
Aclimatado ao inferno da burocracia nacional – vide o périplo da censura em “Os Cafajestes” (1962) – Ruy Guerra escolheu novo objeto incendiário para suceder as manhas de Jandir e Vavá. Saem as praias de Cabo Frio e apostam-se as fichas no que deveria ser o documento sobre a miséria agreste, situado in loco no sertão baiano. As cidades de Milagres, Tartaruga e Nova Itarana receberam a equipe de “Os Fuzis” (1963), que chegava calejada pela recente perda do argumentista Miguel Torres, vítima de acidente automobilístico enquanto procurava locações para o filme. A homenagem singela ao colega, dedicando-lhe a obra, pontifica o signo de morte que acompanha a narrativa dentro da tela. Delírios messiânicos, sabedorias no estilo Antônio Conselheiro e flagelados pela seca fazem de “Os Fuzis” uma escuridão do otimismo.
Dramaturgicamente, o roteiro de Ruy – diálogos compartilhados com Torres – instala dois focos separados de conflito: os soldados – Nelson Xavier, Hugo Carvana, Paulo César (ainda sem o “Peréio” consagrador), Ivan Cândido, Leonides Bayer – e os famintos – cujos urros do beato (dublado por Antonio Sampaio, vulgo Antonio Pitanga) servem de liga para a casta, no mais das vezes sem voz. Em meio a tudo, o pivô da reviravolta, Gaúcho – Átila Iório, veterano carioca, ator de Lulu de Barros e Watson Macedo, insolitamente expert na geografia nordestina ao também protagonizar “Vidas Secas” (1963). Gaúcho é o motorista de caminhão, comprador de meninas virgens, que apenas a centésimos do fim sai da linha dúbia e coloca-se como protetor do povoado – quando um jovem (Joel Barcellos) pede no bar um caixote para enterrar o corpo do filho, morto evidentemente pela fome.
Queimado a tiros, a perseguição de Gaúcho mostra o clímax de “Os Fuzis”. Fulminado pelas costas no momento de surto do personagem de Carvana, seu corpo inerte é abraçado por Mário (Nelson Xavier), único a demonstrar uma nesga de humanidade na trama. Envolve-se com a moça (Maria Gladys), revolta-se contra o assassinato de um colono por brincadeira – mas cede, ao relatá-lo como ossos do ofício à família do defunto.
O tédio dos rapazes socados na missão ingrata, o fetiche pelas armas, não deslumbram enquanto elementos per se do enredo. Cenas há que tentam comunicar algo – os soldados cavucando as cuias de comida na frente do cadáver – mas ainda assim percebe-se uma certa estagnação, um certo alheamento no rigor formal e na obsessão pelos close-ups, pelos primeiros planos – que distanciam os rostos dos demais elementos do quadro. Somada à mão pesada da luta de classes, nasce daí a contraposição estática entre aqueles dois focos de conflito que não se permeiam de fato.
Apontamos a luta de classes como marcapasso do filme em razão do engajamento na tese maior, que lhe toma as entranhas: demonstrar o militarismo como intermediação opressiva – os soldados evitam que uma carga de alimentos seja atacada – para o Id fundamental – os pobres sem Estado, falsamente conformados, mas sempre alertas para a tomada de contas através do beato ou da matança sabática de um boi. Pastando desavisadamente entre os locais, as carnes do bicho são arrancadas a fórceps, como numa insurreição. Estaria aí um belo desfecho em termos de plasticidade, logo em seguida traída pela insistência de retomar o arquétipo da oralidade, da ciência popular, na ruminação de um idoso.
Cecil Thiré e Ruy Polanah assistiram a direção, música a cargo de Moacir Santos – ouro negro, que depois se refugiou na Califórnia –, produção de Jarbas Barbosa – irmão do Abelardo, o Chacrinha. Gato escaldado com as intervenções de Jece Valadão em “Os Cafajestes”, Ruy Guerra inseriu uma cláusula contratual que impedia o produtor de retirar cenas sem o seu consentimento. Supôs que conseguisse contornar as investidas mas, obviamente, como os fatos se precipitam às relações jurídicas, a insistência de Barbosa por meses foi tamanha que o filme chegou a ser remontado – desprezando o status final, dado por Ruy e Raimundo Higino –, levando o diretor a exigir que seu nome fosse retirado do produto exibido.
Antes de tomar o caminho do Laboratório Líder – ponto de chegada do cinemanovismo –, “Os Fuzis” teve um encontro sorrateiro com “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964). Ainda às boas, Glauber Rocha deixou bilhete carinhoso no set de Ruy Guerra, sabendo que eram vizinhos de gravações: “Deus e o Diabo pedem passagem”. Dali para a acidez total entres os dois, muitos cáctus correram, muito chão quebrado pelo sol forte, muitas declarações desencontradas na imprensa. Glauber criticou-lhe o barroquismo, apesar de saudar – paternalistamente – o franco processo de abrasileiramento do moçambicano. O tempo rugiu e Glauber adicionou a Ruy outros carinhos, como o de tachá-lo de salazarista, crendo-lhe um dos responsáveis pelas perseguições que dizia sofrer. Propôs-se a varrê-lo do mapa, deletando-o inclusive dos textos que escrevera a respeito. Ruy demorou a entrar nos detalhes da cizânia, mas deixou claro o descontentamento com a postura de Glauber – “profeta alado” foi o epíteto atribuído por Paulo Emílio Salles Gomes –, misturada com a tendência de manipulação que acabava repercutindo no sentido contrário, fazendo do baiano o alvo da manobra.
Egos e pugilato à parte, em 1978 Ruy Guerra realizaria uma continuação para “Os Fuzis”, co-dirigida por Nelson Xavier. “A Queda” ambienta os personagens no Rio de Janeiro, opta pela experiência do proletário em substituição às fardas, naquela vaga de quase-Anistia – ampla, geral e irrestrita –, que inflamava os discursos médios. Enquanto o irmão do Henfil demorava a aterrissar no aeroporto, o cinema brasileiro aninhava-se em outros centros de poder. As fábulas sebastianistas e messiânicas perdiam empatia, cediam espaço à concretude do elemento urbano que cada vez mais pressionava os bastidores do Congresso Nacional.
Dramaturgicamente, o roteiro de Ruy – diálogos compartilhados com Torres – instala dois focos separados de conflito: os soldados – Nelson Xavier, Hugo Carvana, Paulo César (ainda sem o “Peréio” consagrador), Ivan Cândido, Leonides Bayer – e os famintos – cujos urros do beato (dublado por Antonio Sampaio, vulgo Antonio Pitanga) servem de liga para a casta, no mais das vezes sem voz. Em meio a tudo, o pivô da reviravolta, Gaúcho – Átila Iório, veterano carioca, ator de Lulu de Barros e Watson Macedo, insolitamente expert na geografia nordestina ao também protagonizar “Vidas Secas” (1963). Gaúcho é o motorista de caminhão, comprador de meninas virgens, que apenas a centésimos do fim sai da linha dúbia e coloca-se como protetor do povoado – quando um jovem (Joel Barcellos) pede no bar um caixote para enterrar o corpo do filho, morto evidentemente pela fome.
Queimado a tiros, a perseguição de Gaúcho mostra o clímax de “Os Fuzis”. Fulminado pelas costas no momento de surto do personagem de Carvana, seu corpo inerte é abraçado por Mário (Nelson Xavier), único a demonstrar uma nesga de humanidade na trama. Envolve-se com a moça (Maria Gladys), revolta-se contra o assassinato de um colono por brincadeira – mas cede, ao relatá-lo como ossos do ofício à família do defunto.
O tédio dos rapazes socados na missão ingrata, o fetiche pelas armas, não deslumbram enquanto elementos per se do enredo. Cenas há que tentam comunicar algo – os soldados cavucando as cuias de comida na frente do cadáver – mas ainda assim percebe-se uma certa estagnação, um certo alheamento no rigor formal e na obsessão pelos close-ups, pelos primeiros planos – que distanciam os rostos dos demais elementos do quadro. Somada à mão pesada da luta de classes, nasce daí a contraposição estática entre aqueles dois focos de conflito que não se permeiam de fato.
Apontamos a luta de classes como marcapasso do filme em razão do engajamento na tese maior, que lhe toma as entranhas: demonstrar o militarismo como intermediação opressiva – os soldados evitam que uma carga de alimentos seja atacada – para o Id fundamental – os pobres sem Estado, falsamente conformados, mas sempre alertas para a tomada de contas através do beato ou da matança sabática de um boi. Pastando desavisadamente entre os locais, as carnes do bicho são arrancadas a fórceps, como numa insurreição. Estaria aí um belo desfecho em termos de plasticidade, logo em seguida traída pela insistência de retomar o arquétipo da oralidade, da ciência popular, na ruminação de um idoso.
Cecil Thiré e Ruy Polanah assistiram a direção, música a cargo de Moacir Santos – ouro negro, que depois se refugiou na Califórnia –, produção de Jarbas Barbosa – irmão do Abelardo, o Chacrinha. Gato escaldado com as intervenções de Jece Valadão em “Os Cafajestes”, Ruy Guerra inseriu uma cláusula contratual que impedia o produtor de retirar cenas sem o seu consentimento. Supôs que conseguisse contornar as investidas mas, obviamente, como os fatos se precipitam às relações jurídicas, a insistência de Barbosa por meses foi tamanha que o filme chegou a ser remontado – desprezando o status final, dado por Ruy e Raimundo Higino –, levando o diretor a exigir que seu nome fosse retirado do produto exibido.
Antes de tomar o caminho do Laboratório Líder – ponto de chegada do cinemanovismo –, “Os Fuzis” teve um encontro sorrateiro com “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964). Ainda às boas, Glauber Rocha deixou bilhete carinhoso no set de Ruy Guerra, sabendo que eram vizinhos de gravações: “Deus e o Diabo pedem passagem”. Dali para a acidez total entres os dois, muitos cáctus correram, muito chão quebrado pelo sol forte, muitas declarações desencontradas na imprensa. Glauber criticou-lhe o barroquismo, apesar de saudar – paternalistamente – o franco processo de abrasileiramento do moçambicano. O tempo rugiu e Glauber adicionou a Ruy outros carinhos, como o de tachá-lo de salazarista, crendo-lhe um dos responsáveis pelas perseguições que dizia sofrer. Propôs-se a varrê-lo do mapa, deletando-o inclusive dos textos que escrevera a respeito. Ruy demorou a entrar nos detalhes da cizânia, mas deixou claro o descontentamento com a postura de Glauber – “profeta alado” foi o epíteto atribuído por Paulo Emílio Salles Gomes –, misturada com a tendência de manipulação que acabava repercutindo no sentido contrário, fazendo do baiano o alvo da manobra.
Egos e pugilato à parte, em 1978 Ruy Guerra realizaria uma continuação para “Os Fuzis”, co-dirigida por Nelson Xavier. “A Queda” ambienta os personagens no Rio de Janeiro, opta pela experiência do proletário em substituição às fardas, naquela vaga de quase-Anistia – ampla, geral e irrestrita –, que inflamava os discursos médios. Enquanto o irmão do Henfil demorava a aterrissar no aeroporto, o cinema brasileiro aninhava-se em outros centros de poder. As fábulas sebastianistas e messiânicas perdiam empatia, cediam espaço à concretude do elemento urbano que cada vez mais pressionava os bastidores do Congresso Nacional.

