quarta-feira, setembro 20, 2006

Fulaninha


“Fulaninha” (1986) é tão bom, mas tão bom, que só poderia ter sido feito com o desprendimento e a tranqüilidade que caracterizavam a mão segura de David Neves. Filmando como quem respira, de David Neves pode-se dizer tudo, menos que carregasse em seus filmes o peso do mundo: toda a tensão dramática ou trágica que consegue exprimir logo acaba absorvida em considerações atenuantes, sejam de humor, de lirismo ou mesmo de resignação.

Isso o torna um exemplo de cineasta no qual os mais jovens deveriam se mirar, antes de trocarem de profissão ou aprenderem que quanto mais alguém afirma que é importante, menos com certeza tem qualidades próprias para sê-lo. Do alto de sua genialidade discreta, David relutava em fazer algo além de filmar e viver. E gostava de filmar, quase sempre, aquilo que vivia ou observava nas ruas da cidade amada.

“Fulaninha” é exemplar dessas andanças: como morador da Avenida Prado Júnior, no epicentro de Copacabana, tornou possível um filme sobre o cotidiano da rua e sua vizinhança. Se o Rio de Janeiro encerra uma síntese do Brasil, pode-se dizer que Copacabana é a síntese do Rio – e o microcosmo do país em toda a sua grandeza e pequenez.

Bairro nobre, de frente para uma das praias mais bonitas do mundo, na Copacabana dos hotéis de luxo e da vida abastada há um avesso facilmente visto, em enormes edifícios de apartamentos minúsculos e na população flutuante, que diariamente desembarca na princesinha do mar em busca dos dólares do turismo e do comércio. Isso torna o lugar por vezes saturado e caótico – fascinante para quem o compreende em sua multiplicidade e intrigante (por vezes hostil) para quem chega forasteiro ou provinciano.

E é nessa Copacabana de tantas explicações que David coloca sua fauna de personagens. Na Prado Júnior convivem os amigos Bruno (Cláudio Marzo), Canela (Roberto Bomfim), Jardel (José de Abreu) e Hermínio (Flávio São Thiago), todos naquele limite de desocupação e disponibilidade que tornam um mistério a sobrevivência material e financeira de certas figuras cariocas. Freqüentadores do mesmo bar, aos poucos percebemos que se Jardel é desempregado profissional, Hermínio é advogado. Já Bruno e Canela atuam na mesma área – o cinema – mas se o primeiro é cineasta pretensioso, o outro ganha dinheiro com vídeos pornográficos.

É Bruno que, em uma tarde copacabanense igual às outras, descobre Fulaninha (Mariana de Moraes), garota que namora um surfista (Marcos Palmeira) e por quem o lobo quarentão adquire uma espécie de obsessão delicada. Sem que Fulaninha perceba, Bruno passa a filmar seu cotidiano, suas idas à praia, seus laços de amizade momentâneos. Como há um filme dentro do filme, David aproveita para nos mostrar a Prado Júnior e as miudezas de seus humanos habitantes.

Dramas paralelos vão acontecendo: Hermínio perde um longo processo que o obriga – supremo desgosto – a trabalhar para sobreviver (!). Fulaninha tem uma relação conturbada com a mãe, Rose (Kátia D´Ângelo), e Rose por sua vez tem caso amoroso com um marginal (Paulo Vilaça). Em certo momento esses destinos se cruzarão e cada um libertará o melhor de si para o mundo.

Além da anotação antropológica dos hábitos locais, “Fulaninha” oferece como atração extra um retrato da época, os meados dos anos 80, com toda a inocência que se dissolvia dando lugar ao país amargurado e sem amor-próprio em que vivemos hoje. Mal ou bem, o Brasil e o Rio de Janeiro retratados no filme transparecem um orgulho cosmopolita e cordial – que não se perdeu, mas que o cinema brasileiro contemporâneo, no rastro da dissolução de nossa identidade cultural, passou a ter vergonha de mostrar.

“Fulaninha” não é o melhor filme de David Neves – o título vai para “Muito Prazer”, de sete anos antes. Junto com “Jardim de Alah”, os três compõe a famosa trilogia carioca do diretor, que morreu em 23 de novembro de 1994 e deixou de presente para o mundo um elogio à vida – principalmente à vida passada entre os bares, ruas e praias
da Zona Sul. Todos os brasileiros, à menção de seu nome, poderiam dizer baixinho, com a suavidade que o caracterizava: obrigado.

5 comentários:

Matheus Trunk disse...

Cara Andréa, muito boa a crítica e a homenagem ao David. Eu até gosto dele e de MUITO PRAZER (em que o Otávio Augusto está demais), mas prefiro aquele baseado no Rubem Fonseca com a Adriana Prieto. Mas ele deveria ser melhor estudado: merecia uma mostra só dele. Aquele livro que lançaram de artigos dele eu não li, mas parece ser legal. Já leu ? Faltou apenas dizer que este FULANINHA tem trilha sonora do genial Paulinho da Viola. O David morreu muito cedo e era um dos mais interessantes personagens de sua geração. Bjos, Matheus.

sergio andrade disse...

Vi pouca coisa do David, se bem que ele dirigiu poucos filmes mesmo. Muito Prazer vi faz muito tempo e na época não gostei muito, preciso rever, mas o "bressoniano" Memória de Helena é obra-prima! Bjs!!!

Andréa Ormond disse...

Matheus, o Lúcia McCartney tb é um dos meus favoritos, mas ainda fico com o Muito Prazer e Memórias de Helena. Este, aliás, assisti há um tempão atrás numa sessão em homenagem ao David, no cine Odeon, aqui no Rio. Bjs

Sergio, Memória de Helena é deslumbrante, ainda mais na telona, sem as limitações da tv. Mas dá uma conferida no Muito Prazer, revendo com calma vc vai achar mais pontos legais pra gente comentar :) Bjs!

Anônimo disse...

Gostaria de saber se alguem pode me dizer se encontro o filme Fulaninha em VHS ou DVD, pois é um dos filmes nacionais mais engraçados que eu já vi.
Se souberem por favor me mandem - betooliveira4@superig.com.br

edson disse...

minha esposa fez uma participação neste filme fulaninha quando namoravamos hoje temos 20 anos casados, gostariamos de relembrar. onde encontro o filme em dvd , por favor
me comuniquem,
abs,
edsonjayme@yahoo.com.br