
Não sou Mãe Dinah nem tenho bola de cristal guardada entre antiqüíssimos vhs, mas ao assistir a esta segunda parte de “Tropa de Elite” saí do cinema com a certeza de que a maioria dos que levantaram um dedinho acusador ao primeiro filme, tachando-o de reacionário, “fascista”, ou qualquer outro xingamento para tudo o que não aprenderam nas aulas de Sociologia, estarão em breve esfregando as mãos satisfeitos e dizendo “Viram? O Padilha tentou se redimir!”.
Acontece que José Padilha – nome de canalha rodrigueano – possui invejável talento gauche. Pela enésima vez conseguiu dar um salto triplo mortal, mastigar dúzias de giletes e cometer crime hediondo para a intelligentsia brasileira: pensar por si mesmo e entregar ao espectador um veículo de tese própria.
Se a tese parece boa ou não, se o conceito de filme-tese resulta em olhar pesado e hermético, o Capitão (agora Coronel) Nascimento diria o seguinte: parceiro, “Tropa de Elite” nunca quis saber de ilações relativistas. É uma catarse e pronto. O que faz o público desejá-lo ardentemente, disputar até continuações espúrias nas banquinhas de camelô, guarda ligação direta com essa falta de tato, com tamanha grosseria direto ao assunto.
Vocês se lembram?, no primeiro filme (ambientado em 1997) vilões eram os universitários da Pontifícia Universidade Católica, compradores do jererê malocado na famigerada vila dos diretórios. Milhares de balas perdidas depois, anos 2000, o leitmotiv se reduziu a coadjuvante do processo. E o que foi suprema ofensa – colocá-los na equação da tragédia – virou etapa vencida. Consumado o flagrante, playboys acuados, uma nova missão.
A ong instalada nas franjas da favela desapareceu, bem como o destemor ao som de Titãs. Deram lugar à profissionalização do discurso: o palestrante Fraga (Irandhir Santos), que prega contra o Bope e os métodos da polícia. Do outro lado, ele, Nascimento (Wagner Moura), anticristo do Evangelho da Maresia. Porém, ao longo do filme, tomamos um enrosco tal que urge reexaminarmos o primeiro episódio com novos olhos. Padilha teria se “redimido”?
Bobagem. Nascimento está onde sempre esteve. É um perdedor nato, cheio de dúvidas, incertezas e que alimenta na fidelidade canina ao Estado um portão para o inferno. A PM também é a mesma, corrupta e imprevisível. O BOPE, solução final do sistema. Os traficantes, peões de uma vontade sobre a qual não têm o mínimo controle. Um rebanho de mauricinhos assiste às aulas, voltando (nem sempre) inocentes ao Leblon.
Nada mudou na visão do diretor e roteirista. O que aconteceu foi a passagem do tempo e a explicação mais aprofundada de um personagem-chave: o intelectual de esquerda. Aquele que na primeira saga brandia um estereótipo – papagaio de Foucault – se desdobra em várias faces, resumidas em uma só. Fraga começa na toada de bobo alegre acadêmico, banca o macho em um heroísmo psicótico e termina usufruindo de simbiose com Nascimento, a dizer que ambos sempre representaram “o bem”.
Muita atenção nessa hora, crianças. Uma sutileza transpassa nossas cabeças: não propriamente este “bem” é o mesmo com o qual a intelligentsia compactua, o que anula aparente redenção do filme à pauta de seus vigilantes. Fraga representa, na verdade, a esquerda em ótimo ânimo ideológico, combativa e reta. É tipo antiquado, romântico, de vinte, trinta anos atrás. Com ele, Padilha cutuca grande parte do “esquerdismo” atual, que agarrado às bases acadêmicas e intelectuais, vende sua união ao fisiologismo, oligarquias e elites da pior estirpe como se fosse um pragmatismo útil.
Bom é bom, mau é mau. Preto no branco. Na tese do diretor, duas partes aparentemente opostas se unem por esse lema. E o que parece reviravolta é somente crítica abrangente e melhor formulada.
Percebam que “Tropa de Elite” começou apontando os garotos burgueses compradores de droga nas favelas, debochou dos pseudo-intelectuais, agora tripudia lembrando a esquerda sobre seus princípios, explica o funcionamento da corrupção nos subterrâneos da PM e ainda escarafuncha ligações entre crime e política. Não surpreende que, versados em tantas motivações diferentes, fornecendo pistas e conclusões satisfatórias, ambos os filmes gerem um tipo de empatia bárbara, justiceira e que pouco se difere da prática sensacionalista dos programas de tv que (também) ironiza, na figura do deputado Fortunato (André Mattos). Cena em que hordas uivantes assistissem ao filme dentro do filme, batendo palmas histéricas, completaria o circo de variedades.
Finalmente a questão das milícias, que o roteiro trabalha obsessivamente, ganha ainda mais sentido quando Nascimento divaga que “achando que combatia um mal, abria as portas para outro”. Fácil buscarmos aqui o resumo do que “Tropa de Elite” persegue desde as origens e pouca gente consegue atinar: um libelo em que todos são vítimas e todos estão alienados. Ser chamado de fascista nada representa para o Coronel Nascimento, família destruída, interesses escusos rondando. Ser chamado de fascista nada significou para Padilha, que jogou limpo, renovando sua aposta.
Acontece que José Padilha – nome de canalha rodrigueano – possui invejável talento gauche. Pela enésima vez conseguiu dar um salto triplo mortal, mastigar dúzias de giletes e cometer crime hediondo para a intelligentsia brasileira: pensar por si mesmo e entregar ao espectador um veículo de tese própria.
Se a tese parece boa ou não, se o conceito de filme-tese resulta em olhar pesado e hermético, o Capitão (agora Coronel) Nascimento diria o seguinte: parceiro, “Tropa de Elite” nunca quis saber de ilações relativistas. É uma catarse e pronto. O que faz o público desejá-lo ardentemente, disputar até continuações espúrias nas banquinhas de camelô, guarda ligação direta com essa falta de tato, com tamanha grosseria direto ao assunto.
Vocês se lembram?, no primeiro filme (ambientado em 1997) vilões eram os universitários da Pontifícia Universidade Católica, compradores do jererê malocado na famigerada vila dos diretórios. Milhares de balas perdidas depois, anos 2000, o leitmotiv se reduziu a coadjuvante do processo. E o que foi suprema ofensa – colocá-los na equação da tragédia – virou etapa vencida. Consumado o flagrante, playboys acuados, uma nova missão.
A ong instalada nas franjas da favela desapareceu, bem como o destemor ao som de Titãs. Deram lugar à profissionalização do discurso: o palestrante Fraga (Irandhir Santos), que prega contra o Bope e os métodos da polícia. Do outro lado, ele, Nascimento (Wagner Moura), anticristo do Evangelho da Maresia. Porém, ao longo do filme, tomamos um enrosco tal que urge reexaminarmos o primeiro episódio com novos olhos. Padilha teria se “redimido”?
Bobagem. Nascimento está onde sempre esteve. É um perdedor nato, cheio de dúvidas, incertezas e que alimenta na fidelidade canina ao Estado um portão para o inferno. A PM também é a mesma, corrupta e imprevisível. O BOPE, solução final do sistema. Os traficantes, peões de uma vontade sobre a qual não têm o mínimo controle. Um rebanho de mauricinhos assiste às aulas, voltando (nem sempre) inocentes ao Leblon.
Nada mudou na visão do diretor e roteirista. O que aconteceu foi a passagem do tempo e a explicação mais aprofundada de um personagem-chave: o intelectual de esquerda. Aquele que na primeira saga brandia um estereótipo – papagaio de Foucault – se desdobra em várias faces, resumidas em uma só. Fraga começa na toada de bobo alegre acadêmico, banca o macho em um heroísmo psicótico e termina usufruindo de simbiose com Nascimento, a dizer que ambos sempre representaram “o bem”.
Muita atenção nessa hora, crianças. Uma sutileza transpassa nossas cabeças: não propriamente este “bem” é o mesmo com o qual a intelligentsia compactua, o que anula aparente redenção do filme à pauta de seus vigilantes. Fraga representa, na verdade, a esquerda em ótimo ânimo ideológico, combativa e reta. É tipo antiquado, romântico, de vinte, trinta anos atrás. Com ele, Padilha cutuca grande parte do “esquerdismo” atual, que agarrado às bases acadêmicas e intelectuais, vende sua união ao fisiologismo, oligarquias e elites da pior estirpe como se fosse um pragmatismo útil.
Bom é bom, mau é mau. Preto no branco. Na tese do diretor, duas partes aparentemente opostas se unem por esse lema. E o que parece reviravolta é somente crítica abrangente e melhor formulada.
Percebam que “Tropa de Elite” começou apontando os garotos burgueses compradores de droga nas favelas, debochou dos pseudo-intelectuais, agora tripudia lembrando a esquerda sobre seus princípios, explica o funcionamento da corrupção nos subterrâneos da PM e ainda escarafuncha ligações entre crime e política. Não surpreende que, versados em tantas motivações diferentes, fornecendo pistas e conclusões satisfatórias, ambos os filmes gerem um tipo de empatia bárbara, justiceira e que pouco se difere da prática sensacionalista dos programas de tv que (também) ironiza, na figura do deputado Fortunato (André Mattos). Cena em que hordas uivantes assistissem ao filme dentro do filme, batendo palmas histéricas, completaria o circo de variedades.
Finalmente a questão das milícias, que o roteiro trabalha obsessivamente, ganha ainda mais sentido quando Nascimento divaga que “achando que combatia um mal, abria as portas para outro”. Fácil buscarmos aqui o resumo do que “Tropa de Elite” persegue desde as origens e pouca gente consegue atinar: um libelo em que todos são vítimas e todos estão alienados. Ser chamado de fascista nada representa para o Coronel Nascimento, família destruída, interesses escusos rondando. Ser chamado de fascista nada significou para Padilha, que jogou limpo, renovando sua aposta.

