domingo, maio 28, 2006

Deu Pra Ti, Anos 70


Passei muitos anos à procura de “Deu Pra Ti, Anos 70” (1981), clássico do cinema gaúcho, rodado em Super-8, pai e avô de inúmeros projetos que desembarcaram nas telas brasileiras dos anos 80, 90, 2000.

À medida em que me encantava por “Verdes Anos” – com certeza o melhor filme sobre jovens já feito no cinema brasileiro –, vinha em círculos a idéia de encontrar algum nexo, algum ponto de partida, algum quando, como e porquê definitivos que me explicassem melhor quem afinal estava por trás da obra.

A senha aparecia em “Deu Pra Ti...”: o primeiro de Giba Assis Brasil, o terceiro de Nelson Nadotti, futuros sócios na Z Produtora. “Um retrato a cores da juventude porto-alegrense nos 70.” Essa referência cansava os meus ouvidos, sempre repetida, e nada de o filme aparecer.

Até que finalmente “Deu Pra Ti...” surgiu remasterizado, na Coleção Cinemateca RS. Eis aí o suporte necessário para os espectadores atuais e futuros, que andam com uma lente de aumento, catando as pistas para entender quem auxiliou o parto, por exemplo, de “Coisa na Roda” (1982) e “Me Beija” (1984) – do diretor Werner Schünemann, o Nando de “Verdes Anos”, o ator do grupo “Faltou o João”, que ao lado de outro, o “Vende-Sê Sonhos”, povoa “Deu Pra Ti...” de cabo a rabo.

Existem muitas pontes de associação no meio de tantos filmes. Sergio Lerrer, responsável pela fotografia adicional de “Deu Pra Ti...”, produziu em 1985 “Aqueles Dois”, da Z. Nei Lisboa assinou a trilha de “Verdes...” e a de “Deu Pra Ti...” – em 1979, lançou um show homônimo com a participação de Augusto Licks, “Deu Pra Ti, Anos 70”, mostrado no filme. Álvaro Luiz Teixeira, roteirista de “Verdes...” – a quem devo informações valiosas a respeito da Porto Alegre da época – colabora no roteiro de “Deu Pra Ti...” e aparece, inclusive, numa das fotos da passeata estudantil de 1977. Carlos Gerbase, assistente de direção, dividiu o posto principal com Giba em “Verdes...”.

E há tantos pontos de contato, principalmente no intercâmbio dos atores entre as diversas produções, que chegamos à constatação óbvia de que o universo cultural de Porto Alegre respirava e vivia cinema.

No final dos 70, Lerrer, Nadotti e Jacqueline Valladro – esposa de Julio Reny, o Fred de “Deu Pra Ti...”, o dj de “Verdes...” –, fundariam o mítico Grupo de Cinema Humberto Mauro – que é, aliás, citado num bate-papo na Choperia Alaska, entre o Marco Antônio Sório (Robertão, de “Verdes...”) e Marcelo (Pedro Santos).

Além do Alaska, o Cinema I Sala Vogue, o Rib’s, o ônibus laranja esmaecido da VAP – em que Ceres (Ceres Vitória) embarca lendo o exemplar da “Isto É” sobre os anos 70 – são alguns dos instantâneos que localizam os personagens no tempo.

Entre as idas e vindas da narrativa que acompanha a “década da infâmia” – “os anos do sufoco”, “a revolução frustrada”, conforme as manchetes –, temos os pontos de vista do casal que aos poucos vai se tornando de fato casal: Marcelo e Ceres.

Em 71, ouvindo o “Big Baile” de Big Boy – disk-jóquei que marcou época no Brasil – ou assistindo aos coleguinhas pré-adolescentes xingarem-se de “bocomoco” entre si, há uma cena-chave, rápida, que geralmente acaba desapercebida. Ceres senta-se ao lado de Marcelo no sofá: por um lado, a garota nem suspeita que estará com ele no início dos 80; por outro, o menino mal sabe que um dia vai espantar a insegurança e poder rir dos garotos imbecis que azucrinam a vida.

Já em 73, na era de Aquário, Ceres joga cartas com Virgínia (Xala Felippi, a Marieta de “Verdes...”); Marcelo, futebol com “os caras da Marcílio e os da Botafogo”. Ceres vai para arquitetura, Marcelo prefere o jornalismo. Ceres, passeata e clichês do estudantismo; Marcelo, os poemas escritos no caderno. Revisora no “Zero Hora” versus o easy-rider que volta à capital, depois de um giro pelo sul.

Marcelo, aos poucos, vai representando a encruzilhada dos sonhos dos dois. O menino que se masturbava antes do pai chegar em casa, que zombava e ouvia Gênesis, mas que teve a gana de trancar a faculdade, “ver o mundo” e voltar.

Ceres, porém, tem um quê de imóvel. Conversando com as amigas comezinhas, seu maior ato de rebeldia talvez tenha sido conhecer Margareth (Deborah Lacerda, a Bebela de “Verdes...”), lésbica meio iconoclasta, que rouba produtos do armazém e guarda debaixo do casaco.

Em Marcelo, Ceres encontra algo que a leva para longe dos 70 – aliás, a expressão “Deu Pra Ti”, desconhecida para os habitantes ao norte do estado de Santa Catarina, significa “chega”, “basta”. Logo, “Chega de Anos 70” é a mensagem dos realizadores, embebidos pela perda dos 60, sem terem a noção dos desastres que ainda viriam depois.

Mas no filme, anos antes de terminar a década e de dividirem um apartamento, Marcelo e Ceres acampam na praia de Garopaba – reparem Giba e Nei com seus próprios nomes, incluídos como personagens.

Claro que o entendimento entre os sexos é bastante difícil na idade em que os garotos procuram quaisquer partes baixas femininas que virem pela frente, e as garotas querem grupinhos homogêneos, para se sentirem menos isoladas.

Como conseqüência, o casal se olha à distância, conversa timidamente. Em algum canto, alguém prepara o prato de macarrão, um outro lava os copos e os talheres, acendem os fogareiros, a noite cai, Fred e Marcelo bebem, fumam, deitam perto da água. A viagem à praia em “Deu Pra Ti...” é daqueles instantes que se vê e revê emocionado, encontrando nele os ecos das nossas próprias adolescências, que apesar das datas e dos locais diferentes, teimam ser incrivelmente parecidas.

Essa estrutura nostálgica, concebida para falar muito em episódios aparentemente leves e cotidianos, lembra Eric Rohmer – nos anos 90, “Conto de Verão” (1996) é um dos que trazem essa marca. Mas Giba e Nadotti também costuram a temática com um final onírico, a partir de pesadelos em que Marcelo, Ceres e Margareth se misturam. “Sonhei a noite toda. Cada sonho incrível, daqueles que parece que tu nunca vai esquecer.”

Ceres, insegura diante do novo Marcelo, fica culpada de abandonar os namorados anteriores, que voltam no sonho como deformações do passado. Marcelo, preocupado com os excessos de organização da namorada, pede um pouco de desajuste e sujeira – apoiado por Margareth, que corta as unhas em cima da mesa e despeja sopa no cabelo do jornalista.

Ao acordarem, Marcelo e Ceres compartilham as histórias e, a pedido de Ceres, repetem a brincadeira que Margareth – a louca, a libertária – havia ensinado: estirados sobre o chão da sala, medem os pés com as solas encostadas umas nas outras, e naquela infantilidade e doçura possível apenas nos pequenos gestos entre pessoas que se amam, sorriem.

Giba Assis Brasil e Nelson Nadotti não repetiram a parceria na direção. Por caminhos paralelos, que incluem a distância geográfica entre os dois – há tempos Nadotti radicou-se no Rio de Janeiro –, eles vão tentando o milagre de inventar o cinema no Brasil com as próprias mãos. De certa forma, aprenderam com aqueles meninos que em 24 de março de 1981 estreiaram “Deu Pra Ti, Anos 70” no Festival de Super-8 de Gramado e voltaram para casa com o prêmio de melhor filme.

8 comentários:

Marcos A. Felipe disse...

Crítica (acho que mais análise), aprofundamento da informação e contextualização histórica e cinematográfica da obra. Emocionante seus textos, Andrea. Eu também quero ver muito esse filme: há algo de "brincadeira" nele - que, ao contrário, significa/significou algo muito sério. É o melhor filme sobre juventude no cinema brasileiro? Esperei que você relacionasse a algo de Jorge Furtado...

Nirton Venancio disse...

agora que fiquei mais curioso em ver esse clássico gaúcho! Sua análise do filme é ótima.

Sobre o Nello Rossi na postagem anterior, ele foi assistente de Rosselini num telefilme da RAI, "Il ferro", em 1963.

Milton do Prado disse...

Andréa, fiquei super emocionado ao ler esse texto. Trabalhei com o Giba por vários anos, ele foi meu professor na Universidade e fora dela, pois foi o cara que me ensinou a montar filmes. Adoro Verdes Anos, mas prefiro o Deu Pra Ti, Anos 70. Cheguei a trabalhar na restauração para o lançamento dessa cópia em vídeo, principalmente na edição de som, então não sei quantas vezes vi o filme. Mais uma vez, muito legal teu texto. Curiosidade: você é de Porto Alegre?

Andréa Ormond disse...

Obrigada, Marcos. O melhor filme sobre jovens no cinema brasileiro é, pra mim, o "Verdes Anos", do Carlos Gerbase e do Giba Assis Brasil. Até fiz uma resenha sobre ele aqui no site. Não cheguei a comentar o Jorge Furtado porque preferi focar determinadas pessoas da época, muito importantes pro filme :)

Nirton, vc tem que ver. Tenta entrar em contato com a Casa de Cinema de Porto Alegre, através do site. Acho que dá pra vc arrumar o filme e a gente ir comentando sobre ele :)

Milton, os filmes gaúchos da virada dos 80 e arredores me dão um nó na garganta danado. Pela forma com que eram produzidos e pela equipe que envolviam, eles têm uma vitalidade absurda, precisam ser comentados sempre. Parabéns pelo seu trabalho e de todos, o resultado deu a chance para muitos novos espectadores, como eu, assistirem. Sou do Rio, não conheço Porto Alegre, já estive por lá, mas de passagem :)

Anônimo disse...

Olá..pela primeira vez vejo esta página, e tendo sido citado, gostaria de colaborar lembrando outras duas pessoas que estiveram na origem do Grupo de Cinema Humberto Mauro de Porto Alegre, - núcleo de cineckubismo e novos realizadores inquietos - que foram Rosângela Meletti e Manuel Antonio da Costa Jr. A primeira hoje é produtora de vídeos em Paris e o segundo se transformou em fotógrafo artístico de renome no próprio Rio Grande do Sul.
Sergio Lerrer

Chuchi disse...

Eu queria saber onde comprar o DVD do fime Marcelo Zona Sul, que assisti num cinema de Porto Alegre quando eu tinha 10 anos. Aí achei esse Estranho Encontro com todos (ou quase)os filmes brasileiros que eu adoro! Faltou "Amor, palavra prostituta" e "As borboletas também amam", faltaram outros, mas quem se importa? Matei a saudade de Verdes Anos e - suprema raridade - de Deu Pra Ti Anos 70, que eu vi em 81, numa sala de aula da Fabico (Faculdade de Jornalismo da UFRGS, projetado na parede! Naquela época, o Jorge Furtado estudava comigo e a gente fazia lista dos filmes que víamos... Virei seguidora d Estranho!

J.P. disse...

BOa tarde...
Onde consigo uma cópia do filme Deu pra ti anos 70 e Verdes Anos? Sou de POA, estou a mts anos atrás deles, vi na TVE.
Abç e aguardo retorno.

Jefferson - 21 anos POA/Floripa

Elizeu disse...

Este filme é muito bom, uma historia verdadeita do jovem urbano dos anos 70, algo cublime cuminamdo com o debate a mesa, e a entrada de Margarete nua, "sulrreal" ou não foi siblime.
Vi pela primeira vez após 30 anos pois na epoca da filmagem tinha apenas 12 anos, mas me icentifiquei demais com a obra.