terça-feira, maio 23, 2006

Jeitosa, Um Assunto Muito Particular


Caso curioso de filme em que a música-tema, apresentada nos créditos iniciais, dá todas as pistas sobre o desfecho da trama, “Jeitosa, Um Assunto Muito Particular” (1984) foi uma tentativa simpática do ator, produtor e dono de uma das melhores cantinas paulistanas, o romano Nello d'Rossi, em se aventurar na direção de um longa.

Proprietário, junto com a esposa, do Nello´s (Rua Antônio Bicudo 97, Pinheiros), histórico garoto-propaganda das camisas UsTop (“Bonita camisa, Fernandinho!), produtor do pioneiro longa “Cassiopéia” de 1996, Nello realizou em 84 esta comédia dramática, que gira em torno do cotidiano medíocre e limitado de Pixoxó (o falecido Hugo della Santa), estudante de engenharia da Usp, que mora em um quarto no Crusp com mais três estudantes paupérrimos.

Pixoxó inventou um golpe, quer colocá-lo em prática, mas para isso precisa de um cúmplice, ou melhor dizendo, uma cúmplice. Alicia namoradas e coloca nelas o apelido de “Jeitosa do Pixoxó”, mas apesar da deferência, nenhuma delas compactua com suas idéias até o fim. Quando conhece uma balconista de loja (Lúcia Veríssimo, na flor dos vinte e cinco anos), ela diz amém ao plano do jovem, na esperança vã de que isso aproxime ainda mais os dois.

Exemplo típico da massa de garotos da classe média-baixa paulistana, sem muitas perspectivas mas com acesso à universidade e bom nível cultural, eles optam assim pelo caminho menos doloroso de subirem na vida. O plano consiste em Pixoxó vender rifas para ricos empresários usufruírem de uma noite de sexo com a pobre Jeitosa. Assim, os dois concluem, conseguirão dinheiro sem passar pela ameaça de subemprego ou da baixa remuneração.

Como o cinema brasileiro desaprendeu a mostrar os nativos em sua intimidade cafajeste, o diálogo que precede a execução do plano soa delicioso nos caretas dias de hoje. Ao oportunismo chulé de Pixoxó, a linda Jeitosa responde com uma indignação vacilante, que cede ao primeiro argumento sólido do rapaz sobre os percalços futuros da vida.

Se não soubéssemos pela canção-tema que “Jeitosa/ ás no bolso escondido/ saiu vitoriosa”, começaria aqui um suspense sobre o desenrolar do plano. Mas se sabemos que Jeitosa vai dar sua reviravolta e sair bem do imbróglio, resta apenas a observação curiosa dos acontecimentos. Enquanto vendem as rifas do corpo de Jeitosa, o casal com um parafuso a menos aproveita o súbito fluxo de dinheiro para uma diversão noveau-riche, comprando roupas de marca e freqüentando ambientes chiques onde dificilmente entrariam antes.

Ao mesmo tempo que Pixoxó reafirma sua masculinidade com o poder financeiro, sabe que a entrega de Jeitosa para outro representará uma brutal desvalorização do seu papel de homem na dinâmica amorosa. Quando finalmente Jeitosa vai “premiar” o ganhador da rifa – um executivo, Doutor Casemiro (John Herbert), casado e morador dos Jardins – Pixoxó aproveita a chance e seduz com sucesso Rosa (Norma Blum), a esposa infeliz do oponente.

Na longa cena de Jeitosa e Doutor Casemiro no motel – onde o voyeurismo da câmera beira o humor involuntário – extraímos, além da plástica selvagem de Veríssimo, uma detalhista aula de arquitetura e decoração dos motéis brasileiros no início dos anos 80. Cama redonda, imensos portões de madeira, tiras de espelhos, samambaias espetaculares em profusão. Quando Jeitosa sai nua do banheiro, fica desvendado o mistério do porquê nossos tios e primos mais velhos costumavam chegar em casa com outra cara depois de sábado à noite.

A trama rende um pouco mais, o jovem casal picareta arranca todo o dinheiro que pode dos ricaços de meia-idade e, como era previsível, Jeitosa dá a volta por cima, larga Pixoxó e abraça uma vida comum e menos aventurosa. A cena final, de simbolismo ralo, pretende mostrar que dinheiro não traz felicidade. Mas quando se livra de Pixoxó é justamente a segurança financeira de um ex-namorado bem de vida que Jeitosa reencontra com fervor.

Baseado no conto “Jeitosa do Pixoxó” do escritor José Fonseca Fernandes, adaptado a seis mãos pelo próprio escritor, Luís Sergio Carrão e Nello d'Rossi, “Jeitosa” talvez permanecesse esquecido e esotérico como centenas de filmes da adorável produção paulistana dos anos 70 e 80, não fosse sua recente inclusão na grade do Canal Brasil. Se não é exemplo de melhor cinema é ao menos divertido, e como qualquer filme brasileiro, nos diz mais do que os enlatados globais do Corujão que são reprisados no mesmo horário.

5 comentários:

Nirton Venancio disse...

Realmente, Andrea, "Jeitosa" é muito mais divertido que esses enlatados dos corujões globais. Outro filme em que Lúcia Veríssimo está esplendorosa nos seus vinte e poucos anos é "Filhos e amantes", (1981), do Francisco Ramalho Jr., lembra?
Nello Rossi não fez mais nada depois da produção de "Cassiopéia"? Você sabia que ele foi assistente de Rosselini num filme realizado pela RAI?

Marcelo Carrard disse...

Oi ANDRÉA, como vão as coisas? Estive quase 30 dias sem Micro pois este estava no conserto e esse pessoal da assistência técnica de informática é meio "Caixa Preta" mesmo. Vi JEITOSA na sexta, no Canal Brasil e achei muito divertido além de toda a história ver São Paulo no início dos anos 80. O Filhos e Amantes vc já resenhou? Acho um luxo esse filme, me lembro quando vi no cinema. Um beijão e até mais...

walner disse...

Oi, Andrea, por que não visita meu novo blog? http://pierrot-lunaire.blogspot.com/

Andréa Ormond disse...

Nirton, "Filhos e Amantes" é outro que todo mundo lembra, acho curioso. Talvez porque passasse muito na tv, uns tempos atrás. O Nello Rossi assistente do Rosselini? Não sabia não, quando foi isso? :)

Oi Marcelo, aqui eu tb estou com uns problemas no provedor. Sai do ar o tempo todo, nem consigo postar direito. O Filhos e Amantes eu resenhei sim, tem o link no Filmes A-Z, no canto esquerdo. Olha: http://estranhoencontro.blogspot.com/2005/11/filhos-e-amantes.html. Ah, e vou mandar um email para vc com as novidades sobre o livro ;) Um beijão!

Walner, visitado e linkado :)

Anônimo disse...

Vi no cinema, nos anos 80,
e a Lúcia Veríssimo nem era
uma atriz conhecida na época,
mas achei divertido esse filme.