
O subtítulo do conto “Aqueles Dois”, de Caio Fernando Abreu, nem sempre é lembrado, mas resume o feixe narrativo pretendido pelo autor: “Aqueles Dois – História de aparente mediocridade e repressão”. Integra o livro “Morangos Mofados” de 1982, coletânea de um punhado de outras short stories – que, em sua maioria, habitam o melhor da literatura brasileira nos últimos trinta anos.
Escritor brilhante, o gaúcho Caio Fernando Abreu trazia no amor entre iguais o ponto de partida para suas investigações humanas. Ilude-se quem o enxerga somente como um militante gay, ou artista representativo de uma época – o princípio dos anos 80 – quando a temática homoerótica popularizou-se e expandiu-se em vários campos da arte e do debate cultural.
A riqueza -- além das aparências -- do universo de Caio fica muito clara na construção dos personagens Raul e Saul – eufonia que traduz a intenção do espelhamento. São funcionários de uma repartição qualquer, cheia de gavetas, móveis de mogno, aprisionamento, fofocas e tosquices vividas cordialmente das 9 às 18h. “Deserto de almas” -- expressão folhetinesca, colocada na boca de um daqueles dois -- resume o ecossistema do local.
Criaturas da noite e do dia, perdidas e encontradas, solitárias e amadas, as personas inventadas pelo escritor são várias. Raul e Saul estão em uma portinhola de angústia e redenção, diferentes do falso êxtase de “Dama da Noite”, do sadismo encalacrado de “Sargento Garcia”, ou do lado camp de “Dulce Veiga”. Todos já devidamente adaptados para o cinema, por diferentes diretores, estilos e períodos históricos.
Quanto a “Aqueles Dois” (1985) – na fronteira do média-metragem, 75 minutos -- coube a Sergio Amon e Pablo Vierci o roteiro, esmiuçando, alongando, suprimindo e reinventando situações presumidas ou relevantes do conto. Felizmente não caíram na armadilha boba de fazerem mera literatura filmada – verborrágica e ingênua, desperdiçando a teia audiovisual do cinema.
É por isto que se no conto Saul (Pedro Wayne) e Raul (Beto Ruas) são descritos como bonitos e com uma aura não apenas “psicológica”, mas também física, no filme são encarnados por homens de porte comum, mais para a falta de encantos do que o contrário.
Da mesma forma, as dicas mais sutis de Caio foram alteradas. A menção a “Infâmia” – clássico estrelado por Shirley MacLaine e Audrey Hepburn, adaptação da peça de Lilian Hellman sobre homofobia em uma escola de garotas – foi substituída por “Psicose”, totem mais conhecido do grande público, mas permanecendo o retrato dos dois como cinéfilos incansáveis, adeptos do Corujão às altas horas na tv.
As cartas anônimas que denunciam a dupla são trocadas pela secretária eletrônica aceita como presentinho corrupto pelo repugnante chefe (por que no cinema brasileiro todos os chefes são otários ou repugnantes?), que agiliza processos para os clientes. Porém, os termos agressivos sobrevivem: “relação anormal e ostensiva”, “desavergonhada aberração”, “comportamento doentio”, “psicologia deformada”; reiterando um universo compartilhado ainda hoje por um sem número de pessoas.
Na gama de adaptações do roteiro, colocou-se até uma tentativa de suicídio de Saul, que se fusiona vezenquando com o presente, além de ter-se dado nome e sobrenome aos colegas de repartição, antes anônimos – e que desta forma ressaltavam a oposição criada por Caio entre Raul e Saul face aos mortos-vivos, como se representassem um feixe de luz no Saara.
Acrescentou-se o folclore de Clara Cristina (Suzana Saldanha) – com quem Raul tem um casinho rápido, antes imprevisto por CFA –, Carlos (Oscar Simch), Juarez (Carlos Cunha), Ferreirinha (Edu Madruga), o chefe André (Biratã Vieira), Alfredo (Zeca Kiechaloski) e Mário (Marco Antônio Sorio) – este, engana a princípio, sugerindo que talvez seja ele o outro que completa a dupla.
Sobre a ficha técnica do filme, vale anotarmos a ciranda familiar que era a “Z Produções” de Porto Alegre. Vejamos: Sório já aparecera em “Verdes Anos” (1983), filme emblemático para aquela geração. Outro filme da Z, “Me Beija” (1984), foi estrelado por Nina de Pádua -- que narra em off trechos finais de “Aqueles Dois” -- e dirigido por Werner Schunemann, aqui dublador de Pedro Wayne – e também protagonista de “Verdes Anos”.
Completando o ambiente típico da Z, em “Aqueles Dois” temos Giba Assis Brasil, Rudi Lagemann e Alex Sernambi, assistentes de direção de Amon; e a música é de Augusto Licks – sim, o guitarrista carrancudo do “Engenheiros do Havaí”.
Citações a Nino Rota (“La Strada”) na cena do carrossel em que, sob a rubrica de Caio, os “ex-heteros” Saul e Raul selavam o pacto bêbado, trêmulo, de estarem fartos “de todas as mulheres do mundo, suas tramas complicadas, suas exigências mesquinhas”. Há espaço também para Dolores Duran – central nos referenciais de Caio –, Roberto & Erasmo Carlos, horóscopo e cartomante – esta, na consulta feita pela presepeira e engraçada Clara Cristina, louca para arrumar um marido provedor.
Lição rara em que literatura e matéria fílmica se encaixam perfeitamente, vale a lembrança de que o cinema gaúcho naqueles anos foi – sem qualquer licença poética – a parte mais notável da produção nacional, com raríssimo dinheiro e múltipla criatividade. Enquanto o cinema paulista virava o paraíso da pornografia e a Embrafilme piada nacional, os jovens gaúchos apontavam via alternativa -- saudável e competente; frágil e sonhadora -- livre da fogueira de vaidades que ardia longe, nas grandes capitais.
Escritor brilhante, o gaúcho Caio Fernando Abreu trazia no amor entre iguais o ponto de partida para suas investigações humanas. Ilude-se quem o enxerga somente como um militante gay, ou artista representativo de uma época – o princípio dos anos 80 – quando a temática homoerótica popularizou-se e expandiu-se em vários campos da arte e do debate cultural.
A riqueza -- além das aparências -- do universo de Caio fica muito clara na construção dos personagens Raul e Saul – eufonia que traduz a intenção do espelhamento. São funcionários de uma repartição qualquer, cheia de gavetas, móveis de mogno, aprisionamento, fofocas e tosquices vividas cordialmente das 9 às 18h. “Deserto de almas” -- expressão folhetinesca, colocada na boca de um daqueles dois -- resume o ecossistema do local.
Criaturas da noite e do dia, perdidas e encontradas, solitárias e amadas, as personas inventadas pelo escritor são várias. Raul e Saul estão em uma portinhola de angústia e redenção, diferentes do falso êxtase de “Dama da Noite”, do sadismo encalacrado de “Sargento Garcia”, ou do lado camp de “Dulce Veiga”. Todos já devidamente adaptados para o cinema, por diferentes diretores, estilos e períodos históricos.
Quanto a “Aqueles Dois” (1985) – na fronteira do média-metragem, 75 minutos -- coube a Sergio Amon e Pablo Vierci o roteiro, esmiuçando, alongando, suprimindo e reinventando situações presumidas ou relevantes do conto. Felizmente não caíram na armadilha boba de fazerem mera literatura filmada – verborrágica e ingênua, desperdiçando a teia audiovisual do cinema.
É por isto que se no conto Saul (Pedro Wayne) e Raul (Beto Ruas) são descritos como bonitos e com uma aura não apenas “psicológica”, mas também física, no filme são encarnados por homens de porte comum, mais para a falta de encantos do que o contrário.
Da mesma forma, as dicas mais sutis de Caio foram alteradas. A menção a “Infâmia” – clássico estrelado por Shirley MacLaine e Audrey Hepburn, adaptação da peça de Lilian Hellman sobre homofobia em uma escola de garotas – foi substituída por “Psicose”, totem mais conhecido do grande público, mas permanecendo o retrato dos dois como cinéfilos incansáveis, adeptos do Corujão às altas horas na tv.
As cartas anônimas que denunciam a dupla são trocadas pela secretária eletrônica aceita como presentinho corrupto pelo repugnante chefe (por que no cinema brasileiro todos os chefes são otários ou repugnantes?), que agiliza processos para os clientes. Porém, os termos agressivos sobrevivem: “relação anormal e ostensiva”, “desavergonhada aberração”, “comportamento doentio”, “psicologia deformada”; reiterando um universo compartilhado ainda hoje por um sem número de pessoas.
Na gama de adaptações do roteiro, colocou-se até uma tentativa de suicídio de Saul, que se fusiona vezenquando com o presente, além de ter-se dado nome e sobrenome aos colegas de repartição, antes anônimos – e que desta forma ressaltavam a oposição criada por Caio entre Raul e Saul face aos mortos-vivos, como se representassem um feixe de luz no Saara.
Acrescentou-se o folclore de Clara Cristina (Suzana Saldanha) – com quem Raul tem um casinho rápido, antes imprevisto por CFA –, Carlos (Oscar Simch), Juarez (Carlos Cunha), Ferreirinha (Edu Madruga), o chefe André (Biratã Vieira), Alfredo (Zeca Kiechaloski) e Mário (Marco Antônio Sorio) – este, engana a princípio, sugerindo que talvez seja ele o outro que completa a dupla.
Sobre a ficha técnica do filme, vale anotarmos a ciranda familiar que era a “Z Produções” de Porto Alegre. Vejamos: Sório já aparecera em “Verdes Anos” (1983), filme emblemático para aquela geração. Outro filme da Z, “Me Beija” (1984), foi estrelado por Nina de Pádua -- que narra em off trechos finais de “Aqueles Dois” -- e dirigido por Werner Schunemann, aqui dublador de Pedro Wayne – e também protagonista de “Verdes Anos”.
Completando o ambiente típico da Z, em “Aqueles Dois” temos Giba Assis Brasil, Rudi Lagemann e Alex Sernambi, assistentes de direção de Amon; e a música é de Augusto Licks – sim, o guitarrista carrancudo do “Engenheiros do Havaí”.
Citações a Nino Rota (“La Strada”) na cena do carrossel em que, sob a rubrica de Caio, os “ex-heteros” Saul e Raul selavam o pacto bêbado, trêmulo, de estarem fartos “de todas as mulheres do mundo, suas tramas complicadas, suas exigências mesquinhas”. Há espaço também para Dolores Duran – central nos referenciais de Caio –, Roberto & Erasmo Carlos, horóscopo e cartomante – esta, na consulta feita pela presepeira e engraçada Clara Cristina, louca para arrumar um marido provedor.
Lição rara em que literatura e matéria fílmica se encaixam perfeitamente, vale a lembrança de que o cinema gaúcho naqueles anos foi – sem qualquer licença poética – a parte mais notável da produção nacional, com raríssimo dinheiro e múltipla criatividade. Enquanto o cinema paulista virava o paraíso da pornografia e a Embrafilme piada nacional, os jovens gaúchos apontavam via alternativa -- saudável e competente; frágil e sonhadora -- livre da fogueira de vaidades que ardia longe, nas grandes capitais.


