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sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Ariella


John Herbert faleceu há quase um mês e poucos sabem que além da pinta de galã – docinho de coco, o genro ideal em “Alô Doçura” na TV Tupi –, foi diretor de cinema. Mais do que isto: dirigiu “Ariella” (1980), o noir exploitation em que Nicole Puzzi aparece com todas as suas plumas.

Baleado por uma pneumonia, Herbert perde a vaga na equipe de natação para as Olimpíadas de Londres, 1948. Repete a trajetória do Cinema Novo – David Neves, Arnaldo Jabor, Carlos Diegues – e frequenta a faculdade de Direito. As semelhanças terminam aí. Depois disto, ficam só os extremos.

Herbert encara o show business, vai parar na Vera Cruz (“Floradas na Serra”, 1954), na Atlântida (“Matar ou Correr”, 1954) e, noves fora, dribla o estigma da carcaça física em pelo menos uma atuação consagradora: “O Caso dos Irmãos Naves” (1967), de Luiz Sérgio Person.

Em 1980, nas vésperas da guinada para o pornô na Boca do Lixo, aceita o convite de Pedro Carlos Rovái, dono da Sincrocine. Adapta uma novela de Cassandra Rios. Sim, Cassandra Rios. A fancha, autora dos milhares de pulp fictions vendidos com paixão na alta ditadura. Publica os capítulos de “Eu Sou uma Lésbica” na revista “Status”, degenerada como convinha a toda cunilíngue, delinquente máxima.

Para quem ainda não viu “Ariella” – monumento da adolescência de muita gente –, é preciso que se se diga que Herbert tentou ser audacioso, no bem e no mal. Colocou um rápido nu masculino, homens puxando ferro, malhando, derrières roliços que só, um homoerotismo indisfarçado.

Fez vistas grossas à tática de usar cenas com dublês. É assim que Christiane Torloni (Mercedes) passa pelo constrangimento de acharem que são seus os dedos que tateiam, digamos, determinadas instâncias de Nicole Puzzi (Ariella).

Cassandra participa no roteiro. Vai mal das pernas, com transições forçadas. Basta o advogado inescrupuloso – sempre há um, podem reparar – conferir o setor calipígico de Ariella para que a menina desabroche.

Vira fêmea, passa batom, deixa de ser a tímida que caminhava por cemitérios e curtia umas tendências incestuosas com o irmão (Alfonso, Herson Capri), atordoada pela culpa.

Interessante o relacionamento competitivo de Ariella com a mãe (Helena, Laura Cardoso). Beleza, velhice, egoísmo. A vinheta costuma funcionar e poderia ter sido melhor explorada, não fosse a vontade – grande às pampas – de fazer de Ariella um anjo vingador, usando o sexo para destruir as maldições familiares.

Descobre que está sendo enganada. O pai (Rodrigo, Sérgio Hingst) não é pai de fato. E, consequentemente, nem a mãe, nem os irmãos – além de Diogo, Clécio (Denis Derkian). Estranho que a bomba de uma vida inteira tenha sido percebida no bate-papo de Diogo com Clécio. Até os empregados conheciam a história. Sórdido, sórdido mundo este em que Ariella se isolava.

E se isolava como Onan, o bárbaro. Tocando-se sozinha, escrevendo um diário, beijando o espelho, acariciando um indefeso boneco do Snoopy. Na fase liberta, soltinha, tem o convescote com Mercedes, namorada de Diogo. Namorada por namorada, Clécio arranja uma de prestígio: Lúcia Buxy, antigo nome artístico de Lúcia Veríssimo, a Jeitosa do filme de Nello Rossi (1984), em que Herbert participa como ator.

Mercedes e Ariella vivem momentos de propaganda sáfica de margarina: beijos, chuva, um campo repleto de flores amarelas. Poderia ser a folhinha de março de um calendário, desses que as mães gostavam de ter na parede da cozinha. Ao invés de um casal de pulôver e gola alta, duas moças em êxtase, saudáveis e catitas. Como Giselle (Alba Valéria) e a colega guerrilheira (Monique Lafond) na favela da Maré, em momento do cult “Giselle” (1980), de Carlo Mossy.

Aliás, Mercedes fala um dos mais bonitos “eu te amo, porra” do cinema brasileiro. Grande provérbio, dito de passagem, com a graciosidade de ser natural escondendo alguma afetação. As garotas convocam Diogo (Herbert) – o advogado estuprador –, que havia sofrido um golpe da família de Ariella. Nada pessoal, nada de proteger a menina contra o agressor, uma emboscada de negócios. Mordido, Diogo jura contra-atacar, aceita a proposta e firmam um pacto.

O resto de psicologismo aparece nos últimos lances. Mãe e filha se estranhando. Pai – paralítico – assediado e encurralado na fúria hormonal de Ariella. O vulto da garota queimando o diário, andando pela mansão como fantasma vitorioso enquanto sobem os créditos e ficamos sem saber do seu destino.

Escorado pelo sucesso do filme – em que o assistente de direção foi John Herbert Buckup Jr., seu filho –, Herbert volta a Cassandra Rios com “Tessa, a Gata” (1982). Novamente Puzzi, desta vez com Patrícia Scalvi. Fotografia de Carlos Reichenbach, que repetiria a dose em outro longa de John, “Primeiro de Abril” (1984).

No fumacê sombrio e algo luxuoso, “Ariella” transpira uma clima de telefone branco – vertente clássica do cinema, com escadarias, palacetes, vestidos vaporosos. Geralmente usado em comédias leves, é curioso como o molde retorna aqui pelo aspecto da cenografia ricaça. Provavelmente alguma superstição de quem realizou o filme, um amuleto com o passado, já que os telefones brancos eram praxe nos idos dos anos 40. Misture-se uma pitada de drama da Metro, pouca luz, escuridão, a ninfa em estado de graça e cá estamos nós no patropi, como sempre, miscigenando o cânone.

quinta-feira, outubro 19, 2006

As Cariocas


Há exatos quarenta anos “As Cariocas” (1966) chegava aos cinemas do Brasil. Baseado no livro homônimo de Sérgio Porto – o popular Stanislaw Ponte Preta – e dividido em três episódios, o filme buscava imitar no espírito da obra literária a crônica urbana da cidade-síntese do país e mais especificamente das mulheres – ou de tipos femininos – que povoavam a cidade.

“As Cariocas” utiliza três histórias do livro, que possui originalmente seis. Uma quarta história, “A Donzela da Televisão”, viraria em 1970 “Em Busca do Susexo”, restando “A Desquitada da Tijuca” e "A Currada de Madureira", inéditas em adaptações para o cinema.

Aqui coube a Fernando de Barros recriar “A Grã-Fina de Copacabana”; a Walter Hugo Khouri, no ano de “Corpo Ardente”, materializar “A Noiva do Catete”; e a Roberto Santos, uma livre interpretação de “A Desinibida do Grajaú”.

Como o leitor pode perceber, é necessário conhecimento profundo da geografia sentimental e social do Rio de Janeiro (então o estado da Guanabara) para se iluminar melhor as nuances de "As Cariocas". A cidade mudou muito desde então, mas sobrevivem algumas contradições já presentes naquela metade da década de 60: zona norte e zona sul, litoral e subúrbios, ricos e pobres.

E se o livro trazia nestas contradições uma unidade, no estilo irônico e ágil de Sérgio Porto, o filme peca pela desigualdade e desinteresse em alguns momentos. Mesmo que a abertura – com imagens do cotidiano nativo, voice-off do próprio escritor, e a música de Damiano Cozzela e Rogério Duprat – prometa uma viagem ao paraíso cosmopolita.

O primeiro episódio, de Fernando de Barros, pouco acrescenta além da montagem dos fatos narrados no conto “A Grã-Fina de Copacabana”. Quase nada recria, sendo, coincidentemente, também o texto mais fraco do livro: Paula (Norma Bengell), uma dondoca da zona sul, faz acordo com um escroque, Cid (John Herbert), para conseguir o automóvel importado que deseja.

No quesito curiosidade, temos a atriz e ex-apresentadora de filmes (ao lado do gato Zé Roberto), Célia Biar (falecida em 1999), fazendo uma ponta; Copacabana antes dos aterros, com uma pista única de carros; e, ao fundo, no extremo do Posto 6, onde hoje é o Sofitel Rio Palace, a velha Tv Rio (sim, o Rio era uma cidade tão extraordinária que tinha uma emissora de tv sediada na praia!).

Já o episódio de Khouri (grafado como Khoury) destaca-se mais pela investigação estética do tema proposto do que propriamente pela força narrativa. Se a “noiva do Catete” de Sérgio Porto transborda uma espécie de doçura perversa, o olhar de Khouri faz Martinha (Jacqueline Myrna) flanar pela vida sem entender bem por que, administrando situações sexuais com vários amantes, sem os quais sua existência não faria muito sentido.

Como de costume, Khouri estava inspirado, e a movimentação quase silenciosa de Martinha ganha ricos contornos na sua visita a um antiquário (e a abordagem sugestiva por outra garota atraente), e no adágio com o amante mais velho (Sérgio Hingst), dentro do apartamento conjugado onde mora.

Percebida de forma melancólica, a moça do diretor inspira uma pena diferente da concebida pelo autor, que no livro chama-se Luci. Em comum, as duas utilizam-se do recurso de uma tia imaginária para espantar os amantes mais curiosos; além de um certo desprezo recalcado pelo poder fálico dos homens que trafegam (sempre provisoriamente) por sua cama.

O terceiro e último episódio, dirigido por Roberto Santos, é sem dúvida o melhor. Adaptando o texto “A Desinibida do Grajaú”, Roberto reformula a personagem, deslocando Marlene (Íris Bruzzi) para a Penha e inventando um programa inquisidor de tv (já na Tv Globo, recém-inaugurada), no qual Marlene espia seus pecados de garota da zona norte que, ao virar “celebridade”, adquire os hábitos avançados da zona sul, causando conflitos no conservador bairro de origem.

Interessante que, no livro, a personagem faça movimento migratório exatamente contrário: moradora do Leme, se muda para o Grajaú e causa um rebuliço por seu comportamento pra frentex. Quarenta anos passados, com a uniformização cultural generalizada pelos meios de comunicação, talvez essa distância conceitual entre bairros não seja mais tão dramática, tornando o episódio um oportunista sensacionalismo sociológico.

E, prestando-se bastante atenção, a prova mais pitoresca de que quarenta anos são uma vida pode ser encontrada muito além das variações comportamentais da urbe: nos créditos inicias de “As Cariocas”, o produtor da Boca do Lixo paulistana, Antonio Polo Galante, ainda aparece como maquinista, dois anos antes de fundar com Alfredo Palácios a Servicine e realizar quase seis dezenas de filmes.

Sérgio Porto, por outro lado, foi embora desse mundo cedo demais, em setembro de 68 aos 45 anos de idade, e, apesar dos pesares, deve ter ficado satisfeito com o esforço cinematográfico para suas histórias. Começando então a trafegar da crônica para o conto, se tivesse sobrevivido com certeza escreveria mais e melhor ficção, propiciando mais e melhores filmes brasileiros de qualidade com a assinatura do sobrinho da sábia Zulmira, o inesquecível Stanislaw Ponte Preta.