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quinta-feira, julho 03, 2008

O Fotógrafo


Filme que inauguraria os anos 80 para Jean Garrett, “O Fotógrafo” teve roteiro escrito a quatro mãos com Inácio Araújo. Nele, o diretor de certa forma revisita os tempos em que montara um estúdio fotográfico em São Paulo, ainda bem garoto, antes de aterrissar no cinema como ator e contra-regra no episódio “Pesadelo Macabro”, de José Mojica Marins, em “Trilogia do Terror” (1968).

Há uma queda perceptível do brilhantismo demonstrado no longa anterior, “A Mulher que Inventou o Amor” (1979), o que chega a ser desculpável diante das alturas alcançadas com a obra, irretocável e caudalosa, encabeçada por Aldine Müller.

Aldine retorna em “O Fotógrafo”, agora como a estudante de sociologia da USP, criatura chatíssima, repleta de jargões politicamente corretos. A pseudo Rosa Luxemburgo é cobiçada por Denis Mark (o saudoso Roberto Miranda), que vislumbra na menina uma possibilidade de redenção perante as caçadas priápicas e sem-sentido do cotidiano.

“Essas fotos capciosas têm valor sociologicamente nulo. Além do mais, a mulher é coisificada e o corpo é transformado em mercadoria”. Mais adiante, a garota vai em rompantes no estilo de “é a dupla alienação” ou “o patrão tira a mais-valia”. Salamaleques que deixam Mark doidinho, acreditando estar cara a cara com a profeta dos novos tempos.

A voz da razão para ele acaba sendo a assistente, Patrícia Ribeiro (Patrícia Scalvi), que lá pelas tantas diz o básico: “Ok, mas quem vai pagar o seu uísque escocês?” E talvez pelo excesso de informação, as ondas cerebrais de Mark fiquem de tal modo confusas que o mocetão chega ao ponto de nem mesmo corresponder às expectativas da socióloga no boudoir.

Patrícia introjeta aquela bruxinha rancorosa, ciumenta e invejosa das estripulias do rapaz. Levemente feia, confirma ser um terremoto em ebulição, misturando ceticismo na superfície e a vontade interior de sobressair aos olhos do fotógrafo.

“Eu digo o que tem que ser feito e você procura. Só isto”, diz Mark numa versão prepotente, sem saber, o pobre coitado, que nos filmes garrettianos, o homem termina caindo de joelhos aos pés das vestais.

É por isto, senhoras e senhores, que até mesmo o que se convencionou atacar como “o cinema machista e preconceituoso” da Boca precisa ser analisado enquanto fenômeno poliédrico, multifacetado. Garrett, dono da Íris Produções Cinematográficas – que bancou parcialmente este e outros de seus filmes – demonstrava perspectiva bastante original a respeito do batido tema da “tensão entre os sexos”.

Quanto ao momento histórico, “O Fotógrafo” aproveitou o boom dos fetiches entre o profissional das câmeras e as manecas, cativado a pão-de-ló no Brasil de 1980. O sucesso da novela “Plumas e Paetês” – sobre uma trupe de manequins – e a chegada em 1981 do seriado “Amizade Colorida” – estrelado por Antônio Fagundes, que apresentava o bigodão também ostentado por Miranda – confirmam a tendência popular.

Entre “closes explícitos” – inclusive o nu frontal de Miranda –, situações calientes – como a da quatrocentona (Meiry Vieira) que fantasia ser prostituta em bordel – e delírios podólatras ocasionais, Garrett desenvolve o apuro costumeiro, transformando samambaias, copos de sal de fruta e músicas lounge de single's bars no cenário perfeito para o galã.

Saborosos créditos iniciais, em que à menção de cada nome, o técnico citado aparece na tela. Boa oportunidade para se encontrar, por exemplo, Cláudio Portiolli e Garrett – aka “J. A. Nunes”, de José Antônio Nunes Gomes e Silva –, responsável, ainda, pela montagem. Humor implícito em outras sacadas, como a de mostrar um cheque no momento em que são listados os produtores associados – entre estes, a Cláudio Cunha Cinema & Arte.

Quando Garrett morreu em 1996 -- deprimido, afastado do cinema e exercendo a função de coordenador artístico do Teatro Bibi Ferreira – houve quem apontasse -- na falta dos outros para assistir e comparar -- "O Fotógrafo" como seu melhor filme. Intimista e agradável, é somente exemplo fácil do que o diretor realizou naqueles anos de trabalho intenso, meio caminho entre o início com David Cardoso e o canto dos cisnes "Tchau, Amor" (1982), antes de partir para um erotismo cada vez mais hardcore -- e cada vez menos provido de seu talento obsessivo e perturbador.