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segunda-feira, junho 20, 2011

Parceiros da Aventura


Em 1947, o sumo sacerdote Jean Manzon convidou um novato para a redação de “O Cruzeiro”. Precisava ter desenvoltura, ser ágil, alguém que agüentasse a Rolleiflex no ritmo frenético da revista. José Medeiros aceitou.

Mais tarde, tornou-se conhecido por igualar ou superar o mestre, além de migrar para o cinema. Dirigiu quatro curtas-metragens e um único longa, “Parceiros da Aventura” (1979). O número pequeno nem de longe se compara com a quantidade de participações que teve no métier original, o de fotógrafo.

Entre os seus maiores vôos estão “Rainha Diaba” (1974), “Ódio” (1977), “Chuvas de Verão” (1978). Sempre com pouca luz e contenção de excessos. Tirava engenhosidade do bolso, operava ínfimos watts.

De tanto mexer na fotografia para os outros, José Medeiros dizia que já tinha visto gente com menos talento se metendo na direção. Aí a curiosidade bateu. Durante as filmagens de “Xica da Silva” (1977), de Cacá Diegues, conversou com o historiador João Felício dos Santos. Chamou José Louzeiro, jantava na casa do escritor e finalmente – depois de tudo matutado – “Parceiros da Aventura” foi para a Lapa, Rio de Janeiro, jogar suas plumas.

Entre a zona central do Rio e a zona sul, “Parceiros da Aventura” surge como um cântico da boemia e das pequenas coisas. A violência vai separando as tribos que, no início, parecem uma só. Um grupo coeso em que há a prostituta (Ana Maria, Isabel Ribeiro), o desempregado (Benedito, Milton Gonçalves), o malandro (Vaselina, Marcus Vinícius), o músico (Paulo, Paulo Moura), o funcionário público (Erva Doce, Procópio Mariano).

As rodadas de chope, o clarinete de Paulo Moura – dando uma palhinha de ator –, as mesas que de repente são invadidas por um molecote vendedor de jornal, flores aleatórias, o cheiro esotérico de botequim que quase se pode sentir a 30 anos de distância. No mesmo ano, “Muito Prazer”, de David Neves, operava nesse registro de amor carioca. Vide a cena de Nelson Cavaquinho dedilhando o violão e unindo um dos arquitetos aos pivetes.

Ana Maria e Vaselina têm um namoro interracial. Desses que ainda hoje são tabu e que apareceriam em poucos filmes. Moram juntos no cafofo de paredes cor-de-rosa, um colega se masturba levemente ao ouvi-los em ação.

Apesar de toda a malícia do sexo, Ana pede, por favor, que o malaco se case com ela. Oficializar a relação, vejam vocês. Humanidades que o cinema brasileiro um dia contou, num vazio tremendo, demasiado humano, porque o amor não é só amor. Também pode ser utilidade, entrega, ciúme, interesse próprio. Ana Maria está no bando de Vaselina, gosta dele, trafica pó com ele, mas também opera com o rival.

Papel complicado, a mulher troca um olhar definidor com Benedito. Sem dizer nenhuma palavra, torce para que o motorista de ônibus, íntegro e honesto, não se junte ao grupo de Vaselina. O diretor parece ter confiado imensamente nos dois, Isabel Ribeiro e Milton Gonçalves, a ponto de entregar-lhes a força da trama. É a partir deles que saem os motores do filme, a partir deles que os enredos se originam.

Benedito escorrega, não fura a greve que outros motoristas estavam tocando na cidade. Um detalhe verídico, pois a greve foi enxertada no filme e acontecia em tempo real no Rio de Janeiro. Benedito não assina contrato com uma empresa de ônibus que queria demitir os grevistas e continua a morgar meses de atraso no aluguel. Atende ao chamado de Vaselina: puxa um carro de madame. Não percebe na hora, mas a filhinha da madame estava no banco de trás – aspecto fundamental no roteiro.

A surpresa de encarar a menina piora o sofrimento de Benedito. O que era assalto passa a sequestro. E o que é sequestro transforma o grupo. Antes traficantes, agora sobem um degrau na escala do crime. Por outro lado, a onipotência de Vaselina, movido a pó, o faz acreditar estupidamente na vitória, mal sabendo que o corvo negro – confuso e amoroso – de Ana Maria estava na emboscada.

Os três ficam pajeando a garota. Uma vira mãe sem querer (Ana), um vira tio atormentado de culpa (Benedito), outro vira chefe sonhando rios de dinheiro (Vaselina). Mundo paralelo que Paulo e Erva Doce nem imaginam que exista, nem sabem aonde os idolatrados amigos estão se metendo.

Esse gato e rato vai tirando as máscaras da amizade. O carinho até continua, mas sem água com açúcar, sem versão Walt Disney. Paira o egoísmo por todos os lados. Talvez um pouco menos em Benedito e Paulo que, de tão sonhador, acaba sendo engrupido por um escritório multinacional de música. Apesar de a dicção de Moura não ajudar às vezes, ainda assim a atuação é desconcertante: Paulo Moura era, de fato, o personagem. Como se Pixinguinha tomasse uns copos de frente para as câmeras, naquela fidalguia de nobre.

Enquanto isso, Erva Doce vive o burocrata falastrão. O fulano que conseguiu emprego porque conhece Beltrano e um monte de siglas de departamentos. A fauna de mulheres que cruzam as pernas ou são azedas, os homens puxa-sacos que invejam o chefe. Esse vazio de gente pequena, a total mediocridade de repartição aonde se penduram paletós e se bebem copinhos sujos de café.

E esperando a filha, a mamãe apetitosa (Louise Cardoso) segura a mão da colega idem (Maria Zilda). Deus, o que será da pequerrucha? No tempo em que policial espancava bandido na frente de jornalistas, todos estão loucos para mostrarem serviço. Correm às pampas para encontrarem os sequestradores.

Circulando entre eles, a penca de figurantes como Stepan Nercessian, Reginaldo Faria, Cosme dos Santos – a trinca de “Barra Pesada” (1977), que Medeiros fotografou. Rodolfo Arena, Maurício do Valle, Flávio Migliaccio, Camila Amado, Luthero Luiz, Isabella, Wilson Grey, Zózimo Bulbul, Leovegildo “Radar” Cordeiro. Participações carinhosas, que pipocam aleatoriamente.

O desfecho da história nem importa tanto, senão pela mistura entre a crônica do cotidiano e a estética da violência. Desejar progredir, enganar, ser enganado, com a grosseria de tiro explodindo na frente da menina que olha para tudo, sem ser protegida, no estilo amoral dos anos 70. Noite caindo atormentada, as luzes na janela da vizinha, mudando de cor. Essas delicadezas deixam na obra de José Medeiros um martírio doce, de solidão.

segunda-feira, outubro 24, 2005

Rainha Diaba


“Rainha Diaba”, de 1974, é um monumento. Críticas apressadas de jornalistas idem tacharam o filme – na época do seu surpreendente relançamento em dvd – como uma ode tresloucada ao “homossexualismo marginal”. As mesmas pessoas que produzem páginas e páginas sobre qualquer blockbuster norte-americano sofrem de calafrios ao escrever umas poucas linhas sobre as obras-primas rodadas na esquina de suas casas. Qualquer filme brasileiro esquecido (que não renda jabaculê) vira superficial, simplista e facilmente rotulável. Pura ignorância.

Basta dizer que antes de Almodóvar e no alvorecer do gay power norte-americano, houve Antônio Carlos Fontoura. Levemente inspirado no malandro da vida real, Madame Satã, Fontoura aliou-se ao gigantismo de Milton Gonçalves – com certeza aqui, sem nenhum exagero, em uma das dez maiores interpretações da história do cinema mundial – e deu à luz um filme sublime, inovador, que ainda hoje produz indisfarçável mal estar em quem, sentado no conforto de sua casa, o assista.

A imagem que se tem de Satã é a do “pederasta” – assim fichado pela polícia varguista de seu tempo –, underground total, com plumas, brilhos e paetês, gingado de capoeirista e apetite sexual intenso. Já a ficcional Diaba (Milton Gonçalves) guarda destas qualidades apenas algumas, pois não é o solitário réu da Lapa, cavaleiro andante de punguistas e contraventores. É dono de mais de uma dezena de bocas, controla o narcotráfico, estabelece relações maternais com o séquito de outras moçoilas, que protegem-na como os aprendizes à mestra.

Diaba é criminosa nata: aplica mão de ferro para garantir a qualidade dos serviços à população mas, por outro lado, preocupa-se em cozinhar quitutes para a marginália gay que o cerca, apavorado que estava com os traidores que tentavam acabar com sua autoridade empresarial.

Os traidores, como o ovo da serpente, estavam ali mesmo, guardados no ninho, e Diaba mal sabia. Liderados pelo amigo Zeca Catitu (Nelson Xavier), Manco (Wilson Grey), Anão (Lutero Luiz), Violeta (Yara Cortes) – sócia do prostíbulo mantido pela Rainha – Coisa Ruim (Procópio Mariano), e outros empreendedores, celebram um levante para desmobilizar o ofício e tomar o controle dos negócios.

Em outra ponta da narrativa, fluindo em paralelo, o casal Bereco (Stepan Nercessian) e Isa Gonzalez (Odete Lara): cafetão e prostituta. Ele, rapaz novo, bonito, cooptado por Catitu, junta forças ao golpe, servindo tolamente de bucha de canhão. Ela, seduzida, seviciada, suja, cantora do “Leite da Mulher Amada Night Club”, local em que seria posteriormente seqüestrada e torturada pela cáfila de amigas da Diaba.

Neste momento as narrativas se cruzam e, quadros depois, no paroxismo da descoberta de Bereco, Diaba encontra seu fim. O garoto degola-a, é em seguida morto por Catitu, Catitu e amigos são em seguida mortos por Violeta, e Violeta – única a restar do levante – é morta, nos esgares finais, por Diaba, ensangüentada, que ressurge na sala e junta mais dois corpos – o seu e o da vítima – à dúzia que se amontoava na sala. Percebam que a exuberância do filme reside em detalhes e, como transgressor do audiovisual, descrevê-lo faz diminuir sua força. Apenas quem assistiu às cenas compreenderá o porquê de ser este um dos marcos da história do cinema.

Mostrem a Quentin Tarantino a chacina referida acima; o momento em que personagens, um por um, se apresentam ao espectador; a violência contra Isa no salão de cabeleireiro; as meninas em momentos de delírio ultra-psicopático; a revolta da prostituta, molestada, torturada; os créditos em papel crepom, cartolina e hidrocor. São exemplos do som e da fúria, da inventividade nacional, do talento que contorna a falta de dinheiro e cria, cria muito, bem mais do que a vã pasteurização de algumas produções atuais deixa supor.

O argumento de Plínio Marcos – dramaturgo, ator, dionisíaco, um vulcão, falecido em 1999 – e do diretor, Antônio Carlos Fontoura, inventa focos múltiplos de ação no roteiro escrito pelo segundo, o que tende a aguçar a vontade do elenco. Digo isso pois não apenas Milton Gonçalves é verdadeiramente indescritível, mas os bandidos, Odete Lara e a trupe de amigas (formada, dentre outros, por Perfeito Fortuna, que deu um tempo nas dunas de Ipanema para incursão ao lado menos aristocrático da cidade) assustam, brutalizam e tornam o filme um momento de lucidez, certeiro ao atingir a alma kitsch e doentia dos personagens.

Vale a pena citar a fotografia de José Medeiros – concretizando a saturação pedida pelo universo retratado –; o figurino de Ângelo de Aquino; a música, atordoante, a cargo de Guilherme Magalhães Vaz; a edição de Rafael Justo Valverde; a co-produção da Lanterna Mágica, R.F. Farias, Filmes de Lírio e Ventania Filmes – esta última do saudoso Paulo Porto, neto do cacique Ventania, que dera o nome à firma.

Antônio Carlos Fontoura é um realizador bissexto. Traz no currículo o seminal “Copacabana Me Engana “ (1968) – também com Odete Lara, estréia de Carlo Mossy no cinema – e “Espelho de Carne”(1984) – clássico da “Sala Especial”, com Dênis Carvalho e Daniel Filho em momentos de suprema intimidade. Dirigiu também programas de tv, dentre eles “Plantão de Polícia” e “Ciranda, Cirandinha”.

O trabalho de Fontoura é inspirador – porque nunca previsível –, apesar da cinematografia brasileira se ressentir da quantidade de histórias que poderiam ter vindo a público e não vingaram. Incansável, mas sabendo operar além dos grandes refletores e da badalação da mídia, Fontoura é destes mestres que a arte nacional guarda próximo ao peito, e gerações recentes procuram ávidas, em busca de informações. Ao encontrá-las, saberão um pouco mais de si mesmas e, quem sabe, das delícias da criação humana.

quarta-feira, outubro 19, 2005

Ladrões de Cinema


Falar da Embrafilme é iniciar uma conversa polêmica, quase sempre sem grandes resultados. Como nossa proposta aqui é tratar de cinema, vou deixar as questões políticas de lado e me concentrar na história. Criada durante o regime militar, a Embra participou dos melhores anos do cinema brasileiro, com uma produção diversa, rica e bem realizada. Cometeu erros brutais em meio a acertos grandiosos.

Por ser uma empresa nem particular nem pública, criada em gabinete e – como tudo no Brasil – sujeita a discordâncias e desconfianças mil, a Embrafilme agonizou e morreu. O que resta dela são os filmes sob sua sombra. Estamos falando disso para chegar em “Ladrões de Cinema”, produção de 1977 tipicamente saída do ideário de vertigem daqueles anos.

A Lente Filmes, produtora que se associou à Embra para a realização do filme, era um daqueles projetos cariocas de Zona Sul, fadados a darem errado. Deixou “Ladrões de Cinema” para a posteridade e cerrou suas portas. No entanto a originalidade do filme salvou a reputação de todos. Misto de cinema-realidade, documentário fajuto e experimento metalingüístico, “Ladrões de Cinema” é um interessante e obscuro achado.

A história gira em torno de um grupo de favelados que assalta uma equipe de filmagem durante o carnaval e, com o equipamento roubado, resolve fazer um filme na favela. Nada é falso e vemos de fato o carnaval, o morro do Pavão-Pavãozinho, as biroscas e vielas da comunidade.

Caracterizado de favelados-chics em meio aos favelados reais, um dos elencos mais espetaculares que o cinema brasileiro já conseguiu reunir (e desperdiçar): Wilson Grey, Milton Gonçalves, Grande Otelo, Lutero Luiz e Antônio Pitanga. Quando deixados soltos, produzem diálogos que explicam o porquê do fascínio brasileiro (carioca principalmente) aos malandros e vagabundos. Wilson Grey não era simplesmente um ator, foi a besta-santa, a hosana da linguagem do povo.

Em uma primeira olhada, “Ladrões de Cinema” é extremamente aborrecido, difícil de assistir, principalmente durante a longa encenação do filme dentro do filme (o filme que os favelados dirigem é mostrado em detalhes). A direção de Fernando Coni Campos também é pesada, com o diretor em óbvias tentativas de mostrar virtuosismo. Sabe-se que durante as filmagens, em meados de 76, seus desentendimentos com os produtores chegou a níveis histéricos e quase o filme não foi terminado. Mas o que importa não é a intervenção destes homens esclarecidos da classe-média, e sim, a diversão produzida pela paupérrima espontaneidade.

Espontaneidade que tem na metalingüística seu ponto forte. Defrontados com a perspectiva de utilização do equipamento adquirido, os diretores e produtores favelados parecem ouvir a cartilha ufanista de certos setores da Embrafilme e filmam uma releitura do Movimento Inconfidente. Assim o tempo todo suas filmagens dialogam com o desenrolar da trama, pois Lutero Luiz, que faz o papel do traidor Joaquim Silvério dos Reis, é quem denuncia o roubo para a polícia e acaba com a diversão.

Temos vontade de repetir o argumento proposto e entregar os equipamentos na mão do quinteto de “favelados”. São eles que não deixam a história naufragar nem se perder nas piadas típicas do humor então em voga, do Pasquim e da noção “cariocacentrista” míope de que o Rio explicava o Brasil, e não o contrário.

Dentro do contexto de meados dos anos 70, “Ladrões de Cinema” é um filme difícil de rotular ou definir. Melhor talvez seja encará-lo como resultado de conflito: produção séria, financiada com dinheiro público, mas que invariavelmente assume um tom trash involuntário no acabamento, superando em certos momentos obras-primas deste gênero, como “Fofão e a Nave Sem Rumo” ou mesmo “Bacalhau”. Assistí-lo em 2005 é bom sonífero, mas por trás de sua narrativa confusa e pretensiosa urge a voz das ruas que, como sempre, nos brinda com um pouco da sua febre e barbárie.