
Àquela altura de 78, o novo projeto de Cunha utilizava o título de uma antiga canção de Roberto Carlos, do lp de "Detalhes". Mas, estranhamente, "Amada Amante" (1978) não tinha qualquer coisa a ver com Roberto, nem a história trazia paixão visceral entre os protagonistas.
Por outro lado, Bruno Barreto estava pronto para dar o mesmo nome ao futuro "Amor Bandido" (1979). Comprara os direitos da canção e a colocara em várias cenas de Cristina Aché e Paulo Guarnieri. Quando descobriu a artimanha de Cunha teve um chilique e chamou o colega de "gângster da Boca do Lixo", em reportagem do Última Hora. Cunha devolveria dizendo que “meus filmes são dirigidos por mim, não pelo filho do meu pai”, em clara alusão ao progenitor de Bruno, o produtor Luiz Carlos Barreto, complementando: “Não tenho pai empresário, nem político de cinema”.
Ironia é que, meses depois, a crítica desancaria "Amor Bandido" rebaixando-o a "pornopolicial" – Rubens Ewald Filho, Estado de São Paulo, 14/11/78 – e contextualizando-o exatamente como subproduto de um artificialismo mercantilista, similar aos da Boca. Claro, todos estavam errados: Cunha deveria trocar o nome da sua obra; Barreto não precisaria engrossar o caldo contra Cunha; e "Amor Bandido" sobreviveu para continuar representativo do grande cinema policial brasileiro dos anos 70.
"Amada Amante", diga-se de passagem, não ficou atrás. Partindo do argumento de Benedito Ruy Barbosa, Cunha montou outro de seus intrincados novelos rocambolesco-sociológicos, observando uma família do interior que se muda para o Rio de Janeiro, mais precisamente para a Av. Vieira Souto, em Ipanema.
Instalada no endereço mais nobre da cidade, uma chegada de carro – no estilo "Família Buscapé" – é talvez o maior deslize do casal Augusto (Rogério Fróes) e Tide (Neuza Amaral), além dos filhos Fátima (Sandra Bréa), Marita (Petty Pesce) e Zequinha (Maurício Lessa). Graças, porém, ao tosco passeio vemos as obras do metrô na Av. Presidente Vargas e o prédio do Jornal do Brasil – Av. Brasil, 500 – tilintando de novo.
O resto é a inadaptação e conseqüente degradação familiar. Augusto, gerente de uma fábrica de calçados, redescobre o sexo com a secretária. Fátima – Bréa, linda até de cabeça pra baixo – enamora-se do playboy Tuca (Luiz Gustavo). Já Marita não tarda em arrumar uma companheira lésbica (??!). Observando Bréa e Pesce, uma participação de Carlos Imperial, como voyeur na janela do prédio ao lado.
Cunha sempre teve domínio de certo modelo narrativo, que aqui utiliza de forma satisfatória o bastante para o espectador nunca desgrudar os olhos das idas e vindas entre a praia, o escritório de Augusto e o apartamento. Mas sua principal manipulação é outra: a do imaginário caipira e deslumbrado sobre o Rio. Nem a Globo (ou a Riotur) faria melhor no passeio ao Cristo Redentor, nas panorâmicas da orla e na caracterização simplória dos cariocas como povo liberal e folgazão, em contraponto à "seriedade" e aos princípios hipócritas dos interioranos, que se dissolvem no turbilhão balneário.
Esse choque e atração cultural, retraduzido na briga pelo título, seria bem esmiuçado por Carlos Alberto Mattos em texto na Tribuna da Imprensa, de 31/08/78. Mattos aponta inteligentemente a incompreensão entre Barreto e Cunha espelhada também no olhar caricatural e redutor do paulista sobre a dolce vita carioca.
Em defesa de Cunha note-se que, durante as filmagens, decidiu pelo batismo provisório de "Os Caretas de Copacabana". Quando mudou de idéia, cumpriu os trâmites legais, inclusive informando-se com a Sociedade Brasileira de Autores e Compositores Musicais sobre a possibilidade de uma canção dar nome a filme, sem custo aos produtores.
Como não havia disposição contrária, inscreveu "Amada Amante" na Embrafilme. Barreto tivera idéia parecida e comprara os direitos com o empresário de Roberto Carlos, Marcos Lázaro, provavelmente ao custo de 5% da renda e mais 400 mil cruzeiros, preço cobrado antes a Cunha, que recusara. Mas, ao tentar registrar sua produção, quase finalizada, esbarrou com registro anterior de Cunha, o processo 01330/77, que tirou seu sono.
Cláudio Francisco Cunha realizaria em seguida mais dois filmes no Rio -- "Sábado Alucinante" (1979) e "Profissão Mulher (1982) -- repisando o olhar ingênuo, conflituoso e, por que não dizer?, adorável sobre seu objeto de paixão e oportunismo. A senha para entendermos tal trilogia passa ainda por esquecer qualquer má vontade e preconceito, e aceitarmos que, fazendo cinema com seu próprio dinheiro, Cunha mantinha-se honesto ao público da Av. Ipiranga e dos cinemas do Brasil profundo. Era naquela Ipanema lúdica, burlesca, que o povo das sessões do meio-dia gostava de acreditar, em contraponto ao realismo competente de “Amor Bandido”, criado por Barreto, exímio conhecedor da cidade.






