Mostrando postagens com marcador Adriana Prieto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Adriana Prieto. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Memória de Helena


“Memória de Helena” (1969) traz a profissão de fé de David E. Neves, o gosto pelo passado, o espírito que dormia no canto entre ontem e hoje. Remexe a expressão máxima de uma saudade familiar a ele: Diamantina, terra da mãe, origem do sobrenome oculto – Eulálio, o “E.” da assinatura.

Para continuar essa disciplina amorosa, David chama Humberto Mauro – o amigo que havia biografado em um curta (1966). Notem o senhor de cabelos brancos, voz rouca, no papel do tio Mário de Helena (Rosa Maria Penna). Afável, carinhoso, mesmo tratamento que dispensava a David no cotidiano.

E a recíproca era idêntica. Não à toa, o roteiro de Paulo Emílio Salles Gomes – outro referencial, um guru – mostra o cuidado de David com Mauro. Retrata as miudezas do Humberto/Tio Mário que já não enxergava bem à noite, que gostava de conversas intermináveis sobre a cidade da infância. Para tio Mário, era Diamantina. Para Humberto, Cataguases.

Pode parecer pequeno, mas o gesto estabelece um pacto imenso entre os diretores. Humberto lhe dava a mão para o primeiro longa-metragem. David realizava uma projeção masculina, de segurança, de porto seguro.

É assim que caminha mauriano, afastando os galhos das árvores em “Memória de Helena”, visitando o lirismo das coisas – o ferro de passar, o lago, as personagens engolidas pela cosmogonia delicada. Influência inevitável, ainda que em menor escala se comparado ao “Menino de Engenho” (1965), estréia de outro colega de geração, Walter Lima Jr.

David reinventa a nostalgia de Mauro. É urbano, cortes temporais – o Rio de Janeiro se mistura em idas e vindas com Minas –, fetiche metalingüístico pelo cinema – a Super 8 de Helena registra e é registrada de fora, pelo diretor. “Um filme sentimental”, que traz a dúvida sobre ser documentário ou ficção, logo nos créditos iniciais.

Helena, a morta, narra e diz com todas as letras que este é um filme de David Neves. Coloca-se do lado externo – reflete sobre a produção do filme, ao qual os espectadores assistem – e afirma que está no lado interno – narradora onisciente, falando de Helena na terceira pessoa.

Mais do que isto: só depois de alguns minutos é que iremos reconhecemos aquela voz do começo no rosto de Helena. Ginástica de construção que David segura tranqüilo, como o barquinho de papel que bebe o rio e fica-se olhando, em conexão com o divino.

O argumento foi escrito pelo diretor em um jato, beliscando a máquina de escrever. Apresenta-o a Paulo Emílio, que então desenvolve o roteiro, aprofundando e desaprofundando a inspiração dos diários de Helena Morney – pseudônimo de Alice Dayrell, diamantinense, filha de ingleses, século XIX.

Saudado pelo crítico Alexandre Eulálio, primo de David, o livro serviu de fonte para outra Helena, a Solberg, dois séculos depois, em “Vida de Menina” (2003). A Helena de Neves está abandonando a infância, percebe que não tem vocação para a vida conjugal, é saturada pela província, tiranizada pela mãe, pelas tias, pela avó. Tirania muda, desprezo por quem a garota é de fato ou aspira a ser.

Casarões de janelas abertas, ruas de pedras portuguesas, colégio, amizade com a mucama Inês. Algo que a distrai, não a completa por inteiro. Aparece Rosa (Adriana Prieto). Coleguinha de saiote e blusa de renda, laço de fita. Descem da aula, caminham na imensidão, amor que existe, apesar de não explodir no corpo físico. É certo, verdade verdadeira: Helena e Rosa se amam.

Um bêtise-antídoto, válvula de escape para o totalitarismo deliberado do meio – no cinema, vide “Mädchen in Uniform”. Os iguais – aqueles que ninguém adivinharia, pois seria pecado – unem-se em pensamento.

“Ela parece se submeter a mim, mas no fundo sou eu a escrava de sua futilidade.” Conhecida por ser a inteligente do sobrado, Helena sabe que existe com Rosa uma ligação de vidro, maior ainda do que tem com os gatos pulando do quintal. Acaricia-os e deita a cabeça no ombro de Rosa.

Tenta escapar da experiência barroca das procissões, da vila retrógrada, do cartaz de “filme cristão feito por um comunista” – “O Evangelho Segundo São Mateus”, de Pier Paolo Pasolini. Helena, frágil e insegura, quebra o tom monocórdio de tudo aquilo justamente através da maquineta de Super 8, hábito que o Tio Mário havia lhe ensinado.

As filmagens – e pouco dos diários – viram o método de reconstrução da protagonista. Rosa e Renato (Arduíno Colassanti) manipulam as imagens no projetor. Sobrevivem a Helena, que comete o suicídio.

O filme escorrega neste ponto, ao dizer que de alguma forma eles suplantam a garota por estarem vivos. As catequeses católicas de Paulo e de David parecem complicar esta parte do enredo. O acerto da vida versus o erro da morte. E isto apesar de efetivamente os dois se conhecerem por conta da menina – Renato foi ex-namorado de Helena. Perde-se a oportunidade de explicar a movimentação de Rosa, que cobiça e consegue o que foi da outra, última etapa no fusionamento das duas.

Igualmente o “defloramento de Helena” por André (Joel Barcellos) – quando ela já havia se separado de Renato. A princípio, André deveria ser o rebelde carioca, o aventureiro. Proposta inconcretizada. A aparição é mínima e não deveria sacudir tanto assim o espírito de Helena, a ponto de dar a ignição no suicídio – André a abandona e volta para a Guanabara.

A atitude sai da órbita que fascina em “Memória”: a idéia de vitalidade, de a protagonista ser única, conectada a Rosa e Renato, em uma angústia eterna. Soa como inconformismo tolo, estranho para a Helena que teoriza a necessidade de transparência, de se ser como se é, despindo-se a formalidade que destrói a essência. Helena age escravizada, de quatro, nem cogita perturbar Rosa – o que seria o próximo passo, no desespero do fusionamento –, àquela altura grudada em um namorado qualquer.

A filosofia se contrapõe à obra de David, adepto de uma liberdade feminina serena. Não incomoda, porém, o encanto descomunal de “Memória de Helena”. Um platô sem pastiche, lugar em que o vazio uiva. Coisa de diretor que sugere e deixa o que é sentido, internalizado, à moda de Morandi esboçando o intrincado, deixando fácil o que é difícil.

Em termos visuais, as soluções transcendem – David Drew Zingg, fotógrafo da Bossa Nova, concretiza o que o xará Neves lhe pede. Em uma delas, todos os núcleos da ação, representados pelos atores, passam na janela em frente aonde Helena está sentada, perto de morrer. Escapam pelos dedos, ela se sente para trás, esquecida, a confiança no fim. O corpo cai, no breu do lago, as ondas tremulam, arrebentam mansas na câmera. Metáfora para o filme em si, David as congela no ar, como expressão de palavras que machucam e não precisam ser ditas.


sábado, outubro 24, 2009

A Penúltima Donzela

‭
"‬A Penúltima Donzela‭" (‬1969‭) ‬foi o primeiro filme a que assisti no Canal Brasil,‭ ‬no distante ano de‭ ‬1998.‭ ‬Deve ter sido também um dos primeiros exibidos,‭ ‬senão o primeiro,‭ ‬pois a perspectiva de um canal de filmes brasileiros me assombrou tanto na época que não desgrudei os olhos da tv até conferir se era real.‭

Lembro que o filme me causou enorme felicidade,‭ ‬pois é ambientado na Puc‭ – ‬onde eu estudava três décadas depois.‭ ‬No dia seguinte,‭ ‬andando pelo‭ ‬campus,‭ ‬visitei as locações à procura de Adriana Prieto e Paulo Porto.‭ ‬Mas somente o lendário professor e cineasta Pedro Camargo,‭ ‬diretor de‭ "‬Estranho Triângulo‭"‬,‭ ‬que faz ponta como amigo de Prieto,‭ ‬ainda podia ser encontrado por lá.‭

Longe da memória afetiva,‭ "‬A Penúltima Donzela‭" ‬tem um quê de elo perdido no cinema nacional.‭ ‬Muito porque a produção de Paulo Porto e direção de Fernando Amaral consolida certos elementos difusos da comédia erótica,‭ ‬apontando que aquele poderia ser um caminho viável de lucro e entretenimento.‭ ‬Citação explícita,‭ ‬um cartaz do pioneiro‭ "‬Os Paqueras‭" ‬aparece no giro de Prieto dentro da galeria do antigo Bruni-Copacabana,‭ ‬como se legitimasse a afinidade entre ambos.

Carlo Mossy,‭ ‬o vilão bonito,‭ ‬dublado por Reginaldo Faria,‭ ‬faz repeteco do seu papel em‭ "‬Copacabana Me Engana‭"‬.‭ ‬É passado para trás por outro mais experiente‭; ‬no caso,‭ ‬um imodesto galã de‭ ‬52‭ ‬anos,‭ ‬Osvaldo‭ (‬Paulo Porto‭)‬.‭ ‬Porto recebe Prieto aos‭ ‬19,‭ ‬dissolve suas inseguranças em um clima meio‭ "‬Blow Up‭"‬,‭ ‬e,‭ ‬no embalo de amante-avô,‭ ‬rebate a hipocrisia do pai da donzela,‭ ‬Rubens‭ (‬Fregolente‭)‬,‭ ‬cujo norte moral é impedir que o Brasil se transforme na Rússia.‭ ‬Frego,‭ ‬hilário e tonitruante
como sempre,‭ ‬tanto rouba a cena que até nos esquecemos que a Rússia àquela altura nem existia,‭ transformada em União Soviética há décadas.

Tânia‭ (‬Prieto‭)‬,‭ ‬Pedro‭ (‬Mossy‭) ‬e Osvaldo poderiam,‭ ‬em certo momento,‭ ‬formar um belo triângulo,‭ ‬completos pela presença divertida da prima de Tânia‭ (‬Djenane Machado‭)‬.‭ ‬Acontece que estavam em um Brasil puritano e provinciano,‭ ‬o que reduz toda a tensão sexual aos chistes monocórdios sobre casamento e virgindade.‭ ‬A sociologia na Puc,‭ ‬o movimento estudantil,‭ ‬os amigos‭ ‬prafrentex,‭ ‬são apenas refugos de roteiro.‭ ‬O maiô duas peças de Prieto e sua declaração de que não é mais virgem,‭ ‬adequados aos anos‭ ‬50,‭ ‬tomam as rédeas em pleno ano de Woodstock.‭

Fique claro,‭ ‬portanto,‭ ‬que comédia erótica,‭ ‬naquela formatação,‭ ‬não era consumida por seus legítimos protagonistas.‭ ‬A juventude carioca da Zona Sul,‭ ‬cosmopolita,‭ ‬ligada aos movimentos de contracultura dos EUA e da Europa,‭ ‬torcia o nariz para aquele retrato,‭ ‬melhor consumido nos subúrbios e no interior.‭ ‬Definição simplista,‭ ‬a gênese da pornochanchada foi um olhar estereotipado sobre a classe-média carioca digerido às classes populares de todos os cantos do país.

Naquele Rio de‭ ‬gente bem‭ – ‬fantasiados de rodrigueanos,‭ ‬tijucanos tradicionalistas‭ – ‬Pedro tem uma‭ ‬garçonniére,‭ ‬visitada por Tânia.‭ ‬A garota quer dele aquilo que todas as mulheres em vertente heterossexual costumam desejar,‭ ‬e os homens insistem em intermediar com delongas e lentidões:‭ ‬virilidade,‭ ‬objetividade,‭ ‬falta de culpas.‭ ‬Claro,‭ ‬Pedro faz tudo errado:‭ ‬supõe que devem se casar antes do sexo,‭ ‬é extremamente lento na hora da decisão,‭ ‬e,‭ ‬pra piorar,‭ ‬não gosta de cinema nacional.‭ ‬Ao que ganha da namorada a pecha de‭ "‬alienado‭"!

Em seguida a turma de Prieto aparece na faculdade,‭ ‬leva trote no riacho,‭ ‬bebe chopp no Leblon e arrisca pichações políticas.‭ ‬A fraqueza do filme‭ – ‬diferente de‭ "‬Os Paqueras‭" – ‬é essa montagem superficial sobre elementos essenciais à construção dos personagens.‭ ‬No primeiro filme, ‬os paqueras e a conquista sem compromisso são o mote.‭ ‬Aqui a discussão moralista e artificial‭ – ‬mesmo que travestida de conflito de gerações – ‬dá a tônica.‭ ‬Tudo existe por ela e para justificá-la.‭ ‬Um retrocesso e absoluto contrasenso.

Os sucessivos deslizes,‭ ‬no entanto,‭ ‬são relativizados nas cenas finais,‭ ‬que rendem pastelão quase libertário.‭ ‬Um ouriço sobre a‭ "‬última donzela‭" – ‬a prima caipira‭ – ‬promete continuação,‭ ‬mas nunca foi feita.‭ ‬O que resta,‭ ‬de prêmio,‭ ‬é a delícia estética do colorido psicodélico,‭ ‬a trilha-sonora de Egberto Gismonti e uma Guanabara de sonhos.‭ ‬Porque não exibem‭ "‬A Penúltima Donzela‭", ‬"Apenas o Fim" e tantos outros filmes realizados na Puc no curso de cinema da universidade, é daqueles lapsos que parecem conter a aridez de três desertos.‭

sexta-feira, abril 24, 2009

Soninha Toda Pura


Baseado na peça "Do Sótão ao Rés-do-Chão", autoria de Ilclemar Nunes, "Soninha Toda Pura" (1971) engana pelo título. Em plena onda das comédias eróticas -- gênese da pornochanchada -- bem provável que se tenha vendido o drama pessimista como tentação lollipop. Produção esmerada de Jarbas Barbosa -- irmão do Chacrinha -- direção do talentoso Aurélio Teixeira, "Soninha Toda Pura" foi obra à frente do seu tempo, discutindo lesbianismo, estupro e infidelidade de maneira adulta, muito além daquilo que o provincianismo brasileiro moralista seria capaz de digerir e aceitar.

Pois quem pagou ingresso esperando ver o casalzinho Adriana Prieto e Carlo Mossy vivendo desventuras românticas, se surpreendeu com influências de Eric Rohmer e Walter Hugo Khouri. O ponto de partida é uma esposa infiel, Malena (Zélia Hoffman), que viaja com o amante, Betinho (Mossy), a filha Soninha (Adriana Prieto) e uma amiga, Nanan (Elsa de Castro) para temporada em uma praia de Cabo Frio. Se o resumo lembra bastante o imaginário khouriano, closes em rostos femininos e jazz na vitrolinha que as meninas levam de um lado para o outro convencerão definitivamente o espectador de que Aurélio Teixeira era fã do maior diretor brasileiro.

Na casa, cercados de areia e mar por todos os lados, fica claro que Nanan deseja ardentemente a amiga Soninha. Lindíssima, Elsa de Castro fez o dever de casa, e tem a presença de uma atriz da Nouvelle Vague. Sua liberdade, avassaladora e contida, encontra na ingênua Soninha fuga e atração. O ritual de côrte homossexual eleva-se nos beijos roubados e na conversa sobre teatro, o que torna o filme prato cheio para ataques ignorantes, daqueles que só aceitam cinema brasileiro se tiver quatro patas.

Galanteada pela outra, Soninha nem percebe que sua mãe é amante de Betinho, garotão ressentido da mulher velha e sonhando com a pureza das moças. Três idéias -- o flerte em diversas combinações, a sedução de Nanan e a humilhação de Malena por Betinho, montam um final rancoroso e surpreendente. Percebam que somente em um momento, logo nas primeiras cenas, outro personagem, além dos quatro, é mostrado: o pai de Soninha, vivido pelo próprio Aurélio Teixeira.

Dublado por Mário Petraglia, Carlo Mossy teria rendido melhor com a voz original. Os arroubos machistas, a angústia travestida de impaciência, eram um prato cheio para o ator brilhar sua especialidade: o cafajeste humanizado e perdedor, iniciado em "Copacabana Me Engana" (1968), revisto em "A Penúltima Donzela" (1969), diluído em "Lua de Mel e Amendoim" (1971).

A verdade é que Mossy, Prieto e Hoffman navegam pelo desbunde de interpretação da paulista de Garça, Elsa de Castro. Poucos anos depois, apresentada por Mossy ao policial-bandido Mariel Mariscott de Mattos, Elsa teria uma filha e abandonaria a carreira. Zélia Hoffman também se afastou dos filmes e da tv naquela década, morando no Retiro dos Artistas até morrer, em 2007. Já o diretor-ator Aurélio Teixeira faleceu em 73, deixando este como último longa-metragem, indício do que poderia ter feito na maturidade artística.

Complementando a trilha-sonora do Maestro Erlon Chaves, os adoráveis discos de jazz que os protagonistas ouvem forçam um pouco a barra, já que adolescentes dificilmente apreciariam Louis Amstrong nos momentos de lazer. A repentina proposta de Betinho para um ménage-à-trois com mãe e filha é outro curso improvável, deslize vazio no roteiro, pois não se explora qualquer ligação entre Malena e Soninha. Com a mãe limitada a proteger a menina, tudo que envolve ambas parece artificioso, sem consistência.

Nunca lançado em Vhs, que maravilha "Soninha Toda Pura" um dia voltando ao cinema ou mesmo exibido no Canal Brasil. Incômodo, mal compreendido e esquecido, o filme revelará que a presença do homossexual nas telas brasileiras pode ser bem mais complexa do que imaginamos. Tomado pela delicadeza, Aurélio Teixeira eternizou belas cenas de amor entre iguais, ao mesmo tempo que conduziu o drama teatral com elegância de grande cineasta.

sábado, dezembro 02, 2006

Uma Mulher Para Sábado


"Uma Mulher Para Sábado" (1970) é daqueles filmes que certos diretores paulistas, no final dos anos 60 e início dos anos 70, pareciam ter prazer em realizar.

Caminhando em tendência oposta às investigações de estéticas marginais e aos questionamentos estritamente brasileiros, obras como esta, "Cordélia, Cordélia", de Rodolfo Nanni, ou mesmo "O Quarto", de Rubem Biáfora, hoje praticamente esquecidas, surgiram em um período difícil de radicalismo e exacerbações, buscando no intimismo e no drama burguês -- em sentimentos universais -- narrativas elaboradas, densas e adultas, com clara inspiração no cinema japonês dos anos 50 e 60, em diretores europeus (Bergman, Antonioni), e no marco "Noite Vazia" (64), de Walter Hugo Khouri.

Em "Uma Mulher Para Sábado" elementos khourianos surgem com clareza -- o jovem diretor, Maurício Rittner, antes esteve na equipe de "Corpo Ardente" e "Noite Vazia". Lá estão a busca do absoluto, a angústia existencial que conduz a uma necessidade de amor incondicional; e também a tensão narcisista masculina, a disputa muda -- e histérica -- entre homens pela posse impossível do mistério feminino.

Baseado no romance "As Regras do Jogo", de Mário Kuperman, o roteiro escrito a quatro mãos pelo próprio escritor e por Rittner, narra a fuga de quatro jovens, Doriane (Adriana Prieto), Nando (Miguel Di Pietro), Loco (Flávio Portho) e Inês Knaut (tratada como "Moça número 1"), para um refúgio paradisíaco em Ilhabela, onde -- sob o patrocínio do dinheiro de Loco, ou melhor, das empresas de seu pai -- dão vazão a uma espécie de catarse de final de semana, antes de voltarem na segunda-feira para a mediocridade da vidinha cotidiana.

Vida que para Nando, representante comercial de remédios, é simbolizada pela convivência opressiva com uma namorada pobre e limitada (Júlia Miranda), com quem se encontra às escondidas no quarto onde mora. Tendo amigos ricos, apaixonado por Doriane, o atormentado Nando quer fugir à realidade que o engole; por outro lado, Loco está prestes a assumir os negócios da família, o que representará o fim dos "anos de juventude" e conseqüentemente, da amizade entre os dois. Afinal, como o próprio Loco deixa claro: "Com dinheiro, sou um excêntrico; sem dinheiro, um marginal".

É fácil rifar o amigo e apoderar-se da namoradinha cobiçada. Para tanto, Loco faz a barba, flerta preguiçosamente com Doriane e pouco resta a Nando do que aceitar passivamente o casamento das duas fortunas, a realidade imposta. Sua namorada será sempre a telefonista com quem se encontra para o sexo rotineiro e sem amor e sua vida será sempre a de carregar malas e esperar na sala de espera dos consultórios médicos.

Exibido muito raramente no Canal Brasil, "Uma Mulher Para Sábado" tem belas locações, música de Rogério Duprat --
e Adriana Prieto, aos 20 anos de idade, no período em que rodava também "Palácio dos Anjos". Além de Ester Góes, lindíssima, aos 24 anos, fazendo ponta minúscula como secretária.

Em última instância, "Uma Mulher Para Sábado" servirá de introdução a filmes mais difíceis sobre temáticas próximas -- como "O Último Êxtase" de 72, por exemplo -- e ratifica a certeza que o distanciamento histórico nos proporciona, de que em São Paulo sempre se produzia (ainda se produz) a inteligência mais lúcida e madura do país -- o que se refletiu (e ainda se reflete) na complexidade e riqueza do cinema ali realizado.

quinta-feira, julho 20, 2006

Os Paqueras



Os créditos cheios de bossa e a ingenuidade do sal, sol e sul – trecho da canção de Ronaldo Bôscoli, bossanovista demais para caber na trilha sonora com Os Mutantes, Rogério Duprat e Roberto Carlos – fazem de “Os Paqueras” (1969) um exemplar célebre da comédia urbana carioca.

Estreante na direção, Reginaldo Faria -- que já trabalhara na assistência de Roberto Farias -- retornou ao filão nos filmes seguintes, “Pra Quem Fica Tchau” (1971), “Os Machões” (1972) e “O Flagrante” (1975), passando à guinada realista em "Barra Pesada", de 1977. Curiosamente, mesmo ano do mesmo fenômeno vivenciado por Carlo Mossy -- também galã, diretor e produtor -- que na linha da ultra-violência fez de "Ódio" um clássico da moderna filmografia brasileira.

Até 1977, porém, muita coisa ainda estava para acontecer. E se em "Os Paqueras" a inexperiência do diretor era uma condição inescapável, por outro lado havia o argumento dividido entre ele, Roberto Farias, André José Adler e Xavier de Oliveira – assistente de direção aqui, diretor em “Jipe sem Capota”, depois rebatizado de “Marcelo Zona Sul” (1970) –, que segura as pontas com tranqüilidade e reaviva o interesse de quem quiser saber mais sobre os tempos em que os carros rodavam pela Guanabara com placas de seis números e os motoristas ainda propunham fotos de nu artístico para levarem as cocotas nas garçonniéres espalhadas por Copacabana.

Interessante perceber, também, que há uma divisão nos holofotes entre dois papéis masculinos principais -- o de 25 anos de idade, Nonô (Reginaldo Faria), e o de quase 50, Toledo (Walter Foster) -- que usam o mesmo matadouro, apesar de viverem realidades sociais completamente diferentes.

Nonô é o garotão da classe média, mora com os pais, é "excedente" -- ou seja, não-convocado -- no vestibular. Toledo flana de carrão, guarda outro na garagem, tira uma de quase-lorde com um cachimbo e tem com o garoto um casamento perfeito nas artes de colocar chifre na cabeça dos outros.

Para azar do coroa, a filhota (Margareth, Irene Stefânia), estudante da PUC, cai de amores por Nonô e o final, apesar de açucarado -- pois o sátiro encontra a felicidade nos braços de Margareth -- não cede de todo ao puritanismo da época. Marga e Nonô transam -- de roupa, vá lá --, desmistificam o tabu da conservação de virgindade entre mocinhas de boa família e Nonô manda na lata: "Fiz com sua filha o que todo homem faz com uma mulher. Ela gostou."

De qualquer forma, evidente que há uma mitigação do conteúdo sexual. Isto apesar de termos o nu frontal rápido de uma das meninas de Nonô/Toledo e o, digamos, dorso descoberto de Reginaldo, aparecendo de relance. Neste sentido, não raro afirmar-se que em "Os Paqueras", assim como no "Cassy Jones", de Luís Sergio Person, existe um estado embrionário da pornochanchada.

Mas a afirmativa deve ser encarada com bastante cuidado, na medida que a "pornochanchada" surgiu em condições e razões históricas bem diferentes daquelas que são vistas neste filme da R. F. F. Produções Cinematográficas, comandada por Roberto Farias -- além dos irmãos Reginaldo e Roberto, trabalham também o caçula Rogério, como operador de som, e Riva, na produção executiva.

Fregolente e Lícia Magna como pais de Nonô; Leila Diniz como a própria – reparem numa cena da novela “Anastácia, A Mulher Sem Destino”, em que Leila participava –; Darlene Glória (Suzy) como esposa do piloto de avião (Ary Fontoura) que, claro, passa tempo demais fora de casa; Adriana Prieto (Fátima), em papel que zomba um pouco da sua aura de mulher indecifrável e primaveril, no golpe aplicado em Nonô, que imaginava deflorar a pobre menina, mestra no 171. Além dessas gags, vemos o homossexual gente boa (Fernando Reski) avisando à dupla de caçadores sobre a chegada do marido que ameaça Toledo e a amante; o edifício número 200 da Rua Barata Ribeiro -- que se tornaria, com os anos, sinônimo de escracho e decadência, bem utilizado por gente como Mozael Silveira, outra cria da R.F.F --, além de uma bacanal envolvendo uma starlet, Nonô e Toledo.

Em suma, um "Rio Babilônia" ingênuo e sessentista, que aproveita-se da paisagística deslumbrante e das piadas colhidas por meio de um trabalho de campo fundamental: os realizadores observaram os verdadeiros paqueras -- como "André José Adler, Ronaldo Brasil, Norman Casari, Zé, Chico e Wilson", creditados no início do filme -- e gravaram depoimentos pelo bairro, em gravadores Nagra, que serviram de suporte à pré-produção.

Ao invés das referências a cocaína e à corrupção política, marcantes no filme de Neville de Almeida, "Os Paqueras" dialoga diretamente com matrizes italianas arquetípicas -- “Viva a vida doce, viva a doce vida!”, exclama Nonô, “Você já viu ‘A Doce Vida’?”, pergunta a menina, "Seis vezes", responde. Ou em características que fervilhavam o humor de botequim -- "Fessora é boa", rabiscado num desenho feito pelo rapaz que quer tentar um teste de sofá para convencer a professora a lhe dar um emprego.

Neste ritmo, “Os Paqueras” é uma espécie de ode à joie de vivre carioca, copacabanense em particular, que se não se perdeu ao longo destes últimos quase quarenta anos, arrefeceu um bocado nas transformações cotidianas da cidade. Poderíamos até mesmo traçar uma pequena filmografia que demonstrasse as feições do Rio de Janeiro ao sabor das décadas, passando por “Rio 40 Graus”; “Os Paqueras”; “Vai Trabalhar Vagabundo”; “Muito Prazer”, de David Neves; “Rio Babilônia”; finalizando com o réquiem sinistro de “Cidade de Deus”.

Igual panorama pode ser montado em relação a São Paulo, o que prova que o cinema sempre esteve próximo da realidade urbana brasileira. Cabe ao público, apenas, decodificá-lo com olhos livres, sem preconceitos ou deslizes de julgamento.

Os créditos cheios de bossa e a ingenuidade do sal, sol e sul – trecho da canção de Ronaldo Bôscoli, bossanovista demais para caber na trilha sonora com Os Mutantes, Rogério Duprat e Roberto Carlos – fazem de “Os Paqueras” (1969) um exemplar célebre da comédia urbana carioca.

Estreante na direção, Reginaldo Faria -- que já trabalhara na assistência de Roberto Farias -- retornou ao filão nos filmes seguintes, “Pra Quem Fica Tchau” (1971), “Os Machões” (1972) e “O Flagrante” (1975), passando à guinada realista em "Barra Pesada", de 1977. Curiosamente, mesmo ano do mesmo fenômeno vivenciado por Carlo Mossy -- também galã, diretor e produtor -- que na linha da ultra-violência fez de "Ódio" um clássico da moderna filmografia brasileira.

Até 1977, porém, muita coisa ainda estava para acontecer. E se em "Os Paqueras" a inexperiência do diretor era uma condição inescapável, por outro lado havia o argumento dividido entre ele, Roberto Farias, André José Adler e Xavier de Oliveira – assistente de direção aqui, diretor em “Jipe sem Capota”, depois rebatizado de “Marcelo Zona Sul” (1970) –, que segura as pontas com tranqüilidade e reaviva o interesse de quem quiser saber mais sobre os tempos em que os carros rodavam pela Guanabara com placas de seis números e os motoristas ainda propunham fotos de nu artístico para levarem as cocotas nas garçonniéres espalhadas por Copacabana.

Interessante perceber, também, que há uma divisão nos holofotes entre dois papéis masculinos principais -- o de 25 anos de idade, Nonô (Reginaldo Faria), e o de quase 50, Toledo (Walter Foster) -- que usam o mesmo matadouro, apesar de viverem realidades sociais completamente diferentes.

Nonô é o garotão da classe média, mora com os pais, é "excedente" -- ou seja, não-convocado -- no vestibular. Toledo flana de carrão, guarda outro na garagem, tira uma de quase-lorde com um cachimbo e tem com o garoto um casamento perfeito nas artes de colocar chifre na cabeça dos outros.

Para azar do coroa, a filhota (Margareth, Irene Stefânia), estudante da PUC, cai de amores por Nonô e o final, apesar de açucarado -- pois o sátiro encontra a felicidade nos braços de Margareth -- não cede de todo ao puritanismo da época. Marga e Nonô transam -- de roupa, vá lá --, desmistificam o tabu da conservação de virgindade entre mocinhas de boa família e Nonô manda na lata: "Fiz com sua filha o que todo homem faz com uma mulher. Ela gostou."

De qualquer forma, evidente que há uma mitigação do conteúdo sexual. Isto apesar de termos o nu frontal rápido de uma das meninas de Nonô/Toledo e o, digamos, dorso descoberto de Reginaldo, aparecendo de relance. Neste sentido, não raro afirmar-se que em "Os Paqueras", assim como no "Cassy Jones", de Luís Sergio Person, existe um estado embrionário da pornochanchada.

Mas a afirmativa deve ser encarada com bastante cuidado, na medida que a "pornochanchada" surgiu em condições e razões históricas bem diferentes daquelas que são vistas neste filme da R. F. F. Produções Cinematográficas, comandada por Roberto Farias -- além dos irmãos Reginaldo e Roberto, trabalham também o caçula Rogério, como operador de som, e Riva, na produção executiva.

Fregolente e Lícia Magna como pais de Nonô; Leila Diniz como a própria – reparem numa cena da novela “Anastácia, A Mulher Sem Destino”, em que Leila participava –; Darlene Glória (Suzy) como esposa do piloto de avião (Ary Fontoura) que, claro, passa tempo demais fora de casa; Adriana Prieto (Fátima), em papel que zomba um pouco da sua aura de mulher indecifrável e primaveril, no golpe aplicado em Nonô, que imaginava deflorar a pobre menina, mestra no 171. Além dessas gags, vemos o homossexual gente boa (Fernando Reski) avisando à dupla de caçadores sobre a chegada do marido que ameaça Toledo e a amante; o edifício número 200 da Rua Barata Ribeiro -- que se tornaria, com os anos, sinônimo de escracho e decadência, bem utilizado por gente como Mozael Silveira, outra cria da R.F.F --, além de uma bacanal envolvendo uma starlet, Nonô e Toledo.

Em suma, um "Rio Babilônia" ingênuo e sessentista, que aproveita-se da paisagística deslumbrante e das piadas colhidas por meio de um trabalho de campo fundamental: os realizadores observaram os verdadeiros paqueras -- como "André José Adler, Ronaldo Brasil, Norman Casari, Zé, Chico e Wilson", creditados no início do filme -- e gravaram depoimentos pelo bairro, em gravadores Nagra, que serviram de suporte à pré-produção.

Ao invés das referências a cocaína e à corrupção política, marcantes no filme de Neville de Almeida, "Os Paqueras" dialoga diretamente com matrizes italianas arquetípicas -- “Viva a vida doce, viva a doce vida!”, exclama Nonô, “Você já viu ‘A Doce Vida’?”, pergunta a menina, "Seis vezes", responde. Ou em características que fervilhavam o humor de botequim -- "Fessora é boa", rabiscado num desenho feito pelo rapaz que quer tentar um teste de sofá para convencer a professora a lhe dar um emprego.

Neste ritmo, “Os Paqueras” é uma espécie de ode à joie de vivre carioca, copacabanense em particular, que se não se perdeu ao longo destes últimos quase quarenta anos, arrefeceu um bocado nas transformações cotidianas da cidade. Poderíamos até mesmo traçar uma pequena filmografia que demonstrasse as feições do Rio de Janeiro ao sabor das décadas, passando por “Rio 40 Graus”; “Os Paqueras”; “Vai Trabalhar Vagabundo”; “Muito Prazer”, de David Neves; “Rio Babilônia”; finalizando com o réquiem sinistro de “Cidade de Deus”.

Igual panorama pode ser montado em relação a São Paulo, o que prova que o cinema sempre esteve próximo da realidade urbana brasileira. Cabe ao público, apenas, decodificá-lo com olhos livres, sem preconceitos ou deslizes de julgamento.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

O Casamento


O Canal Brasil oferece nestes dias uma enorme retrospectiva dos filmes baseados na obra do escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues, morto há vinte e cinco anos atrás. Aproveitando a oportunidade, vamos abrir o ano com uma pequena série destes filmes – se não todos, os mais importantes para ilustrar a repercussão do gênio de Nelson no cinema.

Falar de Nelson Rodrigues no alvorecer de 2006 me parece difícil, muito por conta da quantidade de estudos, recriações, adaptações e diluições que castigam a obra de Nelson nos últimos anos. A esse fenômeno culpe-se benignamente Ruy Castro, que lançou em 1992 uma biografia definitiva, “O Anjo Pornográfico”, e tirou o autor do limbo em que a intelligentsia brasileira, sempre zelosa do seu index, havia colocado o autor por conta de suas posições políticas conservadoras.

Nelson, no entanto, tem a cretina pecha de “conservador” apenas para aqueles que, como ele mesmo definiria, pastam no terreno baldio e bebem água em cuia de queijo Palmira. Sua filosofia libertária era extrema e extensa, por isso talvez desconfiasse tanto de Freud e Marx, os cânones adorados por seus contemporâneos do século XX. Daí para estes contemporâneos acusarem Nelson de ser aquilo que não era – um anti-intelectual reacionário – foi um pulo.

Por outro lado, se não tinha a simpatia da parcela dita avançada da intelectualidade brasileira, também era odiado pelos legítimos conservadores, que viam na sua escrita uma ameaça aos bons costumes. Em certo momento da vida, Nelson foi portanto um homem artisticamente isolado e para onde quer que olhasse, não o viam com bons olhos.

Esse estado de coisas encontra um ápice em 1966, ano em que, por incrível encomenda do ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda, escreveu “O Casamento”, um dos melhores romances da literatura nacional de todos os tempos.

“O Casamento” (1975), o filme, dirigido por seu amigo Arnaldo Jabor, é muito bom, mas não consegue ser um décimo do que é o livro, a obra-prima. Talvez porque bons romances não dêem bons filmes, Nelson no cinema funcionou bem apenas na adaptação de suas peças. Logo, para falarmos do filme de Jabor, talvez seja melhor voltarmos nossas atenções para a força da obra literária e o resultado da transposição de uma linguagem para outra.

“O Casamento” versa basicamente sobre a fúria do corpo sufocada pela hipocrisia social e moral. Sabino Uchôa Maranhão (Paulo Porto) é um homem bem-sucedido, que vai casar a filha Glorinha (Adriana Prieto), a quem devota paixão incestuosa. O noivo de Glorinha, por sua vez, é um homossexual enrustido, que beija Zé Honório (André Valli), e é pego em flagrante pelo Doutor Camarinha (Fregolente), ginecologista de Glorinha e pai de Antônio Carlos (Érico Vidal), playboy tresloucado com quem Glorinha perdeu a virgindade. Contando assim, essa ciranda de personagens interligados parece fácil, mas Nelson oferece ao leitor o inferno em vida através do que anda pela cabeça das suas criaturas.

No filme há uma nítida diluição destes pensamentos escusos rodrigueanos. Antes podemos dizer que o universo subjetivo apresentado no livro é tão forte que acaba por ser inadequado ao audiovisual, gerando uma obra de meia-força. Jabor entende Nelson, isso parece visível, mas o romancista Nelson é tão grande que o cineasta Jabor apenas o toca na superfície, sem conseguir aprofundá-lo.

A melhor parte do livro – e do filme – no entanto são coincidentes. Trata-se do dia em que Glorinha perdeu a virgindade. Antônio Carlos guia o seu carro pela praia de Copacabana, passeando com Glorinha e uma amiga dela, as duas hipnotizadas por sua cafajestagem.

Depois de várias ameaças de suicídio teatralizadas, Antônio Carlos arrasta as garotas até a casa de Zé Honório, que pretende ter relações sexuais com outro homem na frente do pai, que o surrava por ser gay. André Valli dá aqui seu show particular no papel do homossexual amargo, com sede de vingança. Mas o que no livro soava apavorante, doentio, no filme transparece apenas como encenação vazia, histérica.

E detalhe interessante: na obra de Nelson, Glorinha e a amiga mantêm relações sexuais uma com a outra por ordem de Antônio Carlos, antes que ele deflore Glorinha. No filme essa parte fundamental da trama é descartada – talvez por conta da censura de 1975. Já a parte onde Sabino avança sobre sua secretária Noêmia (Camila Amado), encontra na dupla de atores uma tensão fantástica, se igualando ao que no livro era respiração suspensa, delírio sadomasoquista.

De todos os personagens transpostos, o mais fraco talvez seja Antônio Carlos, fascinante e dionisíaco na obra literária e vacilante e estereotipado no filme. Ao final, quando Sabino tenta agarrar Glorinha, Noêmia é morta pelo namorado (Nelson Dantas) e, num movimento de espelhamento de culpa, Sabino se entrega como responsável pela morte de Noêmia, temos a nítida sensação de que assistimos a um grande espetáculo. Mas a plenitude e a virtude da história que acabou de ser contada residem ainda no texto de Nelson, a ser lido e relido.

Não à toa sua obra encantou e encanta gente tão díspare quanto o cineasta José Antônio Garcia; o ex-advogado, então cineasta e hoje cronista Arnaldo Jabor (que na dúvida copia na forma o estilo de Nelson para agradar seus leitores); e toda uma nova geração de atores e atrizes teatrais, para quem Nelson é a gigantesca referência estudada em teatro brasileiro. Merecidamente, o antigo reacionário maldito se tornou quase uma unanimidade – o que talvez o desagradasse um bocado.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

A Viúva Virgem


Carlos Imperial é o nome do homem. Carioca do Espírito Santo, criado em Copacabana, de Imperial há muita coisa boa a se falar e apenas um ou outro deslize em sua rocambolesca “carreira”. Produtor e diretor musical e cinematográfico, compositor, jornalista, escritor, apresentador de programas de auditório, e, em certa época da vida, ator bufo dos melhores, Carlos Imperial foi um destes loucos que não existem mais, por quem o Brasil deveria babar de orgulho.

Mas pelo contrário, antes das trevas do esquecimento onde mergulharam sua memória hoje em dia, imprimiu-se a versão de um Imperial aproveitador, canalha, sem cultura e salafrário. Nada mais injusto para alguém que dedicou sua vida a criar. Com um décimo da versatilidade e da grandeza cultural de um Carlos Imperial, a maioria dos intelectuais brasileiros teria conduzido uma revolução positiva no país da segunda metade do século XX, ao invés de se enclausurarem nas cátedras medíocres de nossas universidades públicas deficitárias.

Existe, portanto, um ramo da cultura brasileira onde o malandro, o gordo cafajeste, o terror da Rua Miguel Lemos, Carlos Imperial, é sinônimo de história e selo de qualidade. Junto com Adriana Prieto, Jardel Filho e Darlene Glória, é ele quem dá a tônica em “A Viúva Virgem” (1972), intrincada comédia de situação, campeã de bilheteria naquele ano, contando a história de Cristina (Prieto), moça do interior de Minas, recém-casada com o ogro barbudo, Coronel Alexandrão (Imperial).

Desleixado e oleoso, o Coronel ganha na música do próprio Imperial – embebida dos hits rurais de Tim Maia, na fase “Coroné Antônio Bento” – sua melhor definição: “Uai, uai, coroné, coroné Alexandrão, deitou forte, bicho macho, povoou a região”. Pai de mais de setenta filhos, Alexandrão vai ao altar novamente, interrompe o padre (José Lewgoy) ao pedir para que se apresse, mas logo após os comes e bebes da recepção, enfarta sobre Cristina sem consumar o casamento.

A “viúva virgem” Prieto, que repetidas vezes ora diverte-se em cena – um vago sorriso no canto da boca, principalmente nas cenas com o endemoniado Imperial – ora parece perguntar-se aonde foi parar o estilo seríssimo de “Memória de Helena” (1969), estrelado por ela três anos antes – o momento em que hesita ao aceitar o Coronel na cama transparece um requinte interpretativo que não combina lá muito bem com os gracejos do filme.

A partir do enterro do morto, tem-se início a guinada em direção à cidade grande, quando acompanhada pela tia (Henriquieta Brieba), Cristina cumpre orientações médicas e pretende relaxar. Encontra, porém, Constantino Gonçalves (Jardel Filho), falsário que apresenta-se como industrial, dono da revendedora de sucos “Meu Limão, Meu Limoeiro” – na realidade, uma oficina mecânica caindo aos pedaços, especializada em lanternagem. A intenção, como não poderia deixar de ser, é a de aplicar-lhe um sonoro golpe do baú.

Constantino tem a idéia de criar o “Empreendimento Matrimonial Constantino Gonçalves”, vendendo pequenas cotas resgatáveis financeiramente após o enlace matrimonial com a pobre viúva. Quem o auxilia é a trupe formada por sua irmã Tamara (Darlene Glória), que namora o raquítico bicho-grilo Paulinho (Marcelo, astro de “Minha Namorada”, já resenhado neste blog) e é amiga de Janete (Sônia Clara) – garota no estilo certinha do Lalau, mas ensandecida, que vive dando pulos e cometendo gestos esdrúxulos, no contraponto à autoridade risonha de Tamara.

O imbróglio central, porém, está na hilária volta do Coronel, que vaga em espírito atormentando ex-mulher, Constatino e tia – que acaba servindo de “cavalo” ocasional para a incorporação do rotundo fazendeiro. Flutuando sobre os cômodos, indo à praia, aparecendo atrás de árvores ou de quatro, andando em gatinhas, Imperial é um show deslumbrante à parte, comanda o enredo e conspira de modo sobrenatural contra o estelionato do sr. Gonçalves.

Aumentando a população nas telas, muitos personagens seguem no encalço da virgem em ritmo de screwball comedy. Carlos Prieto, falecido irmão de Adriana, faz o amigo de trejeitos duvidosos. Otávio Augusto, de bigodinho, dirige um comercial. Wilson Grey, é bom que se diga, marca presença quando menos se espera, feliz que só, trocando olhares com Henriquieta Brieba.

Frustrado o golpe do baú, Cristina encontra o amor nos braços de Paulinho e é vista pela última vez ao seu lado, no carro cujo capô é tomado pelo vulto de Alexandrão. Sem mortos e sem feridos – apenas presos, por uma série de confusões num motel –, um comboio policial leva todos os atores, à exceção daquele trio, em clima de encontro de final de ano, sorridentes para um último passeio pela câmera do diretor Pedro Carlos Rovai. A cena final, como em filme brasileiro dos anos 70 que se preza, congela na imagem de Imperial mandando o espectador para aquele lugar.

Ninguém se importa, porque somos todos – espectadores, atores e diretor – convidados para a festa que, afinal, são os filmes e a vida deste monstro sagrado brasileiro. Treze anos depois do Coronel Alexandrão, Imperial seria candidato a prefeito do Rio pedindo voto para as crianças (“Eu sou a zebra, peça ao seu papai para votar na zebrinha!”), assumiu a função de apresentador fixo da apuração das notas do Carnaval carioca (“Beija-Flor de Nilópolis, dez, nota dez!”), até falecer e ir diretamente para o céu, sem escalas, em Novembro de 1992. Um tributo ao gênio.

segunda-feira, outubro 17, 2005

Lúcia McCartney



Adaptar um texto escrito e torná-lo uma realidade em termos cinematográficos é tarefa das mais ingratas. Lidamos com o problema da recepção de um fenômeno inicial (o literário) por outro, e eles nem sempre falam a mesma língua ou possuem parentesco direto. Nada mais frustrante do que vermos um diretor medíocre trabalhar um texto em movimento. O filme acaba se tornando uma espécie de objeto não-identificado, sem pai nem mãe. Nem é cinema, nem é literatura; é um terceiro gênero infeliz.


David Neves dirige “Lúcia McCartney, uma garota de programa” (1971), roteirizado por Rubem Fonseca, autor dos dois contos que servem de base à trama. O filme é paradigmático, porque nele encontramos a mistura perfeita entre a lírica cinematográfica e o universo literário.

Algumas soluções encontradas pelo diretor explicam bem este imbróglio. Reparem na seta branca que aparece por alguns segundos na tela, logo após um monólogo da protagonista. Ela indica justamente a ponte entre o final de um conto e o início de outro. Outro aspecto interessante se refere às mudanças de cores bruscas, que ocorrem como se não houvesse motivo aparente – passam ao preto-e-branco ou ficam muito saturadas, e acompanhadas ou não de legendas. Na realidade, elas se referem às múltiplas falas possíveis dos personagens, recurso utilizado freqüentemente por Fonseca no conto original.

Por outro lado, “Lúcia...”, o filme, pode ter um bom ponto de partida na inscrição que surge na tela, quase ao encerramento: “Os homens, os mais jovens em menor medida, e os adultos plenamente, vão ao bordel em busca de ficção”. Parece que no final das contas, há um descompasso entre os desejos lúbricos dos freqüentadores de bordel e a sua concretização, que pode às vezes beirar a fragilidade ou a simples necessidade do outro. Se possível, um outro angelical, dependente, mas vibrátil como Lúcia (Adriana Prieto)

Lúcia McCartney, a mais conhecida fã de Beatles da história da literatura brasileira, é uma garota de programa, órfã, divide o apartamento com uma amiga – que tomou estrategicamente por irmã. Vai à praia, à boate, conversa com os “amigos”. Apaixona-se por um cliente misterioso, José Roberto – “paulista, não gosto de paulistas” –, atribuindo-lhe um afeto que muito provavelmente ele não tem ou apenas dissimula para cumprir o modus operandi da vida adúltera, fora de casa. José Roberto não retribui, não oferece paixão, não é o Sir Galahad do Santo Cálice. Acabou. Vemos a seta.

Em outro ponto da cidade, no topo de um prédio voltado para a mítica área da Cinelândia, no Rio de Janeiro, um advogado (Luís Vilaça) ouve a missão conferida pelo cliente (Nelson Dantas): encontrar Elizabete, mocinha que trabalha na casa de tolerância de Madame Gisele (Odete Lara), antes que se corrompa no antro. Sim, é o velho caso do coroa mais velho, encantado pela inocência da jovem – lembrem-se: “buscam ficção”.

Apesar de não ser revelado em momento algum pelo filme, o advogado é Mandrake, que narra em primeira pessoa “O Caso de F.A”, conto de Fonseca, cuja história é transposta linearmente a partir desta segunda etapa. Mandrake, bacharel em direito, de aspecto bonachão, meio policialesco, manda tiradas do bas fond carioca: “advogado não trabalha com a cabeça, trabalha com os pés”, diz depois de bater um papo com o informante (Wilson Grey) e correr para o escritório.

A partir das boas notícias, Mandrake contacta um amigo (Roberto Bonfim), de excelsa figura, capoeirista que ajuda-o a solucionar o caso, bem longe fora do Judiciário, obviamente. Combinam de invadirem o prostíbulo, brigam com os leões de chácara do lugar, capturam Elizabete – ou Míriam, ou Laura, ou Lúcia – e depositam-na em um apartamento. Toda a encenação do rapto se dá em câmera lenta, fragmentada, quase semelhante as HQs.

Elizabete – ou Míriam, ou Laura – é Lúcia, que vinha usando nomes falsos para esconder-se – novamente a idéia de ficção... A história inicial portanto, permaneceu fincada em toda a trama. Os demais personagens, o entorno, serviram de veículo à premissa inicial.

Após “Lúcia...”, David Neves aprofundou-se na contemplação antropológica do Rio de Janeiro – campo de estudo que viria a ser emblemático para compreeensão de sua obra. Morreu pobre, deprimido, portador do vírus da aids e abandonado por grande parte dos que considerava seus "amigos-irmãos". Quanto a Fonseca, apenas começava em 1970. Os melhores livros ainda não haviam sido escritos e, breve, um conto antológico, “Feliz Ano Novo”, seria caçado em praça pública, sob a chancela de “anti-arte”.

Adriana Prieto faleceria na véspera do Natal de 1974, aos 24 anos de idade, vítima de um acidente automobilístico. A notícia da morte prematura caiu feito bomba, privou-a da maturidade artística ao lado de David, que já a havia eleito musa em dois filmes consecutivos – neste e no anterior, “Memórias de Helena”, estréia na direção. Foi uma das poucas atrizes a dedicar-se majoritariamente ao cinema; status que o cinema brasileiro precisa reaprender a criar.

quinta-feira, setembro 29, 2005

Palácio dos Anjos


“Palácio dos anjos”, de Walter Hugo Khouri, é um encantamento. Procuro cada detalhe, como os expedicionários franceses, que varriam a superfície do deserto e encontravam a glória. O diferencial, porém, está em que nada existe de desértico ou inanimado na obra. Ela é arte, preciosa, de magnitude que devemos sempre rever e escavucar um pouco mais, encontrando detalhes a cada nova leitura, a cada novo quilômetro sob a superfície, no intuito de ter decifrada a esfinge.

“O filme que estremeceu o Festival de Cannes de 1970”, diziam as capas dos vhs da Globo Filmes, lançados nos anos 80. Quando o assisti pela primeira vez, numa mostra da Cinemateca do MAM-RJ -- e o ambiente lotado de almas do passado, na sala mítica e atemporal --, pensei comigo mesma: “preciso rever.” Revi muitas vezes.

Geneviève Grad é a moça de 22 anos de idade, secretária de um banco, assediada pelas constantes investidas de Ricardo (Luc Merenda). Divide um apartamento com uma amiga, Maria (Rossana Ghessa). Grad é autoritária, dominante, de traços físicos absurdamente perfeitos, das coisas mais bonitas a atingirem as telas de cinema.

Quando falei acima de um “encantamento”, muito dele se deve ao fato de a personagem de Grad mesclar esse ideal de beleza helênica a uma postura forte, prepotente, segura. A inteligência e erudição. Esta é Bárbara. Administradora de um negócio de luxo, concebido entre as paredes do apartamento residencial, também dividido com a terceira integrante da turba, Ana Lúcia (Adriana Prieto).

Vamos colocar desta forma os arquétipos das três meninas de “Palácio”: Grad, fria -- viril --; Ghessa tola -- renitente --; Prieto dinâmica -- empreendedora. São prostitutas, recebem visitas preferenciais, subvertem o conselho de uma agenciadora (Joana Fomm) que pretendia fazer delas meros “objetos em exposição” na casa que dirige.

Grad pensa, acertadamente, que poderia ser rufiã e meretriz, usando o fichário de informações confidenciais juntadas pelo banco em que trabalhava com as amigas. Estas roubam-no e assim conseguem o crème de la crème nacional. Os homens podres de ricos, cuidadosamente vigiados nos arquivos, com todos os dados possíveis -- financeiros e de atividades em geral. As três, então, armam a meta de em um ano estarem ricas para largarem tudo, viajarem de navio, viverem de renda.

No meio tempo é visível que existe um clima de côrte -- explícita em algumas cenas, implícita em outras -- entre Grad, Prieto e Ghesa. Mas côrte talvez não seja palavra. Há, na verdade, fuga, caça e domínio. Fuga, na personagem de Ghessa -- mocinha que em primeiro momento chegou a defender a tese de ter saído virgem da cidade de origem, para receber, em seguida, a gargalhada triunfal, das outras. Há caça por parte de Prieto -- ela é o animal domesticado por Grad, que lhe estabelece completo domínio. Domínio literal, convém dizer, em pelo menos uma cena, em que agarra os braços de Prieto, deita-a, beija-a, e recebe o sorriso pleno da outra.

Entretanto, esse domínio de Grad não se restringe às meninas, sendo exercido, igualmente, sobre os maridos infiéis que entopem o apartamento. Mais: chega a envolver-se com a esposa de um deles (Norma Bengell), que sente por ela um amor cego, doentio, pensando que assim pudesse reviver um relacionamento do passado. Não contava ela com a crueldade de Bárbara, que impede qualquer via de mão dupla. Bárbara é livre, como as moças que iluminam os quadros de Gustav Klimt -- um deles, “O Beijo”, mostrado diversas vezes pelas lentes de Khouri. Bengell é abandonada, entendendo o quanto aquele território é infrutífero, o corpo de uma personagem absolutamente gananciosa, que não conhece fronteiras.

Voltando ao aspecto icônico em “Palácio dos Anjos” -- citado na obra de Klimt --, lembro-me ainda da sensação de arrebatamento que senti desde as primeiras imagens na tela. É bem sabido que Khouri preocupava-se com a direção de arte, cercando-se de objetos meticulosamente dipostos em cena. Gravuras, esculturas, quadros -- Magritte era recorrente. No início de “Palácio dos Anjos”, vemos uma sucessão de rostos femininos, pintados por Sonia Grassman, tendo ao fundo a música de Rogério Duprat, no mais bem acabado casamento de todas as aberturas dos filmes de Khouri, creio eu. Começa ali uma sessão de transe, que encerra-se 96 minutos depois, com a impressão de ter-se visto algo único.

“Palácio dos Anjos” tem uma detalhe curioso. O produtor é “William Khouri”, o cameraman “Rupert Khouri”. A princípio, parece um feudo cinematográfico, uma obra gerada em família. Mas se William era irmão de Khouri, quem seria Rupert? A resposta é saborosa.

Assim como o “Alfred Stin” de Carlos Reinchenbach -- nome criado pelo diretor para esconder os trabalhos de fotografia que realizava em determinados filmes e considerava ruins --; “Rupert Khouri” também é uma criação, nunca existiu. Era o próprio Walter Hugo Khouri, na tentativa de iludir o espectador, levando-o a crer que o diretor e roteirista dividia os louros com mais alguém.

Como vêem, este realizador brasileiro, um prestidigitador das imagens em movimento, construiu uma obra com muitos sulcos, muitos ruas, muitas obsessões e desejos. Triste constatar que pessoas deste tipo um dia fecham os olhos e adormecem para sempre. A ele dizemos, “boa noite, doce príncipe”. E o resto é silêncio.