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sábado, outubro 01, 2011

Como (Não) Esquecer o Cinema GLBT Brasileiro


Tão maléfico quanto o preconceito é enxergarmos a parcela GLBT da sociedade através de recursos solenes, artificiosos ou paternalistas. No cinema brasileiro atual, sofremos entre uma didática de comercial de absorvente feminino e a profissão de fé tosca, pacto tecido pela urgência urgentíssima de se dizer um “aqui, presente!”. Nestas linhas seguem diretor, produtor, atores, que aderindo à missão protocolar, quase burocrática, ainda reclamam que um grande público finalmente emerja.

Fora isso, há o gueto: inimigo tentador, víbora que prende nos dentes a falsa facilidade de que o isolamento permite um ambiente livre de resistências. Ilusão cruel, se é através da alteridade que se compreende que o imbecil retrógrado da esquina é o imbecil retrógrado da esquina – pois aquele é o imbecil e aquela é a esquina, e o “eu” não responde por eles. Note-se que a idéia de “filmes para homossexuais feitos por homossexuais”, antes de inteligente, cresce desencorajadora e opressiva – e vai redundar obviamente em fracasso.


“Como Esquecer” (2010) a princípio compra o desafio, ao colocar a questão lésbica no centro de uma trama e ainda procurar abordá-la de forma naturalista. Entretanto, desanima pela precariedade de tipos, pela ausência de ritmo audiovisual que deixe para trás a base do livro homônimo “Como esquecer – Anotações quase inglesas”, de Myriam Campello. A opção pelas falas em off – mecanismo over – e pelo arquétipo de amigo gay feliz que tenta tirar a protagonista depressiva do nó em que se meteu, abandonada pela ex, criam um vazio grande. Não preenchem o mundo de expectativas que o gueto ou o grande público gostariam de ver encenadas.


É de se entender que após “Mulheres do Brasil” (2006), o segundo longa-metragem da diretora Malu de Martino tenha deixado o documentário e vindo pela linha ficcional. Ocorre que a personagem-chave de Júlia (Ana Paula Arósio) provoca um distanciamento anódino na platéia. Nem tanto pela sacrossanta frieza que sói atacar o fantasma fílmico de professoras universitárias – como ela –; bem mais pela falta de se externar o demônio que a define. Apenas em pequeninos momentos de sadomasoquismo chega-se mais perto do abismo, e ainda assim ficam soltos por conta do todo. Perde-se a excelente chance de vasculhar a patologia e atingir, finalmente, a epifania da solidão.


A heroína muda-se com Hugo (Murilo Rosa), o amigo, e Lisa (Natália Lage), o apêndice, para uma casa na praia. Mais especificamente, Guaratiba, reserva natural distante do centro do Rio de Janeiro. O isolamento geográfico e a fotografia pesada instalam um clima de “Recife Frio”, o genial curta de Kleber Mendonça Filho, transformando um quente balneário em simulacro da Patagônia. A história gostaria de mostrar, através do rompimento com o meio, que os três tentavam um rumo novo.


Afundados em um pesadelo de estereótipos, nada poderia dar certo. Lisa volta extemporaneamente para o chato que a engravidou e a levou ao aborto. Hugo chora uma única vez pelo namorado morto e a caricatura não toca o drama do luto. Júlia embarca numas com o ideal les de pintora-hypada-boa-de-cama-seguríssima, Helena (Arieta Correa), deixando a pupila Carmen Lygia (Bianca Comparato) chupando o dedo, novinha e fogosa que só.


Inegável que Ana Paula Arósio tenha buscado outra faceta, diversa das mocinhas de praxe. Óbvio que sua beleza é mitigada – se isso for possível – para incorporar a trintona sem viço, amarga, que se masturba durante o banho e transa com outra num prazer distímico. O veículo não é de todo satisfatório, mas louve-se a atitude, servindo para outros atores que desejem sair da caretice.


Em meio ao celofane, à pasteurização e à mesmice reacionária das sociochanchadas dos anos 2000, é a partir de uma perspectiva histórica que se deve discutir a fragilidade de “Como Esquecer” e de tudo que remete ao rincão GLS no país. Analisar o que aparece em 2010, distanciado do contexto anterior, é o tipo de erro dantesco, infelizmente cometido a torto e a direito, de proporções sérias para o futuro. O mesmo aconteceu com a alienação causada por décadas de mentiras contadas em série sobre o cinema popular brasileiro. Passam-se os anos e lá vamos nós, vasculhar os alfarrábios e enterrar certezas. Nem todos sabem a trabalheira criada pela vontade de se manter um olhar renovado sobre antigos exus, largados na encruzilhada da revisão crítica.


“Os Imorais” (1979), filme raríssimo de Geraldo Vietri, calcado completamente na questão homossexual, some dos almanaques. “As Deusas” (1972), de Walter Hugo Khouri, padece do epitáfio de balela khouriana, a despeito de tratar dos espelhamentos no amor entre iguais. Certas moças de Jean Garrett têm bem mais de redenção lésbica do que manuais repletos de regras. “Ariella” (1980) – baseado na obra da seminal Cassandra Rios – e “Fêmeas em Fuga” (1985) – wip despudorado – são depreciados pela falta de conhecimento geral dos universos que Jess Franco usava para palitar os molares, mil anos antes.


Além disso, há de se lembrar que muito mais interessante do que “Como Esquecer” é o recém-lançado no circuito “Elvis e Madonna” (2010). Não só porque ganha corpo no tratamento vivo dos protagonistas (comparada à lésbica Elvis e ao travesti Madona, a professora Júlia lembra uma estátua de jardim), mas também porque dialoga sem medos com a supracitada tradição fílmica brasileira, colocando-se em um patamar muito mais honesto e maduro.


Em “Elvis e Madona” estamos em Copacabana, notamos um ar de neon realismo involuntário, sentimos que a oposição entre a realidade complexa da sexualidade humana e a interdição do conservadorismo patético foi bem pensada e construída. Percebam que “Elvis e Madonna” guarda cinema dos bons, enquanto “Como Esquecer” padece do mal de certas produções nacionais: o de ser uma imitação soporífera de arte. Sem esquecer da pretensão de reinventar a roda, a cada novo equívoco.


A cena em que Elvis (Simone Spoladore) conversa com o chefe de redação e diz “Copacabana é tudo!”, é desses momentos mágicos, que resumem um sentido na cinematografia de um país. O amor do improvável casal lembra o de “Amor Bandido” (1979) e vai fundo na idéia do “viver é permitido” no tolerante e democrático bairro-símbolo da cidade. John Stuart Mill e Carlos Imperial olhariam com respeito para o trabalho que o diretor e roteirista Marcelo Laffitte executa com a graça e a leveza de uma comédia despretensiosa.


E continuando a homossexualidade a ser pedra no sapato, colocá-la à luz do dia é uma permanente renovação, utopia de possibilidades. Neste sentido, o filme que não vibra todas as cordas (“Como Esquecer”) e o que soa como uma ópera de Wagner em uma quitinete na galeria Alaska (“Elvis e Madona”), partilham o mérito de terem protagonistas que não se jogam pela janela (“Amor Maldito”, 1984), torturados pela culpa.

sexta-feira, setembro 17, 2010

Forever


Existe uma faceta de Walter Hugo Khouri que agrada sobretudo a quem não o digere com facilidade. Nestas horas os dedos coçam, se entrelaçam no ar, antes de atacarem o teclado em um chat qualquer ou coadjuvarem outra discussão superficial.

Supõem terem encontrado o abismo perfeito, aquela nesga de afirmação que talvez jogue no ralo a trajetória de independência de cinco décadas e vinte e cinco filmes. Acusação sumária: sexo. Excessivo, tabu, pecaminoso, tudo na base de um realismo que – como dói – agride a análise caudalosa do tema.

A descida aos infernos piora ainda mais diante do ato sujo, feio, bobo e mau praticado entre filha e pai. O que dizer do longa-metragem em que Berenice comete o intercurso sexual com Marcelo?

“Forever” (“Per sempre”, 1989, lançado em 1993) apresenta a segunda morte do protagonista – a primeira delas, em “O Desejo” (1975). Marcelo sofre um ataque cardíaco ao tentar não uma anomalia, mas sim o absoluto: a fusão com a prole. A mínima aproximação com o filme está, portanto, longe da senha pornô e reside na consciência de que WHK manipulava o triângulo mãe-pai-filha – fantasma que já havia tangenciado em “Eu” (1987) e “Eros, o Deus do Amor” (1981).

Nem se pode acreditar completamente no que diz a narradora Berenice (Eva Grimaldi). Evidente que ela está elaborando o luto, libidinizando o pai morto e fantasiando as suas aventuras, estancada na garçonnière em que Marcelo (Ben Gazzara) atacava com furor. Dentre as gazelas, consta Vera Fischer (Cristina Teller), que aparentemente fez Gazzara surtar durante as filmagens.

Berenice confere os slides deixados de herança e encomenda um novo, da cena do óbito. Erotiza-os, o olhar numa curiosidade impaciente. A ponte com as suas memórias impera, fazendo com que surja a púbere Ana Paula Arósio – em estréia no cinema – nas cenas de infância da personagem.

O enredo aponta para uma das mais clássicas vinhetas psicanalíticas: a da pequena filhinha que supõe ser um casal com o pai e quica a mãe para fora, ao não receber o afeto devido. Um caso típico para Melanie Klein, construído com rigor por Khouri, que de naïf tinha nada. Não à toa, marca reiteradamente a relação de frieza entre Berenice e a mãe (Eleonora, Janet Agren), o exato oposto do que a good enough mother de Donald Winnicott deveria ser.

Infelizmente, “Forever” padeceu de um momento histórico diabólico, com o fim da Embrafilme, a guerrilha nas cadernetas de poupança, a instabilidade collorida. Lembremos que o Festival de Gramado de 1993 chegou ao cúmulo de apenas dois longas brasileiros concorrerem no evento: “Forever” e “Capitalismo Selvagem”, de André Klotzel.

Tendo este pano de fundo, fica mais plausível entender por que cargas d'água Khouri e Anibal Massaini Neto – da Cinedistri, investidor do cinema auto-sustentável da Boca – apelaram para um duo inusitado com o italiano Augusto Caminito. “A Italian-Brasilian [sic] production”, orçada em cerca de dois milhões de dólares, com “casting internacional” e, crueldade das crueldades (tomemos fôlego): o filme é dublado em inglês, semelhante ao “A Grande Arte” (1991), de Walter Salles Jr. Pedro Paulo Hathayer – ator simbólico de Rubem Biáfora – faz aqui sua última aparição no cinema, como padre, recitando o idioma de Geoffrey Chaucer na missa do falecido.

Essas madeleines de um período sangrado do cinema brasileiro abrem alas para o resto de neon-realismo que dá as caras em “Forever”. WHK não era cria da estética, mas o filme deixa rastros. Há um clima que renega a melhor tradição khouriana, e nem a fotografia de Antonio Meliande, colaborador de longa data, consegue conter o ímpeto de ser-produto-voltado-para-o-mercado-externo.

O elenco atua em um pastiche de dar dó. Para se ter idéia, quando a pobre da Traditional Jazz Band – presente em “Eros”, “Eu” e “Amor Estranho Amor” (1982) – ataca de “My heart belongs to daddy”, a dança dos atores é à moda espanhola, como se alguém tivesse tateado um Bizet na vitrola.

Os equívocos da produção, ao tentar dominá-la em excesso, explicam o ar rarefeito da obra. Ponto raríssimo no planejamento de WHK, habituado a controlar desde a cenografia à trilha sonora, o roteiro foi inusitadamente compartilhado com outros colaboradores – o próprio produtor Augusto Caminito, Tony Foutz e Lauro César Muniz.

Ainda assim, apesar dos pesares, “Forever” diz um amém, claudicante, às origens. Dá-se novo passo na teia de Berenice-Marcelo – aqui, Marcelo Rondi, sobrenome semelhante ao Ronchi, de Khouri –; ouve-se Schubert nos pontos-chave; vê-se o apuro nas evocações à morte – tal como na escultura da beata Ludovica Albertoni.

O apartamento de Rondi lembra – se não for o mesmo – o de “Eros”. Reflete os olhos sobre a avenida Paulista, antro amplo, etéreo. A festa em “Forever”, por sua vez, usa a mesma mansão de “Eu”, em provável prolongamento temporal, desordenado como em um sonho, agora com o adendo de Ana (Gioia Scola) – a intrusa no reino.

“I eat all flesh, I drink all blood”, repetido em transe por pai e filha, é uma das profissões de fé de El Rondi. A ponto de misturar esse afã pagão – a anos-luz das intenções do versículo bíblico de João 6:53 –, com o mito do trono de pedra.

Apresentado ao público em “O Corpo Ardente” (1966), o trono de pedra – gravado in loco, nas montanhas de Itatiaia – reaparece diversas vezes nos filmes de WHK. A mãe (inicialmente, Barbara Laage) leva o filho (inicialmente, Wilfred Khouri), adula o narciso e estabelece a premissa: “O rei é você.”

Matéria bruta, nebulosa, o que trono de pedra possui de sensorial, de puro, deveria a princípio se restringir às visitas de Marcelo e Berenice. Ou seja, ao amor filial, à devoção, à transcendência. Em “Forever”, porém, Marcelo abdica da nobreza, quebra o circuito e desta vez também leva Ana, louco pela prática do belo esporte, uma iguaria que rompe a docilidade do local.

E se “o corpo é a árvore da sabedoria” – moto de Marcelo, deixado em uma folha na máquina de escrever –, resta claro o apego ao zen-budismo, explicativo para a hecatombe que precedeu à sua morte. Em plano global, a citação faz parte de um encantamento do diretor pelo Oriente, freqüentado desde cedo – no cinema, posição de destaque para a produção pré nouvelle vague japonesa.

Nesse monte de egoísmo e voracidade, o Marcelo mezzo Gazzara mezzo Jardins fraqueja na encruzilhada existencial do personagem. Deixa-o em uma posição inacabada, entrega o bastão para “Paixão Perdida” (1998) e “As Feras” (1995, lançado em 2001). Quando as bacantes deste último entram em cena, vemos o fecho da trajetória de Walter Hugo Khouri, o prestidigitador que sussurra uma dúvida sobre os sentidos imediatos, acreditando naquela ascese superior ao que é meramente plasmado na tela – e que, via de regra, nem todos atingem.