quarta-feira, novembro 02, 2005

Secas e Molhadas


À luz do século XXI – dos últimos anos que viraram o entretenimento de massas de cabeça para baixo – tentar uma valoração do cinema de Mozael Silveira pode ser algo próximo a escrever um exemplar de “Sânscrito Para Principiantes”.

Baiano de nascimento, carioca por adoção, Mozael foi, como tantos, realizador generoso durante a década de 70 para, no início dos 80, murchar e desaparecer como um peixe fora d´água. Lançava um filme por ano, com parcos recursos e grande criatividade naïf. O resultado, sem meias-palavras, é uma cinematografia que, de tão constrangedora, chega a ser curiosa.

“Secas e Molhadas” (1977) fornece as boas-vindas ao estranho mundo mozaelense. Inspirado em “Vai Trabalhar Vagabundo”, de Hugo Carvana, o diretor – que também atuava –, cria sua própria versão do malandro da metrópole, rebelde por vocação, que na recusa ao trabalho, expõe ao ridículo a estrutura social que parasita.

Este tipo urbano carioca encontrou em meados dos anos 70 sua encruzilhada: pelo fato de a capital do país ter deixado a cidade há tempo demais, contestar o poder estabelecido significava gritar ao longe, para a estranha cidade do Centro-Oeste.

Sem a ressonância de outrora, o vadio descambava para a simples marginalidade. Morria o funcionário público (Mozael) que fugia da repartição para ir à praia. Morria o poder oculto de sentir-se “protegido” e fazer o que desse na telha. Se até hoje os cariocas soam pitorescos na sua auto-suficiência existencial, devem isso à irreverência de quem vivia tão perto do poder que sabia exatamente como esculhambá-lo.

Os filmes de “malandro”, sérios ou subprodutos da pornochanchada, acabavam por retratar o crepúsculo desse estado de coisas. Lá figura o personagem de Mozael, o Barão Carlito Canadá, vivendo no fio, no limite de sua inteligência e da eficácia dos seus golpes. Dentro da precariedade técnica, Mozael não esconde que Carlito é um frouxo, um pobre-diabo prestes a cair na real de que a cidade não era mais a mesma e o fim da antiga fartura, que gerava sobras, ia terminar jogando-o na sarjeta dos párias.

Convivem com o Barão Carlito toda uma gama de outros pequenos golpistas. Marta Porreta (Lameri Faria) é figurante e modelo-manequim de terceira categoria, habitante do famoso edifício de quitinetes “Barata Ribeiro, 200”. Juntos formam o “par romântico”, que planeja e executa o estelionato em um empresário fuleiro. Ao mesmo tempo, um homossexual doentio cafetiza uma jovem mulher com quem se casou, oferecendo-a para outros homens. Do cruzamento dos quatro personagens nascerá a razão de ser do filme. Na primeira hora, engana parecer apenas uma seqüência de esquetes cômicos, com a cadência clássica das pornochanchadas.

Mas só acredita ser “Secas e Molhadas” uma comédia quem não tem o olhar treinado. Mozael dirige, na verdade, um drama bufo. Quer, a todo custo, humanizar seu péssimo e repugnante personagem, fazê-lo simpático, gerando, porém, uma sensação de extrema repelência. Deste mal estar, desta bizarrice, capitaneia a atenção de quem assiste à história.

Uma boa maneira de explicarmos tudo isto é dizer que Mozael situa-se, no cenário fílmico brasileiro, como um anti-Walter Hugo Khouri. Se Khouri obtinha da técnica o resultado preciso, resta claro que Mozael só produz o involuntário; se Khouri concebia no apuro estético a compreensão de sua alma-mater, Mozael gira em torno de sua precariedade e diagnostica, com ela, o âmago dos fantasmas que o perseguiam. Em suma, se o paulista Khouri acreditava que a razão controlada é a chave da emoção, o baiano Mozael desconhece existir qualquer estado diferente dos seus esgares emotivos – seja de choro, de riso, de pesar. E extrai do primarismo fisiológico tão somente aquilo que possa conduzir o espectador à conclusão mais imediata possível.

Ao término de “Secas e Molhadas”, o Barão Carlito reside em uma barraca na Praia de Botafogo. A polícia vem prendê-lo. Flagra-o sem dar o braço a torcer, elocubrando explicações – para uma possível paquera – sobre o porquê de ter optado pela semi-mendicância. É uma cena brilhante, dessas que grudam na mente durante anos.

Em outro momento, Mozael e Lameri almoçam no diminuto apartamento da menina. O “Barão” narra as peripécias de sua vida de falseador, salafrário. Há, nitidamente, o esforço tocante dos atores para que a cena saia boa – e sai horrível. Aqui brilha a luta inglória de bárbaros contra a barbárie, de ignorantes contra as trevas que os limitam.

O cinema-chulé de alguém que filmava panorâmicas do Rio trepado em um matagal, vale como aviso aos jovens cineastas. É fácil fazer um filme. Difícil, mas difícil mesmo, é dar a cara à tapa por ele, como Mozael fazia com seus “filhos”, feios e vãos, como ele próprio.

7 comentários:

Anônimo disse...

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Milton do Prado disse...

Putz, correntes-falcatrua em comentários de blog eu ainda não conhecia. Andréa, belo texto, hein? Nunca tinha ouvido falar no Mozael Silveira.

Eduardo Aguilar disse...

Elogiar seus textos é chover no molhado, mas aqui vc. surpreende outra vez, pq. consegue estimular-nos a abrir os olhos p/ os filmes de Mozael, cientes de q. não surgiram obras-primas, mas q. é possível encontrar muito mais do q. se via, tipo, o olhar q. Burton deu sobre Ed Wood, além da técnica, além da cultura, um naif q. tem o q. dizer. O Matheus vai adorar esse texto, pq. num papo de bar, ele defendeu o Mozael com unhas e dentes.

fernando disse...

Mozael está praticamente esquecido! Andréa, você surpreende, o cara merecia uma retrospectiva para que possa ser visto com um olhar livre de preconceitos. Abraço.

Matheus Trunk disse...

MOZAEL SILVEIRA é um dos mais bizarros e inesquecíveis diretores do Beco da Fome. O filme dele com o Grande Othelo e com o Costinha é um dos filmes que mais dei risada na minha vida. Ele é uma figuraça, um sujeito sensacional. "Sete Mulheres Para Um Homem Só" é um clássico, e há vários outros que sempre passam no Canal Brasil. Mozael como disse o meu amigo Agúilar, eu defendo mesmo com unhas e dentes, como defendo Élio Vieira de Araújo, Leogivildo Cordeiro, Wilson Grey, Carlo Mossy, Jean Garret, Salvá, Carlão e toda a galera.

Andréa Ormond disse...

fala milton, pois é, o blogspot arrumou um jeito de fazer "publicidade", acredito ;)

oi eduardo, mozael provavelmente envelhece esquecido em algum canto deste país e com certeza, podemos fazer algo para mudar isso. esse texto foi só um pontapé inicial :)

fernando, a retrospectiva há de ser feita, com a presença do próprio, se deus quiser :)

matheus, você sabe que eu e a carol tb defendemos com unhas e dentes todos estes e mais alguns :) segunda-feira vamos colocar no ar aqui no blog uma surpresa que tenho certeza, vc vai gostar :)

LSanti disse...

Na semana passada, assisti Secas as e Molhadas pela segunda vez, e confesso que com o mesmo ar de ligeira antipatia pelo personagem Carlito Canadá que já havia sentido na primeira vez. Isso porque via nele certa tentativa de glamurizar (ainda que às avessas) o “malandro esperto”, coisa muito comum nos anos 70, quando a “Lei de Gerson” (coitado) ainda vigorava. Confesso que nunca aceitei muito bem a idéia do Grande Ariano Suassuna de que “a esperteza é a arma do pobre, que mente para se defender...” Porém ao ler sua analise, me vi novamente diante de uma Pérola. Como já disse em outro comentário, achei esse Blog por acaso (ao lançar o nome de Jean Garret no Google). O problema agora é conseguir sair dele. Mais uma vez, Parabéns.