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domingo, janeiro 16, 2011

As Borboletas Também Amam


Josip Bogoslaw Tanko, o croata por trás da alcunha de J. B. Tanko, passou aquele pão com água de refugiado na Segunda Guerra. Antes da virada dos anos 50, conhece o patropi de outras crises, outros sufocos, indústria cinematográfica com o freio de mão puxado. Tanto lá quanto aqui, acostumou-se aos estúdios. Dá para se entender a fama de midas do público, os breves hiatos nos filmes ditos cricris -- um deles, o policial "Massacre no Supermercado" (1968) --, logo substituídos pelas chanchadas e sátiras. Rodou na Atlântida, na Herbert Richers, montou a própria J. B. Tanko Filmes. Especializou-se na franquia de "Os Trapalhões", com alguns dos maiores momentos do grupo -- "Os Trapalhão nas Minas do Rei Salomão" (1977), "Os Saltimbancos Trapalhões" (1981).

Em 1979, no auge do quarteto, Tanko associa-se à Ventania Filmes, de Paulo Porto, para roteirizar e dirigir o chororô "As Borboletas Também Amam". Quase uma paródia involuntária de Nelson Rodrigues, tamanha a interseção com o dramaturgo -- já havia adaptado "Asfalto Selvagem", em 1964. Mesmo nascido no leste europeu, Tanko parece confirmar aquele triste princípio de que certos nacionais quando vêem algo bem feito copiam, e copiam tão ruim que acabam diluindo e estragando o prazer do original.

Assistindo-se a "As Borboletas Também Amam", o leitor ou vai necessitar reler (rever) Nelson correndo, ou passar longe do universo rodrigueano por enjôo do genérico.
“Borboletas" deveria ser um filme sobre prostituição e prostitutas, sobre as agruras do ofício. E começa olhando Mônica (Angelina Muniz), estudante de subúrbio, que carrega junto ao peito um fichário com adesivo de Roberto Carlos e sonha, impossivelmente sonha, em um dia mudar-se para Copacabana.

Sabemos que Mônica é “anjo caído”, pois relata suas desventuras para um sujeito fim-de-noite, em um bar calorento. Relutante em se abrir, filosofa: "Todo homem antes de ir pra cama quer ouvir uma história. Da mulher abandonada, do filho ilegítimo".


Depois, se empolga. A narrativa em flashback prossegue com a mocinha indo passear no bairro adorado e voltando pra casa de ônibus. Um dia, encontra a amiga Virgínia (Rossana Ghessa), que lhe informa sobre uma casa discreta, onde podem fazer dinheiro servindo a homens mais velhos. Nesse meio tempo, Mônica frequenta a famigerada New York Disco Laser -- a mesma boate de “Sábado Alucinante”, de Cláudio Cunha -- e conhece também Flávio (Arlindo Barreto), que começa a namorar.

Em uma série de coincidências só possíveis no cinema brasileiro, o melhor cliente de Mônica é um certo Raimundo (Paulo Porto), professor de Mônica e pai de Flávio. A piada involuntária do “Professor Raimundo”, traçando a aluna em um quarto de rendez-vous, agrada a quem tenha sido criança nos anos 80 e 90, mas aqui é somente dado soporífero. Paulo Porto vive Raimundo como um Herculano em baixa rotação, não sendo Angelina Muniz nenhuma Darlene Glória e muito menos o roteiro mequetrefe, pálido, algo à altura do gênio da Aldeia Campista.

“Só a morte sabe as verdades da vida”, frase de Goethe, estampa o prólogo dos créditos. Isso deve explicar o rocambole em que vamos nos metendo: Flávio é filho bastardo de Raimundo. A mãe, sabendo que o marido não podia ter filhos, após consultar o ginecologista Dr. Franz Miller (de segunda a sexta, das 15 às 18h), sai em viagem para engravidar do primeiro que aparecesse. No caso, um chofer de caminhão. Depois de contar toda a verdade, a mãe morre. Restam Flávio e o pai. Descobrindo a frequência de Raimundo com sua namorada no bordel, Flávio obriga o pai a casar-se com ela, “honrá-la”.

Macambúzio xarope, a história permite ao menos um passeio pelo Rio do final dos 70. Cheia do tutu com os programas, Mônica anda pra cima e pra baixo de rádio-táxi, opalas azuis que faziam o trajeto Galeão-Zona Sul até meados da década seguinte. Também gosta de espiar as vitrines da Sapasso, loja de calçados que ficava na Av. Nossa Senhora de Copacabana, quase esquina da rua Figueiredo Magalhães. E, quando viaja de ônibus para fora da cidade, vai de Itapemirim, provavelmente os modelos Tribus, recém-lançados.

Amaldiçoada no cafofo copacabanense, Mônica tenta assumir seu emprego fictício, fachada para a profissão, o de "vendas exclusivas direto ao consumidor". Termina topando com Carlos Kurt, importado direto dos Trapalhões, que tenta estuprá-la junto com ninguém menos que Wilson Grey.

Somando-se Arlindo Barreto -- que seria o palhaço Bozo na TVS -- vivendo o filho do Professor Raimundo, Angelina Muniz poderia solicitar ao Fofão uma carona na nave de Adriano Stuart, outro profícuo diretor de filmes dos Trapalhões. Embora rico em ligações esdrúxulas, “As Borboletas Também Amam” é o tipo de drama que sequer envelheceu mal, pois já era antiquíssimo, com cara de Aída Cury, no mesmo período em que “Giselle” e “Império do Desejo” douravam no forno, prontos para serem lançados.

sexta-feira, abril 06, 2007

Karina, Objeto do Prazer


É curioso perceber como a figura de Jean Garrett provoca verdadeiro fascínio nas pouquíssimas pessoas que conhecem seu legado cinematográfico. Falo sobre os espectadores, não-profissionais -- aqueles que vêem os filmes apenas por hobby, e para quem a menção do nome de Garrett, no meio de uma conversa, se deve mais a uma lembrança prazerosa, e menos a qualquer outra circunstância.


O primeiro filme do diretor a que assisti foi "Tchau, Amor", alugado em uma daquelas locadoras bem fornidas de filmes nacionais, lá pelos idos de 1995. Eu era uma adolescente de dezessete anos, e o filme me pareceu pesado demais, sinistro em demasia. Voltei a ele muitas vezes, cada uma delas com uma impressão diferente. Era fascinante ver uma trama em que Antônio Fagundes, o galã charmoso, se suicida estupidamente no final.

Também era fascinante o olhar meticuloso, sem tréguas, sobre a fraudulenta relação de um homem acabado na vida e uma mulher de quem ele espera tudo, mas que o manipula como um brinquedo. Se o "Anjo Azul" tivesse sido filmado ao crepúsculo paulistano do início da década de 80, seria "Tchau, Amor". Com a vantagem de Garrett azucrinar muito mais a vida de seus personagens do que Josef Von Sternberg.

Os anos passaram, e hoje me parece incompreensível que alguém não o ache uma obra-prima pop, gótica e datadíssima. É tudo o que os "neon-realistas", que vinham chegando, gostariam de ser, se tivessem maioridade para tanto. É também declaração de amor torta a uma metrópole cinza, empobrecida e soturna. Dez minutos de "Tchau, Amor" calam a boca de centenas desses filmes azul-anil da Globo, tal como um cão feroz baba para as criancinhas.

Por tudo isso, não se espantem quando um dia decretarem, léguas depois de morto, que Garrett era um gênio da linguagem popular. Enquanto isso, permanece só nosso -- esotérico e maldito -- e dele podemos "descobrir" um filme de tempos em tempos, entre os 18 que realizou até morrer, em 1996, deprimido porque não trabalhava mais.

Minha "descoberta" outro dia foi "Karina, Objeto do Prazer" (1981), realizado um ano antes de "Tchau, Amor", sob forte publicidade -- afinal, Garrett e a estonteante Angelina Muniz, estrela de ambos, começavam uma parceria quentíssima, com direito até a entrevista de página dupla na "Amiga", do Grupo Manchete. Se a "Manchete" e a "Amiga" eram o mais perto que conseguíamos chegar da "People" norte-americana, as fotos de Angelina em biquíni sumário e de Garrett com pose de Quentin Tarantino da Rua do Triumpho, já preenchem a cláusula "porque me ufano do meu país".

Glauber Rocha, no seu intrigante "Revisão Crítica do Cinema Brasileiro", considerava a produção de São Paulo "um cinema sem possibilidades. (...) Esbanjam dinheiro em shows tipicamente provincianos (...)". Se conhecesse Garrett, Glauber -- que, piada à parte, escreveu o livro em outro contexto, 1963 -- morderia a língua ao se deparar com o universo de possibilidades que aqueles cineastas da Boca inventavam para si próprios, segundo a segundo. Em "Karina", por exemplo, o diretor engana que faz um drama de costumes, trafega para o exploitation-denúncia, até mergulhar de cabeça em autêntico romance GLS, com direito a personagens inusitadas, como a advogada lésbica (Rosina Malbouisson) que protege a tola Karina (Muniz) dos seus malfeitores. 

O caso é tão divertido, que um dos perversos exploradores de Karina é interpretado por ninguém menos que Cláudio Cunha, diretor de "Oh! Rebuceteio", "Gosto do Pecado", e colega de Garrett na Boca. Cunha -- produtor do filme, através da "Claudio Cunha - Cinema & Arte" -- rivaliza com Angelina em carisma, perdendo, claro, nas cenas de nudez, como no retumbante strip-tease ao som lounge de "How long has this been going on".

"Karina, você desceu muito. Ver você aí mostrando o corpo, tirando a roupa diante desses tarados, me magoa" -- é assim que Lucas (Cunha) tenta convencer sua presa a acompanhá-lo. Karina fora trocada por um barco de pesca, em negociação dos seus pais com o cafajeste Rufino Xavier Monteiro (Luigi Picchi), que acaba perdendo-a numa partida de pôquer (3 valetes e 2 reis contra 2 damas e 3 ases), para o rival.

Karina resiste à nova troca, e assassina Rufino. Vai parar na cadeia, onde conhece Sheila, a defensora pública, para quem conta sua triste sina: desde a aldeia de pescadores onde nasceu até a prostituição de luxo em São Paulo. Sabendo que Lucas a ganhou no jogo e prestes a receber liberdade condicional, esconde-se na casa de Sheila, sempre narrando histórias escabrosas sobre o falecido amante.

Histórias que incluem -- tirem as crianças da sala -- a preferência do celerado por bonecas-manequim vestidas de noiva, e voyeurismo explícito, oferecendo Karina ao seu púbere sobrinho. Reparem também na cena em que tio, sobrinho e Karina assistem a atividades amorosas eqüinas, em clara alusão ao clássico "Giselle", de dois anos antes.

Há um apelo surpreendente na última meia hora, quando a protagonista e Sheila encontram a felicidade e a redenção uma nos braços da outra. Amorosamente se divertem, dançam Nina Simone de rosto colado -- comemorando os 21 anos de Karina -- e em seguida transam pela primeira vez. Lucas bem que incomoda, mas acaba tendo o mesmo fim de Rufino; e as heroínas terminam juntas, apaixonadas, no desfecho mais feminista e pró-homossexual que o cinema brasileiro já conheceu.

Se você imagina a Boca do Lixo como um purgatório de mulheres depravadas -- o título por si só, seria imediatamente adotado -- tem em "Karina" nova chance de rever posições. As personagens de Jean Garrett, quase sempre, são altivas e ativas; os homens, covardes e canalhas. Quando descobrirem que Garrett foi de fato um gênio do cinema popular, descobrirão também que era um libertário ativista da igualdade entre os sexos. Talvez nem ele mesmo soubesse disso, mas a boa intenção é o que vale.

segunda-feira, agosto 14, 2006

Nos Embalos de Ipanema


Entre 1977 e 1982 o diretor, produtor e roteirista Antônio Calmon deve ter batido alguma espécie de recorde, pois dirigiu uma dezena de longas-metragens, a maioria deles obras-primas do cinema popular brasileiro. Quando finalmente teve seu estouro de bilheteria com “Menino do Rio” e a continuação “Garota Dourada”, Calmon podia se orgulhar de ter assinado trabalhos infinitamente melhores, mesmo que àquela altura obscuros para o novo público que lotava as salas em busca de odes ao surfe e à geração saúde.

Em 1978, por exemplo, o tema do surfe já aparecia em “Nos Embalos de Ipanema”, com a típica verve calmoniana, o que traduz-se por certa irreverência (além de uma dose grande de subtextos) no trato da linguagem cinematográfica. Logo é necessário que se mapeie os trabalhos do diretor e se reestabeleça a ponte autoral entre eles, já que além de filmes notáveis, Calmon deixou um estilo, uma assinatura que ninguém mais conseguiu repetir desde então.

“Nos Embalos de Ipanema” discorre, como “Terror e Êxtase”, sobre a eterna luta de classes e a tensão do choque entre pólos conflitantes. De um lado, o garotão suburbano Toquinho (André de Biase, dublado) viaja de trem todo dia, saindo de Marechal Hermes para pegar onda em Ipanema. Do outro, o beautiful people ipanemense, que trata o rapaz de forma blasé e irônica, até que descobre que ele pode ser um inocente útil.

É preciso uma leitura do cotidiano social da cidade para que a história seja melhor percebida. A praia iguala todos, ricos e pobres, que têm o direito de freqüentá-la até a hora em que vão embora e cada um, claro, se enfie de volta no seu mundinho. Nesta dinâmica, Toquinho conhece Patrícia (Zaira Zambelli), literalmente uma patricinha do bairro, que se oferece ao rapaz pobretão. Como não pode sustentar o caso, Toquinho aceita a ajuda de Das Bocas (Roberto Bomfim), intermediário de rapazes para homossexuais grã-finos e coroas.

Das Bocas apresenta Toquinho a André (Paulo Vilaça), um gay de meia-idade que escuta discos da cantora Maysa enquanto serve paella valenciana ao garoto. Transversal à trajetória de Toquinho, temos a de Verinha (Angelina Muniz), namorada do rapaz, que também se desloca de Marechal Hermes para a Zona Sul, onde trabalha em uma imobiliária cujo lema é “Venha viver no mundo maravilhoso de Ipanema”. Quando Toquinho passa a viver com André, ignora a amiga suburbana pelas ruas do bairro chique.

Toquinho, deslumbrado, vai se enchendo de uma onipotência infantil que lhe custará caro. E o experiente André tem o pleno domínio da situação – afinal, está em seu meio, manipulando um forasteiro. Toquinho tira dinheiro de André e gasta com Patrícia, boates e uma prancha nova. Quando a situação deixa de ser confortável basta a André dar o flagrante no pupilo, denunciando-o para os pais da garota, que se apavoram em vê-la envolvida com um michê.

O pai e a mãe de Patrícia (Mauro Mendonça e Jacqueline Laurence) derramam lamúrias típicas de classe-média, enquanto a garota diz a Toquinho o que realmente pensa dele: “Tem milhões de garotinhos iguais a você por aí, sacou? (...) Fazendo qualquer negócio para subir na vida e um dia ter uma família ipanemense igual essa minha. (...) Você não passa de um babaquinha se vendendo por aí, a praia está lotada de você”. E o pai de Patrícia vira para o vizinho André com ironia conciliadora: “O senhor que é feliz, é bicha, não tem mulher nem filha!”.

Regalam-se todos e sobra o intruso, mandado pastar, de preferência longe dos limites da vizinhança. Mas passado o choque de realidade, adaptando-se melhor ao “embalo”, Toquinho descobre que a ex-namorada Verinha também está “se virando” e temos a promessa de um empreendedor final feliz.

A legenda, antes dos créditos inicias, traz a letra da música de Tim Maia, “Sossego”: “Ora Bolas/ Não me amole / Com esse papo/ De Emprego/ Já Falei/ Não Estou Nessa/ O que eu quero/ É sossego”. E se os fins justificarão os meios, Toquinho e Verinha mandam a moral burguesa para as cucuias e sabem que corpos jovens e atraentes o suficiente são a premissa para que o jogo não termine – e assim, poderem se manter de pé nas ondas do paradisíaco bairro.

quarta-feira, março 15, 2006

Tchau, Amor


Rumo ao fundo do poço, se o leitor acreditar ter alguma tendência suicida, não recomendo que assista a “Tchau, Amor” (1982), de Jean Garrett. Com o incrível patrocínio da Funerária Osasco, a história mundo-cão acompanha o fracassado Paulo Reys (Antônio Fagundes), radialista de sucesso nos anos 70, mas que no princípio dos 80, decadente e atormentado pela vontade de morrer, apresenta um programa de rádio mixuruca e mantém um casamento de aparências, dos quais gostaria de se livrar juntando coragem suficiente para um salto no vão do Viaduto do Chá.

O argumento de Garrett e Inácio Araújo não deixa grandes margens para dúvida: a vida não é cor de rosa. O infeliz Paulo costuma ir para a beira do viaduto de madrugada, observar os carros que passam no abismo. Tem mulher, filhos, mora em uma casa classe-média baixa. A esposa Iara (Selma Egrei), já desistiu também há muito da vida, cuidando do filhinho pequeno, ligada no piloto automático e ignorando que Paulo passa os dias e as noites fora de casa, sabe-se lá fazendo o quê.

Em uma destas incursões noturnas, debruçado de forma absurda no viaduto, Paulo conhece Rejane (Angelina Muniz), milionária, filha de empresário, que não trabalha, não estuda, mora em um apartamento nos Jardins e namora um playboy (Dênis Derkian), de quem finge gostar apenas para matar o tempo vago.

Não é preciso dizer que Paulo e Rejane se apaixonam, e que a trama desenvolve todas as outras questões envolvendo o protagonista (ímpeto suicida, ruína profissional), sob a dinâmica do relacionamento. E façamos justiça, o cinema popular brasileiro é perfeito em mostrar dinâmicas mirabolantes entre casais. Não a problemática francesa ou a tragicomédia italiana, mas a sordidez dos pares mesquinhos e comuns, onde quase se fareja o suor de um dia de trabalho e o desejo liberto na cama redonda de um motel, sábado à noite depois dos beijos furtivos no Opala 76.

Aqui, a mimada riquinha dá as cartas e o desesperado Paulo aceita tudo o que sua mestra ordena. “Seu velho, seu coroa...” – a mocinha de vinte e poucos anos humilha o homem de quarenta e ele (literalmente) beija seus pés, calçados em uma sandália de tiras de plástico. No ímpeto de se misturar ao amante, Rejane inferniza o pai até que ele lhe dê um programa na rádio, onde o casal passa a se denominar Doutor Jekyll e Sister Hyde.

O programa faz sucesso. “Sempre tem cheiro de desgraça no ar”, uma senhora, faxineira do restaurante que Rejane freqüenta, diagnostica o porquê de ser ouvinte assídua. Tocando hits esquisitíssimos e transando com o microfone aberto, a dupla de dementes vira a sensação da noite de São Paulo. Mas paralelo a isso, o casamento de Paulo acaba em divórcio e a tragédia que antes só cheirava, começa a se concretizar.

A narrativa tem quase a estrutura das fotonovelas da Revista Amiga, não fosse a direção lúgubre de Garrett, que lembra os melhores momentos do “Comando da Madrugada” – programa de tv dos anos 80, apresentado pelo repórter Goulart de Andrade. Se a nudez abundante e perfeita de Angelina Muniz colore um pouco o caso, no geral é estranho ver Fagundes, saído de “Amizade Colorida” na Globo, se digladiando com um personagem tão horrível e sinistro.

Diferente dos cineastas populares cariocas, que quase nunca mostravam o lado ruim da cidade, os paulistanos da Boca do Lixo pareciam ter orgulho de dizer que pouco havia de glamour ou bonito na metrópole que filmavam. A São Paulo dos filmes da Boca era quase sempre um simulacro de Blade Runner – ou como Blade Runner deveria ser, se não mostrasse também uma simples estilização higienizada.

É nessa São Paulo infernal, suja e caótica que Paulo Reys, louco para morrer, perseguido por um processo de divórcio e com seu caso nos finalmentes, apresenta a edição comemorativa de um ano do bizarro programa. O que não sabe é que Rejane armou com o pai para que ele fosse demitido. Quando recebe o aviso, rouba uma perua de transmissão móvel e sai pelas ruas narrando o próprio fim. Rejane escuta no rádio a narrativa desesperada e sabe para onde ele se encaminha.

Na beira do viaduto do Chá, Paulo joga uma lata de spray lá embaixo, testando a violência do impacto. A cena é inteligente, pois no exato momento em que a lata se espatifa, o carro da maligna Rejane vem passando para tentar salvá-lo. Se fosse um verdadeiro dramalhão de fotonovela, a mocinha teria salvo o amante e acabariam entre beijos. Mas como é cinema da Boca, ele ganha coragem e pula glorioso para o fim tantas vezes sonhado.

Jean Garrett, na verdade José Antônio Nunes Gomes da Silva, dirigiu quase vinte filmes, entre eles o clássico “Mulher, Mulher” com Helena Ramos e o surrealista “O Beijo da Mulher Piranha”. Profissional de fotografia bastante requisitado, na direção dos seus longas era preocupado com a qualidade do que filmava, o que pode ser comprovado nos filmes que fez na Dacar, produtora de David Cardoso, sendo “Amadas e Violentadas” (não se assustem com os títulos, eram puro sensacionalismo ingênuo) o mais bem feito deles.

“Tchau, Amor” já é de uma fase posterior, onde um Garrett mais displicente abria mão dessa qualidade pela quantidade. Seu último filme é de 1986, quando a decadência dos esquemas tradicionais de produção o obrigaram, como tantos, a tentar a vida de outra forma. Morreu de ataque cardíaco em 1996, deprimido, sem conseguir voltar a filmar. E quem perdeu fomos nós, pois seus filmes de cunho popularesco um dia serão revalorizados e o distanciamento crítico os torna mais curiosos do que indigestos.