

http://popscene.blogsome.com/2009/09/09/popscene-mixtape-11-especial-disco-br-pt-1/

ando fascinado pelo Imperial depois de ler o livro do Denilson e babei com sua crítica ao SÁBADO e ao VIÚVA VIRGEM.

o Denilson soltou na comunidade de orkut do Impera que o canal Brasil está planejando um ciclo de seus filmes, incluindo vários sumidos há anos, talvez com posterior lançamento em DVD.

parabéns pelo blog e por ENTENDER e ajudar a valorizar o Cinema daquela época. você escreve em mais algum veículo?

[]s

Hector
hectorlima@gmail.com
gomademascar.net

Marco Antonio Santos Freitas Santos Freitas disse...

Sucesso de público do talentoso Cunha...foi, junto de VAMOS DANÇAR O DISCO BABY (com o grupo infantil de DiscoMusic As Melindrosas), AMANTE LATINO (com S. Magal cantando seus hits Metade faux-Ciganos, metade Disco), e, NOS TEMPOS DA VASELINA (apesar do título com alusão ao nome brasileiro dado ao musical GREASE, era, na verdade, influenciado por Tony Manero em OS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE), exemplos nacioanis de DiscoExploitation (definição meio pejorativa dada aos filmes de baixo orçamento que pegaram carona na Onda Disco...no Brasil, alguns críticos pretensioso tacharam VASELINA e o longa com a Sandra de PORNODISCO)

edu vieira disse...

Eu amo esse filme!Acho que já vi umas dez vezes!À época eu era menor e só conhecia a música da Sonia Santos.A Sandra Bréa é o espirito do filme que de modo muito legal contrapoe a disco, repetição das noites com a vida real ,por vezes triste.Acho camp mas amo!