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quarta-feira, novembro 03, 2010

Amada Amante - Uma Batalha Curiosa


"Não faço pornochanchadas e não tenho o direito de julgar quem as faz". Com essa declaração ao jornal Última Hora, em 14 de abril de 1978, o diretor e produtor Cláudio Cunha parecia querer resumir o grande dilema da maioria dos diretores populares nos anos 70. Capturados pelo slogan de “pornochanchadeiros”, filmavam dramas de costumes, comédias, policiais, mas padeciam no saara das acusações: a de usarem sexo como chamariz, atendendo à pressão insuportável de um público que exigia crescentes inserções do belo esporte.

Àquela altura de 78, o novo projeto de Cunha utilizava o título de uma antiga canção de Roberto Carlos, do lp de "Detalhes". Mas, estranhamente, "Amada Amante" (1978) não tinha qualquer coisa a ver com Roberto, nem a história trazia paixão visceral entre os protagonistas.

Por outro lado, Bruno Barreto estava pronto para dar o mesmo nome ao futuro "Amor Bandido" (1979). Comprara os direitos da canção e a colocara em várias cenas de Cristina Aché e Paulo Guarnieri. Quando descobriu a artimanha de Cunha teve um chilique e chamou o colega de "gângster da Boca do Lixo", em reportagem do Última Hora. Cunha devolveria dizendo que “meus filmes são dirigidos por mim, não pelo filho do meu pai”, em clara alusão ao progenitor de Bruno, o produtor Luiz Carlos Barreto, complementando: “Não tenho pai empresário, nem político de cinema”.

Ironia é que, meses depois, a crítica desancaria "Amor Bandido" rebaixando-o a "pornopolicial" – Rubens Ewald Filho, Estado de São Paulo, 14/11/78 – e contextualizando-o exatamente como subproduto de um artificialismo mercantilista, similar aos da Boca. Claro, todos estavam errados: Cunha deveria trocar o nome da sua obra; Barreto não precisaria engrossar o caldo contra Cunha; e "Amor Bandido" sobreviveu para continuar representativo do grande cinema policial brasileiro dos anos 70.

"Amada Amante", diga-se de passagem, não ficou atrás. Partindo do argumento de Benedito Ruy Barbosa, Cunha montou outro de seus intrincados novelos rocambolesco-sociológicos, observando uma família do interior que se muda para o Rio de Janeiro, mais precisamente para a Av. Vieira Souto, em Ipanema.

Instalada no endereço mais nobre da cidade, uma chegada de carro – no estilo "Família Buscapé" – é talvez o maior deslize do casal Augusto (Rogério Fróes) e Tide (Neuza Amaral), além dos filhos Fátima (Sandra Bréa), Marita (Petty Pesce) e Zequinha (Maurício Lessa). Graças, porém, ao tosco passeio vemos as obras do metrô na Av. Presidente Vargas e o prédio do Jornal do Brasil – Av. Brasil, 500 – tilintando de novo.

O resto é a inadaptação e conseqüente degradação familiar. Augusto, gerente de uma fábrica de calçados, redescobre o sexo com a secretária. Fátima – Bréa, linda até de cabeça pra baixo – enamora-se do playboy Tuca (Luiz Gustavo). Já Marita não tarda em arrumar uma companheira lésbica (??!). Observando Bréa e Pesce, uma participação de Carlos Imperial, como voyeur na janela do prédio ao lado.

Cunha sempre teve domínio de certo modelo narrativo, que aqui utiliza de forma satisfatória o bastante para o espectador nunca desgrudar os olhos das idas e vindas entre a praia, o escritório de Augusto e o apartamento. Mas sua principal manipulação é outra: a do imaginário caipira e deslumbrado sobre o Rio. Nem a Globo (ou a Riotur) faria melhor no passeio ao Cristo Redentor, nas panorâmicas da orla e na caracterização simplória dos cariocas como povo liberal e folgazão, em contraponto à "seriedade" e aos princípios hipócritas dos interioranos, que se dissolvem no turbilhão balneário.

Esse choque e atração cultural, retraduzido na briga pelo título, seria bem esmiuçado por Carlos Alberto Mattos em texto na Tribuna da Imprensa, de 31/08/78. Mattos aponta inteligentemente a incompreensão entre Barreto e Cunha espelhada também no olhar caricatural e redutor do paulista sobre a dolce vita carioca.

Em defesa de Cunha note-se que, durante as filmagens, decidiu pelo batismo provisório de "Os Caretas de Copacabana". Quando mudou de idéia, cumpriu os trâmites legais, inclusive informando-se com a Sociedade Brasileira de Autores e Compositores Musicais sobre a possibilidade de uma canção dar nome a filme, sem custo aos produtores.

Como não havia disposição contrária, inscreveu "Amada Amante" na Embrafilme. Barreto tivera idéia parecida e comprara os direitos com o empresário de Roberto Carlos, Marcos Lázaro, provavelmente ao custo de 5% da renda e mais 400 mil cruzeiros, preço cobrado antes a Cunha, que recusara. Mas, ao tentar registrar sua produção, quase finalizada, esbarrou com registro anterior de Cunha, o processo 01330/77, que tirou seu sono.

Cláudio Francisco Cunha realizaria em seguida mais dois filmes no Rio -- "Sábado Alucinante" (1979) e "Profissão Mulher (1982) -- repisando o olhar ingênuo, conflituoso e, por que não dizer?, adorável sobre seu objeto de paixão e oportunismo. A senha para entendermos tal trilogia passa ainda por esquecer qualquer má vontade e preconceito, e aceitarmos que, fazendo cinema com seu próprio dinheiro, Cunha mantinha-se honesto ao público da Av. Ipiranga e dos cinemas do Brasil profundo. Era naquela Ipanema lúdica, burlesca, que o povo das sessões do meio-dia gostava de acreditar, em contraponto ao realismo competente de “Amor Bandido”, criado por Barreto, exímio conhecedor da cidade.


quinta-feira, janeiro 21, 2010

Snuff, Vítimas do Prazer


Nos anos 1970 todos os limites da liberdade foram testados. Não à toa, ali por 1972, 73, o sexo explícito começou a se institucionalizar nos Eua e na Europa, e a década legou à história filmes clássicos do gênero. No rastro do megasucesso de “Deep Throat" e “Behind The Green Door", diversos nomes transitaram rapidamente do soft para o hardcore e abusaram de criatividade insana.

Parte deste fenômeno infelizmente acabou mitigado pela revolução do homevideo, quando as produções deixaram de ser exibidas no cinema e eram editadas às toneladas direto para o videocassete. Assim, em retrospectiva, a impressão que ficou é a de que os anos 80 representaram o máximo em pornografia no mundo.

Mas como esquecermos a obra-prima sadomasoquista “The Punishment of Anne”, de 1975? E quase tudo o que Radley Metzger aka Henry Paris dirigiu? Como esquecer Brigitte Lahaie? Por mais que tenha ganho em quantidade, o “pornô” em vhs passa a léguas de distância do universo dionisíaco das chamadas “salas especiais”.

Nesse contexto, de espaços escolhidos e escondidos nas grandes cidades, foi que nasceu a lenda urbana dos snuff movies. Seriam filmagens clandestinas, exibidas para um público seleto, onde após o ato sexual os protagonistas eram literalmente assassinados.

Muitas produções americanas e européias da época fazem referência aos snuffs. Desde “Emanuelle in America” (1976), passando pelo doentio “Last House on Dead End Street” (1977) até o hollywoodiano “Hardcore Life” (1979), os snuffs estavam na boca do povo, como a provar que a bestialidade humana é uma janela aberta para o infinito.

“Snuff, Vítimas do Prazer” (1977), de Cláudio Cunha, poderia ser apenas tentativa oportunista de pegar carona no assunto, não fosse o sarcasmo que perpassa o roteiro, escrito por Cunha e Carlos Reichenbach.

Dois gringos, Michael Tracy (Hugo Bidet) e Bob Channing (Fernando Reski), desejam realizar um snuff no Brasil. Para isso contratam um técnico falido, Edson Lima (Carlos Vereza), auxiliado por Juarez (Canarinho), um grupo de atrizes na corda bamba -- Lia de Souza (Rossana Ghessa), Tati Ibanez (Nadir Fernandes), Glória (Lúcia Alvim) --, além de um ator louco, Sérgio Bandeira (Roberto Miranda). Carregam a equipe para uma fazenda no interior e iniciam as filmagens.

“Vítimas do Prazer” não é sobre a nobre arte de se fazer obras homicidas, nem documentário ao tema, mas simplesmente um olhar debochado à miséria humana. Espectadores de estômago fraco, criados pela avó, poderão deduzir com prazer que o mundo mudou bastante, e dificilmente hoje alguém teria coragem de fazer tamanha crítica ao ofício que exerce. Pois a miséria humana retratada ali, nada mais é do que a deles mesmos, cineastas brasileiros e paulistas, e a produtora falida poderia ser qualquer uma, à mercê de propostas esdrúxulas e pagamentos duvidosos.

Esse bater de frente consigo mesmo, essa vontade de perder os amigos mas nunca a piada, é que salva o filme do fracasso. Tedioso, de estrutura mambembe, “Snuff” nem parece dirigido por Cláudio Cunha, que sempre teve imenso cuidado formal em suas produções. Salva-se o elenco afiado, com destaque para Hugo Bidet, falecido em abril de 77, dois meses antes do lançamento.

Chegando aos cinemas em junho, recebeu boas críticas, principalmente em São Paulo. Porém o consenso da chacota etnocêntrica, repetido desde a estréia, sinaliza uma provável overdose de didatismo. O slogan "Tudo Foi Filmado na América Latina, onde a vida humana é muito barata", confirma ainda mais essa impressão.

Aliás, Cláudio Cunha e Carlos Reichenbach teriam escrito o roteiro em uma sala de escritório na Boca, muito parecida com a que criaram para o desafortunado Édson Lima. E, segundo entrevista que Cunha concedeu à Zingu!, durante as filmagens Hugo Bidet já apresentava ímpetos suicidas, que concretizaria logo depois. Em um filme sobre o desespero moral e a precariedade existencial de cineastas e atores no Brasil, ao que parece eles estavam encenando também um psicodrama histérico e farsesco, de deixar o médico Jacob Levy Moreno intrigado.

Como última curiosidade, vinte e cinco anos depois -- em 2002 -- o escritor e cineasta Marcos Fábio Katudjian voltaria a tratar a idéia de snuffs brasileiros no ótimo romance “Snuff Movie: Depois do Fim do Mundo”. Recomendo o livro tanto quanto o filme. Ambos investem na idéia de que em um país pobre vale tudo, até se usar o aparato do dinheiro para a satisfação cinéfila de uma elite de sádicos.

sábado, junho 20, 2009

Sábado Alucinante


Por mais que esteja baseado em congêneres estrangeiros, "Sábado Alucinante" (1979), quinto filme dirigido por Cláudio Cunha, merece uma releitura além do pastiche. Gastando os estertores da onda disco, suburbanizando o que no mundo já virara bad trip de pó e narcisismo, Cunha aplicou o contexto em terreno fértil, que dominava bem: a observação de costumes, crônica metódica de pequenos personagens.

Se em Profissão Mulher (1982) suas criaturas trabalhavam em uma agência de propaganda, em 1979 bateram ponto na New York Disco Laser. Boate da moda -- situada à Rua Visconde de Pirajá 22, Ipanema, Rio de Janeiro -- vida real fundiu-se com ficção, e aqueles poderiam ser qualquer um de nós. A moça grávida (Simone Carvalho); o garanhão inconsequente (Marcelo Picchi); a dondoca (Heloisa Raso) apaixonada platonicamente pelo pai (Rogério Fróes) -- uma galeria de histórias com pano de fundo da discoteca.

Ouvindo o fino das paradas 77-78 no país, examinamos por dentro a aparência de uma autêntica boate setentista. Dois adolescentes curiosos traçam o aspecto lúdico deste passeio do espectador; querem penetrar na festa a todo custo, impedidos pelo porteiro (Canarinho). Bem-vinda somente a pantera Laura (Sandra Bréa), esfuziante na pista, para quem o discotecário dedica esforços pirotécnicos, imaginando a diva nua entre um chiquê sonoro e outro.

La Bréa, quase um travesti, rivaliza com Bebeto (Marcelo Picchi) as atenções da platéia masculina e feminina. Bebeto ensaia flerte com Laura, mas ela ama um certo Rogério, para quem liga durante as madrugadas, depois da farra, ameaçando se matar. E Bebeto vive a expectativa de ser pai do filho de Gina, cuja gravidez é motivo de especulações da turma, ao nascer do sol no Arpoador.

Cláudio Cunha costumava escrever roteiros em parcerias nobres, como a escritora Márcia Denser e o novelista Benedito Ruy Barbosa. Manifestava, assim, preocupação de filtrar o apelo popular -- de diálogos superficiais e dramas ligeiros -- com uma veia consistente. O interesse dos seus filmes sobreviveu neste equilíbrio entre o aspecto camp e a tentativa sincera de fazer bom cinema para as massas.

Muitas vezes, acertava: Afonso (Rodolfo Arena), garçom da New York, é figura notável. Conhecido pela alcunha de Lesma, velho, doente, açoitado pelo patrão capitalista e pelo baticum imperialista, Lesma planeja um falso sequestro, que esbarra na sua absoluta incapacidade e covardia. Demitido ao som de I Will Survive, Rodolfo Arena como garçom -- e problema social -- de certa forma ironizava o caos dos serviços prestados no Brasil, onde a fronteira entre profissionalismo, informalidade e paternalismo ainda é muito tênue.

Já quando erravam a mão, os filmes guardam indefectível aparência de novela mal-feita. Em "Sábado Alucinante", a pra frentex Baby (Djenane Machado) seduz o escritor gente-bem Werneck (Rogério Fróes), com ar de lolita e seios à mostra -- o que enlouquece Joana (Heloisa Raso), filha de Werneck, patrulheira edípica das aventuras amorosas do pai. Na estrutura típica de folhetim soma-se interpretação de Fróes, ar de "homem contido", contrapondo Djenane -- filha do rei da noite, Carlos Machado -- clichê de menininha espevitada.

Entre o ridículo e o sublime, uma coisa o artista Cláudio Cunha não pode negar: apaixonado pelo Rio de Janeiro e pela dinâmica da vida balneária, sua vontade de realizador carioca sempre traía as origens paulistanas. Soube operar esta circunstância com naturalidade, o que lhe garantia posição privilegiada: acesso ao rico circuito exibidor de São Paulo e intimidades no meio cultural de ambos lados da ponte aérea. No final dos anos 70 obtinha sólido êxito em todo país e na América do Sul. Não raro, os jornais argentinos -- Clarín, La Nacion -- analisavam e divulgavam seus filmes com muito mais interesse que a preguiçosa e preconceituosa crítica nacional.

Mestre em explorar o inconsciente coletivo caipira sobre o Rio -- explicitado em "Amada Amante", diluído em "Profissão Mulher" -- na disco-music fez ode ipanemense ao "dançar até o sol raiar". Os garotos que desejavam penetrar na festa talvez fossem Cunha; o mesmo para Maurício do Valle, no papel de Ivan. Antes inocência que arrivismo, "Sábado Alucinante" copiava, sim, "Saturday Night Fever" e "Thank God It's Friday". Só que vistos pelos barrados na porta da 2001 ou do Studio 54. Diversão brasileira, a experiência glamourosa dos vencedores sob a ótica antropofágica do excluído.

segunda-feira, abril 13, 2009

Profissão Mulher


As estudantes universitárias brasileiras costumam adorar a escritora Márcia Denser assim como adoram Clarice Lispector, Ana Cristina César e Adélia Prado. Essas moças com certeza nem imaginam que, em 1982, Denser serviu de inspiração para aquilo que seus professores chamam, quase sempre horrorizados, de pornochanchada.

Não que "Profissão Mulher" -- baseado no livro de Denser, "O Animal dos Motéis" -- seja de fato uma pornochanchada clássica, no estilo consagrado por Carlo Mossy e David Cardoso. Mas poucos diferem alhos e bugalhos da produção comercial brasileira dos anos 70 e 80, ao ponto de saberem que o produtor e diretor Cláudio Cunha foi na realidade um sofisticadíssimo cronista de costumes.

Sempre antenado, de orelhas em pé, Cunha descobriu o sucesso de crítica -- em 1983 Paulo Francis citaria Márcia Denser como "a melhor escritora do Brasil" -- lançado no ano anterior e resolveu adaptá-lo ao cinema. O desafio de intercalar contos poderia ter virado rotineiro filme de episódios, mas aproveitou-se o mote de uma simpática agência de propaganda, unindo as quatro protagonistas em um meio comum.

As modelos Sandra (Wilma Dias) e Luiza (Simone Carvalho), a diretora de criação Natália (Patrícia Scalvi) e a secretária Vera (Lady Francisco) são tudo aquilo que o roteiro precisa para sugerir que o feminino é um delicado e turbulento ofício. Não querendo deixar dúvidas, o próprio diretor abre a história tecendo ilações sociológicas enquanto folheia, dentre outras, "Da Solidão à Plenitude Humana" -- obra do místico indiano Jiddu Krishnamurti.

Em seguida os causos se sucedem, tendo a agência como pano de fundo. Apesar de bastante identificado com a Boca do Lixo, Cláudio Cunha adorava filmar no Rio de Janeiro, e localiza o escritório em plena Av. Rio Branco. É o último dia do ano e os funcionários confraternizam de "amigo secreto" e fofocam. Os diálogos, escritos por paulistanos, erram ao chamar de "amigo secreto" a brincadeira que no Rio é geralmente conhecida como "amigo oculto".

Natália, diretora de criação, será a última a sair da agência, tonta à procura de lugar para beber. Entra na tradicional Casa Simpatia (Av. Rio Branco, 92), enxuga o estoque de vodka e, em meio a flashbacks amargos, conhece um representante de vendas (Otávio Augusto), com quem passa a noite. Na manhã seguinte, meio zonzos, dão um pulo até a Praça Mahatma Ghandi e impelido por Natália a transarem na via pública, o homem falha. Vingando-se da opressão e da estupidez masculina, a publicitária ri de se acabar.

Luiza aparece em uma festa, com o namorado (Mário Cardoso) e os manda-chuvas da agência, Telmo (Cláudio Marzo) e Neusa (a cantora Marlene, sim, a "Preferida da Aeronáutica"). Provando que sempre foi superior à Emilinha, Neusa arrasta todo mundo para seu apartamento e seduz Luiza e o namorado. Confusa -- eu também ficaria, se Marlene em pessoa me agarrasse -- Luiza foge e busca consolo em Telmo, que dormia no sofá.

A terceira história, baseada no conto "Hell's Angels", talvez seja a melhor. Sandra Stewart (Wilma Dias), modelo de sucesso, desfila no salão de convenções do falecido Hotel Nacional e tem horror ao maquiador fresco (Fernando Reski). Acaba de completar trinta anos, ganhando bolo e homenagens na agência. Perceba-se que não há qualquer nexo temporal, pula-se do réveillon para outra festa e em seguida para uma adiante, a do aniversário de Sandra. Ela está aflita com a idade e, partindo para uma sessão no analista, conhece um motoqueiro de dezenove anos, chamado Robi. Desabafa com o analista (Fábio Sabag) o sentido fútil de sua existência, a discreta homofobia -- mas uma posterior ida ao motel com o rapazinho aparentemente a conduz ao amor, ao gostar íntimo de alguém.

Nesse meio tempo, a secretária Vera é assaltada no ônibus, chega em casa nervosa e dá de cara com a sobrinha Patrícia (Márcia Porto), arrumando-se para sair. Vera é o tipo de pessoa sofredora, subserviente, desprezada no lar e no trabalho. Esconde o bizarro segredo de masturbar-se com água fervendo, enquanto a sobrinha vive a coisa real em inferninhos. Em um destes Patrícia acaba conhecendo Telmo, que devia estar indo esfriar a cabeça de Luiza, e os dois parodiam Burt Lancaster e Deborah Kerr na areia da praia, quando o dia amanhece.

O final do rocambole não importa. Natália e Luiza chegam a ensaiar um tête-à-tête lésbico, onde a modelo parece mais inteligente que a diretora de criação, mas o encontro de almas não evolui além de beijinhos e banho na hidromassagem. A dinâmica e as locações são muito parecidas com as de "Karina, Objeto do Prazer", de Jean Garrett; ambos da "Cláudio Cunha - Cinema & Arte", passam a impressão de que um requentou o outro, ou era tara.

"Profissão Mulher" ficou meses preso na censura e faliu o produtor e diretor. Não é de se espantar, pois Cunha fazia tramas populares na fronteira da inquietação intelectual, muitas vezes em um híbrido filosófico e sensacionalista. Entendê-lo só parece simples aos catedráticos preconceituosos, mas um dia até suas pupilas vão descobrir que por trás das bilheterias ocultava-se um questionador, um gauche, tão importante para o cinema quanto Márcia Denser foi para a literatura naquela década de 80.

(in Zingu! #30, Abril de 2009)

sexta-feira, abril 06, 2007

Karina, Objeto do Prazer


É curioso perceber como a figura de Jean Garrett provoca verdadeiro fascínio nas pouquíssimas pessoas que conhecem seu legado cinematográfico. Falo sobre os espectadores, não-profissionais -- aqueles que vêem os filmes apenas por hobby, e para quem a menção do nome de Garrett, no meio de uma conversa, se deve mais a uma lembrança prazerosa, e menos a qualquer outra circunstância.


O primeiro filme do diretor a que assisti foi "Tchau, Amor", alugado em uma daquelas locadoras bem fornidas de filmes nacionais, lá pelos idos de 1995. Eu era uma adolescente de dezessete anos, e o filme me pareceu pesado demais, sinistro em demasia. Voltei a ele muitas vezes, cada uma delas com uma impressão diferente. Era fascinante ver uma trama em que Antônio Fagundes, o galã charmoso, se suicida estupidamente no final.

Também era fascinante o olhar meticuloso, sem tréguas, sobre a fraudulenta relação de um homem acabado na vida e uma mulher de quem ele espera tudo, mas que o manipula como um brinquedo. Se o "Anjo Azul" tivesse sido filmado ao crepúsculo paulistano do início da década de 80, seria "Tchau, Amor". Com a vantagem de Garrett azucrinar muito mais a vida de seus personagens do que Josef Von Sternberg.

Os anos passaram, e hoje me parece incompreensível que alguém não o ache uma obra-prima pop, gótica e datadíssima. É tudo o que os "neon-realistas", que vinham chegando, gostariam de ser, se tivessem maioridade para tanto. É também declaração de amor torta a uma metrópole cinza, empobrecida e soturna. Dez minutos de "Tchau, Amor" calam a boca de centenas desses filmes azul-anil da Globo, tal como um cão feroz baba para as criancinhas.

Por tudo isso, não se espantem quando um dia decretarem, léguas depois de morto, que Garrett era um gênio da linguagem popular. Enquanto isso, permanece só nosso -- esotérico e maldito -- e dele podemos "descobrir" um filme de tempos em tempos, entre os 18 que realizou até morrer, em 1996, deprimido porque não trabalhava mais.

Minha "descoberta" outro dia foi "Karina, Objeto do Prazer" (1981), realizado um ano antes de "Tchau, Amor", sob forte publicidade -- afinal, Garrett e a estonteante Angelina Muniz, estrela de ambos, começavam uma parceria quentíssima, com direito até a entrevista de página dupla na "Amiga", do Grupo Manchete. Se a "Manchete" e a "Amiga" eram o mais perto que conseguíamos chegar da "People" norte-americana, as fotos de Angelina em biquíni sumário e de Garrett com pose de Quentin Tarantino da Rua do Triumpho, já preenchem a cláusula "porque me ufano do meu país".

Glauber Rocha, no seu intrigante "Revisão Crítica do Cinema Brasileiro", considerava a produção de São Paulo "um cinema sem possibilidades. (...) Esbanjam dinheiro em shows tipicamente provincianos (...)". Se conhecesse Garrett, Glauber -- que, piada à parte, escreveu o livro em outro contexto, 1963 -- morderia a língua ao se deparar com o universo de possibilidades que aqueles cineastas da Boca inventavam para si próprios, segundo a segundo. Em "Karina", por exemplo, o diretor engana que faz um drama de costumes, trafega para o exploitation-denúncia, até mergulhar de cabeça em autêntico romance GLS, com direito a personagens inusitadas, como a advogada lésbica (Rosina Malbouisson) que protege a tola Karina (Muniz) dos seus malfeitores. 

O caso é tão divertido, que um dos perversos exploradores de Karina é interpretado por ninguém menos que Cláudio Cunha, diretor de "Oh! Rebuceteio", "Gosto do Pecado", e colega de Garrett na Boca. Cunha -- produtor do filme, através da "Claudio Cunha - Cinema & Arte" -- rivaliza com Angelina em carisma, perdendo, claro, nas cenas de nudez, como no retumbante strip-tease ao som lounge de "How long has this been going on".

"Karina, você desceu muito. Ver você aí mostrando o corpo, tirando a roupa diante desses tarados, me magoa" -- é assim que Lucas (Cunha) tenta convencer sua presa a acompanhá-lo. Karina fora trocada por um barco de pesca, em negociação dos seus pais com o cafajeste Rufino Xavier Monteiro (Luigi Picchi), que acaba perdendo-a numa partida de pôquer (3 valetes e 2 reis contra 2 damas e 3 ases), para o rival.

Karina resiste à nova troca, e assassina Rufino. Vai parar na cadeia, onde conhece Sheila, a defensora pública, para quem conta sua triste sina: desde a aldeia de pescadores onde nasceu até a prostituição de luxo em São Paulo. Sabendo que Lucas a ganhou no jogo e prestes a receber liberdade condicional, esconde-se na casa de Sheila, sempre narrando histórias escabrosas sobre o falecido amante.

Histórias que incluem -- tirem as crianças da sala -- a preferência do celerado por bonecas-manequim vestidas de noiva, e voyeurismo explícito, oferecendo Karina ao seu púbere sobrinho. Reparem também na cena em que tio, sobrinho e Karina assistem a atividades amorosas eqüinas, em clara alusão ao clássico "Giselle", de dois anos antes.

Há um apelo surpreendente na última meia hora, quando a protagonista e Sheila encontram a felicidade e a redenção uma nos braços da outra. Amorosamente se divertem, dançam Nina Simone de rosto colado -- comemorando os 21 anos de Karina -- e em seguida transam pela primeira vez. Lucas bem que incomoda, mas acaba tendo o mesmo fim de Rufino; e as heroínas terminam juntas, apaixonadas, no desfecho mais feminista e pró-homossexual que o cinema brasileiro já conheceu.

Se você imagina a Boca do Lixo como um purgatório de mulheres depravadas -- o título por si só, seria imediatamente adotado -- tem em "Karina" nova chance de rever posições. As personagens de Jean Garrett, quase sempre, são altivas e ativas; os homens, covardes e canalhas. Quando descobrirem que Garrett foi de fato um gênio do cinema popular, descobrirão também que era um libertário ativista da igualdade entre os sexos. Talvez nem ele mesmo soubesse disso, mas a boa intenção é o que vale.

domingo, setembro 10, 2006

Oh! Rebuceteio


A glória e a decadência da Boca do Lixo – o mais importante centro produtor de cinema brasileiro nos anos 70 e 80 – encontram sua encruzilhada na produção de filmes de sexo explícito a partir de 1981, quando Raffaelle Rossi lança “Coisas Eróticas”, sucesso de público por conta das cenas “explícitas” enxertadas pelo diretor.

No embalo de “O Império dos Sentidos”, filme de Nagisa Oshima que foi exibido no Brasil através de um mandado judicial, os produtores da Boca haviam descoberto o caminho das pedras – e passaram a realizar filmes com conteúdo pornográfico, que burlavam a proibição oficial e faziam bilheteria antes que a censura conseguisse reagir.

Some-se a isso a esculhambação brasileira, que permitia que os filmes pornôs – brasileiros ou estrangeiros – passassem em qualquer cinema das grandes cidades (não apenas em salas especiais, como ocorre na maioria dos países do mundo), e gradativamente o cinema da Boca fez a transição dos filmes de conteúdo erótico, mas cheios de enredo, para o apelo superficial à pornografia pura e simples.

Paradoxo, aquilo que pouco antes se mostrou uma saída viável para gerar mais dinheiro, foi justamente o que matou a indústria auto-sustentável da Boca do Lixo paulistana. Massacrados pelas produções pornográficas estrangeiras, que chegavam aqui a preços mais baratos, os pornôs nacionais foram deixando de ser feitos e no final da década de 80, a Boca – intoxicada, estigmatizada e esvaziada pelo modelo fácil e de baixo custo – finalmente desapareceu.

“Oh! Rebuceteio” (1984) é exemplar típico deste período de exceção do cinema brasileiro, mas que, produzido e dirigido por Cláudio Cunha, salva-se na fronteira entre o inteligente e o execrável.

Cheio de referências sutis a universos culturais estranhos ao público que o consumiu, não é errado dizermos que vinte e poucos anos depois, o filme ainda não fechou seu ciclo, permanecendo em busca de reconhecimento, a ser revisto em mostras e exibições cult com o mesmo olhar cuidadoso que devotamos a Tinto Brass ou às produções setentistas estreladas por Brigitte Lahaie.

Repleto de metalinguagem, espécie de “A Chorus Line” sem vergonha, “Oh! Rebuceteio” nos remete a todas aquelas histórias que ouvimos desde a infância sobre liberdade sexual no meio artístico, notadamente no teatral. É este o mote para o semi-exploitation de Cunha: uma peça, um diretor com idéias de psicanálise reichiana e um elenco de jovens entre 20-25 anos ávidos pela fama.

O próprio Cláudio Cunha faz o papel de Nenê Garcia: diretor do filme interpretando o diretor da peça. O contraponto são figurantes, corpos em fúria. A atriz que vai ganhar o papel principal, sua mãe, o vilão homossexual enrustido. Nada, no entanto, é levado a sério e todo o conflito é relativizado (e, pode-se dizer, anestesiado) nas intensas orgias de sexo grupal, em todas as combinações possíveis.

Nenê Garcia é um guru da liberdade, ordena imperativamente que o grupo se solte, se liberte, enquanto ele mesmo se mantém, com pudor, nas sombras. O elenco está em suas mãos, concretizando o comando de “liberdade total” exigido pelo mestre. Transam até cansarem, em cenas de plástica cuidadosa, realizadas por alguém com evidente talento para filmar. O grande cuidado artesanal torna o sexo agradável de ser assistido, mesmo pelo espectador que não esteja minimamente interessado em voyeurismo. E os diálogos são claros, engraçados e fazem pensar além da história narrada.

Notável também é pensarmos que “Oh! Rebuceteio” foi rodado em meados de 1983, mais ou menos na época em que a Aids se espalhava pelo mundo. No Brasil chegaria com força total por volta de 1985, de modo que o discurso pesado a favor do sexo sem freios era uma espécie de canto dos cisnes, tornando o filme ainda mais interessante.

Baseado na peça “Oh, Calcutá!”, o título – que por extensão é o título da peça dentro do filme – soa quase inesquecível, lembrando um jogo de palavras barato ou o famoso termo lésbico que designa a ciranda de sexo entre várias mulheres. Mas citado durante a trama, ficamos sabendo na cena final que "rebuceteio, no dicionário, é traduzido como grande confusão. Grande confusão é a própria vida, é isto aqui...um rebuceteio” – todos se congratulam e o pano se fecha.

Com trilha-sonora de Zé Rodrix, montagem de Éder Mazzini (o mesmo de “Amor Estranho Amor” e “Anjos do Arrabalde”) e filmado no Teatro Procópio Ferreira – onde Cláudio Cunha estava em cartaz com a peça “O Analista de Bagé” – este foi o último trabalho do diretor na tela grande. Quando nos anos seguintes Cunha se dedicou ao teatro, também com grande sucesso, deixou para trás uma filmografia pequena mas diversificada, que com certeza será lembrada entre os altos e baixos na produção daquele tempo pela criatividade e ousadia no trato cinematográfico.

Ver também:
O Gosto do Pecado
Karina, Objeto do Prazer

segunda-feira, maio 08, 2006

O Gosto do Pecado


Antes de se tornar a representação em carne e osso do Analista de Bagé – personagem criado por Luís Fernando Veríssimo – e viajar pelo Brasil com a peça de teatro homônima, Cláudio Cunha atuou, dirigiu, produziu e roteirizou clássicos do cinema da Boca do Lixo.

Está certo que às vezes Cláudio não acumulava todas essas quatro funções. Mas pelo menos em um filme costuma ser lembrado na cinematografia brasileira como herói do underground nacional.

Pois bem, era 1977 e lá estava ele – então produtor da Kinema Filmes – dirigindo “Snuff, Vítimas do Prazer”, roteiro de Carlos Reichenbach e Cláudio Cunha sobre a modalidade dos pornôs “Snuff”, uma espécie de lenda urbana dos anos 70 -- filmes onde o realismo era levado às últimas consequências e os atores literalmente assassinados em cena.

Três anos depois Reichenbach assinava a fotografia de “O Gosto do Pecado” (1980), tour de force sobre o machão inseguro Júlio (Jardel Mello), que separa-se da mulher, tenta voltar, não consegue e alimenta-se das secretariazinhas suburbanas – uma delas, Alba Valéria, estrela de “Giselle” e “Os Paspalhões em Pinóquio 2000”; outra, Vânia (Simone Carvalho, esposa de Cunha na época).

O tom ocre e algo desesperado da iluminação e das imagens encaixa-se com folgas e de propósito na estrutura “novelão” do roteiro co-escrito por Inácio Araújo – também diretor assistente –, Cláudio – o diretor – e Jean Garrett – prolífico colaborador da rua do Triunfo.

Aliás, a respeito desse toque meio teledramatúrgico de “O Gosto do Pecado”, poderíamos lembrar o início de Cláudio Cunha na carreira artística – começou como ator em novelas. Mas basta uma olhada rápida no filme para percebermos o jeitão iconoclasta em que a cara-metade do terapeuta bagesense sempre se sentiu à vontade.

Afinal, poucos teriam a sacação de citar nos créditos, com toda a non-chalance do mundo, os travestis que aparecem nus em pêlo em uma boate (Susy e Tania Aloma, da “Pinck Panter” [sic].) Correndo por fora, estoques de fixações sexuais que voltariam em 1983 na explosão de “Oh! Rebuceteio”, misturadas com psicanálise reichiana e ecos de “Oh! Calcutá”.

Garotas transando embriagadamente pra valer, sem pastiche, diante de Júlio e Enéas (John Herbert). O grito de “quando eu quiser, ouviu? quando eu quiser!” de Júlio no ouvido da pobre Alba, que tem que se contentar com uma quase-curra que transforma-se em orgasmo.

Além disso, no quesito “influências”, um trecho em particular lembra “O Império dos Sentidos” – primeiro filme estrangeiro a receber o certificado de pornô no Brasil, rivalizando com “Giselle”, primeiro brasileiro a receber a mesma honra. Júlio asfixia uma garota de programa – a princípio na base do prazer (aproximando-se nisto de “O Império...”) –, mas logo descamba para a agressividade, longe da matriz japonesa, tomado pela culpa de ter abandonado o lar, a esposa (Regina, Maria Lúcia Dahl) e o filho.

Como os moralismos não fazem parte do script, vemos Júlio dividindo humilhado a mesa de jantar com o ex-grande amigo Enéas, novo namorado de Regina, a mulher que discursa como a típica feminista dos 70. Urra sobre a necessidade de ser vista, amada, procurada e sobre como tudo acabou, sobre como não há a menor possibilidade de voltarem.

Logo, o macho na visão do trio de roteiristas é uma criatura dúbia, que vive em dois mundos diferentes. Por um lado, ele não é completamente o homem estúpido, que gosta de viver a lenda que criou no escritório: a de mulherengo incontrolável. Por outro, também não é um romântico salvador e, neste sentido, a cena final antológica desperta o sorriso no canto de boca dos espectadores, alertados de que viver é uma atividade complicada demais. Vânia, alpinista social, larga o noivo e a casa da mãe, entrega-se para Júlio e este é tanto o predador cafa quanto o pai sensível que chora a saudade do filho e cogita abandoná-la sempre e sempre.

Nesse fel que perturba, “O Gosto do Pecado” cria um nó na estrutura dos folhetins, misturando-o com audácia sexual, perversão e a trilha sonora datadíssima de Jairo Ferreira. Em um tempo cada vez mais longe das samambaias no canto da sala, das calças boca-de-sino e dos penteados de gosto duvidoso, permanece a autenticidade de se falar do mundo cão que atormenta os rituais familiares em uma freqüência bem maior do que se imagina.

Ver também:
Oh! Rebuceteio
Karina, Objeto do Prazer