domingo, novembro 27, 2011

Os Paspalhões e Pinóquio 2000


Quem se acostumou ao xaxado de Galeão Cumbica e ao cavernoso “Calma, Cocada” dos anos 80, descobrirá as maravilhas da diversidade com “Os Paspalhões e Pinóquio 2000” (1982).

Vestido para matar, o ator Rony Cócegas aparece em outro personagem, fazendo um cover de Zacarias, o amigo da garotada. Rony divide a tela com Olney Cazarré (o corintiano da “Escolinha do Professor Raimundo”) e um outro jovem que, curiosamente, também lembra o heróico companheiro de Zacarias, o Mussum.

Aliás, teria vindo de Mussum – o xamã que se auto-receitava longas ampolas de cerveja –, uma confidência que chocou Carlo Mossy, o dono da Vidya, produtora do filme. Durante encontro no bairro de Madureira, zona norte do Rio, Mussum teria dado a entender que as semelhanças com a turma do Didi acabariam azedando as empadas da Vidya.

Lenda urbana ou realidade, o fato é que “Os Paspalhões e Pinóquio 2000” permanece inédito nos cinemas. Não conseguiu ser comercializado e enfrentou a resistência até de distribuidores amigos, como Luiz Severiano Ribeiro.

Não que esta ausência seja uma crueldade terrível para a história do cinema brasileiro, mas não deixa de ser curiosa a falta de sorte do filme. Ele que é a verdadeira caveira de burro, o boitatá que arruinou as finanças da Vidya, até então feliz qual gato banhado em leite de cabra, aproveitando o sucesso de “Giselle” (1981).

“Os Paspalhões e Pinóquio 2000” sofre de uma megalomania que chega a ser difícil de acreditar. O filme apela para aventura infantil, história da carochinha e delírio tecnológico. Está cheio dos efeitos especiais que dominavam a época, rodados em Los Angeles, como “Os Saltimbancos Trapalhões” (1981).

Rios de dinheiro foram queimados, um trailer fantasma anunciou o filme que não estreou, casos de agressão acometeram a equipe técnica. O cineasta Afrânio Vital, então continuísta, recebeu uns safanões de uma criatura mais exaltada e foi indenizado pela produtora. O diretor Victor Lima inventou de falecer repentinamente nos Estados Unidos, o que obrigou Mossy a viajar às pressas para a remoção do corpo. Teve que se virar na finalização do filme.

Talvez a solução estivesse em um banho de descarrego, folhas de arruda espalhadas pelo set, algum ritual bárbaro de tribos polinésias. Na prática, Victor Lima – tão veterano da Atlântida quanto J. B. Tanko, ídolo de Renato Aragão –, não deu a liga entre o infantil e a pornochanchada. Até porque, voilá, são gêneros que não conversam muito bem.

Confuso que só, “Os Paspalhões e Pinóquio 2000” – batizado por Victor di Mello (diretor de “Giselle”) – poderia ser mais criativo. Poderia aproveitar a estrela maior, a protagonista máxima: Alba Valéria. No entanto, prefere o glacê das grandes explosões, das naves espaciais, do corre-corre entre vilão e polícia.

Alba – a endiabrada “Giselle” – vive uma pobre órfã (Gracinha). Lutadora de kung fu, Gracinha está sempre rodeada por uma mucama boazuda. As duas usam saias curtas e mostram cavidades que chocariam as crianças, ao entregar as reais intenções deste fiel exemplar do Beco da Fome.

Gracinha se apaixona e entra em ação Dudu França, o compositor do hit disco “Grilo na Cuca”. Dudu vira uma espécie de Mário Cardoso, o galã dos filmes dos Trapalhões. Já Alba Valéria sacoleja o corpo de um jeito que envergonharia as personagens de Monique Lafond (atriz, aliás, que participa de “Giselle”) ou Lucinha Lins, as paixões de Didi.

Vejam vocês que Gracinha é afilhada do Barão von Karko, grande chefão caucasiano que dá festas para empregados loiros (entre eles, Ted Boy Marino) e comanda Milton Moraes com mão de ferro. O castelo de Von Karko coleciona clichês de espionagem e da Segunda Guerra Mundial – que, muito provavelmente, representavam a encarnação do mal para Victor Lima.

“Todos nós somos bonecos, nossos cordéis são acionados pelos poderosos.” Older Cazarré, irmão de Oldey (dupla antológica na dublagem nacional) tenta segurar as pontas. O cientista sábio que ama crianças e perdeu mulher e filha em acidente de carro. Agora ele impede o plano macabro do Barão, que busca enriquecer vendendo papéis higiênicos e poluindo os reservatórios de água da cidade. Reparem que entre as vítimas encontramos Carlo Mossy, esposa e filha, em aparição relâmpago.

Mas as profundas digressões filosóficas do cientista terminam do nada. Quando menos se espera, o robozinho (Pinóquio 2000) canta para uma criança vestida de boneca Emília. A menina está visivelmente incomodada com a situação, o que chega a ser tragicômico. O anão dentro da carcaça não é o Chumbinho mas, acreditem, exprime toda (nenhuma) graciosidade.

Alguém há de se perguntar como “Os Paspalhões e Pinóquio 2000” conseguiu gravar na Vista Chinesa sem o latrocínio de boa parte da equipe, ou no Freeway da inóspita Barra da Tijuca, atrapalhando a classe média que se embrenhava pelo local. Mistérios que engrandecem o mito do filme. Atirando para todos os lados – aventura, espionagem, musical, humorístico – “Os Paspalhões e Pinóquio 2000” sensualiza pouco querendo impressionar demais. Enxugando trechos e mais trechos, poderia escapar da encruzilhada espiritual, que o deixou na eterna contramão da bilheteria.

terça-feira, novembro 15, 2011

As Aventuras de Sérgio Mallandro


Analisar o cinema brasileiro infantil dos anos 80 pode nos desvirtuar em um atalho sinistro, onde os pacatos enredos supostamente realizados para as matinês ganham bastidores de conspirações mafiosas, pornografia braba ou mesmo lendas urbanas divertidas e alucinadas.

Se o pobre personagem do Fofão até hoje desculpa-se e choraminga nos programas vespertinos, desmentindo um pacto com o demônio e a navalha que carregava no pescoço, o mesmo vale para Sérgio Mallandro. Sua alegria esfuziante, diziam pais e avôs cruéis, não era fruto natural da personalidade, mas resultado de poderosos aditivos químicos.

Para piorar, Mallandro também era lembrado como repórter do maldito programa “O Povo na Tv”. Momento espetacular da tv brasileira, “O Povo na Tv” agradou em cheio a uma classe média carioca que, naqueles idos, decidira virar brizolista, abraçava o curandeirismo cafajeste de Roberto Lemgruber e sonhava o Wagner Montes como um partidão para suas filhas.

Claro, aquilo tinha tudo para dar errado. A verdade é que parecia super certo. Embora a qualidade de vida no Rio de Janeiro degradasse a olhos vistos, sempre nos sentíamos vítimas da eterna inveja paulista. E éramos felizes consumindo cinema nacional nas salas gigantescas e mal cuidadas de Copacabana e Botafogo.

Jogo do bicho, sol a pino e falsa cordialidade rolavam soltos, no riso maroto de uma população iludida por cachorros quentes da Geneal, mulatas do Sargentelli e limonadas geladas com gosto de areia.

Neste caldeirão estiloso, brotavam pérolas como “As Aventuras de Sérgio Mallandro” (1985), típico e rasgado produto do Beco da Fome. Fechando os olhos, sentindo as palpitações do tempo, talvez o leitor consiga mergulhar comigo no momento exato em que aquele way of life de fazer cinema falava mais alto.

Imagine-se na Cinelândia. Sérgio Mallandro chega de bermudas, senta no Amarelinho e pede um guaraná. A temperatura está agradável, mas a Rádio Relógio Federal anunciou para o dia seguinte elevação acima dos 35 graus. Olhando em volta, o jovem Mallandro percebe a fauna que o cerca: vereadores entrando e saindo do Palácio Pedro Ernesto, populares sentados em frente ao Municipal, um vendedor de carteiras falsas da polícia civil assediado por um travesti furreca.

Perguntado se deseja uma porção de frango à passarinho ou um filé à Oswaldo Aranha, Mallandro recusa. Carlos Imperial cruza a Praça Floriano, com uma agilidade impressionante. Fabricam-se pequenas multidões chegando para o almoço. A cidade é profunda, deságua gente da Avenida Rio Branco, Araújo Porto Alegre, Evaristo da Veiga.

Quando Mallandro ia começar a tomar o seu guaraná, eis que surge a turma que esperava. O diretor e produtor Erasto Filho informa que estão com tudo em cima para a produção, inclusive uma casa “pros lados da Barra”.

Mallandro, àquela altura dos acontecimentos, já era ídolo nacional da criançada – inclusive meu. Jurado do “Show de Calouros”, apresentador infantil, ator em “Menino do Rio” e “Garota Dourada” – para a nossa geração, era “o cara”. Os pais e avós que o maldiziam, colocávamos na mesma conta dos paulistas sem Ipanema e Arpoador. Merecia, assim, um filme como protagonista.

No andar de baixo da mansão na Barra da Tijuca, produzia-se o filme. No de cima, Mallandro tinha uma espécie de camarim particular, atendido por um assessor conhecido pela alcunha de “Kibe”. Sempre alerta, Kibe esmerava-se em trazer tudo o que Mallandro pedisse – nesse ponto, a imaginação é o limite. As coisas teriam transcorrido com certa tranquilidade se os donos da casa não tivessem chegado de repente. Descobriu-se, então, que as locações haviam sido alugadas do caseiro, sem autorização dos patrões. Nada que uma boa malandragem e uma grana extra não resolvessem.

O resultado vemos nas telas. Aquele misto de Spectroman e presepada que fez alguns críticos mal humorados colarem na fita o rótulo de “pior de todos os tempos”.

Roteiro, quem precisava de roteiro? O objetivo era encontrar um “bichinho”, lutando contra alguns vilões fantásticos – entre eles, Pedro de Lara. O bichinho – um macaco – pertence a uma sirigaita chamada Tininha, que guarda até uma foto Polaroid da criatura. Na trajetória da busca, Mallandro faz suas gags.

Sob um céu azul torturante, desfilam Alexandre Frota, Mara Maravilha – com a alcunha de “Mara Porreta” – o onírico Paulo Cintura, rádios Orelhinha, um carro com propaganda dos tênis Kimkol e o grupo Absyntho. Mallandro, junto ao seu fiel escudeiro, Zé Cocada (Cosme dos Santos), arranjam confusão na montanha russa do velho Tivoli Park e na Sorveteria Chaika.

Muitas cenas não foram filmadas – provavelmente por conta dos problemas com o aluguel da casa – e ganham uma explicação em quadrinhos. É isso. Apenas isso.

Tudo bem que Erasto Filho ganhou rios de dinheiro, aposentou-se e nunca mais dirigiu nada. Tudo bem que Mallandro parece estar o tempo todo improvisando. Tudo bem que todos aqueles improvisos histéricos parecem movidos a... melhor deixar pra lá. O fato é que a criançada adorou. Eu mesma, aos onze anos, vi o filme duas vezes em vhs. Só não vi uma terceira porque meu pai era um dos desconfiados da sanidade química e moral do Mallandro.

quarta-feira, novembro 09, 2011

O Gato de Botas Extraterrestre


Até hoje não é possível entendermos por que raios “O Gato de Botas Extraterrestre” (1990) é de fato extraterrestre e nem o motivo de levar nas costas um teclado colorido, provavelmente roubado do Genius – aquela rodela com botões, parente próxima do Pac Man, o Beato Salu da infância 80.

Entupido de maquiagem, tremendo chiquê de Hollywood, o bichano não nega as origens e apesar da máscara preparada pelos Burman Studios, acaba sendo tão dadaísta quanto a Boca do Lixo.

Heitor Gaiotti (o gato, que não revela o rosto) havia estrelado os mimosos “Corrupção de Menores” (1984) e “Bobeou... Entrou” (1984). Como não existia ficha limpa para as adaptações de contos infanto-juvenis, o diretor Wilson Rodrigues engrossou o coro de maledicências e realizou “Masculino... Até Certo Ponto” (1986), logo depois de “No Mundo da Carochinha Volume I: Chapeuzinho Vermelho” (1984).

Na realidade, “O Gato de Botas Extraterrestre” se limita a um veículo para a criançada, cheio de bons modos e intenções calmíssimas. É nítido que a integridade psicofísica do gato foi respeitada durante toda a filmagem, privando-o de orgias interraciais ou mesmo da companhia de Jack, o cãozinho bom de bola em “24 Horas de Sexo Explícito” (1985).

O gato corre, pula, trota de um lado para o outro, atravessa as pradarias da cidade de Gramado. Acaba apresentando um arremedo de Brasil, Europa medieval e efeitos visuais cenozóicos que, acreditem, atordoam pela incrível vagareza.

Se já é difícil ter a exata dimensão de tanta engenhosidade, os leitores podem se preparar para um pequeno surto e lamber os beiços: a adaptação do conto de Charles Perrault é assinada por Rubens Francisco Lucchetti. O próprio. Co-autor de algumas das insânias de José Mojica Marins, incluindo “Finis Hominis” (1971) e “Exorcismo Negro” (1974).

Psicose total, além de Lucchetti o próprio Mojica em pessoa aparece em “O Gato de Botas Extraterrestre” com as capas e as cores de Josefel Zanatas (vulgo Zé do Caixão), sua criatura mais famosa. Apesar disso, o personagem recebe o nome de “Príncipe Renini”. E, sem a agressividade e o ímpeto de “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1967), o Príncipe é apenas mais uma das criaturas enfeitiçadas pelo Mago Mau (Jofre Soares).

Renini tem um comportamento absolutamente contrário à identidade pagã de Josefel. Chega ao cúmulo de se dizer produto de uma crença religiosa, um “Moon Ha”, forma decadente, criada pelo podre mago. Aqui já se pode ver o Zé do Caixão fashion, o biscuit centro da moda, paródia de si mesmo. Os pimpolhos rebolavam de medo e, bem provável, papais e mamães não tenham votado no Tio Zé para deputado federal, em 1982.

Como a inspiração não baixou no terreiro extraterrestre, a chance de Príncipe Renini/Zé do Caixão salvar o filme acaba sendo jogada fora. Renini dilui-se antes de transformar “O Gato de Botas Extraterrestre” em um veículo para o caboclo alucinado, que debochasse da pompa e da circunstância.

E isto porque nem as sebosas unhas de Zé nem mesmo a tarimba de Lucchetti controlam Wilson Rodrigues. Morno e arrastado, o diretor apela para a dupla de starlets (Maurício Mattar e Flávia Monteiro), em um clima de Walt Disney levado a sério. Tonia Carrero (avó da garotinha para quem conta a história) tem uma participação inesperada no ouriço.

“O Gato de Botas Extraterrestre” lembra um preparatório para as filmagens em vhs que se multiplicaram durante a década. Algo como o aniversário da tia ou da prima, em que se jogavam os letreiros e se admirava a tecnologia, com os olhos arregalados diante do computador TK 3000.

O próprio Lucchetti parece cansado. Além da escolha canhestra de um lado Roswell – que permanece mal explicado e poderia ter sido uma tacada interessante –, o ex-quadrinista pouco altera o enredo original. Curiosamente, Lucchetti ganhou prestígio nos anos 60 com “O Gato”, em HQs desenhados por Eugenio Colonnese. Já a versão de botas incorpora somente um tipo malandreco, que se contorce e, no alto da histeria, delira feito pastor do Cinema Novo: “Cada cidadão de meu amo é um guarda de si mesmo!”.

No final das contas, o gatinho é minguado. Os verdadeiros acertos ocorrem sem querer. Principalmente nos closes em castelos de brinquedo e nos figurantes que parecem refugiados do holocausto de “As Histórias que Nossas Babás Não Contavam” (1979). Créditos como “Thankfulnes [sic] in Brazil", olhados daqui do futuro, parecem tirados de canções do Supla.

Enquanto Tony Tornado (guarda do Rei) dá um passo de Jackson Five na “BR-3” e a "spatial scene" de um bólido cruza os ares, a maçaroca musical escolhe a trilha sonora de “Blade Runner”. Bem faria o peludo felino se tivesse calçado tênis, aderido às modas do Dr. Cooper e num bestial conjunto de calça e top da Adidas – com listras brancas – corresse pelo mato afora. Quem sabe retirando o walkman das orelhas, para melhor ouvir o querido amo.