sábado, dezembro 02, 2006

Uma Mulher Para Sábado


"Uma Mulher Para Sábado" (1970) é daqueles filmes que certos diretores paulistas, no final dos anos 60 e início dos anos 70, pareciam ter prazer em realizar.

Caminhando em tendência oposta às investigações de estéticas marginais e aos questionamentos estritamente brasileiros, obras como esta, "Cordélia, Cordélia", de Rodolfo Nanni, ou mesmo "O Quarto", de Rubem Biáfora, hoje praticamente esquecidas, surgiram em um período difícil de radicalismo e exacerbações, buscando no intimismo e no drama burguês -- em sentimentos universais -- narrativas elaboradas, densas e adultas, com clara inspiração no cinema japonês dos anos 50 e 60, em diretores europeus (Bergman, Antonioni), e no marco "Noite Vazia" (64), de Walter Hugo Khouri.

Em "Uma Mulher Para Sábado" elementos khourianos surgem com clareza -- o jovem diretor, Maurício Rittner, antes esteve na equipe de "Corpo Ardente" e "Noite Vazia". Lá estão a busca do absoluto, a angústia existencial que conduz a uma necessidade de amor incondicional; e também a tensão narcisista masculina, a disputa muda -- e histérica -- entre homens pela posse impossível do mistério feminino.

Baseado no romance "As Regras do Jogo", de Mário Kuperman, o roteiro escrito a quatro mãos pelo próprio escritor e por Rittner, narra a fuga de quatro jovens, Doriane (Adriana Prieto), Nando (Miguel Di Pietro), Loco (Flávio Portho) e Inês Knaut (tratada como "Moça número 1"), para um refúgio paradisíaco em Ilhabela, onde -- sob o patrocínio do dinheiro de Loco, ou melhor, das empresas de seu pai -- dão vazão a uma espécie de catarse de final de semana, antes de voltarem na segunda-feira para a mediocridade da vidinha cotidiana.

Vida que para Nando, representante comercial de remédios, é simbolizada pela convivência opressiva com uma namorada pobre e limitada (Júlia Miranda), com quem se encontra às escondidas no quarto onde mora. Tendo amigos ricos, apaixonado por Doriane, o atormentado Nando quer fugir à realidade que o engole; por outro lado, Loco está prestes a assumir os negócios da família, o que representará o fim dos "anos de juventude" e conseqüentemente, da amizade entre os dois. Afinal, como o próprio Loco deixa claro: "Com dinheiro, sou um excêntrico; sem dinheiro, um marginal".

É fácil rifar o amigo e apoderar-se da namoradinha cobiçada. Para tanto, Loco faz a barba, flerta preguiçosamente com Doriane e pouco resta a Nando do que aceitar passivamente o casamento das duas fortunas, a realidade imposta. Sua namorada será sempre a telefonista com quem se encontra para o sexo rotineiro e sem amor e sua vida será sempre a de carregar malas e esperar na sala de espera dos consultórios médicos.

Exibido muito raramente no Canal Brasil, "Uma Mulher Para Sábado" tem belas locações, música de Rogério Duprat --
e Adriana Prieto, aos 20 anos de idade, no período em que rodava também "Palácio dos Anjos". Além de Ester Góes, lindíssima, aos 24 anos, fazendo ponta minúscula como secretária.

Em última instância, "Uma Mulher Para Sábado" servirá de introdução a filmes mais difíceis sobre temáticas próximas -- como "O Último Êxtase" de 72, por exemplo -- e ratifica a certeza que o distanciamento histórico nos proporciona, de que em São Paulo sempre se produzia (ainda se produz) a inteligência mais lúcida e madura do país -- o que se refletiu (e ainda se reflete) na complexidade e riqueza do cinema ali realizado.

7 comentários:

Márcio/BH disse...

Não assisti "Uma Mulher Para Sábado" por falta de oportunidade, mas já ouvi um comentário muito positivo de um amigo sobre este filme. Lendo teu texto fiquei ainda mais curioso. Adriana Prieto além de linda tinha um grande talento. Lembro-me de ter assistido "A Viúva Virgem" ainda criança (risos) quando morava no interior de Minas. Nunca me esqueci da presença marcante desta atriz. Um abraço Andréa e parabéns por mais um belo texto.

Matheus Trunk disse...

Oi Andrea. Genial o post, eu queria muito entrevistar o Rittner. Mas parece e tudo indica, que ele já está junto com o Jece, Grey, Mário Benvenutti e tantos outros. Infelizmente. Eu vi o outro filme dele, que não é tão bom. Mas esse já me chamava a atenção pelo título (que é genial) e depois que li a sua (mais uma vez extremamente talentosa) crítica. O curioso e acho que você não sabe é que o assistente de direção desse filme é o Sérgio Bianchi, que já se tornou um diretor bem conhecido. A fotografia é do grande George Pfsiter, que teve passagem pela Vera Cruz. E parece que o Concórdio Matarazzo (entrevistado da Zingu! de novembro) é que foi câmera. Eu não sabia, depois vou telefonar pra ele, pra perguntar se ele esteve nesse filme, porque seguinte ele na entrevista, ele estreou na "Árvore dos Sexos". Enfim, Andrea, queria um dia ver e ver sua crítica sobre mais um desses caras que iam na onda do Khoury: HERON DÁVILA. Ele dirigiu um único filme, e parece ser muito interessante. Mais uma vez, meus parabéns pelo ótimo e talentoso trabalho.

Eduardo Aguilar disse...

Fala Andréa!!! ótimo post!!! Curto muito esse filme!

Enfim, me dando conta de q. faz tempo q. não passava por aqui, me chamou a atenção a qtde de filmes q. vc. já resenhou. Um trabalho de folego e muito talento. Acho q. seguramente o "Estranho Encontro" é um dos lugares fundamentais de se visitar prá qm. ama o cinema nacional. Parabéns!!!!

Matheus Trunk disse...

Oi amigos, já está no ar a edição de dezembro da revista eletrônica Zingu!, dedicada ao cinema brasileiro. Ela pode ser vizualizada em www.revistazingu.blogspot.com. Ela possui dossiê e entrevista exclusiva com o cineasta IVAN CARDOSO. Musas eternas com Simone Carvalho; clássicos de prestígio com O Incrível Homem Que Encolheu; cinema extremo com Cannibal Holocaust.Deêm uma visita. Abraços, Matheus.
www.revistazingu.blogspot.com.

Andréa Ormond disse...

Márcio, "A Viúva Virgem" é relamente hilário, vc deve se lembrar do Imperial pra cima e baixo, e imenso fisicamente, na comparação com a Prieto rs Abraços e obrigada!

Oi Matheus, a ficha técnica é um dos detalhes que sempre observo no Estranho Encontro, desde o início. Ao mesmo tempo, para a crítica ter unidade e ser agradável ao leitor, não posso citar todos os detalhes ao mesmo tempo, ou soaria fora de esquadro, excessivo em relação a detalhes de contextualização histórica, argumento, direção, produção. O Sérgio Bianchi é um diretor que acho bem interessante, não deixa de ir contra a corrente, na escolha das temáticas :) Obrigada, valeu pelo comentário sempre encorajador :) E mais um número da Zingu, vida longa ao bom e velho rebuliço brasileiro!

Oi Edu!!! O tempo está passando rápido demais rsrs É verdade, os textos vêm se acumulando, fico muito feliz de poder falar sobre essa paixão mardita, o cinema nacional. Muito obrigada :) Beijos!

Anônimo disse...

A primeira vez q vi esse filme foi há uns 10 anos no canal Brasil, na segunda eu gravei, além de ter elementos da SP antiga que me puxam a memória, tinha o trabalho dessa linda e excepcional atriz Adriana Prieto, que já faleceu infelizmente.

Anônimo disse...

Eu vi esse filme faz muitos anos no canal brasil, costumava passar bem.
Traz uma mistura da cidade que eu gostaria que São Paulo ainda fosse, com a menina que todo homem gostaria de ter um 'affair'.