domingo, novembro 07, 2010

Os Fuzis


Aclimatado ao inferno da burocracia nacional – vide o périplo da censura em “Os Cafajestes” (1962) – Ruy Guerra escolheu novo objeto incendiário para suceder as manhas de Jandir e Vavá. Saem as praias de Cabo Frio e apostam-se as fichas no que deveria ser o documento sobre a miséria agreste, situado in loco no sertão baiano. As cidades de Milagres, Tartaruga e Nova Itarana receberam a equipe de “Os Fuzis” (1963), que chegava calejada pela recente perda do argumentista Miguel Torres, vítima de acidente automobilístico enquanto procurava locações para o filme. A homenagem singela ao colega, dedicando-lhe a obra, pontifica o signo de morte que acompanha a narrativa dentro da tela. Delírios messiânicos, sabedorias no estilo Antônio Conselheiro e flagelados pela seca fazem de “Os Fuzis” uma escuridão do otimismo.

Dramaturgicamente, o roteiro de Ruy – diálogos compartilhados com Torres – instala dois focos separados de conflito: os soldados – Nelson Xavier, Hugo Carvana, Paulo César (ainda sem o “Peréio” consagrador), Ivan Cândido, Leonides Bayer – e os famintos – cujos urros do beato (dublado por Antonio Sampaio, vulgo Antonio Pitanga) servem de liga para a casta, no mais das vezes sem voz. Em meio a tudo, o pivô da reviravolta, Gaúcho – Átila Iório, veterano carioca, ator de Lulu de Barros e Watson Macedo, insolitamente expert na geografia nordestina ao também protagonizar “Vidas Secas” (1963). Gaúcho é o motorista de caminhão, comprador de meninas virgens, que apenas a centésimos do fim sai da linha dúbia e coloca-se como protetor do povoado – quando um jovem (Joel Barcellos) pede no bar um caixote para enterrar o corpo do filho, morto evidentemente pela fome.

Queimado a tiros, a perseguição de Gaúcho mostra o clímax de “Os Fuzis”. Fulminado pelas costas no momento de surto do personagem de Carvana, seu corpo inerte é abraçado por Mário (Nelson Xavier), único a demonstrar uma nesga de humanidade na trama. Envolve-se com a moça (Maria Gladys), revolta-se contra o assassinato de um colono por brincadeira – mas cede, ao relatá-lo como ossos do ofício à família do defunto.

O tédio dos rapazes socados na missão ingrata, o fetiche pelas armas, não deslumbram enquanto elementos per se do enredo. Cenas há que tentam comunicar algo – os soldados cavucando as cuias de comida na frente do cadáver – mas ainda assim percebe-se uma certa estagnação, um certo alheamento no rigor formal e na obsessão pelos close-ups, pelos primeiros planos – que distanciam os rostos dos demais elementos do quadro. Somada à mão pesada da luta de classes, nasce daí a contraposição estática entre aqueles dois focos de conflito que não se permeiam de fato.

Apontamos a luta de classes como marcapasso do filme em razão do engajamento na tese maior, que lhe toma as entranhas: demonstrar o militarismo como intermediação opressiva – os soldados evitam que uma carga de alimentos seja atacada – para o Id fundamental – os pobres sem Estado, falsamente conformados, mas sempre alertas para a tomada de contas através do beato ou da matança sabática de um boi. Pastando desavisadamente entre os locais, as carnes do bicho são arrancadas a fórceps, como numa insurreição. Estaria aí um belo desfecho em termos de plasticidade, logo em seguida traída pela insistência de retomar o arquétipo da oralidade, da ciência popular, na ruminação de um idoso.

Cecil Thiré e Ruy Polanah assistiram a direção, música a cargo de Moacir Santos – ouro negro, que depois se refugiou na Califórnia –, produção de Jarbas Barbosa – irmão do Abelardo, o Chacrinha. Gato escaldado com as intervenções de Jece Valadão em “Os Cafajestes”, Ruy Guerra inseriu uma cláusula contratual que impedia o produtor de retirar cenas sem o seu consentimento. Supôs que conseguisse contornar as investidas mas, obviamente, como os fatos se precipitam às relações jurídicas, a insistência de Barbosa por meses foi tamanha que o filme chegou a ser remontado – desprezando o status final, dado por Ruy e Raimundo Higino –, levando o diretor a exigir que seu nome fosse retirado do produto exibido.

Antes de tomar o caminho do Laboratório Líder – ponto de chegada do cinemanovismo –, “Os Fuzis” teve um encontro sorrateiro com “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964). Ainda às boas, Glauber Rocha deixou bilhete carinhoso no set de Ruy Guerra, sabendo que eram vizinhos de gravações: “Deus e o Diabo pedem passagem”. Dali para a acidez total entres os dois, muitos cáctus correram, muito chão quebrado pelo sol forte, muitas declarações desencontradas na imprensa. Glauber criticou-lhe o barroquismo, apesar de saudar – paternalistamente – o franco processo de abrasileiramento do moçambicano. O tempo rugiu e Glauber adicionou a Ruy outros carinhos, como o de tachá-lo de salazarista, crendo-lhe um dos responsáveis pelas perseguições que dizia sofrer. Propôs-se a varrê-lo do mapa, deletando-o inclusive dos textos que escrevera a respeito. Ruy demorou a entrar nos detalhes da cizânia, mas deixou claro o descontentamento com a postura de Glauber – “profeta alado” foi o epíteto atribuído por Paulo Emílio Salles Gomes –, misturada com a tendência de manipulação que acabava repercutindo no sentido contrário, fazendo do baiano o alvo da manobra.

Egos e pugilato à parte, em 1978 Ruy Guerra realizaria uma continuação para “Os Fuzis”, co-dirigida por Nelson Xavier. “A Queda” ambienta os personagens no Rio de Janeiro, opta pela experiência do proletário em substituição às fardas, naquela vaga de quase-Anistia – ampla, geral e irrestrita –, que inflamava os discursos médios. Enquanto o irmão do Henfil demorava a aterrissar no aeroporto, o cinema brasileiro aninhava-se em outros centros de poder. As fábulas sebastianistas e messiânicas perdiam empatia, cediam espaço à concretude do elemento urbano que cada vez mais pressionava os bastidores do Congresso Nacional.

7 comentários:

Rodrigo disse...

e ai Andrea, quando vai rolar um texto sobre o Shock? apesar do vocabulário ter ficado bastante datado, o filme é um primor de concisão. Toda a ação se passa numa unica noite, num único local e é impossivel tirar os olhos da tela. O roteiro parece querer nadar nas águas do Halloween e do Sexta feira 13 que estavam tão em voga na época,mas supera a matriz especialmente nas caracterizações e psicologia dos personagens num momento de crise. Voce já viu?

Andrea Ormond disse...

Oi, Rodrigo, a sugestão do texto sobre o Shock é boa. Já vi o filme, um slasher brasileiro rodado nos anos 80, com direito a Claudia Alencar, Aldine Muller e Mayara Magri. Aliás, o filme repete o nome do último do Mario Bava.

Rodrigo disse...

a verdade é que ainda não apareceu um Quentin tarantino por aqui para trabalhar com estéticas rejeitadas pelo establishment cultural de uma forma revigorante e inovadora. Alguém que seja capaz de identificar os Samuel Fuller, os Mario Bava, os Russ Meyer locais. Alguém que rompa com esse circulo canônico vicioso que não tem nada a ver com cinefilia e sim com relações públicas. Na verdade, o Tarantino não descobriu nenhum destes caras. Ele foi o catalizador de uma visão crítica sobre o cinema que era fundamentalmente inclusiva, uma cultura que vicejava nas sombras de sessões de meia noite e dos livros Midnight Movies do Rosembaun e os tres do Danny Peary sobre cult movies ainda no inicio dos anos 80. Nós não temos nada disso por aqui. Temos os especialistas em editais com seus filmes calculados pra tentar agradar a mesma meia duzia de críticos que odeia ser perturbada além da sua zona de conforto. E ainda dão entrevistas depois dizendo que seu trabalho parte de uma "profunda inquietação".

Rodrigo disse...

por isto seu trabalho é tão fundamental, Andrea. E se um dia esse padrão for quebrado o papel histórico desse blog será devidamente identificado. O que voce faz pelo cinema brasileiro é o mesmo que o Paulo Cesar Araujo fez pela música popular no "Eu não sou cachorro não".

Andrea Ormond disse...

Rodrigo, "profunda inquietação" foi o máximo rsrs Creio que uma crítica que brota apenas por similaridade, conforto e que não busca rever ou quebrar paradigmas, não é uma boa crítica. O espírito do meu trabalho vai justamente na direção oposta a esse quadto que você descreveu.

Pedro Henrique disse...

É uma maravilha de cinema, esse Os Fuzis. Não sei se seria tanto a luta de classes (essa tão querida denominação de Marx e Engels, opressor vs oprimido, mas que também não deixa de ser luta de classes, pela intervenção do Poder de Estado armado) o marcapasso do filme, acredito que seja mais a luta da classe contra ela mesma, antes. Texto muito bom, como sempre, cara Andrea.

Andrea Ormond disse...

Obrigada, Pedro. Entendo o que vc quer dizer, mas creio que a tensão entre os representantes do Estado e aqueles que nem sabem que ele existe deixa esse traço marcante de luta de classes. Abraços