sábado, março 21, 2009

As Quatro Chaves Mágicas


Sem meias palavras, pois grandes filmes não precisam de meias palavras: que maravilha é "As Quatro Chaves Mágicas" (1971), obra infanto-juvenil do espanhol naturalizado brasileiro Alberto Salvá.

Saindo do transe neo-realista de "Um Homem Sem Importância" (1971), Salvá achou por bem embarcar em uma viagem fantástica, lisérgica, mais ou menos inspirada no conto "Haensel und Gretel" (João e Maria), dos irmãos Grimm. O resultado misturou aventura, filosofia, ideologia naturalista e terror kitsch. Dedicado às crianças e aos puros de coração, lançado nos cinemas cariocas em julho de 72, pode ser visto ainda
hoje sem medo por aqueles que guardam a infância em algum escaninho da memória.

João (Lula) e Maria (Dita Côrte-Real) são dois amigos que partem em um jipe pelo interior fluminense, naquele estilo de "o que vier é lucro" tão típico da época. Sofrem assédio de um bando de malandros (Milton Gonçalves, Wilson Grey e Emiliano Queiroz), mas acabam salvos por um japonês misterioso (Kazuo Kon), com quem passam a viver acampados em uma praia, tomando lições da cultura oriental.

Um dia, o japonês vai embora e a dupla de amigos precisa se virar sozinha. Encontram a casa de Astarte (Isabella), mulher má, narcísica, que encanta-se com João e mantém ambos sob seu controle. Passeando pelos arredores da casa, Maria descobre um mundo paralelo na natureza, simbolizado pela figura do gnomo Arad (Meio-Quilo), que lhe conta ser a balzaquiana Astarte uma bruxa perversa, induzindo os elementos naturais em proveito próprio.

Maria faz um pacto com o gnomo: se ele ensiná-la o poder da bruxa, ganha dois queijos. Fascinado por queijo (do branco, aquele que no Rio e em São Paulo é conhecido como "de Minas"), o gnomo vira uma espécie de mestre da garota. Quando ela domina os quatro elementos (Água, Terra, Fogo e Ar, uma coisa meio "Clareana"), parte para enfrentar a bruxa. O efeito da peleja fica para ser visto.

Entre a praia -- onde vivem com o japonês -- e a casa típica de montanha -- onde mora Astarte -- engana a impressão de uma curta floresta. Na verdade, Salvá aproveitou-se da geografia exuberante do estado do Rio e filmou a praia em Cabo Frio e a casa da bruxa em Nova Friburgo, distante cerca de 200 km e mil metros de altura. Talvez por influência da história, nos anos seguintes Friburgo e seus distritos (Lumiar, São Pedro da Serra), virariam meca de peregrinação hippie, com bandos de bicho-grilos à caça dos gnomos e seres mágicos, que diga-se de passagem, nunca deram as caras. A não ser para quem realiza uma preparação, e já chega ao local aditivado.

Sobre o elenco, vale ressaltar que o técnico de som Kazuo Kon fez várias participações no cinema da década de 70, inclusive em "Um Homem Sem Importância"; que Dita Côrte-Real tinha 19 anos de idade e era namorada de Salvá; e que Lula havia sido coadjuvante em outro filme infanto-juvenil, "Marcelo Zona Sul", onde fazia Miguel, o melhor amigo do protagonista.

Citação inteligente, antes de partirem para a viagem de jipe, Dita Côrte-Real aparece lendo o livro "João e Maria". Enquanto Lula conversa com seu irmão (Daniel Filho), Dita mostra a ele figuras do livro, apontando Maria -- ela -- e João -- ele. Tamanha delicadeza, o cinema brasileiro infelizmente perdeu.

Mas o sentido perfeito da história vai muito além da adaptação: a Maria de Salvá é a pureza, a juventude que não se deixou destruir pelo egoísmo. A Anima em estado bruto. João, aprisionado moralmente pela bruxa, é o símbolo da redenção do homem ao utilitarismo, ao péssimo empreendimento de usar a natureza sem compreendê-la, somente em proveito próprio. Quando ganha o poder de enxergar o gnomo e conversar com ele, Maria trará a chave para a prisão em que o mundo adulto -- representado por Astarte -- deseja cerceá-los.

Como na canção de Taiguara, ao querer repartir seu mundo errado, Astarte encarna o mal, a ruína. Sentido deixado às claras na primeira cena, quando o avô de Maria (Abel Pêra) tem última conversa com a neta, orientando-a a nunca seguir indicações gastas dos adultos, mas a descobrir por ela mesma os caminhos que deseja trilhar na vida.

"As Quatro Chaves Mágicas" é esse castelo de pequenas minúcias, de símbolos organizados com intenção sutil de uma reflexão filosófica. Quando enfrenta a bruxa, Maria surge vestida de branco, imaculada; Astarte calça pesadas botas e roupa preta. João insiste em ter aulas com a bruxa, que se diz professora. Logo, nunca vê o gnomo, nem alcança o poder de Maria, que passa a dar pequenos rasantes enquanto caminha pela floresta.

Não é preciso dizer que "As Quatro Chaves Mágicas" foi morno de público: planejado inicialmente para crianças de 6 a 12 anos, acabou em um limbo comercial, onde permanece até hoje. Chegou a ser relançado com outro título, "João e Maria na Floresta Encantada", ganhou prêmios do INC, mas nada que se assemelhasse à lucrativa febre que o cinema infantil viveria no país poucos anos depois.

No fundo, os filmes de Salvá -- até mesmo "A Menina do Lado" (1987) -- guardam tanta sinceridade e honestidade que qualquer rótulo para vendê-los torna-se hipócrita, contraproducente ao carinho e capacidade criativa que demonstrou. O melhor talvez seja -- a exemplo de tantos talentos brasileiros -- maltratá-lo, esquecê-lo. Pelo bem dos cineastas impuros de coração.


12 comentários:

Anônimo disse...

Oi Andrea, te mandei um e-mail, será que não respondeu ou anda sem tempo? Vou reenviar.

Ricardo Matarazzo disse...

Post foi anonimo. Meu nome é Ricardo. Teu endereço de email aqui do blog está atualizado?

Andrea Ormond disse...

Olá Ricardo, estou com bastante emails na fila para responder, mas dei uma busca agora e não consta nenhum seu. Meu endereço é esse aqui no blog. Se for algo importante, por favor reenvie.

Anônimo disse...

Belíssimo texto, digno de quem realmente ama e se preocupa com o cinema brasileiro. O Salvá realmente fez algumas coisas bem interessantes Andrea, mas é outro realizador que permanece esquecido. Realmente nos anos 70, o cinema nacional era muito forte. Excelente crítica, demonstrando o talento e a garra de grandes diretores do passado.
Matheus Trunk
www.violaosardinhaepao.blogspot.com

Andrea Ormond disse...

Matheus, pretendo entrevistar o Salvá tb, está entre as minhas prioridades. Ando sentindo falta é da Zingu!, espero que o próximo número saia logo :)

André Setaro disse...

Por onda anda Alberto Salvá? Realizador sensível, com senso de humor, humanista, dotado de ironia, e autor de um dos mais importantes filmes do cinema brasileiro: "Um homem sem importância", com Oduvaldo Vianna Filho e Glauce Rocha, que, feito durante os anos de chumbo, creio que em 1972, passou em brancas nuvens e não é mais citado.Vi num cinema "poeira" relegado a segundo plano, mas nunca o esqueci. Desde o seu episódio de "Como vai, vai bem?", em 1969, e acho que sua estréia no cinema, há talento no cineasta. Procuro para rever "Maniacus eroticus" (1976), uma manifestação total de "no chalance", com Sandra Barsotti e Dilma Loes, também outro filme que desapareceu e que, na minha modesta opinião, é uma das obras mais escrachadas do cinema brasileiro da década de 70 (deixa muito filme chamado "marginal" no chinelo).

Daniel P disse...

A resenha é linda. Não vi o filme mas o resumo me remeteu ao clima de Tati, a garota. Pelo que tenho pensado, o pior do passar do tempo é esse conflito com as mudanças tão dramáticas pelas quais passa a sociedade e que a gente, por ter sobrevivido, vivencia, ou apenas olha pelo lado de fora. Pelo que vc escreve, como comparar aquela sociedade que produziu Tati, Tio Maneco, O Auto da Compadecida com o Fagundes, com Xuxa e os Duendes? só pra citar um exemplo.
Ah! consegui Tchau Amor, Viagem ao Céu da Boca e a Amulher que inventou o amor. Vou ver e tentar incrementar os debates.

Andrea Ormond disse...

Setaro, há tempos atrás escrevi um texto aqui no Estranho Encontro sobre o "Um Homem sem importância", filme que se sente um amálgama forte entre o trabalho de Vianinha e o de Salvá. Tb me impressiona bastante. Como falei com o Matheus, pretendo entrevistar o Salvá logo, assunto é o que não falta. Abraços!

Obrigada, Daniel. Essas mudanças são inevitáveis, a gente sabe, o problema está no clima de falta de inventividade, no caminho de seguir coisas toscas, chuleiras. A polêmica do filme do Mojica, como comentei aqui no blog, é sinal desse estado de coisas... Que bom vc ter encontrado esses filmes. O primeiro e o terceiro, quero dizer rsrs

nuno disse...

O filme sempre tá passando nos fds no canal CINEBRASIL TV. Eu tive a oportunidade de vê-lo 2 vezes e realmente é encantador. Muito lírico. E prende vc diante da telinha mesmo!

Luiz Marcio disse...

Fiquei bem impressionado com a música dos créditos iniciais.
Cheguei a reparar um possível nome da banda nos próprios créditos:
Tráfego Livre
Isso está correto ?
Como poderia procurar informação ? Já tentei buscar no Google , até agora sem sucesso..

Anônimo disse...

Ola! Eu vi este filme e fiquei encantado. Busco reve-lo ha anos, mas moro no Canada. Alguem conhece algum site onde eu possa ve-lo online? Se sim, por favor coloque aqui! Obrigado, fabio

Andrea Duarte disse...

Andréa,gostaria de saber como faço para conseguir ver esse filme,pois sou a filha do lula,e só tenho algumas fotos,procuro tb outro filme dele menino de calçada.se por acaso vc puder me ajudar agradeço.se puder me dar uma resposta.andreasouza1206@bol.com.br.obrigada Andréa Souza