
Incrível como já se passaram vinte anos do alvorecer da década de 90, um tempo em que brasileiros saímos do sonho da democracia -- representado pela eleição do jovem Fernando Collor de Mello, votado pela parcela mais conservadora da população -- e mergulhamos no pesadelo da falência, da bancarrota, logo no início de 1990 -- dia 16 de março -- quando a ministra Zélia Cardoso de Mello, de apenas 37 anos, anunciou que o governo congelaria grande parte do dinheiro das cadernetas de poupança e outras aplicações financeiras.
Tal medida provocou onda de enfartes, suicídios e emigração para o exterior. O país agonizava. Collor não estava para brincadeira e naquele mesmo 16 de março anunciou o fim da Embrafilme, a grande alavanca de produção e distribuição do cinema brasileiro.
Coisas ruins pode-se dizer sobre a Embra -- ainda que parcela dos impropérios sejam somente o velho preconceito da elite nacional contra seu próprio cinema. Houve desperdício de dinheiro, injustiças e compadrio regional. Mas o que é perfeito? No final das contas, o resultado de vinte anos da empresa correspondeu a toda era de ouro da produção cinematográfica no país.
Infelizmente o princípio do saneamento pela “destruição” foi prática corrente naquele início da década de 90, influenciada pela vertigem de que o país modernizava-se -- quando, na verdade, andava pra trás.
E desse Brasil esquisito, autofágico, nasceram algumas obras que servem de instantâneo do seu tempo. “Não Quero Falar Sobre Isso Agora” (1991), de Mauro Farias, tem o melhor mote: em meio à recessão, ao caos, Daniel O’Neil (Evandro Mesquita) quer sobreviver no Rio de Janeiro, em plena zona sul, trabalhando muito pouco. Com vagos sonhos de tornar-se escritor, alimenta um ânimo beatnik, bastante interditado pela realidade carioca que o cerca.
Falta de grana, tráfico de drogas, amigos e amores ignorantes. Tudo o que quebraria a espinha da felicidade no Rio, a partir de então, se apresenta a O’Neil como em uma corrida de obstáculos. E ele, bom carioca, não perde o otimismo atávico, ou aquilo que o psiquiatra austríaco Viktor Frankl diagnosticou como “sentido da vida” -- a integridade de seu espírito e objetivos diante de adversidades e percalços da existência.
À primeira vista, Daniel O’Neil pode soar como uma releitura atualizada de Dino -- o personagem de Hugo Carvana em “Vai Trabalhar Vagabundo (1973). Embora tenham ponto em comum -- a carioquice extrema, que faz mais pelo imaginário positivo da metrópole do que mil campanhas da Riotur -- a verdade é que a angústia imediatista em “Não Quero Falar Sobre Isso Agora” é muito maior do que em “Vai Trabalhar Vagabundo”.
O segundo olhava o malandro institucionalizado, quase burocrata da malandragem. Já “Não Quero Falar” transforma o arquétipo em elemento de classe-média, sem outra saída possível para sonhos e aspirações, naquele momento histórico, senão a marginalidade.
À reboque de Daniel O’Neil estão vários clichês, expressões e idiossincrasias do período. O trafica Macula, que trata o escritor de “play”, simplificação de “playboy”; a amiga gorda, generosa e infeliz, Meg (Eliana Fonseca), que aceita Daniel como paliativo para a solidão; a namorada Bárbara, adepta de discursos pseudo-filosóficos, repletos de auto-ajuda e vitimizações; além do mergulho do próprio Daniel -- garoto bem nascido -- no tráfico, até que surja oportunidade de se mandar para os Estados Unidos.
Sob todos os momentos da comédia paira a sombra de precariedade, de arranjo. Habilidoso em várias artes, mestre em nenhuma, Daniel O’ Neil é o guerreiro em sua essência. E no Brasil de 1991 acumulou kikitos em Gramado -- além de uma visão complacente da crítica. Até a escolha de Evandro Mesquita para o papel mereceu saudações otimistas: saído da Blitz, com uma carreira solo que não engatava, Mesquita provava novamente ser bom ator, fazendo dupla curiosa com a paulistana Marisa Orth, em versão desmiolada balneária.
O que ninguém poderia imaginar é que "Não Quero Falar Sobre Isso Agora" se tornaria um clássico, original e premonitório. “Enquanto houver bambu, tem flecha”, escreve carta para Meg. O’ Neil deve ainda vagar por Copacabana, de golpe em golpe, quitinete em quitinete, buscando alguma coisa. E, enquanto procura, sofre e se diverte um bocado.
Tal medida provocou onda de enfartes, suicídios e emigração para o exterior. O país agonizava. Collor não estava para brincadeira e naquele mesmo 16 de março anunciou o fim da Embrafilme, a grande alavanca de produção e distribuição do cinema brasileiro.
Coisas ruins pode-se dizer sobre a Embra -- ainda que parcela dos impropérios sejam somente o velho preconceito da elite nacional contra seu próprio cinema. Houve desperdício de dinheiro, injustiças e compadrio regional. Mas o que é perfeito? No final das contas, o resultado de vinte anos da empresa correspondeu a toda era de ouro da produção cinematográfica no país.
Infelizmente o princípio do saneamento pela “destruição” foi prática corrente naquele início da década de 90, influenciada pela vertigem de que o país modernizava-se -- quando, na verdade, andava pra trás.
E desse Brasil esquisito, autofágico, nasceram algumas obras que servem de instantâneo do seu tempo. “Não Quero Falar Sobre Isso Agora” (1991), de Mauro Farias, tem o melhor mote: em meio à recessão, ao caos, Daniel O’Neil (Evandro Mesquita) quer sobreviver no Rio de Janeiro, em plena zona sul, trabalhando muito pouco. Com vagos sonhos de tornar-se escritor, alimenta um ânimo beatnik, bastante interditado pela realidade carioca que o cerca.
Falta de grana, tráfico de drogas, amigos e amores ignorantes. Tudo o que quebraria a espinha da felicidade no Rio, a partir de então, se apresenta a O’Neil como em uma corrida de obstáculos. E ele, bom carioca, não perde o otimismo atávico, ou aquilo que o psiquiatra austríaco Viktor Frankl diagnosticou como “sentido da vida” -- a integridade de seu espírito e objetivos diante de adversidades e percalços da existência.
À primeira vista, Daniel O’Neil pode soar como uma releitura atualizada de Dino -- o personagem de Hugo Carvana em “Vai Trabalhar Vagabundo (1973). Embora tenham ponto em comum -- a carioquice extrema, que faz mais pelo imaginário positivo da metrópole do que mil campanhas da Riotur -- a verdade é que a angústia imediatista em “Não Quero Falar Sobre Isso Agora” é muito maior do que em “Vai Trabalhar Vagabundo”.
O segundo olhava o malandro institucionalizado, quase burocrata da malandragem. Já “Não Quero Falar” transforma o arquétipo em elemento de classe-média, sem outra saída possível para sonhos e aspirações, naquele momento histórico, senão a marginalidade.
À reboque de Daniel O’Neil estão vários clichês, expressões e idiossincrasias do período. O trafica Macula, que trata o escritor de “play”, simplificação de “playboy”; a amiga gorda, generosa e infeliz, Meg (Eliana Fonseca), que aceita Daniel como paliativo para a solidão; a namorada Bárbara, adepta de discursos pseudo-filosóficos, repletos de auto-ajuda e vitimizações; além do mergulho do próprio Daniel -- garoto bem nascido -- no tráfico, até que surja oportunidade de se mandar para os Estados Unidos.
Sob todos os momentos da comédia paira a sombra de precariedade, de arranjo. Habilidoso em várias artes, mestre em nenhuma, Daniel O’ Neil é o guerreiro em sua essência. E no Brasil de 1991 acumulou kikitos em Gramado -- além de uma visão complacente da crítica. Até a escolha de Evandro Mesquita para o papel mereceu saudações otimistas: saído da Blitz, com uma carreira solo que não engatava, Mesquita provava novamente ser bom ator, fazendo dupla curiosa com a paulistana Marisa Orth, em versão desmiolada balneária.
O que ninguém poderia imaginar é que "Não Quero Falar Sobre Isso Agora" se tornaria um clássico, original e premonitório. “Enquanto houver bambu, tem flecha”, escreve carta para Meg. O’ Neil deve ainda vagar por Copacabana, de golpe em golpe, quitinete em quitinete, buscando alguma coisa. E, enquanto procura, sofre e se diverte um bocado.

