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sexta-feira, outubro 10, 2008

Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver


Uma boa análise sobre o cinema de José Mojica Marins pode começar pela constatação fácil: em uma cinematografia sempre dependente de informações externas como a brasileira, Mojica foi dos poucos realizadores originais.

Diferente de seus contemporâneos, além do alto nível de criatividade, o ator/diretor transpôs outra idiossincrasia: a de rechear os filmes com a crônica local, tornando-os escravos da complacência etnocêntrica para melhor apreço. Em Mojica, o meio é indiferente: a vila, os hábitos e a persona de Josefel Zanatas poderiam estar em diversos outros lugares do mundo, sem prejuízos para a história.

Essa originalidade e universalidade talvez se expliquem em um contexto maior: o de alguns paulistanos, principalmente dos mais atávicos como Mojica, que, em contraposição à maioria dos nacionais, guardam sua brasilidade como acidental ou circunstancial. Não à toa, foi em São Paulo que o cinema brasileiro encontrou a base de uma modesta indústria – e, onde, no final das contas, se produziu a maior parte dos filmes que ainda hoje merecem nossa atenção. Original, universal, Mojica significa parte deste contexto amplo e cosmopolita que foi a criação paulista dos anos 1960 e 70.

Quando fez "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver"(1966) – seu melhor filme, melhor até do que "Ritual dos Sádicos"(1969), que lhe custou parte da vida –, Mojica já era um nome famoso para os espectadores, muito por conta de aparições na imprensa sensacionalista e principalmente pelo sucesso estrondoso de "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" (1964).

Assim, os produtores Augusto Pereira e Antônio Fracari não pouparam esforços para levantar fundos que viabilizassem a nova produção. Mojica nem precisava de rios de dinheiro, mas o mínimo oferecido representava o suficiente para que o diretor trabalhasse com maior liberdade, e colocasse em prática idéias impossíveis no primeiro filme da trilogia. A mais ousada foi reproduzir um inferno gelado, onde Zé do Caixão agoniza durante um pesadelo que o próprio Mojica tivera anos antes.

Outra idéia – misógina, porém fascinante – envolve a tortura das “pretendentes” de Zé do Caixão – alunas do seu curso de arte dramática, que foram submetidas a aranhas e cobras passeando por babydolls, seios e coxas em frêmito. Uma delas, a ex-miss Tânia Mendonça, quase morreu de verdade enforcada pela jibóia, enquanto rogava a praga que atormenta Zé pelo resto do filme.

A busca pela sofisticação de "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver" em relação ao filme anterior incluiu até uma revisão dos diálogos, a cargo da escritora Aldenoura de Sá Porto, e a adaptação de uma sinagoga abandonada, onde 95% das cenas foram rodadas, inclusive o pântano apavorante onde Zé persegue e é perseguido. Conta a lenda que Carlos Reichenbach, Jairo Ferreira e Rogério Sganzerla ficaram embasbacados ao visitarem o set e descobrirem que aquele pântano nada mais era do que uma poça d’água no quintal da sinagoga, coberta de folhas e galhos de árvores achados nas ruas do Brás.

Fosse apenas pelos desvarios técnicos, o filme não teria sobrevivido tão bem. À liberdade da mise-en-scène junta-se a força do protagonista, seu discurso gauche sobre o atraso e a crendice dos moradores do vilarejo, e sua obsessão eugenista por gerar “o filho perfeito”.

Zé do Caixão, mais uma vez, nada tem de sobrenatural: provoca ódio na população porque guarda a arrogância de se julgar intelectualmente livre, e todas as atenuantes moralistas que reduzem essa certeza – inclusive o pesadelo do inferno – apenas reiteram ao espectador que Zé mete medo por ser um revolucionário.

Levando-o ao divã, concluímos que ele não crê, e justifica sua progressiva psicopatia com a certeza de que tudo pode se não existe Deus – sem Deus, extingue-se a culpa. Os velhinhos da censura, claro, só liberaram o filme com o adendo de uma manipulação moralista, católica; desfeita agora, quarenta anos depois, com a refilmagem da cena final em "Encarnação do Demônio".

Mojica pode ter esperado bastante para ver Josefel Zanatas livre, mas no meio tempo fez "Ritual dos Sádicos", "Perversão" e uma meia-dúzia de obras-primas tão ou mais subversivas que seu personagem-símbolo. Vigiado pelo governo militar e pela mediocridade nacional, acabou instalando-se em um limbo pitoresco, chegando ao futuro como todos os verdadeiros heróis da cultura pop: eterno, mas parodiando a si mesmo para sobreviver.

(in Zingu! #25, Outubro de 2008)

sexta-feira, agosto 15, 2008

Uma Provocação Sobre Mojica


E eis que o coveiro alucinógeno e brasileiríssimo, Josefel Zanatas, volta com sua capa, chapéu e unhas bolorentas em “A Encarnação do Demônio”.

Como fenômeno que escapa à mera observação técnico-fílmica, o diretor José Mojica Marins criou no doentio personagem, mais conhecido como Zé do Caixão, uma lenda propriamente dita, mesclando
approach filosófico, instinto e talento naturais, que alguns classificam de naïf.

Zé do Caixão entrou para o folclore nacional desde os anos 60, engendrando marchinhas de carnaval (“Eu moro no castelo dos horrorores / Não tenho medo de assombração / Ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô eu sou o Zé do Caixão”), revistas em quadrinhos, programas de tv e até mesmo candidatura a deputado federal, apoiado por Jânio Quadros.

Tudo isso cantado em prosa e verso, uma polêmica aterrissa de mansinho entre nós.

Dizendo-se injustiçado pela censura 18 anos dada a “Encarnação...”, Mojica reclama de peito aberto, diz que o filme está naufragando nas bilheterias e alerta que nem mesmo o
trailer pôde ser veiculado nos cinemas. Em seu lugar, uma chamada feita às pressas, estrelada pelo próprio.

Nascida e criada em um ambiente de satisfatória liberdade, nos anos 80-90, creio que algumas considerações devam ser feitas.

Classificar pedagogicamente os filmes não é o problema. O posicionamento do Ministério da Justiça sobressai meramente indicativo (v. Portaria MJ 1.220, de 11/07/2007, art. 3 c/c art. 18), na medida em que o poder parental é exercido pelos pais, responsáveis pela formação dos filhos. Há solidariedade – e não arbitrariedade – do Estado para o desenvolvimento pleno de crianças e adolescentes.

O que venho percebendo – com pavor – é a tentativa canhestra de boa parte do público de legar Mojica ao ostracismo, ou ao ridículo. Tanto os que foram e saíram com medinho do bicho, quanto os que não viram e não gostaram.

Ocorre que presenciamos, boa parte das vezes, um total desconhecimento do que existiu na ebulição artística do século XX. Equivale, por exemplo, a encararmos o urinol de Duchamp enquanto uma aberração e agressão a ser combatida, ao invés de analisada enquanto catalisador de coisas outras que dialeticamente se sucederam no tempo.

Afinal, o que aconteceu de fundante e tão obtuso com as gerações que se seguiram ao desbunde dos anos 60 e 70?

Por que essa alma
ultraconservadora que assola e infantiliza trintões e criaturas pouco além dos 20 anos que, a princípio, deveriam já ter se acostumado com o que aconteceu há x anos de seu próprio nascimento?

Assim, os marmanjos infantis de hoje em dia precisam travar contato com o mundo adulto e entender artisticamente uma vida anterior à doçura e à superficialidade que contaminaram a geração Y.

E, independentemente da idade de quem a defenda, proclamar a censura, quanto mais com base no “é feio, sujo e não gostei” acaba sendo atitude tola, retrógrada e lamentável de se ver em pleno 2008.

Melhor que se assista com calma às obras-primas de Mojica, realizadas em plena ditadura militar. Começando por “À Meia Noite Levarei Sua Alma” (1964), “Esta Noite Encarnarei no Seu Cadáver” (1966) e prosseguindo até “Ritual dos Sádicos” (1969).

A primeira exibição pública de "Ritual dos Sádicos", sem cortes, aconteceu em agosto de 1986, no antigo Cine Ricamar – onde hoje se localiza a Sala Baden Powell, Av. Copacabana 360 – durante o Rio Cine Festival. Pode parecer absurdo, mas, nos dezessete anos que separam as filmagens da estréia, "Ritual dos Sádicos" esteve proibido, e quem o exibisse ou comercializasse seria preso e enquadrado na lei.

Os que lá estiveram, naquela histórica sessão, contam que ao ser ovacionado pela platéia, José Mojica Marins agradeceu e chorou. Nada mais coerente: a proibição do filme custara os melhores anos de sua carreira. De fato, Mojica tomou rumos incertos depois que sua tour de force foi interditada e banida em todo o território nacional. Com o estigma de cineasta maldito, que mofava nos arquivos do governo e que por isso falira uma produtora, ninguém era aventureiro o suficiente para bancar novas tentativas – mesmo se tratando de um gênio, como era o caso.

Naquele tempo, a criação era cerceada pelas armas burocráticas; hoje, parte do público faz o trabalho voluntariamente – com moralismo, falso espanto e ignorância.

Ano passado, polêmica parecida foi gerada por “Batismo de Sangue”, obra de Helvécio Ratton, cujo teor de reflexão sobre a tortura foi eclipsado por considerações que martelavam a “violência excessiva” das cenas. Respondam: mas não eram os torturadores cruéis? Não feriam, não matavam? O padre da história não enlouquece justamente por conta disto?

Tanto destaque deram, que muita gente caiu na esparrela e preferiu ver “Turistas” como antídoto. Ou agora, no caso de Mojica, surge “The Dark Knight”. Violência falada em inglês magoa igualmente. E não há nada em “Encarnação” que o cinema brasileiro ou mundial já não tenha feito, sem qualquer chiadeira. Para os padrões de Mojica – vejam “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” (1968) – é até bem comportado.

Lutar pela liberdade de criação e contra a mediocridade intelectual é dever de todos, impregnado na sociedade. Do contrário, estaremos negando conquistas artísticas, estéticas, filosóficas. Quem ignora Mojica, quem critica Khouri, Garrett – pelo erotismo – e quem prega uma assepsia indigente no cinema brasileiro atual, se encaixa na bela (e injusta) definição de Salvyano Cavalcanti de Paiva para os admiradores de “Terra em Transe”: vociferantes nenéns neofascistas. Reacionários.


quarta-feira, outubro 12, 2005

À Meia-Noite Levarei Sua Alma


Em meados de 1963, uma história curiosa corria pelo meio cinematográfico de São Paulo: um maluco, acompanhado de um séquito de seguidores que o chamavam de mestre, estava realizando um filme sem qualquer verba em um galpão na capital paulista. O maluco era dono de um obscuro “curso de cinema” e tinha diversas passagens pela imprensa sensacionalista como salafrário.

O maluco em questão era José Mojica Marins – e era quase verdade que naquele momento, realizava um filme sem verba alguma, patrocinado apenas pela idolatria de seus “alunos”. Antes daquele filme, Mojica vinha de duas experiências fracassadas como diretor e chegara a passar fome por conta do seu sonho de filmar. Para a concretização daquela nova aventura, contava com o dinheiro arrecadado entre a turma e... a venda dos móveis e utensílios domésticos da sua casa, além de grande parte das próprias roupas! Mojica não tinha mais casa, sua mulher esperava um filho e ele achou por bem “morar” no estúdio, dentro do caixão que servia de cenário.

Não estamos obviamente falando de um homem comum, estamos falando de um gênio. Sem nunca ter entrado sequer em um curso básico de cinema, aquele paulistano se metia a dirigir filmes e dar aulas sobre o assunto. Seu pai tinha um cinema, verdade, mas donos de cinema nunca geraram filhos diretores. Quando aos vinte e oito anos de idade sua existência parecia condenada ao desespero – por conta dos retumbantes fracassos naquela que era a única coisa que acreditava fazer –, o jovem Mojica teve um sonho. E o sonho salvou sua vida profissional para sempre.

No sonho Mojica viu Zé. Encrespou-se para o gabinete do “curso” e solicitou que uma das alunas, que fazia as vezes de secretária, transcrevesse suas idéias para o papel. Do medo e do incômodo que sentiu por Zé, criou um argumento. Convocou os alunos e decidiu: “Vamos filmar”. Foi dessa forma que nasceu Zé do Caixão, e em 1964 chegou aos cinemas de São Paulo um filme com o gaiato título de “À meia-noite levarei sua alma”.

Zé do Caixão, não era nem é uma assombração, como muitos ainda pensam. Zé é apenas um cético, um zombeteiro, que acredita na força humana contra a punição divina. É um artífice de Nieztche, por um homem que nunca leu um livro. Talvez Mojica tenha temido o pesadelo com Zé do Caixão, porque Zé do Caixão afinal era ele próprio – e falava de seus medos, angústias e desejos mais contidos.

Em “À meia-noite...” Zé aterroriza uma cidade apenas com sua força. Parodiando o escritor Lúcio Cardoso, Zé do Caixão “não é um homem, é uma atmosfera”. Por onde passa espalha desgraça, covardia, pusilanimidade. Contrariando a ordem da Igreja, come carne de carneiro na sexta-feira santa. Toma dinheiro dos matutos da aldeia e quando um corajoso nega pagamento, decepa-lhe os dedos.

Além de todas estas atividades, Zé também é agente funerário. E, nas horas vagas, sonha em ter um filho, “que perpetue seu sangue”. A esposa não engravida – na vida real a esposa de Mojica também tinha dificuldades de engravidar – e Zé do Caixão dá seu vaticínio: “A mulher que não pode ter filhos não precisa de cuidados” – em seguida, ele a mata.

Zé cobiça a bela Teresinha (Magda Mei, a secretária do curso de Mojica), mas tem o amigo Antônio (Nivaldo de Lima) como rival. Para um homem que tudo pode e que tudo quer, aquilo não é problema. Zé mata Antônio, em cena brilhante. Quando Zé prega seu niilismo e ceticismo, Antônio rebate afirmando-se um conformado com orgulho, um temente a Deus. Zé então apanha uma barra de ferro, assassina Antônio e pergunta: “E agora, de que adiantou sua crença Nele?”.

Depois Zé vai atrás de Teresinha, com quem tem relações sexuais forçadas, enquanto a moça esmaga um passarinho nas mãos. Teresinha se suicida e Zé tem que continuar a matar, para sustentar sua liberdade. As vítimas vão se sucedendo e a descrença e o deboche de Zé aumentam. Tudo culmina em uma volta das almas penadas das vítimas e só nesse ponto é que o filme adquire um tom sobrenatural, de terror inexplicável. Antes Zé era só lógica, era a razão contra a superstição e a crença.

Mojica terminaria o caso melhor se Zé vencesse, triunfasse contra a cidade e provasse que nada existe, que, como ele diz após pisar em um despacho, “estão todos mortos, e mortos não podem fazer mal a ninguém”. Mas a proposta era uma trama além da razão, portanto Zé encontra, no fim da linha, o castigo. E o castigo contraria sua implacável lógica e o joga no difuso, no imponderável, ou como Mojica prefere dizer, nas trevas.

“À meia-noite...” é um filme para poucos. Em 1964, quando foi lançado, Mojica não foi tomado como cineasta, mas como um homem seriamente doente. O sucesso absoluto de público não se converteu sequer em lucro, pois havia vendido seus direitos na estréia por uma ninharia, e só arcou com o ônus das críticas pesadíssimas.

Em resposta, o realizador deu ao povo mais e melhor, em outras pérolas como “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” e “Ritual dos Sádicos”. É certo afirmarmos, portanto, que Mojica nunca fez cinema: o cinema é que morava dentro dele e Mojica apenas precisou colocá-lo, espontaneamente, para fora.

quarta-feira, setembro 28, 2005

Finis Hominis


O cinema produzido em São Paulo nos anos 60 e 70 representou uma espécie de universo paralelo no cenário brasileiro – dominado por poucos e mesmos, intoxicado pela Embrafilme e pelo estatismo ufanista.

Neste universo paralelo, que jogava por outras regras, é preciso ter em mente a visão anarquista e iconoclasta (por extensão identificada com a marginalidade), de alguns dos seus principais diretores e roteiristas. Isto se aplica tanto ao cinema de intelectuais como Carlos Reichenbach e Rogério Sganzerla, quanto à produção naïf da Boca, calcada no empirismo da bilheteria e do gosto medíocre popular.

Falar deste apego à transgressão, a uma revolução não ideológica mas de costumes, é fundamental para que se explique o cinema de José Mojica Marins. Criador do personagem Zé do Caixão, por vezes se confunde com a criatura, e seu talento e sua obra parecem apenas um estereótipo de lenda.

Mas Mojica não foi só Zé do Caixão, foi também uma galeria de outras figuras absurdas: Oaxiac Odéz, um excêntrico professor que mantinha em casa um circo dos horrores para justificar seu niilismo; e em dois filmes, “Finis Hominis” de 1971 e “Quando os Deuses Adormecem” do mesmo ano, viveu o personagem Finis Hominis, criado pelo roteirista Rubens Lucchetti para uma novela da Tv Bandeirantes, “O Homem que Apareceu”.

De fato, o homem aparece, surge vivo e caminhando de dentro do mar em Santos (só isso já faria um milagre sua aparição), e entra pela cidade adentro, no princípio de “Finis Hominis”. De início nu, em sua jornada pela cidade ganha uma estranha roupa na casa de uma mulher rica que se apaixona por ele. A indumentária foi sugestão de um amigo de Mojica, um indiano que entraria com dinheiro na produção, que de resto, foi financiada pelo próprio diretor.

“Finis Hominis” tem apenas um fio de história, que se conduz através de vinhetas onde a hipocrisia do mundo é mostrada pelos atos e “milagres” de Finis. Médicos que não cuidam de uma criança morrendo em um hospital, uma paralítica que anda, uma adúltera que é salva – e todos gratos à atuação do misterioso Messias. Em meio à população atônita, o rádio e a tv transmitem o percurso de Finis pela cidade e ajudam a amplificar sua fama, até o êxtase final.

De todas as vinhetas, duas se destacam: em uma comunidade hippie, Finis “prova” que o paz e amor são apenas ilusões, dissolvidas diante da cobiça material (arremessa moedinhas e os hippies brigam, em uma das cenas mais pueris do cinema brasileiro). Logo depois vemos a “musa” de Mojica, Andréa Bryan, vivendo uma inescrupulosa mulher, casada com um homem impotente, que se finge de morta para matar o marido de enfarto. Nesta parte, ressalta-se o imenso potencial perverso (para não dizer doentio) do cinema de Mojica, pois a personagem de Andréa é uma masoquista nata, descontando a frustração de odiar o marido em uma relação com um amante cafajeste, que a maltrata com tapas no rosto e com sexo, digamos assim, não-convencional, exigido chorosamente por ela.

“Finis Hominis” nem de longe é um dos melhores trabalhos do diretor – que merecerá mais tarde aqui uma extensa revisão –, mas é infinitamente superior ao tipo de cinema que Mojica praticaria a partir da segunda metade dos anos 70, sufocado em dívidas e na dependência da boa vontade alheia até para sobreviver. Ainda temos em "Finis" elementos da iconoclastia divertida de Zé do Caixão, da inteligência criadora do roteirista Lucchetti e a participação de amigos de Mojica – como Carlos Reichenbach no papel de um médico – que avalizavam o seu cinema, tênue fronteira entre a aberração e a arte.