segunda-feira, agosto 14, 2006

Nos Embalos de Ipanema


Entre 1977 e 1982 o diretor, produtor e roteirista Antônio Calmon deve ter batido alguma espécie de recorde, pois dirigiu uma dezena de longas-metragens, a maioria deles obras-primas do cinema popular brasileiro. Quando finalmente teve seu estouro de bilheteria com “Menino do Rio” e a continuação “Garota Dourada”, Calmon podia se orgulhar de ter assinado trabalhos infinitamente melhores, mesmo que àquela altura obscuros para o novo público que lotava as salas em busca de odes ao surfe e à geração saúde.

Em 1978, por exemplo, o tema do surfe já aparecia em “Nos Embalos de Ipanema”, com a típica verve calmoniana, o que traduz-se por certa irreverência (além de uma dose grande de subtextos) no trato da linguagem cinematográfica. Logo é necessário que se mapeie os trabalhos do diretor e se reestabeleça a ponte autoral entre eles, já que além de filmes notáveis, Calmon deixou um estilo, uma assinatura que ninguém mais conseguiu repetir desde então.

“Nos Embalos de Ipanema” discorre, como “Terror e Êxtase”, sobre a eterna luta de classes e a tensão do choque entre pólos conflitantes. De um lado, o garotão suburbano Toquinho (André de Biase, dublado) viaja de trem todo dia, saindo de Marechal Hermes para pegar onda em Ipanema. Do outro, o beautiful people ipanemense, que trata o rapaz de forma blasé e irônica, até que descobre que ele pode ser um inocente útil.

É preciso uma leitura do cotidiano social da cidade para que a história seja melhor percebida. A praia iguala todos, ricos e pobres, que têm o direito de freqüentá-la até a hora em que vão embora e cada um, claro, se enfie de volta no seu mundinho. Nesta dinâmica, Toquinho conhece Patrícia (Zaira Zambelli), literalmente uma patricinha do bairro, que se oferece ao rapaz pobretão. Como não pode sustentar o caso, Toquinho aceita a ajuda de Das Bocas (Roberto Bomfim), intermediário de rapazes para homossexuais grã-finos e coroas.

Das Bocas apresenta Toquinho a André (Paulo Vilaça), um gay de meia-idade que escuta discos da cantora Maysa enquanto serve paella valenciana ao garoto. Transversal à trajetória de Toquinho, temos a de Verinha (Angelina Muniz), namorada do rapaz, que também se desloca de Marechal Hermes para a Zona Sul, onde trabalha em uma imobiliária cujo lema é “Venha viver no mundo maravilhoso de Ipanema”. Quando Toquinho passa a viver com André, ignora a amiga suburbana pelas ruas do bairro chique.

Toquinho, deslumbrado, vai se enchendo de uma onipotência infantil que lhe custará caro. E o experiente André tem o pleno domínio da situação – afinal, está em seu meio, manipulando um forasteiro. Toquinho tira dinheiro de André e gasta com Patrícia, boates e uma prancha nova. Quando a situação deixa de ser confortável basta a André dar o flagrante no pupilo, denunciando-o para os pais da garota, que se apavoram em vê-la envolvida com um michê.

O pai e a mãe de Patrícia (Mauro Mendonça e Jacqueline Laurence) derramam lamúrias típicas de classe-média, enquanto a garota diz a Toquinho o que realmente pensa dele: “Tem milhões de garotinhos iguais a você por aí, sacou? (...) Fazendo qualquer negócio para subir na vida e um dia ter uma família ipanemense igual essa minha. (...) Você não passa de um babaquinha se vendendo por aí, a praia está lotada de você”. E o pai de Patrícia vira para o vizinho André com ironia conciliadora: “O senhor que é feliz, é bicha, não tem mulher nem filha!”.

Regalam-se todos e sobra o intruso, mandado pastar, de preferência longe dos limites da vizinhança. Mas passado o choque de realidade, adaptando-se melhor ao “embalo”, Toquinho descobre que a ex-namorada Verinha também está “se virando” e temos a promessa de um empreendedor final feliz.

A legenda, antes dos créditos inicias, traz a letra da música de Tim Maia, “Sossego”: “Ora Bolas/ Não me amole / Com esse papo/ De Emprego/ Já Falei/ Não Estou Nessa/ O que eu quero/ É sossego”. E se os fins justificarão os meios, Toquinho e Verinha mandam a moral burguesa para as cucuias e sabem que corpos jovens e atraentes o suficiente são a premissa para que o jogo não termine – e assim, poderem se manter de pé nas ondas do paradisíaco bairro.

8 comentários:

sergio disse...

Não conheço esse filme. Aliás conheço menos filmes do Calmon do que gostaria. Tenho muita vontade de ver "Revólver de Brinquedo", que o Biáfora elogiou muito na época mas acabei perdendo.
Mas o Calmon merece ter sua obra melhor estudada, e quem decidir enfrentar a empreitada deve começar justamente pelos pontos que vc mencionou, a irreverência e a grande dose de subtextos, características marcantes em Capitão Bandeira..., O Bom Marido e Terror e Extase, para citar apenas alguns dos que eu vi.
Beijo :)

Marcelo Carrard disse...

Oi ANDRÉA. O Calmon tem uma filmografia muito interessante de um quase subgênero dentro do Cinema Brasileiro. Acho muito engraçado como foi trabalhado o personagem do André de Biase, quase um ingênuo para os padrões de hoje. Aquela voz não é dele, ele foi dublado ou é impressão minha? O final do filme é maravilhoso e a música do Tim Maia cai como uma luva dentro da história. Vou fazer uma Menção Especial ao seu livro no Editorial dos 60 mil acessos do Blog em breve, aguarde. beijo grande.

Andréa Ormond disse...

Sergio, os subtextos no Calmon são muito marcantes, apesar de geralmente não serem comentados. Tenho a impressão de que o Calmon é associado em excesso à televisão, como se fosse o único terreno, exclusivo, em que ele tivesse trabalhado. Beijos!

Oi Marcelo, o Biase foi dublado mesmo. Deve ter sido algum contratempo na produçao, já que a voz dele é super emblemática (mesmo ele sendo muito novinho na época do filme). Obrigada pela menção ao livro, querido, fico aguardando :) Um beijo!

Didi disse...

Interessante observar a filmografia do Calmon que já dessa época demonstra um interesse por dois temas recorrentes em sua obra: a juventude e a praia. Isso pode ser visto inclusiva no grande sucesso dos Anos 80, a Armação Ilimitada, com o mesmo André di Biase, e também em suas telenovelas, embora as últimas não obtiveram o mesmo sucesso e nem foram tão interessantes como Top Model e Vamp, que são ícones para geração adolescente dos anos 90, meu caso.

E neste filme formidável o que me chama mais a atenção é a excelente atuação do Villaça, bem como o jogo de classes que você esclareceu em seus comentários de forma muito bem feita.

Parabéns mais uma vez!

Anônimo disse...

fantastico filme se analisarmos e atual ate os dias de hj.a trilha sonora muito boa em especial a musica ouça de maysa tema de andre o gay do filme fantastico trabalho de calmon gostaria de adquirir em dvd.

Jorge disse...

Bom filme, apesar do final aberto que incomoda um pouco... aliás, incomoda um pouco também a sorte do protagonista quando está sem dinheiro pra pagar o motel e recebe um prêmio da administração do motel, eis um acaso que qualquer roteirista ao menos razoável condenaria. Hoje em dia vemos Calmon como escritor de novelas da Globo, sem demonstrar um décimo do talento que mostrava como roteirista e diretor de bons(como nos embalos de Ipanema) e ótimos filmes como Terror e Êxtase e Eu Matei Lúcio Flávio, isso além de ter sido co-roteirista de um grande filme dos anos 80: Dedé Mamata.

Jorge disse...

Deve-se acrescentar ainda que a lei do Gérson guia o filme e ainda assim torcemos pelo protagonista Toquinho, pois ele é empático, sem dúvida nenhuma. O mesmo ocorre com outro filme que você resenhou, o “Embalos Alucinantes”, embora esse último seja inferior a “Nos Embalos de Ipanema”

ADEMAR AMANCIO disse...

O que me grila no cinema nacional são os galãs sem pose de galã,ou melhor,sem atributos do galã clássico.