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segunda-feira, novembro 19, 2012

Os Amores da Pantera


Ângela Diniz foi morta com três tiros na cabeça. Desfigurada, de biquíni e t-shirt. Ficou estendida de bruços, na varanda da casa de praia. Homens ciumentos estrangulam ou esfaqueiam. Mulheres ciumentas matam a bala, para contornarem a força física. No caso de Ângela, a “Pantera de Minas”, as previsões falharam. Raul “Doca” Street deu os três tiros, como se estivesse em um surto narcísico de inveja – esta outra pantera –, arruinando a beleza alheia, que era semente de tudo.

O assassinato de Ângela, nas bordas do réveillon de 1977, estampou livros e livros e livros. Sob os muitos ângulos possíveis, escolho apenas um: o da loucura do casal. Pode-se falar também da chata explicação econômica (um playboy rico matando uma cocota). Pode-se fazer uma condenação ao consumo de drogas (que rolava solto). O fim dos tempos, o Armagedom, a falta de modos da mulher.

Advogado de Doca, o socialista Evandro Lins e Silva (ex-ministro do STF, cassado pelos militares em 1969) bateu firme na tese de que a moça se entregava a qualquer um. “Quem ama não mata”, diriam outros. Na versão de alguns gatos pingados, Doca foi um cordeiro do demo. Ofereceu-se ao sacrifício para apagá-la. Desta maneira, escondeu interesses escusos e internacionais, “muito maiores do que possamos imaginar”.

O caso Ângela revela um fascínio doentio: cabe nele toda sorte de firulas. O mesmo aconteceu, em menor escala, no sequestro de Carlinhos. O garoto também galgou o patamar de lenda urbana e pavor das famílias aflitas. Se Carlinhos ganhou “O Sequestro” (1981), Ângela ganhou este: “Os Amores da Pantera” (1977). Dirigido por Jece Valadão, trata-se de mais um filé da Magnus, concorrente da Vidya de Carlo Mossy, produtora de “O Sequestro”. Outra coincidência: em ambos os casos, o roteirista José Louzeiro. Uma diferença: em “O Sequestro”, argumento de Valério Meinel, repórter que saíra feito cão perdigueiro atrás de Carlinhos e publicara o livro homônimo.

Seguindo a bíblia de todo exploitation, “Os Amores da Pantera” chuta o balde da beleza física e da cafajestagem. Não tentem vê-lo com os olhos de 2012. Não dá certo. Até mesmo as inclinações moralistas de Louzeiro se curvam diante da câmera despudorada, que não ligava a mínima para cortes ou observações enrustidas.

Durante uma longa cena, o grupo de amigos cheira papelotes de cocaína. Deitam e rolam, se pegam, a orgia corre solta. Vultos do além começam a persegui-los. Eis a pororoca do filme: o tesão da orgia versus o roteiro que atribui ao consumo de drogas a condição de pecado. Existe a explicação sociológica de que a alta classe é mau caráter e se submete a esse tipo de ato vazio, sem sentido. O conceito é anti contracultura e parece não entender as folias momescas da época. Algo como Rachel de Queiroz escrevendo sobre Pervitin.

No entanto, cumpre-se a sutileza do cinema brasileiro setentista: o pecado é mostrado. Jece Valadão opera nesta hora, insidioso que só. Leva o absurdo até as últimas consequências e que se exploda o resto, sem a auto censura da imagem. Nas produções atuais, um garoto bonzinho, um jovem esforçado, um adulto bocó vencem as injustiças e melhoram a espécie. Cenas consideradas “fortes” dançam no limbo, ficam no Index e proibidas aos olhos do espectador.

Em “Os Amores da Pantera”, não. O filme vence feito uísque caubói, sem gelo. Mesmo que o discurso tenha aquela perversidade “exploitística”: a trama é um alerta para a sociedade (os ricos são cruéis, nossos filhos estão sujeitos a esse tipo de gente). Tudo baseado em um estudo seríssimo (a morte de Ângela foi determinada pelos motivos “escusos e internacionais”). Na prática, apesar do aparato ideológico CDF, o que se percebe é uma fita politicamente incorreta e cínica.

Outro detalhe chama atenção: por que, em todo filme brasileiro, no momento em que cafungavam cocaína as pessoas ficavam pastosas, deprimidas? Não pulavam, não trincavam os dentes, não se achavam o centro do universo. É um mistério. Provavelmente para não assustar a classe média, fiel compradora de ingressos, e que já havia se acostumado à (lombra da) maconha como o genérico de todas as drogas.

O recurso de “os fatos são mera coincidência” também aparece com força total. A protagonista (Tamara) recebe o carão de Vera Gimenez, esposa de Jece. Parece gato, mia feito gato, tem rabo de gato e não é o gato. Querem convencer-nos de que ela não é Ângela Diniz, a história não tem nada a ver com Doca Street e muito menos Ibrahim Sued. Sim, Ibrahim Sued, o ex-amigo íntimo de Ângela, que o trocou por Street.

Este perhaps o roteiro omite, colocando o duplo de Sued (Jaime Barcellos) como mero pedinte de dinheiro a Tamara. O clima de Agatha Christie do Posto 6 dá piruetas. Reviravoltas, mauriçolas, aparição de Adele Fátima em motel e música de um tal Chico Xavier, sabe-se lá homônimo ou o próprio médium multimídia mineiro.

Os versos de “Anjo” contam que a morta está no altar de Nossa Senhora e que “quem te causou o ferimento/ chora de arrependimento/ mas perdeu a liberdade”. “Aquele homem foi preso/ levado ao desprezo/ para viver isolado”. A letra é dúbia, morde e assopra. Fulana morreu, mas quem matou é igualmente coitado. Os golfejos lembram a canção de Elymar Santos para Ayrton Senna, escrita no calor do acidente de 1994: uma elegia popular, que capturou o momento, rasgado e histriônico. 

O momento de 77, aliás, era oportuno. Em breve, outro drama colocaria Valério Meinel e José Louzeiro no olho do crime. Sai a Pantera, entra Cláudia Lessin Rodrigues. Estudante, morta em julho, no Rio de Janeiro. “O Caso Cláudia” (1979) faz pouco do livro de Meinel, “Porque Cláudia Lessin Vai Morrer” e se limita a uma adaptação anódina, sem gosto e calibre. Deste erro “Os Amores da Pantera” não cai. Mesmo não atingindo a perfeição, supera em muito os rivais e brinca nas auréolas da trepidante Magnus, que como tudo de bom neste mundo maravilhoso, brotou de Copacabana e saiu dali para dominar o planeta. 
 

segunda-feira, junho 20, 2011

Parceiros da Aventura


Em 1947, o sumo sacerdote Jean Manzon convidou um novato para a redação de “O Cruzeiro”. Precisava ter desenvoltura, ser ágil, alguém que agüentasse a Rolleiflex no ritmo frenético da revista. José Medeiros aceitou.

Mais tarde, tornou-se conhecido por igualar ou superar o mestre, além de migrar para o cinema. Dirigiu quatro curtas-metragens e um único longa, “Parceiros da Aventura” (1979). O número pequeno nem de longe se compara com a quantidade de participações que teve no métier original, o de fotógrafo.

Entre os seus maiores vôos estão “Rainha Diaba” (1974), “Ódio” (1977), “Chuvas de Verão” (1978). Sempre com pouca luz e contenção de excessos. Tirava engenhosidade do bolso, operava ínfimos watts.

De tanto mexer na fotografia para os outros, José Medeiros dizia que já tinha visto gente com menos talento se metendo na direção. Aí a curiosidade bateu. Durante as filmagens de “Xica da Silva” (1977), de Cacá Diegues, conversou com o historiador João Felício dos Santos. Chamou José Louzeiro, jantava na casa do escritor e finalmente – depois de tudo matutado – “Parceiros da Aventura” foi para a Lapa, Rio de Janeiro, jogar suas plumas.

Entre a zona central do Rio e a zona sul, “Parceiros da Aventura” surge como um cântico da boemia e das pequenas coisas. A violência vai separando as tribos que, no início, parecem uma só. Um grupo coeso em que há a prostituta (Ana Maria, Isabel Ribeiro), o desempregado (Benedito, Milton Gonçalves), o malandro (Vaselina, Marcus Vinícius), o músico (Paulo, Paulo Moura), o funcionário público (Erva Doce, Procópio Mariano).

As rodadas de chope, o clarinete de Paulo Moura – dando uma palhinha de ator –, as mesas que de repente são invadidas por um molecote vendedor de jornal, flores aleatórias, o cheiro esotérico de botequim que quase se pode sentir a 30 anos de distância. No mesmo ano, “Muito Prazer”, de David Neves, operava nesse registro de amor carioca. Vide a cena de Nelson Cavaquinho dedilhando o violão e unindo um dos arquitetos aos pivetes.

Ana Maria e Vaselina têm um namoro interracial. Desses que ainda hoje são tabu e que apareceriam em poucos filmes. Moram juntos no cafofo de paredes cor-de-rosa, um colega se masturba levemente ao ouvi-los em ação.

Apesar de toda a malícia do sexo, Ana pede, por favor, que o malaco se case com ela. Oficializar a relação, vejam vocês. Humanidades que o cinema brasileiro um dia contou, num vazio tremendo, demasiado humano, porque o amor não é só amor. Também pode ser utilidade, entrega, ciúme, interesse próprio. Ana Maria está no bando de Vaselina, gosta dele, trafica pó com ele, mas também opera com o rival.

Papel complicado, a mulher troca um olhar definidor com Benedito. Sem dizer nenhuma palavra, torce para que o motorista de ônibus, íntegro e honesto, não se junte ao grupo de Vaselina. O diretor parece ter confiado imensamente nos dois, Isabel Ribeiro e Milton Gonçalves, a ponto de entregar-lhes a força da trama. É a partir deles que saem os motores do filme, a partir deles que os enredos se originam.

Benedito escorrega, não fura a greve que outros motoristas estavam tocando na cidade. Um detalhe verídico, pois a greve foi enxertada no filme e acontecia em tempo real no Rio de Janeiro. Benedito não assina contrato com uma empresa de ônibus que queria demitir os grevistas e continua a morgar meses de atraso no aluguel. Atende ao chamado de Vaselina: puxa um carro de madame. Não percebe na hora, mas a filhinha da madame estava no banco de trás – aspecto fundamental no roteiro.

A surpresa de encarar a menina piora o sofrimento de Benedito. O que era assalto passa a sequestro. E o que é sequestro transforma o grupo. Antes traficantes, agora sobem um degrau na escala do crime. Por outro lado, a onipotência de Vaselina, movido a pó, o faz acreditar estupidamente na vitória, mal sabendo que o corvo negro – confuso e amoroso – de Ana Maria estava na emboscada.

Os três ficam pajeando a garota. Uma vira mãe sem querer (Ana), um vira tio atormentado de culpa (Benedito), outro vira chefe sonhando rios de dinheiro (Vaselina). Mundo paralelo que Paulo e Erva Doce nem imaginam que exista, nem sabem aonde os idolatrados amigos estão se metendo.

Esse gato e rato vai tirando as máscaras da amizade. O carinho até continua, mas sem água com açúcar, sem versão Walt Disney. Paira o egoísmo por todos os lados. Talvez um pouco menos em Benedito e Paulo que, de tão sonhador, acaba sendo engrupido por um escritório multinacional de música. Apesar de a dicção de Moura não ajudar às vezes, ainda assim a atuação é desconcertante: Paulo Moura era, de fato, o personagem. Como se Pixinguinha tomasse uns copos de frente para as câmeras, naquela fidalguia de nobre.

Enquanto isso, Erva Doce vive o burocrata falastrão. O fulano que conseguiu emprego porque conhece Beltrano e um monte de siglas de departamentos. A fauna de mulheres que cruzam as pernas ou são azedas, os homens puxa-sacos que invejam o chefe. Esse vazio de gente pequena, a total mediocridade de repartição aonde se penduram paletós e se bebem copinhos sujos de café.

E esperando a filha, a mamãe apetitosa (Louise Cardoso) segura a mão da colega idem (Maria Zilda). Deus, o que será da pequerrucha? No tempo em que policial espancava bandido na frente de jornalistas, todos estão loucos para mostrarem serviço. Correm às pampas para encontrarem os sequestradores.

Circulando entre eles, a penca de figurantes como Stepan Nercessian, Reginaldo Faria, Cosme dos Santos – a trinca de “Barra Pesada” (1977), que Medeiros fotografou. Rodolfo Arena, Maurício do Valle, Flávio Migliaccio, Camila Amado, Luthero Luiz, Isabella, Wilson Grey, Zózimo Bulbul, Leovegildo “Radar” Cordeiro. Participações carinhosas, que pipocam aleatoriamente.

O desfecho da história nem importa tanto, senão pela mistura entre a crônica do cotidiano e a estética da violência. Desejar progredir, enganar, ser enganado, com a grosseria de tiro explodindo na frente da menina que olha para tudo, sem ser protegida, no estilo amoral dos anos 70. Noite caindo atormentada, as luzes na janela da vizinha, mudando de cor. Essas delicadezas deixam na obra de José Medeiros um martírio doce, de solidão.

sábado, maio 29, 2010

Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia


Em 1977 um jovem argentino, com cara de hippie, bateu na porta da casa do jornalista e escritor José Louzeiro, no Rio. Vindo de São Paulo, o moço queria adaptar o romance-reportagem de Louzeiro, "Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia", para o cinema.

Acreditando no ímpeto do jovem, que se chamava Héctor, Louzeiro passou por cima de uma proposta de Roberto Farias e cedeu os direitos. Quando voltou do Festival de Cannes, Farias não gostou nem um pouco do arranjo e se desentendeu com o escritor.

O roteiro acabou sendo escrito por Louzeiro e Jorge Durán -- e o papel principal entregue ao irmão do preterido Roberto, Reginaldo. Tranquilizados os ânimos, realizaram um dos melhores policiais brasileiros da década de 70, quando o gênero alcançou no país um nível de expressão e criatividade ímpares.

Mas vamos recuar no tempo e desvendar o mistério: quem era o argentino que impressionou Louzeiro naquela tarde em que o jornalista, atrasado para o trabalho, ouviu suas considerações?

Héctor Eduardo Babenco foi criado em Mar del Plata, famoso balneário na província de Buenos Aires, filho de pai portenho e mãe polonesa. O pai, dono de uma mercearia em Mardel -- como os argentinos chamam carinhosamente a cidade -- ficou doente, vendeu seu negócio e o rapaz teve que fazer de tudo para sobreviver. Inclusive carregar malas em um hotel de luxo, servindo a cineastas famosos como François Truffaut.

Receoso do serviço militar, em 1964 se mandou pra Europa com uma mochila nas costas e vinte dólares no bolso. Andarilho, sobrevivia graças a trabalhos temporários, como o de figurante em westerns. Decidido a voltar para a América, esbarrou com o problema de não ter servido o exército. Assim, em 1969 desembarcou em São Paulo, onde fixou residência.

Apaixonado por cinema, durante alguns anos Babenco esteve envolvido na produção de documentários, trabalhando com Pedro Carlos Rovai e com o próprio Roberto Farias. Estreou na ficção em 75, com "O Rei da Noite", e em 77 já tinha credenciais para bater na casa de Louzeiro com a proposta sobre "Lúcio Flávio".

O marginal Lúcio Flávio Vilar Lírio, assassinado em 29 de janeiro de 1975, a facadas em uma cela no presídio da Ilha Grande, era àquela altura dos acontecimentos uma espécie de símbolo da bandidagem carioca, mito alimentado pela imprensa, sustentado pela boa articulação verbal do assaltante. Refém do corrupto sistema policial, Lúcio -- como quase todo bandido brasileiro -- no fundo era um coitado, isca de uma organização criminosa formada por gente graúda da polícia, que tomava dele a maior parte dos lucros sem correr qualquer risco.

No filme de Babenco, Lúcio Flávio (Reginaldo Faria) é atormentado pela figura repugnante de Moretti (Paulo César Peréio), uma espécie de disfarce do detetive Mariel Mariscott de Mattos, que, de tão vaidoso, implorou a José Louzeiro para ser retratado com seu nome real.

Toda a história é um gato e rato entre Moretti e Lúcio, mas a composição do submundo é rica e a força dos personagens impressiona. Em "Lúcio Flávio", Babenco não só consolida uma escolha temática -- o olhar aos marginalizados -- que o acompanharia por toda a carreira, mas também rascunha o esforço seguinte, "Pixote, a Lei do Mais Fraco", que lhe abriria as portas do mercado internacional.

O endeusamento de bandidos comuns, prática na época, hoje soa bastante discutível, principalmente por seus desdobramentos nos anos 80 e 90, quando o crime quebrava a espinha do Rio de Janeiro e setores da imprensa e da intelligentsia ainda tratavam bicheiros e traficantes como se fossem personagens da Revista Caras. Por outro lado, nunca devemos cair na esparrela de reduzir o drama ao embate polícia versus ladrão. Nesse ponto, "Lúcio Flávio" é brilhante nas sequências em que Moretti enrola Lúcio, afirmando que "estão do mesmo lado". Conseqüentemente a tomada de consciência de Lúcio chegará através da sentença: "Polícia é polícia, ladrão é ladrão". Esta idéia, embora óbvia, parece tão difícil de ser aplicada no Brasil quanto não jogar lixo nas calçadas ou silêncio depois das 22 horas.

O sucesso de "Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia" motivou Jece Valadão a produzir uma resposta pró-polícia: "Eu Matei Lúcio Flávio", de 1979. Tentou contratar Louzeiro para seu projeto, mas o escritor não tinha tendências esquizofrênicas suficientes para contrargumentar a si mesmo.

Jece, claro, acabou fazendo melhor, juntando Leopoldo Serran e Antônio Calmon em um exploitation mentiroso, tresloucado e brasileiríssimo de tanta cretinice e farsa. Bancado com dinheiro do jogo do bicho e de amigos de Mariel Mariscott, "Eu Matei Lúcio Flávio" é a obra-prima que o filme de Héctor Babenco tenta, mas não consegue ser.

Chega perto nas seqüências teatrais do bando enfurnado no apartamento de Liece (Ivan de Almeida), amante de Lígia (Lady Francisco). A consciência de que são bucha de um sistema perverso cresce na angústia do esconderijo, no cerco hipócrita dos policiais-bandidos e na ruína financeira em que permanecem, apesar dos roubos.

E o que seduz em Lúcio -- ou pelo menos na construção de Reginaldo Faria -- é que ele tem o raciocínio de um homem comum, distante das elucubrações psicopatas a que se entregam os artífices de crimes. Namora Janice (Ana Maria Magalhães), cria um filho com ela, reclama do trabalho e tem medo. Tanto medo que sofre de pesadelos ao imaginar Janice à mercê da loucura de Moretti.

A razão pela qual uma fábula em que a lei é doente e o bandido humano foi permitida pela censura explica-se por mais um olé inteligente da dupla Louzeiro-Durán: denigre-se a polícia carioca, mas em certo momento surge a "federal", no intuito de consertá-la. Elogiados, os federais não viram razão em caçar a história. A punição dos que "se desviaram da conduta" parece explícita -- e cabe ao espectador preencher lacunas com seu julgamento particular.

Mesmo assim, para desgosto de Louzeiro, a exibição do filme foi interditada na sua cidade natal, São Luís do Maranhão. Como sempre acontece, o Estado atrapalhou o que lhe parecia incômodo com um inferno de exigências e burocracias, disfarçando mera perseguição à liberdade. Ironicamente, proibição em moldes parecidos se repetiria na pré-estréia argentina, dessa vez para a tristeza de Babenco.

Lúcio Flávio, Liece e outros são legítimos arautos da paranóia criminosa que tomou conta do país. Olhá-los, como querem alguns, pertencentes a um contexto "romântico" é tolice. Profissionais do crime matavam, corrompiam, traficavam e assaltavam quase da mesma maneira que hoje. O que mudou não foi só a barbárie, mas a imprensa, a repressão e a sociedade. Analisar este processo como um todo, apontando o papel de cada agente, responderia muitas questões. Só que ninguém dá bola pra cultura, mesmo quando ela pode salvar milhares de vidas.

sábado, maio 15, 2010

Quem Matou Pixote?


Lançada em 1996, "Quem Matou Pixote?", a cinebiografia do garoto Fernando Ramos da Silva -- Pixote no filme de Héctor Babenco, de 1981 -- surgiu quando ninguém sabia ao certo como enxergar as novas produções brasileiras: se fenômeno sazonal ou tendência estabilizada. Passados quatorze anos, vale a pena voltarmos a ela.

Baseado nos livros "Pixote Nunca Mais", de Cida Venâncio, e "Pixote, a Lei do Mais Forte", de José Louzeiro, o filme busca apelo no mérito sentimental da obra escrita pela esposa do falecido. Por outro lado, tem coragem de adaptar um autor incisivo, dogmático, em um momento no qual todo mundo ainda estava pisando em ovos, ignorando a tradição de outras décadas em nome do paradoxo higienista chamado "Retomada".

O resultado é híbrido: ora avança em busca de uma "verdade" -- à la Louzeiro -- ora escorrega no esquematismo do olhar passional, vitimizante.

Fernando Ramos da Silva nunca quis ser herói. E qualquer construção sobre ele necessita guardar o caráter acidental dessa trajetória. Na elipse de acidente, conta ainda a vaidade -- inerente a qualquer um -- e a frustração de tornar-se uma sombra de si mesmo.

Lapso, hiato cruel -- quando as luzes se apagaram e Fernando (Cassiano Carneiro) descobriu no espelho quebrado da fama uma triste imagem -- é tudo o que o filme precisava expressar.

Interdições o prejudicam: Iracema (Joana Fomm), a mãe deslumbrada demais, e Cafu (Tuca Andrada), o irmão bandido, saem de alguma espécie de aula de roteiro para principiantes. Igualmente o policial cruel, Lobato (Roberto Bomtempo), cujas intervenções lembram certos delírios do neon-realismo paulistano, tamanha artificialidade e postura over. Mas o prêmio abacaxi vai mesmo para a trilha-sonora de David Tygel e Maurício Maestro, uma das mais esquisitas desde que pianistas tocavam ao lado das telas nos silent movies.

Ao trabalhar com elementos cotidianos, o filme cresce e quase alcança seus objetivos. Fernando passeia por São Paulo, atravessa o Viaduto do Chá, quando uma olheira, Malu (Maria Luísa Mendonça), o convoca para um teste: "Está cheio de verme, lombriga", diz um dos mauricinhos da produtora. Sua espontaneidade garante lugar no elenco. O resto é história.

Amantes do cinema nacional vão perceber total falta de empatia com a parte mais importante da trama: o sucesso e o contexto em que o "Pixote" de Babenco estava inserido. A obra-prima é transposta de forma apressada, em flashes burocráticos. Closes dos letreiros do Cine Odeon, notícias fakes de jornal e uma rápida entrevista à imprensa, querem satisfazer o espectador sobre o abismo de alguém sair de um barraco em Diadema para o topo.

Passado o tempo, bem rapidinho Fernando cresce. Já tem quinze anos e procura emprego. É tentado pela amargura do irmão, crente de que, na hierarquia da fome, um bandido cinematográfico significa menos do que na vida real. Fernando abraça o vaticínio, segue Cafu e ouve "ensinamentos". Este irmão revoltado e pragmático seria um típico personagem de Louzeiro, não fosse a ligeireza de sua construção.

Mergulhando no crime, Fernando vai pro xilindró, e cai nas mãos de Lobato. O policial inveja o ator. Utiliza de suas prerrogativas para derrotá-lo moralmente. Vez ou outra, a imprensa lembra de Fernando e o entrevista, comparando o passado glorioso com o triste presente. Sabemos que no Brasil, país sem memória, a cretinice machuca bastante. Esse aspecto torna-se bem explorado à medida em que Fernando afunda, como um fantasma.
E ele, de fato, não sabe o que fazer com o esquecimento. Confunde realidade e fantasia -- ora aceita-se Pixote, ora reafirma-se Fernando, "o maior ator do Brasil". Ganha alguma alegria quando conhece a fã, Cida (Luciana Rigueira), e ela lhe oferece uma paixão morna. As cenas entre Fernando e Cida, ao som de Raul Seixas, pelo menos nos poupam da trilha extravagante.

Quase no fim da linha, Fernando ruma para o Rio de Janeiro e faz última tentativa de voltar a ser famoso. Pede ajuda a José Louzeiro (Orlando Vieira), que o encaixa em uma novela. Só que Louzeiro desconfia que o rapaz não sabe ler direito, e o manda recitar um poema de Augusto dos Anjos, na melhor cena do filme. Expulso da novela por não decorar as falas, termina faxineiro na produtora de "Pixote".

Um derradeiro convescote junta os filhos de Iracema, dançando com a mãe "Emoções", de Roberto Carlos, em momento pueril. De acidente em acidente, quando inscreve suas mãos em uma calçada da fama sangrenta, resume o dilema: não alcançando seus sonhos, eternizou-se assassinado covardemente.

Em 2002, José Joffili fez o que parecia impossível, dirigindo um remake da peça de Plínio Marcos, "Dois Perdidos Numa Noite Suja", ambientado nos Estados Unidos, e tão interessante quanto o primeiro filme, de Braz Chediak (1971). Também adaptou bem o escritor hispano-copacabanense Luiz Alfredo Garcia-Roza em "Achados e Perdidos" (2005). Infelizmente, "Quem Matou Pixote?" não reclama esses méritos. Coleciona tantas imperfeições, tantos clichês, que mais prejudica a intimidade e empatia com Fernando do que propriamente a consolida.

sexta-feira, março 20, 2009

Viagem ao Céu da Boca


No início dos anos 80 o Brasil viveu uma curiosa transição. À gradual abertura política somou-se certa ânsia de prazer, de sexo, plenamente traduzida em obras literárias lançadas ou escritas na época. "A Fúria do Corpo", obra-prima de João Gilberto Noll, é o exemplo mais crasso. No cinema, filmes antes proibidos como "Império dos Sentidos" e "Garganta Profunda" chegavam às telas e lotavam salas com adultos sedentos por um novo estilo de entretenimento, que hoje nos parece tão banalizado e vulgar, mas que para eles era êxtase, ouro: a pornografia. 

Muito pode se discutir o sentido ideológico da pornografia. Transgressão de costumes, espetáculo misógino, tédio criativo. Particularmente, fico com este último. Diferente do erotismo, no momento em que a pornografia deixa de ser tabu em um espetáculo cinematográfico vira fim em si, escravizando narrativa, elenco e câmera a seus caprichos e à sua avassaladora vontade. Quando observamos um filme pornográfico, o que temos geralmente não é cinema, mas utilização de certos elementos do cinema para a divulgação de sexo explícito. 

Exceções existem, e em profusão. Vejam Tinto Brass; algumas produções francesas dos anos 70 estreladas por Brigite Lahaie; o drama sadomasoquista "The Punishment of Anne" aka "The Image"; etc. Mas são pérolas que subvertem o pornô clássico, cerceando-o a uma vontade artística e criativa maior. No Brasil, tivemos "Oh! Rebuceteio" e as melhores produções da Boca. Sem esquecermos que foi exatamente a penetração (ops!) no explícito que destruiu a mais fértil indústria cinematográfica da América Latina. 

Considerado marco inicial do gênero no país, "Coisas Eróticas" (1981), de Rafaelle Rossi, venceu a disputa por um golpe de sorte. Acentuando a velha rivalidade Rio x São Paulo, ao mesmo tempo era rodado no outro lado da Via Dutra, no Beco da Fome, aquele que tinha a pretensão de pioneirismo comercial. Acontece que "Viagem ao Céu da Boca" (1981) mostrou-se tão absurdo, tão repugnante, que teve bem mais dificuldades para desembaraçar-se da censura que seu oponente. Obscura, negada, jogada para debaixo do tapete, a história desse filme terrível precisava ser resgatada. 

Uma pessoa próxima da produção, que aceitou me conceder depoimento, afirmou ser este "um filme que não deve ser visto. Inclusive dá azar. Todo mundo que participou daquilo na época, depois teve muitas dificuldades na vida". A fonte pede anonimato. Brincadeira, exagero -- ou não -- "Viagem ao Céu da Boca" merece o epíteto de uma das produções brasileiras mais malditas de todos os tempos. Quando finalmente foi liberado, em meados de 1983, o rival "Coisas Eróticas" já era lenda. Apelou-se então para uma publicidade sensacionalista, dando conta de que fora "exibido nos Estados Unidos, Europa e Japão com mais sucesso que Calígula". Invencionice tosca, pois, lançado em algum outro lugar que não as salas especiais das grandes metrópoles, este primor da demência humana seria certamente proibido, banido, e seus distribuidores chamados às vias legais. 

Mesmo em um período de frenética tolerância artística como a virada dos anos 80, quando o home video pornô transformava a indústria sexual norte-americana e européia em um pátio de milagres. Assistam a "Hardcore Life" (1979), dirigido por Paul Schrader, e entenderão melhor o que estou falando. Mas o que há de tão horrível em "Viagem ao Céu da Boca"? Nos créditos, roteiro de José Louzeiro, música de Zé Rodrix, direção do pornochanchadeiro Roberto Mauro. Percebe-se no plot uma certa tentativa de crítica social. Na fotografia, iluminação de atmosfera onírica. Stella Valadão, filha de Jece, faz a continuidade. Onde mora, então, o horror de "Viagem ao Céu da Boca"? Nas longas sequências de tortura, sadismo e pedofilia. No óbvio oportunismo do diretor, Roberto Mauro, em usar argumento de um dos melhores roteiristas do país, para toscamente arrombar as portas do permissivo com uma das piores produções da história do cinema mundial. 

Ao tentar inaugurar o explícito, Mauro inaugurava antes certa espécie de extremismo, como se quisesse iniciar a liberação de costumes pelo limite final da aceitação humana. Dito assim, "Viagem ao Céu da Boca" pode parecer bastante divertido. Mas na maior parte do tempo transparece tedioso, refém dos jogos sexuais. Nilo Barra (Eduardo Black) é um bandido que invade a residência de Mara (Bianca Blond), grã-fina cujo marido está de férias e que mantém na casa, como agregada, o travesti Paula (Ângela Leclery, a mesma boneca do filme de Carlo Mossy, "O Sequestro"), amante do marido. 

Aqui, a história pára. São 45 minutos de sevícias e aflições horrendas sobre a mulher e o travesti. Quando o espectador já não aguenta mais, quando se propõe ele mesmo a sair do cinema e ligar para a polícia, eis que surge Eisinha (Eliane Gomes), menina de doze ou treze anos, calçando patins, que se oferece voluntariamente para amante do bandido. Nesse meio tempo, Paula parece ter batido as botas. Volta como uma pomba-gira desvairada, a câmera faz piruetas, efeitos luminosos piscam freneticamente, e, através dos poderes da macumba, dá um nó no pênis do malfeitor. Em seguida, o bandido desperta na prisão e começa a ser torturado por policiais. Tudo não passou de sonho -- ser algoz, em vez de vítima -- entre uma sessão e outra de tortura. 

Dos bastidores desta saga, poucas histórias restam. A melhor delas é que Bianca Blond e Eduardo Black não se sentiam atraídos um pelo outro, e as cenas quase não puderam ser feitas. Outra, que o travesti Ângela Leclery foi escolhido por suas capacidades ativas e passivas, em uma seleção de elenco que contou com a fina flor do submundo carioca. Por uma dessas razões do destino, nos últimos anos me tornei vizinha de José Louzeiro, suposto roteirista do filme. Quando concedeu entrevista sobre sua carreira para o Estranho Encontro, em maio de 2006, nem eu nem Louzeiro recordamos sobre "Viagem ao Céu da Boca". Nunca é tarde. Interfono para meu querido vizinho e lhe faço uma visita:

- Louzeiro, me fale um pouco sobre "Viagem ao Céu da Boca", aquela direção do Roberto Mauro, que você escreveu o roteiro. 

- Escrevi um conto sobre assuntos eróticos para uma revista, não me lembro o nome, chamado "Viagem ao Céu da Boca", uma história bem sutil. Jamais pensei que fosse virar filme. Entre erotismo e sexo escrachado, a diferença vai bem longe. Acontece que o diretor da revista foi abordado por esse cidadão, Roberto Mauro, que eu não conhecia. Conversamos e não pedi referências do moço. Quando é um dia, encontro a atriz, e ela chorando. "Imagine, eu vim do Paraná, queria entrar pro cinema, e estou chocada, estou decepcionada." 

- Então o filme já havia sido feito e você nem escreveu o roteiro? 

- Não fiz o roteiro, nem sei quem fez. Era pra ter sido baseado no meu conto. Aí eu fui ver, já estava na fase de edição e fiquei horrorizado. Sexo da forma mais violenta, triste. Eu que não sou de briga, briguei. Disse pra ele tirar o meu nome daquela imundície, ele jurou que ia tirar e não tirou. Deixei de falar com esse cara. Parece que antes de morrer ele queria falar comigo, mas eu não quis. Era mau pagador, não me pagou um tostão, e o pior é que ele queria fazer outro filme. Uma experiência que eu lamento muito que tenha acontecido comigo. Até quero publicar um livro de contos e incluir este, para verem como deveria ter sido. Roberto Mauro foi um cineasta de triste memória, uma vergonha para a classe. 

Uma das razões de "Viagem ao Céu da Boca" ser pouquíssimo divulgado passa pelo bom senso: lançado em circuito comercial naquele distante 1983, assistido por qualquer um que portasse carteira com idade legalmente maior, hoje o filme é um crime ambulante. "Coisas Eróticas", o outro pioneiro, pode ser tão aborrecido, mas atravessou as décadas domesticado, quase ingênuo. 

Esforcei-me na pesquisa, com a certeza de que uma compreensão plena somente revivendo ânimos de outrora, quando produtores e diretores espertos aproveitavam a liberdade conquistada e metiam o pé na porta, empurrando um tigre para a liturgia dos sete gatinhos. Paradoxo histórico, o futuro tornou esses esforços nauseabundos cada vez mais tabus. Cada vez mais malditos. Para estômagos de aço, pois nem os fortes sobrevivem.

quarta-feira, setembro 26, 2007

O Seqüestro


Os maiores cineastas brasileiros ainda vivos, contam-se nos dedos das mãos. Não há nenhum favor em incluirmos Carlo Mossy neste rol seleto -- antes, é de se espantar que outros, com muito menos talento, vontade e capacidade criativa, estejam sempre lembrados, ao sacrifício dos verdadeiros construtores do imaginário fílmico nacional.

Claro que, ator, produtor ou diretor, Mossy não foi perfeito: enquanto algumas produções da Vidya tornaram-se apenas divertida nostalgia graffiti, outras -- "Giselle", "Ódio", "Crazy", etc -- continuam surpreendendo gerações e gerações de pesquisadores e cinéfilos.

Bastante influenciado pelo correção técnica e narrativa da indústria norte-americana, é curioso que seus melhores filmes pareçam mais um híbrido de brasilidade malandra com o cinema europeu dos gialli italianos e do erotismo francês. "O Seqüestro" (1981), exploitation do Caso Carlinhos -- menino seqüestrado no Rio, em 1973, e desaparecido para sempre -- remete àquelas semelhanças com perfeição.

Baseados no livro do jornalista Valério Meinel, o roteiro de José Louzeiro e a direção de Victor di Mello disfarçam, trocam o nome de Carlinhos por Zezinho, e o bairro de Laranjeiras por Santa Teresa. O objetivo era construir livremente um inferno de amoralidade cínica, investigando o submundo da corrupção policial e a desgraça de um pai, que supostamente encarcerou o filho em troca de recompensa financeira.

Típica engenhosidade das produções de Victor e Mossy, à trilha-sonora encomendada -- dessa vez aos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle -- sobrepõem-se imagens da noite carioca: a Praça Mauá, o Jockey Club, o Cinema Roxy. Até que, na última estrofe (Isso aí não é gente/ e parece com gente/ mas é um animal...), a câmera focalize um sorridente cachorrinho de pelúcia, para simbolizar o "animal" da canção (!).

Expresso o alívio cômico, vemos uma senhora assaltada em frente ao Ponto Frio da Av. Copacabana; enquanto isso, na delegacia, travestis em fúria são subornados pela polícia. Ah sim, estamos na "Casa da Lei": Mossy, é o Detetive Vilarinho; Jorge Dória, o Delegado Marcondes; Milton Moraes, o Subdelegado Argola. Os três comandam as investigações do Caso Zezinho.

A mãe do menino, Fátima (Helena Ramos) logo revela-se uma ninfomaníaca. O pai, Pedro Pereira (Adriano Reys), crápula dissimulado. No subterrâneo da instituição, torturas e sevícias correm soltas. Quando um banqueiro (Celso Faria) paga o resgate, o dinheiro é dividido entre pai e autoridades. Por fim, descobrimos que o filme foi (sic) "dedicado a SERPICO e a todos que tentam fazer da polícia uma instituição digna, capaz de oferecer realmente segurança a todo e qualquer cidadão".

Vale ressaltar que a conclusão da história apresentada é a do livro de Valério Meinel. Outro lendário repórter policial brasileiro, Octávio "Pena Branca" Ribeiro, tinha versão própria para o Caso Carlinhos, inocentando o pai -- como atesta seu depoimento no livro "Barra Pesada", da falecida Editora Codecri. A verdade é que a desafortunada criança da vida real nunca apareceu, enquanto uma penca de programas sensacionalistas dos anos 70 e 80 anunciavam a localização do garoto, cada vez em um canto diferente do país.

Curiosidade para as moças e rapazes que apreciam em Mossy não apenas seu talento cinematográfico: já no final da trama, vemos a única cena de nudez frontal da carreira do ator. O Detetive Vilarinho, flagrado em intercurso com uma "boneca" oitentista (Ângela Leclery, a mesma do assustador "Viagem ao Céu da Boca", com roteiro também de José Louzeiro) levanta-se inteiramente nu, e discute com o Subdelegado Argola, antes de afanar um dinheirinho da penteadeira da moçoila.

Exibido no Palácio 1 da Cinelândia -- hoje, a maior sala do Rio; na época, uma sala mediana -- entre novembro de 81 e fevereiro de 82, "O Seqüestro" andou morno de bilheteria; e, de certa forma, encerrou a grande era do cinema policial brasileiro dos anos 70. Boa notícia é que, junto com um pacote de outros cinco filmes de Mossy, foi tirado do limbo e relançado em edição bem cuidada. Com imagem e som perfeitos, o que já era bom, em dvd ficou ainda melhor.

sábado, abril 28, 2007

Amor Maldito


"Amor Maldito" (1984), que outro dia o Canal Brasil nos fez o favor de exibir, se define pelo título: é uma investigação sobre o amor homossexual, quando o assunto no país ou constava das sonolentas enciclopédias em fascículos, ou era restrito ao gueto -- posto ao sabor da histeria e do recalque coletivo toda vez que debatido longe da esfera privada. Assim o filme deve ter sofrido tantas pressões que seu aspecto de anotação de costumes perde-se em oceano de considerações moralistas, tendenciosas, até irônicas; mas reveladoras de punitiva vigilância social.

Graças ao roteiro do escritor José Louzeiro, a diretora Adélia Sampaio emprestou à história um tom de crônica policial, narrando o caso entre a jovem executiva Fernanda Maia (Monique Lafond) e a ex-miss Suely Oliveira (Wilma Dias). Caso este que -- bem ao gosto da paranóia fatalista -- será coberto de traição e redundará, sem meio-termos, em rocambolesca tragédia.

Antes do fim, percebemos que as duas mulheres se conhecem naquele momento crucial da vida, aos vinte e poucos anos, na encruzilhada entre vencer ou sucumbir à rotina. Cortejada pela postura independente de Fernanda, Suely se entrega, e passa a viver com a namorada. Depois, o que teremos é um filme de tribunal: em cena absolutamente ridícula, Suely (quase gritando "Aiô, Silver!") pula pela janela e se suicida. Por conta da intempérie, Fernanda estará no banco dos réus, acusada de homicídio.

Acusada, porém, é um termo leve. Muito bem exposto pelo olhar teatral da diretora, a jovem mulher empreendedora é massacrada por um rococó moralista, com quase todo o elenco de apoio do cinema brasileiro dando um pulinho no tribunal e espezinhando a pobre moça. Para piorar, os dois advogados -- defesa e acusação -- também cumprem sua missão de paternalismo inquisidor, solapando a dignidade das partes em um julgamento que deve ter entrado na história da comarca.

No desfile daquelas sinistras "testemunhas" compartilhamos em flashback a vida do casal, que permeia sua relação de pequenas traições, sendo a mais notória com um jornalista (Mário Petraglia), pivô da tragédia. O que dá ao filme certo tom ainda mais absurdo é a diferença de caráter entre o imbecil personagem de Petraglia e a altivez da apaixonada Fernanda: difícil supôr que Suely -- por mais auto-destrutiva que fosse -- trocasse uma pelo outro. E, novamente, o que o ex-presidente Jânio Quadros chamaria de "forças ocultas" vêm à tona na peleja, para tentar comprovar a tese sensacionalista de que "mulher com mulher dá jacaré".

Dando ou não jacaré, o júri será conduzido em tom insano, com ares de Ratinho, até que Fernanda acabe absolvida. No subtexto a mensagem derradeira é o resultado do julgamento, com Fernanda escrevendo a lápis no túmulo de Suely um "só eu te amei" e os créditos encerrando.

Posta a idéia de o filme ser ruim, simplista, a favor de "Amor Maldito" muitas coisas merecem releitura, além da evidência de ter sido precariamente realizado em um Brasil ainda mais paroquial do que hoje, naquele início dos anos 1980. Salva-se, por exemplo, que a história foi baseada em fatos reais, acontecidos no bairro de Jacarépagua, no Rio; e que a película ganhou o título de pioneira por cercar o tema.

Curiosamente a atriz que faz a protagonista suicida, Wilma Dias, teria de fato morte trágica, sofrendo enfarte aos 37 anos. Mais conhecida pela participação na abertura do humorístico "Planeta dos Homens", destacam-se sua coragem e a de Monique Lafond, na pele de personagens tão frontalmente polêmicas e tão facilmente atacáveis pelos trouxas oportunistas.

Outro aspecto notável é que, nessas duas décadas, mudou a inserção de mulheres lésbicas e bissexuais na vida cotidiana, mas o cinema brasileiro não acompanha a evolução sobre o assunto. Por mais "modernos" que somos, a questão gay na nossa cinematografia é sempre vista de forma incidental ou transversa: uma personagem lésbica aqui, um beijo de meninos acolá. "Amor Maldito", ao seu modo, supera tudo isso.

Só não supera "Giselle", da Vidya Produções, ou o cinema da Boca -- que, anos antes, já abordava melhor a homossexualidade feminina em filmes como "Karina, Objeto do Prazer", "Ariella" e "Mulher Objeto". Nestes o moralismo que sufoca "Amor Maldito" é transviado por uma série de subversões divertidas, e o resultado permanece atual e inteligente.

Percebam que atingir uma universalidade ao falar daquilo que não é natural para alguns e soa tão natural para outros, implicará sempre em grande dose de visão progressista e libertária. Se queremos ser e não permitem que sejamos, precisamos vencer, a troco de desgaste. Mais angustiante que a experiência da angústia é nunca sentir angústia, colocou Heidegger. Enquanto a sociedade vigia, o indivíduo cria.

terça-feira, maio 30, 2006

Biografia Entrevista - José Louzeiro


Para quem sente-se atônito e não compreende a questão da violência urbana e da desigualdade social no Brasil, recomendo a leitura urgente dos livros do jornalista e escritor José Louzeiro, assim como uma revisão atenta dos quase vinte filmes que Louzeiro roteirizou até hoje, a maioria baseados em suas polêmicas reportagens.

Maranhense radicado no Rio de Janeiro desde 1954, Louzeiro teve o privilégio de levar para as páginas da literatura, e dali para a grande tela, uma parte considerável da crônica policial dos anos 60, 70 e 80, utilizando-a como objeto de profundo estudo dos abismos que separam ricos e pobres no país.

Alguns desses livros e filmes se tornaram tão célebres que, fazendo parte do inconsciente nacional, aos poucos não diferenciamos mais personagens das obras que geraram. Lúcio Flávio, o famoso bandido carioca, hoje parece indissociável do filme-denúncia oriundo do livro de Louzeiro. Idem a história de Pixote, realizada com base no texto de sua autoria. Não fosse o talento de Louzeiro, provavelmente esses dramas exemplares da sociedade brasileira já teriam sumido na poeira do tempo ou se perdido no anonimato.

Os leitores do Estranho Encontro ganham a oportunidade de conhecer um pouco da emocionante vida deste homem de 73 anos, incisivo e coerente em suas palavras, que guardou na bagagem do que viu e ouviu nas redações dos jornais e delegacias de polícia uma infinidade de histórias para contar. E que, nesta entrevista, relembra um pouco de tudo, com a necessidade dos que ainda tem muito a dizer.


ESTRANHO ENCONTRO – Louzeiro, para começar queria que você falasse um pouco da sua infância, do seu ambiente familiar.

JOSÉ LOUZEIRO – Eu sou filho de um operário, pedreiro, que se tornaria pastor presbiteriano. Meu pai tinha um nome originalíssimo: Aproniano. Nunca vi ninguém com um nome igual. Aproniano. Era pescador, igual ao pai dele, meu avô Severo. Severo Louzeiro. Era Loureiro, mas depois eu vou explicar por que virou Louzeiro. Minha mãe, filha de tabelião, era de um lugar chamado Pinheiro; meu pai, de Guimarães. Ambos do Maranhão. Casaram, tiveram muitos filhos. Nós éramos 12. Mas todos foram morrendo, principalmente os homens. Éramos doze, por aí. Fui o primeiro a nascer homem e a ficar vivo. Tinha uma segunda mãe, a chamada mãe de leite, Teodora, uma negra maravilhosa. Ela dizia: “Esse vai ficar vivo”, e então me dava umas comidas especiais, me dava muito leite, e realmente sobrevivi.

EE – Então seu pai se tornou pastor?

JL – E daí eu tive uma infância e uma juventude muito ligadas à religião. Lia a Bíblia de noite para o meu pai, parece até a cena de um filme chamado “Vidas Amargas”, com o James Dean, em que ele é obrigado a ler a Bíblia para o pai. Aquela mesma história. Como ela é dividida em versículos, às vezes eu saltava alguns, mas meu pai puxava minha orelha. Ele sabia todos de cor. Quando eu pulava, ele sabia. Aí eu desisti, passei a ler certo.

EE – Isso tudo em São Luís.

JL – É. A gente morava num subúrbio chamado Cambôa do Mato. E era engraçado porque o subúrbio começava aonde acabava o calçamento. Não tinha luz na rua, não tinha nada. Até hoje é mais ou menos assim... Eu fiz um primário relativamente bom. Depois, no início do ginásio, fui um péssimo aluno. Era forte, brigava na rua, naquelas ganguezinhas: quando passa de um subúrbio para o outro, estourava a briga. Enfim, eu de fato não cumpria nada do que a Bíblia mandava [risos]. E não estudava, nem lia. Os únicos livros que havia lá em casa eram a Bíblia e os almanaques que distribuíam para vender remédio. Esses, a minha avó Dorotéia guardava. Até que um dia meu pai chegou para mim e disse: “Você é um vagabundo, não estuda, não faz nada. O que é preciso para você estudar?”

EE – E o que você pediu?

JL – Bem, lá não se dormia em cama, dormia-se em rede. E a minha rede era estendida em cima de um bando de saco de cimento, de pedra e tijolos. “Se você fizer para mim um quarto com uma mesa, uma cadeira e com um porta, eu vou estudar.” E ele fez. E eu estudei [risos]. Aí digamos que esse quarto ficou pronto em uma... vamos admitir, hipoteticamente, em uma quinta-feira. Até quarta-feira eu brinquei na rua. Na quinta, eu entrei para esse meu quarto e a minha vida mudou. Completamente.

EE – Isso com quantos anos?

JL – Eu devia ter uns 12 anos, 13 anos, por aí. Os colegas de rua ficaram pensando que eu havia sumido. Comecei a adquirir livros, alguns amigos do meu pai me davam, e comecei a ler. Queria ser alguém, foi interessante. De uma hora pra outra [risos]. Não demorou muito, não. Até porque eu tinha que provar a ele que era verdade.

EE – E a sua mãe, Louzeiro?

JL – Minha mãe era uma pessoa maravilhosa. O apelido dela era Mundiquinha, chamava-se Raimunda. Pessoa de uma paciência fantástica, com uma coisa muito bonita na vida: o meu pai, fanático, convertia todo mundo na rua, só a minha mãe ele não conseguiu converter [risos]. Quando eu queria brigar com ele, eu dizia: “Você não conseguiu converter a minha mãe!” Ela era católica, mantinha um santuário bonito em casa, com os santos da devoção. Um dia meu pai levou o pastor, o superior dele na igreja, e quebraram as cabeças dos santinhos todos. Eu fiquei uma fera. A minha avó, Dorotéia, também de uma paciência incrível, me contava histórias. Havia dois tipos: uma de pura fantasia e outra, de terror, para me fazer dormir rápido. Sempre dormia antes do final dessa, e sempre era mais ou menos a mesma: a de um homem chamado Tamancão, leproso... Olha só, totalmente inverídico o negócio... que de noite aparecia nas ruas de São Luís calçando tamancos, e não fazia nada. Um homem enorme, faltava o braço, faltava o nariz, as orelhas estavam caindo. Vinha de noite pra que alguém conversasse com ele, mas não conseguia, todo mundo fechava as janelas e as portas. Era “A História do Tamancão”. Essa que me fazia dormir...

EE – E nessa época vocês ainda eram Loureiro?

JL – Já éramos Louzeiro, devido ao meu avô Severo. Meu avô Severo não acreditava em nada, não ia à igreja, nem católica, nem protestante, e aos 80 anos gozava meu pai: “Sai agora de noite, dá uma volta por aí, você tem 40 anos de idade”. Ele tocava violão e morreu depois de tocar numa festa onde comeu vatapá, que nem é um prato do Maranhão. Naquele tempo não havia geladeira em casa de pobre, então aquilo foi feito durante o dia e ele comeu à noite. Morreu de uma desinteria total, parece que já estava estragado o camarão, foi um negócio terrível. Morreu com 82 anos; se não, acho que ainda estaria vivo até hoje [risos]. O sobrenome dele era Loureiro. No tempo vago produzia lousas para as escolas. Eram de madeira: a lousa preta e o giz, branco. Ele cortava aquelas tábuas de cedro, fazia as lousas para as crianças. Aos poucos, as pessoas passaram a chamá-lo de “louzeiro”. Então ele trocou o nome de Loureiro para Louzeiro. E hoje eu tenho essa origem que vem de alguma coisa que escrevia, não é? [risos].

EE – [risos] Desde sempre. Mesmo no início, antes de você ganhar o quarto...

JL – Eu não gostava de ler, mas quando ganhei esse quarto, quando entrei naquele ambiente todo pintado, com uma lousa que o meu avô fez, com uma cadeira confortável, com uma pequena estante onde comecei a colocar os livros, aí sim eu comecei a ler. Teve uma hora que o meu pai achou que eu tinha que ir ao médico, a um psiquiatra...

EE – [risos]

JL – [risos] ... porque eu tinha ficado maluco. Fiquei maluco. Aí a minha mãe: “A culpa é sua.” [risos] Porque para almoçar era uma dificuldade. Sair dali. Baixou um santo, e até hoje sou um leitor fanático. Não tem televisão, não tem nada que dê jeito. Eu vejo televisão, mas o meu negócio são livros.

EE – Louzeiro, e como você começou no jornalismo?

JL – No ginásio eu tinha um bom professor, chamado Luiz Rêgo. Um belo dia, o Luiz Rêgo me disse: “Pega este envelope, não abra.” Eu não abria, não tinha nenhum interesse. “Vá no jornal chamado ‘O Imparcial’, entregue lá para o Emanuel. Vá lá.” Ele era amigo do Emanuel. Eu fui. Cheguei lá, o Emanuel, que bebia à beça, disse: “Desça e converse com o Carneiro. Você vai começar a trabalhar como aprendiz de revisor.” Ou seja, era um pedido de trabalho que o Luiz Rêgo tinha feito em meu nome. Ele me aturava. Um tempo antes havia gostado de uma composição que eu tinha feito com letrinhas de forma caprichadas, só para encantá-lo.

EE – Foi assim que você acabou se tornando aprendiz de revisor...

JL – Desta forma. Eu me lembro que o Carneiro era um cara enorme, a barriga enorme, andava sem camisa, todo sujo de tinta. Era o chefe da oficina. Me deu os papéis, provas gráficas que naquele tempo eram umedecidas com água. Gostei muito, porque as primeiras coisas que eu li eram da página literária que o Sarney mantinha no jornal. Ele estava começando também, no mesmo jornal. Eu ficava lendo aqueles artigos e o Carneiro, como eu fazia direitinho, passou a me manter só nesse negócio. De ler essas matérias, para imprimir só no fim de semana. Ou seja, era outro caminho para a literatura. Li poemas do Ferreira Gullar, li poemas do Sarney e de outros intelectuais. Bom, daí desse suplemento eu passei a fazer revisão com os revisores normais, mas não me interessei muito por aquilo e fui para a reportagem de polícia. Tive a ajuda de um repórter famoso, chamado Moacyr de Barros. Eu saía junto com ele, para ver as coisas, e então virei repórter de polícia. Passei mais de 30 anos nessa área.

EE – E a vinda para o Rio?

JL – Eu vim em 54, janeiro de 54, devido a uma reportagem. Fui fazer uma matéria em um município afastado. A acusação que se fazia era a de que um rapaz, cujo nome eu não lembro, tinha sido espancado pelos capangas do Vitorino Freire. Uma figura nociva no Maranhão, senador, o dono do estado. O rapaz foi espancado porque era ladrão no Piauí e fugiu pro Maranhão, mas o jornal inventou que o bom era pegar este cara, botar na primeira página como ele tendo sido espancado, quase morto, com fio elétrico pelo pessoal do Vitorino. Deram uma surra no cara, ele com as costas todas cortadas. Quem fez a matéria fui eu. O Vitorino Freire, claro, mandou botar o meu nome na lista para morrer. O jornal ficou preocupado: eram cinco na lista. Três morreram. Acharam melhor me mandar para o Rio.

EE – O início no Rio deve ter sido conturbado, pelo jeito.

JL – Eles me deram alguns trocados, meu pai também ajudou. Eu vim em um avião Skymaster, da Lloyd Aéreo. Esse Skymaster eram as velhas fortalezas que, durante a Segunda Guerra, transportavam armas e jipes, de Natal para a África. Eu olhei e pensei: “É impossível esse negócio voar”. Era gigantesco, com três motores de cada lado da asa, um troço gigante. A empresa parece que tinha dez desses aviões, e fechou quando caiu o último [risos]. Antes de fechar, ainda havia três, e eu vim em um deles.

EE – [risos] Você se lembra dos seus primeiros momentos profissionais, depois da viagem?

JL – Sim, me lembro. Vim para trabalhar no “O Jornal”, mas acontece que a pessoa que havia me convidado não tinha cacife para convidar ninguém e, de repente, não havia nada que eu fizesse. Fui então trabalhar em uma empresa que vendia material gráfico, alemã, chamada Oscar Flues, na Praça Mauá. Eu cobrava dívidas dos donos de gráficas e cartonagens. A Oscar Flues vendia material de segunda mão, recondicionado. Fiquei nisso um ano, até que comecei a trabalhar na “A Revista da Semana”, na Lapa. A “Revista” concorria com “O Cruzeiro”, do Chateaubriand. A partir daí fui me envolvendo no jornalismo, trabalhei bastante no jornal do Tenório Cavalcanti, “A Luta Democrática”. Depois no “Diário Carioca”, no “Correio da Manhã”, aí enganchei na reportagem de polícia, mesmo. Às vezes eu trabalhava em dois jornais e colaborava com um terceiro.

EE – Já na reportagem de polícia, como foi o seu envolvimento na literatura, enquanto escritor?

JL – Nesse período inteiramente tumultuado, escrevi um livro de contos, chamado “Depois da Luta”. Aliás, teria que ser “Antes da Luta”, o título está errado. Publiquei em 1958, por conta própria; o editor fez um preço barato, então publiquei. Em 60 eu fiz uma novela, a minha primeira novela. Com o tempo, fui publicando muitos. Tenho mais de cinqüenta livros publicados.

EE – Louzeiro, vamos dar um salto para o primeiro roteiro de cinema escrito por você a partir de um livro seu, o “Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia”. Queria que você falasse um pouco da sua convivência com essa figura lendária da bandidagem carioca.

JL – Eu estava cobrindo férias de alguém, no “O Globo”, e também trabalhava na “Última Hora”. Um dia, de noite, de madrugada, uma voz estranha... Você sabe logo que é alguém que está botando lenço na boca, para não ser reconhecido. E aí só pode ser bandido. Umas duas da madrugada, três, aquela voz estranha procurando alguém de “O Globo”. Ele: “Olha, aqui é o Lúcio Flávio.” A polícia inteira estava procurando o cara. “Mas é de verdade?” “É de verdade.” “Então faz o seguinte: daqui a 5 minutos você me liga de novo.” Porque aí eu iria gravar, já tinha um gravador deste tamanho. Ele: “Se for para gravar, eu não ligo. Faz o seguinte: me liga. Eu vou lhe dar um telefone, você liga”. Ele deu um telefone, eu liguei. Esperto, o cara. Você começa a saber que está lidando com um cara que não é bobo. Liguei, ele atendeu; era um boteco, uma barulheira. “É o seguinte: amanhã a gente vai fazer um ganho num banco bonitinho que tem na Urca.” A Urca só tem duas ruas, a Marechal Cantuária e a Avenida Portugal. “Aquele banco do chapéu, do guarda-chuva. A gente vai fazer um ganho e, se você for lá, com certeza vai ter uma boa matéria.”

EE – Mas ele fez isso por quê? Pela vaidade, então.

JL – Vaidosíssimo. Megalômano. Eu fui, não disse para ninguém porque a gente esconde para o outro não saber [risos]. Foi um assalto fantástico, um assalto fantástico. Uma menina muito bonita, quando ele já ia saindo, correu atrás dele para dar um beijo. Essa cena não está no filme. A menina ia dar um beijo e ele teve um tremor, porque acionou o gatilho e não havia mais balas. A menina se salvou, mas quando chegou ao carro ele borrou-se todo.

EE – O projeto do livro foi combinado em conjunto por vocês dois?

JL – Eu prometi que escreveria um livro sobre ele. No filme está assim: “Vocês podem acabar comigo, mas não acabam com a minha história. Estou contando para um jornalista.” O jornalista era eu. Fui para São Paulo, fiquei na “Folha de São Paulo” uns anos e, depois, quando eu voltei para o Rio em 75, ele tinha sido assassinado. Aí eu resolvi, em cima da história dele, escrever um livro. O livro que ele não escreveu, uma pena ele não ter podido ler. Os editores tiraram 3 capítulos, porque ficaria muito grande. Tiraram. Um dia, quando eu republicar de novo, vou colocar os 3 capítulos que estão faltando.

EE – Você pode adiantar pra gente o que eles contêm?

JL – Um é bem interessante. O Lúcio Flávio foi o único bandido que fugiu 16 vezes da prisão, pela porta da frente. Para fugir de prisão é preciso ser um gênio. E ter muito dinheiro. Ele só fugia pela porta da frente, era uma pessoa com uma boa formação. Só para você ter uma idéia, o pai do Lúcio Flávio era o principal assessor, cabo eleitoral, do Juscelino Kubitscheck. Eu tinha uma foto com o Lúcio menino, o pai e o Juscelino.

EE – Quais eram os métodos dele para as fugas?

JL – Certa vez ele chegou para o diretor do [presídio] Frei Caneca e disse: “Seu Fulano, eu vim aqui lhe dizer o seguinte: a sua prisão é uma imundície.” Era ousado. “Que administração o senhor faz, que não tem sequer condições de pintar isso aqui? Eu quero ser preso num negócio mais ou menos limpo.” Aí o cara: “Não tenho verba pra isso.” “Bem, se quiser eu lhe dou as tintas. Eu posso até pintar o meu pedaço.” E não é que o cara topou? O Lúcio Flávio telefonou para alguém e de repente começaram a chegar os caminhões com tinta. Muito bem. Foram arrumando as tintas no canto, aqueles galões, a coisa demora. Prisão é como igreja, não acontece nada de uma hora pra hora. Um belo dia, havia um monte de latas de tinta amontoadas; um policial pegou algumas, botou no Fusquinha e roubou. Quando chegou em casa, abriu. Estava cheio de armas. “Se essa está cheia de armas, as outras também devem estar. E agora, eu faço o quê? Eu fico calado, espero o motim? Vai morrer um bando de gente.” A mulher dele: “Eu acho melhor você contar. Vai sair preso como ladrão, mas pelo menos presta um serviço aos seus colegas.” Foram lá e não deu outra. Dez latas. Duas tinham armas; oito, tinta. Mas havia alguma indicação que os policiais não conseguiram descobrir, que dizia em qual havia arma e em qual havia tinta. O Lúcio Flávio foi chamado. “Então o senhor queria dar um golpe?” “Não senhor. Eu estou fazendo o meu papel de preso, eu quero fugir. E o senhor é que tem que se virar, para não deixar que eu fuja. A hora que puder, eu fujo.” [risos]

EE – [risos] E os outros capítulos retirados?

JL – O Lúcio não fumava, nem bebia, mas pedia que trouxessem fósforos. Dos fósforos ia tirando a pólvora e colocando em uma lata: acabava tendo latas e latas de pólvora. Pegava papel de jornal, molhava, embolava, fazia um bando de bolinha. Com uma agulha ele imantava o fio de linha com pólvora. Passava a agulha por dentro das bolinhas. Fazia um cordão com uma bolinha aqui, outra bolinha, outra bolinha. E cada cara do grupo dele que saía, saía com bolinhas e largava aquilo em lugar estratégico. Muito bem. Teve uma festinha na prisão. O diretor estava comemorando não sei o que, veio o Secretário de Segurança e assessores. Quase que no mesmo momento, veio também um carro da lavanderia. Nessa hora em que estava todo mundo reunido, hasteando bandeira, o Lúcio Flávio acendeu um fósforo e tocou fiozinho que saiu queimando a pólvora e começou a estalar: pá, pá, pá! Os policiais sacaram as armas, começaram a dar tiros, gerou um pandemônio. O grupo do Lúcio rendeu o cara da lavanderia, amarrou o motorista e foi embora. Fugiram dez. Pela porta da frente. Tem mais o outro capítulo que eu não me lembro direito, mas esses dois eu quero recolocar. O Lúcio era altamente inventivo. Uma inteligência a serviço do crime.

EE – Em relação ao filme, como foi a abordagem do pessoal da produção, para o roteiro? Como eles chegaram até você?

JL – Eu ia fazer o filme com o Roberto Farias. Aí o Roberto tinha ido para Cannes. Jornalista vive em um sufoco que não tem tamanho, eu precisava de alguém que me desse um adiantamento para trabalhar no roteiro. E eu nunca tinha trabalhado em roteiro nenhum. Nesse período eu perdi o contato com o Roberto.

EE – O Babenco entra nessa hora.

JL – Um argentino me telefona, de repente. Alguém com a pronúncia bem espanholada mesmo: “Olha, eu sou o Babenco. Li o seu livro, queria colocá-lo no cinema, estou apaixonado por ele.” Jornalista não acredita em nada. “Bom, vamos fazer o seguinte. Que horas são no seu relógio?” “São 11 horas.” “Quando for 2 horas da tarde, se você estiver aqui em casa, porque às 4 eu saio para a ‘Última Hora’, a gente faz negócio. Se não, você me esquece.’” Ele chegou 1 e meia, por aí. Era um jovem, fiquei até com pena. O cara veio lá de São Paulo, uma bolsa deste tamanho, todo grandalhão e afobado. Ele disse logo: “Vou lhe arranjar o dinheiro, isso não é problema.” O que já é muito grave de se dizer. Mas aí fechamos negócio. Gostei muito quando ele me disse: “Eu quero fazer um filme como o livro.” Pensei: “vou jogar na disposição desse cara”. E por isso fiz negócio com ele. O Roberto ficou chateado quando voltou. O filme não é lá uma obra-prima, mas foi um sucesso muito grande. E feito em quatro semanas, era 1977. Em plena ditadura, denunciava o “Esquadrão da Morte” que as autoridades negavam existir.

EE – O roteiro é seu, não é?

JL – Meu e do Jorge Durán, grande roteirista. Eu não sabia fazer roteiro nenhum. Gostava muito de ler textos de teatro. Gostava, não. Gosto. Mas cinema é diferente. O Jorge ajudou muito, ficamos amigos. É talvez um dos melhores roteiristas que eu conheço. Foi quem me despertou para esse negócio do conflito, ajudou muito os meus livros, ele nem sabe disso. Hoje, o conflito, para mim, é indispensável em qualquer coisa. Você vai ver um programa desses na televisão: se não tiver o conflito, dançou. Os conflitos, a armação da história, eu aprendi com o Durán. A dramaturgia é uma ciência, e quem não estiver em cima de conflito e de plots, pode encerrar, porque está fora do contexto. O Durán sabe disso tudo. Então a minha trajetória pessoal no cinema foi através do Babenco e do Durán.

EE – Depois do “Lúcio Flávio” você fez o roteiro de “Os Amores da Pantera” com o Milton Alencar, com quem você trabalharia muitas vezes.

JL – O Milton é uma pessoa queridíssima, mas sempre se dividiu muito. Ele poderia ter sido um grande cineasta, mas se dividiu muito. Esforçado. Nós fizemos muitos filmes juntos. Começou com o Jece Valadão, no estúdio da Magnus Filmes.

EE – E do “Os Amores da Pantera”, o que você lembra do roteiro?

JL – Do “Os Amores da Pantera” eu me lembro do Jece Valadão [risos].

EE – Ele encomendou o roteiro?

JL – Houve uma época em que o Jece foi muito amigo meu. Ele sempre quis fazer um filme sobre o Lúcio Flávio, acabou até fazendo: “Eu matei Lúcio Flávio”. O Jece até me convidou para fazer o roteiro, mas não aceitei. Não poderia fazer “Lúcio Flávio” e dizer que quem matou o Lúcio foi aquele policial, o Mariel Maryscotte. Aliás, ele não ia com a minha cara. Quando fiz o filme ele achou que deveria ter colocado o nome dele – Mariel. Eu coloquei Moretti. O Mariel era um dos homens do “Esquadrão da Morte”; um dos Homens de Ouro, junto com o Sivuca e companheiros de grupos de extermínio.

EE – Escuderia Le Cocq, coisas assim...

JL – Imagina. Eu sempre fui contra esse pessoal. Ele ficou marcando o Jece e chegou uma hora em que o Mariel arranjou dinheiro com os bicheiros para a produção. Queriam que eu elaborasse o roteiro, a proposta era essa: ganhe um apartamento de três quartos na Zona Sul, aonde quiser, e faça o roteiro. Mas eu sou muito teimoso. “Não faço.” Fazer um filme contra o Lúcio Flávio, não senhor, de jeito nenhum. Fiquei sem o apartamento [risos].

EE – Você já chegou a ser preso por apologia ao crime?

JL – Algumas vezes, mas coisa rápida. No “Correio da Manhã” fiquei umas três vezes preso, a prisão era pertinho. O “Correio da Manhã” era na Gomes Freire e naquela rua que atravessa, Consolação esquina de Inválidos, tem o que hoje está semi-destruído, que era o Palácio da Polícia. Fui preso ali umas três ou quatro vezes. Dois dias, três dias, meio dia, uma hora. Por coisas que às vezes até desconhecia o motivo.

EE – Louzeiro queria falar agora sobre outro roteiro seu baseado na crônica policial, “O Caso Cláudia”, de 79.

JL – “O Caso Cláudia”. “O Caso Cláudia” foi dirigido pelo Miguel Borges.

EE – Eu queria entender uma coisa. Ele é todo calcado na morte da Cláudia Lessin Rodrigues. O que é óbvio, a começar pelo título. Por que no final consta que todos aqueles episódios são inverídicos? “Qualquer semelhança...”

JL – Medo do diretor, para não ser processado pelo Comandante, o pai dela.

EE – Ah, o pai dela era Comandante...

JL – ... de Aviação Comercial.

EE – O Miguel encomendou o roteiro a você e ao Valério Meinel. Ou não?

JL – O dono de uma editora – Arte Nova, Álvaro Pacheco – que ficava no bairro de São Cristovão, foi quem nos encomendou esse filme. Para mim e para o Valério Meinel. Foi o Valério Meinel que ajudou a descobrir o caso, antes da polícia. Ele e o fotógrafo Gallo, junto com o detetive War War, que cunhou uma frase: “a mecânica do evento”. Tudo dele era mecânica do evento. Pois bem, encomendaram o filme e nós fizemos o roteiro. Nunca mais soubemos nada a respeito desse filme. Também a gente vai deixando pra lá... Fez sucesso na Argentina, um sucesso grande.

EE – Você tem alguma história interessante dos bastidores?

JL – Eu estive na televisão, no programa do Flávio Cavalcanti, da Tv Tupi. O Flávio me convidou, mas não me disse com quem eu estaria. Para mim, era um programa a respeito do filme, mas quando eu chego, lá encontro o pai da Cláudia, o Comandante. Não me lembro agora do nome; estava bastante zangado. Acontece que eu sabia uma história completa da menina nos Estados Unidos, em Nova Iorque. “Está bem, Comandante. Isso não está no filme. O senhor quer que eu diga ou não diga?” “Imagina, o senhor pode dizer, não há nada a esconder.” “Eu acho que há. Depois que eu disser, o senhor vai entender que há.” Aí o Flávio: “Então vamos!” Claro, era o Flávio Cavalcanti... “A menina namorava um cabeludo americano, tocador de guitarra. O senhor foi ao FBI, mandou pegar a menina, botar dentro do avião e prender o rapaz. Essa que é a história. A menina veio para o Rio de Janeiro na marra. E o senhor sabe quem é o rapaz agora? Ele é o líder de uma banda. Está lá, vivo. E o senhor trouxe a sua filha, ela encantou-se com um delinqüente daqui, o Michel Frank, filho do representante de relógios Mondaine, da Suíça. Ela namorou uma figura rica, não é isso o que o senhor queria? Só que esse rico era um patife e ela morreu. O senhor...”, aí ele chorou, “...o senhor é o responsável pela morte da sua filha. O senhor é o responsável. Isso eu não botei no filme. Nós temos os jornais. A sua filha sendo presa nos Estados Unidos, está tudo registrado.”

EE – O nome desse roqueiro, você se lembra?

JL – Não me lembro do nome dele, é famoso hoje, mas esqueci o nome. Naquela hora, então, o comandante chorou, foi uma loucura, depois quis me abraçar. “Não, não. O senhor é o responsável pela morte da sua filha.” Jogaram a menina no Chapéu dos Pescadores. Olha só o padrão dos caras: quando eles a jogaram a maré estava cheia, só que o corpo ficou enganchado. Quando a maré secou, a menina estava nua, aquele corpo enganchado na pedra, e os bombeiros jogando corda para puxá-lo. Por outro lado também, não foram os rapazes que a mataram. Ela cheirou demais, eles meteram a mão pela boca da menina no momento em que começou a ficar enlouquecida, tentando desenrolar-lhe a língua. A mão do Michel ficou toda arranhada de dentes. Essa que é a história. Ninguém a matou, não, ela morreu de overdose. E quem descobriu foram o Valério Meinel e o Gallo.

EE – E o roteiro seguinte foi o do “Pixote, A Lei do Mais Fraco”, baseado no livro “Infância dos Mortos”, escrito por você. Como o Babenco fez o contato?

JL – Desde o “Lúcio Flávio” eu já estava pensando em escrever o “Pixote”, o que só fui fazer em 77. Por volta de 1980, o Babenco comprou os direitos, mas ele não iria fazer “Pixote”, aconteceu por acaso. Ele estava trabalhando em cima de um livro do Márcio Souza sobre a Amazônia, com um conteúdo histórico, a respeito da borracha, da construção do teatro maravilhoso que há em Manaus. O Babenco é muito hábil, ele ouve todo mundo, afinal, era uma superprodução, com roupas antigas, um montão de gente. Enquanto no “Pixote” ele teria que fazer um filme em que roupa é o que não tem; são shorts, aquela atmosfera miserável, mesmo. Ele, então, preferiu fazer o “Pixote”, roteiro meu e do Durán. Só que o meu nome foi tirado. Porque o Babenco deveria aparecer como diretor, o Duran, o roteirista e eu o argumentista. O Babenco não cumpriu o acordo, fiquei sem meu percentual de 2%. Meu pobre percentual. E aí houve que eu me chateei, fui para o advogado e não fizemos o terceiro filme, que seria o “Brincando de Viver”, sobre a escritora louca Maura Lopes Cançado, autora de um diário chamado “Hospício É Deus”.

EE – "Hospício É Deus"! Estou procurando esse livro há um tempão...

JL – Fui amigo pessoal dela, mas às vezes até me arrependia, porque todos os problemas dela, ela passava pra mim. Todos, inclusive, ou principalmente, os sentimentais. Certa vez ela namorou um detetive mau caráter que começou a tratá-la como prostituta. Foram dormir no Marialva, um hotel pertinho do “Correio da Manhã” e do Palácio da Polícia; esse hotel está lá até hoje. Sentindo-se humilhada, Maura meteu o revólver do amante na bolsa e foi à redação de madrugada me comunicar que ia matar o policial. Só não matou logo porque não sabia acionar o revólver 38, que por sinal estava cheio de balas. Como eu aprendi a lidar com loucos, em vezes de fazê-la desistir – que é o que ela queria, para entrar na lamentação –, e eu cheio de trabalho, o jornal não podia atrasar, disse a ela de maneira enfática que o melhor de matá-lo seria a pauladas [risos]...

EE – [risos]

JL – Expliquei que há um “pau de bobina”, roliço e forte: com dois belos golpes ela mandaria o amante para o céu. Pedi ao meu assistente que pegasse um pau de bobina enquanto ela tomava um cafezinho. Quando Maura viu a peça surpreendeu-se, bateu com a xícara em cima da mesa e disse que eu era louco. Se ela batesse com aquele pau na cabeça do detetive, iria espirrar miolo pelas paredes. Decepcionada comigo, foi embora esquecendo o revólver, que no dia seguinte devolvi ao policial, que me disse chamar-se Toninho. O que devia ser mentira, pois eu nem perguntei o nome dele, que chegou na redação perguntando por Maura. Essa e outras histórias, pretendo colocar em filme no qual a Maura se encontra com Dom Quixote, em Jacarepaguá, numa clínica em que ela era interna.

EE – E as repercussões iniciais do Pixote, livro e filme, na época?

JL – Foi muito interessante, porque tanto na época do livro, quanto na época do filme, aqui no Brasil não teve a menor importância. A burguesia ainda não era assaltada pelos meninos de rua. Acho que os meninos de rua então prestaram um grande serviço social a este país; quando nada, abriram o mercado de trabalho: todo mundo agora tem porta de ferro, o carro anda com a vidraça pra cima, não pode enguiçar. Tudo pode enguiçar no carro, menos o vidro da janela para evitar os meninos vendedores nos sinais. Eles acabaram prestando um grande serviço social neste país de patifes, ladrões e picaretas. Quem é sério neste país? Este é que é o problema. Aonde é que anda a classe política deste país? Está precisando ser varrida, jogada no lixo. Eu digo um negócio, tomara que eu não acerte. Os bandidos é que vão acabar botando o país nos eixos. Só há bandido! Agora, o bandido que rouba um queijo, vai em cana. O Delúbio e os seus comparsas, isso aí rola num papo indefinido e acaba ficando tudo por isto mesmo. Os milhões afanados não são devolvidos nunca.

EE – O livro tem essa inquietação que você captou no ar em 77.

JL – Era a época da ditadura, e se você prestar atenção, os meninos é que são os heróis. Você não tem idéia do que eles passam na Padre Severino [instituto de correção para menores]. E às vezes eles são pegos na rua porque estão a serviço da polícia. Isso não quer dizer que seja da polícia toda, mas de uma boa parte, sim. Roubando para dividir dinheiro com o policial. Depois largam eles no camburão, e quem não faz isso morre cedo. Outro dia, 2 ou 3 policiais bêbados entraram em um boteco lá de Caxias e mataram 29 pessoas. Quase todos meninos. Mataram e mataram. O que aconteceu com os assassinos? Até hoje oficialmente não sabemos. As vítimas eram todas pobres. Soldados do Exército mataram há pouco tempo um menino que descia de uma viela no morro, conduzindo um guarda-chuva fechado. Um inteligente militar pensou que fosse uma metralhadora e não pensou duas vezes. Metralhou um menino de 16 anos. O que aconteceu com o assassino? Não sei, ninguém sabe. Quando repórter eu não era querido por ninguém, muito menos pelo jornal. Porque eu nunca fiz composição com polícia, nem com ninguém. Tive amigos que faziam muito isso e morreram mal.

EE – Como era a sua relação com Fernando Ramos da Silva, o protagonista de “Pixote”?

JL – Com o apoio do ex-prefeito de Caxias, Hydeckel Freitas, eu trouxe a família do Fernando para o Rio, no final dos 80. Na época ele estava sendo perseguido pela polícia em Diadema, São Paulo. Com Pixote e sua mãe, Dona Zefa, vieram 2 irmãos – assaltantes procurados pela Rota paulista – e um tio que não queria nada com o trabalho. Hydeckel conseguiu emprego para todos eles e com seu dinheiro, não o da Prefeitura, comprou uma casa confortável no bairro da Paulicéia, em Caxias. Havia garagem, uma geladeira, um freezer, cheios de comida – que o Fernando trocava por drogas –, além de uma pequena biblioteca, 3 quartos e um jardinzinho rodeando. Nesse dia ele me disse: “Você é o pai que eu não tive.” Dona Zefa, não acreditando que a escritura da casa coubesse em 2 folhas de papel, vendeu a casa pela metade do preço para um oficial da Marinha, comprou uma Kombi velha, botou o que coube no veículo e, como se estivesse fugindo, partiu de volta para Diadema. Hydeckel Freitas quando soube dessa decisão, chorou. Seu sonho era mandar Fernando estudar dramaturgia nos Estados Unidos. Queria adotá-lo. Fernando foi vítima da glória que alcançou e não soube administrar, nem tinha idade pra isso. Outra pessoa que muito ajudou o Fernando foi o Babenco, que mandou transformar o barraco onde ele morava, antes de vir para o Rio, numa casinha de alvenaria. O ator foi fuzilado por policiais da Rota que terminaram inocentados, como sempre acontece. Era um péssimo ladrão, roubou na vizinhança uma televisão velha e por essa insensatez, acabou morto.

EE – Em 1996, o José Joffily rodou o “Quem Matou Pixote?”, baseado em outro livro seu com um gancho sobre o mesmo tema, o “Pixote, a Lei do Mais Forte”.

JL – Porque o mais forte é a polícia.

EE – Como é que surgiu esse filme?

JL – Surgiu por iniciativa da Cida Venâncio, mulher do Fernando Ramos da Silva. Ela escreveu um livrinho sobre ele e procurou o José Joffily, que se interessou, pediu que eu ajudasse e ajudei. Além desse, outra fonte foi o livro que eu escrevi sobre o Fernando, cujos direitos dediquei à filha dele durante as primeiras edições. Nem sei em quantas edições já está. A menina parecia muito com o pai, quando botava aquela touquinha, então... Ajudei um pouco no filme. O Zé é muito bom, gosto muito dele, acho a fita legal. O Bomtempo faz o papel de um policial diabólico. Acho inclusive que a marcação de luz e certos enquadramentos são melhores do que os do “Pixote”, de Babenco. Tem uma boa marcação de luz. E o Zé tem uma qualidade no set que eu admiro. Quando as coisas estão muito enroladas, ele fecha os olhos e pára [risos]. Pára [risos]. É engraçado. Faz isso para não perder a concentração. É dose pra elefante rodar um longa neste país voltado para o cinema americano.

EE – Agora, voltando para 1982, passamos para um outro filme bem barra pesada. O “Escalada da Violência”, do Milton Alencar.

JL – Esse não chegou a ser exibido, chegou?

EE – Saiu em vhs.

JL – Mas não chegou a ser exibido. Foi produzido por um dos sócios da Supergasbrás, milionário. Ele resolveu fazer um filme, aliás, nós metemos essa idéia na cabeça dele, e então surgiu o “Escalada da Violência”, do Milton Alencar.

EE – E o roteiro todo seu?

JL – O roteiro todo meu.

EE – Aproveitando, claro, as suas experiências como repórter. Tem muita coisa verídica ali?

JL – Muito, muito. Graças ao Sérgio Farjalla, mestre em efeitos especiais, bolamos um carro que rendeu uma bela explosão. O filme ficou bom, é o melhor trabalho do Milton.

EE – O conflito central, do cara ter perdido a filha e a esposa, é verídico também ou aí já foi ficção?

JL – É verídico...

EE – ... O cara ficou louco mesmo...

JL – Trata-se de uma reportagem em 35 milímetros. Como nunca foi para o cinema – o produtor, Valdemar, não concordou com o percentual de 50% cobrado pelos exibidores – o filme enferrujou na lata. Mas isso era lei de mercado, o Valdemar detestava esse tipo de lei. Pra piorar, era a ditadura, período em que havia uma grande contradição entre a ideologia de direita e a produção de quase 100 filmes malandramente contra o regime. Eram produzidos pelos condutores da política de exceção, através da Embrafilme, dirigida por Roberto Faria e apoiadíssima pelo Ministro João Paulo dos Reis Velloso, que arranjava o dinheiro. Uma pessoa devotada ao cinema, infelizmente esquecida até pelos diretores beneficiários – e não foram poucos – da sua astúcia.

EE – Outro filme bem interessante para a cinematografia brasileira é o “Amor Maldito”, de 1984, dirigido pela Adélia Sampaio. O primeiro de temática inteiramente lésbica feito no país. Quando entrevistei a Monique Lafond, ela me disse que a Adélia ou você ficaram sabendo primeiro da história. História verídica também, não é?

JL – É, aquela história surgiu primeiro no jornal. Contactei a Adélia, que nesse tempo estava vindo do teatro. Hoje ela voltou para o teatro novamente, apesar de ter tudo para ser uma boa diretora. Quem dá vida ao filme é a Monique. Muito bonita, atlética, fazia bastante ginástica. O filme também é muito bem dirigido. E em relação ao fato de ser o primeiro integralmente com a temática lésbica, eu sabia e a Adélia também. Aliás, você precisava ver os narizes torcidos e tudo o mais. Até hoje, imagina. Agora, ninguém sabe que se você for na história antiga, antiga mesmo, na Grécia, por exemplo, todos aqueles filósofos tinham os seus amantes. Todos. O Sócrates tinha a Xantipa e os namorados. A humanidade foi sempre assim. Qual é o problema? O diabo são os preconceitos. Onde está o escândalo de uma mulher viver com outra? A Adélia pretende fazer outros filmes desse tipo, inclusive mais trabalhados. Quando se fala “mais trabalhados”, significa “com mais dinheiro” e vários tratamentos de roteiro.

EE – Passando para o “Noite”, de 85, do Gilberto Loureiro. Do que você se lembra?

JL – Esse tem uma história muito curiosa. Foi produção da Mariza Leão, baseado no livro “Noite”, do Érico Veríssimo. O Gilberto é uma bela pessoa, e Loureiro, quase que era Louzeiro. Bom desenhista, arquiteto, enquanto eu fazia as seqüências, ele desenhava storyboards. Tive vontade de publicar um livro com os desenhos, mas não foram guardados. O filme seguiu bem até perto do final, depois houve desentendimentos dele com os atores. Um exemplo: em determinado momento da fita, havia uma menininha linda, de quem eu não me lembro o nome. Ela aparecia só na mente do personagem, que era um louco. De repente, mexeram no roteiro, a garotinha ficou sendo uma imagem do real. Como outra qualquer. Perdeu a força da subjetividade. Aí o louco perdeu também a razão de ser. Era um belo filme. Uma luz especialíssima, um figurino de primeira qualidade.

EE – Mas nesse, então, você fazia as cenas e o diretor ia preparando o storyboard.

JL – Algo que não é comum no Brasil. O storyboard, que aqui muita gente não sabe o que é, e num instante desenhava. Não sei por que, parece que ele inibiu-se depois desse filme. Nunca fez mais nada. Uma pena. Loureiro é um profissional de muita sensibilidade. Além de um desenhista inspirado.

EE – Chegamos ao “O Homem da Capa Preta”, de 86, do Sérgio Rezende...

JL – “O Homem da Capa Preta”. O Sérgio estava querendo fazer um filme chamado “Soco Inglês”. Eram uns trogloditas que promoviam desordens, davam cotoveladas para afundar capota de carro e outras maluquices do mesmo tipo. Eu achava aquilo um pouco sem pé nem cabeça. Do meu lado, no chão, havia uma pasta grande, com os originais do livro da Sandra Cavalcanti, a filha do Tenório. Eu via que aquela história não tinha futuro, e o Sérgio também. Aí disse: “Sérgio, leva esse original aqui, que eu ainda não acabei de ler, é da filha do Tenório.” No dia seguinte, ele reapareceu encantado. “Vamos esquecer o soco inglês e fazer isto aqui.” E começamos. Movimentamos a Sandra e a Dalva Lazarone, para dar mais informações sobre o deputado. Além das que eu tinha.

EE – Da época de jornal?

JL – É, de quando trabalhei com ele na “Luta Democrática”. Muita coisa que se faz na redação, ninguém em casa fica sabendo. Acho que este é um filme dos bons. Não concordo com o final de metralhar o muro, um muro de tijolos, como aquele que está ali, aparente. Ali deveria estar uma figura qualquer. Coloca a figura de um milico qualquer e fuzila em cima. Uma coisa visual, cinema é visual. Não se fez nada disso. Ficou-se na suposição do que vão achar. Não acharam nada e o final se perde. Mas o José Wilker está muito bem e a direção do Sérgio Rezende é firme, com momentos especialíssimos.

EE – Tudo o que se fala do Tenório é real? Ou está mais para lenda urbana?

JL – O Tenório é uma figura que está pronta aí para fazerem outro filme. O que ele aprontou não está escrito. Apareceu o lado bom porque, claro, as filhas estavam muito envolvidas. O filme ficou bem cotado, o fotógrafo, César Charlone, trabalhava com publicidade. Em uma cena, com o José Wilker fumando, a foto está lindíssima. A Marieta Severo faz o papel da mulher do Tenório, Dona Zina, o apelido era Zina, que fingia ser surda porque o Tenório, em casa, não conversava, fazia discurso. Para não ouvir, ela fingia ser surda, usava aparelho. Não era surda, não [risos]. Isto não está no filme. Quer dizer, está no filme mas não está explicitado. É um negócio importante. A mulher passar a vida inteira com um trambolho no ouvido, para não escutar as maluquices do marido. É tema para um outro filme. O Sérgio não se interessou por este detalhe. Também sou culpado, ia poucas vezes ao set. Quando o roteirista aparece lá, de repente, passa a impressão de que ele está fiscalizando ou interferindo. Sempre tive horror de ser chato. Vou às filmagens quando sou convidado.

EE – Louzeiro, para finalizar, uma pergunta que eu sempre faço. Dentro do que você construiu para o cinema brasileiro nesses roteiros, o que você acha que permanece? Aliás, a princípio não era nem para você ter entrado para o cinema [risos]...

JL – [risos]

EE – ... O que você acha que ficou do garoto que entra naquele quarto simbólico, mágico, cresce e chega ao jornalismo, à literatura, ao cinema.

JL – Para responder à pergunta, preciso fazer uma homenagem ao meu avô Severo. Com meu pai eu nunca pesquei; com meu avô Severo eu ia pescar. A gente pegava uns fachos, acendia e jogava a tarrafa para pegar camarão ou siri. Se fosse dia, era só jogar a isca num fio azul que logo os siris apareciam. À noite, a pesca do camarão era comandada pelos fachos. Meu avô tinha um cacoete, que na época eu não entendia. Tão logo a sua cestinha de vime se enchia de siris ou camarões, ele remava para voltar pra casa. Certa ocasião, reclamei, e ele me deu esta lição “Aprenda a se satisfazer com o que suas mãos podem carregar. Nada de amealhar.” No mundo capitalista, meu avô estaria perdido. Agora a filosofia é a seguinte: amealhar e amealhar, enquanto o povo morre de fome. Mas a violência é desencadeada pelos excluídos, e muitos ricos com seus carros importados já não podem sair de casa. Senhoras milionárias usando jóias, nem pensar. Os condomínios sofisticados neste país inteiro são guardados pelos excluídos. Tomara que eles tão cedo não resolvam vingar-se dos seus exploradores.