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sábado, setembro 17, 2005

Minha Namorada


A Mapa Filmes é um capítulo do cinema brasileiro ao qual terei que retornar futuramente, em razão de sua importância. Basta dizer, no momento, que dela faziam parte Glauber Rocha, Paulo César Saraceni, Walter Lima Jr. e Zelito Viana. Este último, que assinou a produção de muitos dos clássicos cinemanovistas, dá o ar da graça como co-diretor e co-produtor de “Minha namorada”, em 1970, dividindo os créditos com Armando Costa – falecido criador do Teatro Opinião, ao lado de Ferreira Gullar e Vianinha.

Chama atenção no filme a abordagem existencialista para o trio formado por Marcelo (ele mesmo, o cantor que fez sucesso nos anos 80 com “Abre Coração”), Pedrinho Aguinaga (o galã cafa, o “homem mais bonito do Brasil”, ex-marido de Monique Evans) e Laura Maria (que fim levou Laura Maria?).

Fernanda Montenegro e Jorge Dória são os pais da menina, que anda sempre com aquele sorriso largadão no rosto, atacada por sucessivas crises de larica após o consumo de baseados com os amigos.

Digo que a abordagem chama atenção porque a inclinação natural de um espectador de filmes sobre adolescentes é a de esperar um triângulo amoroso comum, cercado de dramas comuns, embalados ocasionalmente por um zoom na paisagem (então) paradisíaca e por músicas que acentuassem os conflitos familiares. O tema da generation gap sempre rendeu muito, “Minha namorada” poderia ser mais um exemplo.

Mas o que se ouve é Gato Barbieri, em recriação da “Minha namorada”, de Carlinhos Lyra e Vinícius; “Marinheiro Só” de Caetano, no violão de Marcelo; e os diálogos que aprofundam a interação dos garotos entre si – principalmente Marcelo (Pedro) e Laura (Maria).

O imigrante de Nazaré das Farinhas, interior da Bahia, se vê refletido na cocota, noiva de longa data de Fernando (Aguinaga). Daí para frente, começam a ter a compreensão de que o lance é esse, é não deixar cair. “Cuquinha saudável, hein?”, Pedro diz a Maria, depois de tomá-la das mãos do playboy.

Apaixonados, Pedro e Maria caminham, transam, a mãe descobre a cartela de anticoncepcionais guardada na escrivaninha, enquanto o ex-noivo desbunda com Jorge Dória (Aldo), os dois caidões no sofá, de tanto whisky e charuto. A impressão que me passa é a de que o roteiro criou em Montenegro (Carminha) e Dória, as figuras de pai e mãe atípicos, cabeças feitas, como pretendia-se da classe média consciente e elitizada do Rio daquele tempo. Tudo se resolve com papos solidários, regados a carinho e vontade de ouvir.

Neste aspecto, talvez o filme perca em credibilidade para o público mais ranzinza, pois em 1970 a vida e as relações familiares no país estavam muito longe deste cenário, que lembra bem mais os consultórios psicanalíticos de Nova Iorque do que os porões suados da Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, onde torturavam-se os presos políticos. Se a lei do divórcio só foi aprovada em 1977, imaginem o quanto devia ser anti-católico para um pai ou mãe ver a filha desgraçar-se no mundo, perder a virgindade e utilizar métodos contraceptivos.

Mas apelar para a inventividade do roteiro, cobrando que fosse à moda dos neo-realistas, rodado nos escombros da sociedade subdesenvolvida e alienada pelo regime militar, seria de uma burrice inimaginável. Cinema pode ser revolução, mas também pode ser só diversão.

“Minha namorada” faz parte de uma vertente artística respeitável por si só. Observa delicadamente os jovens da classe média que iam às aulas de francês, voltavam pra casa a pé, tomavam sorvete e desbundavam entre um happening e outro. Quando os autores optam por tratar os meninos de igual para igual, sem debilizá-los, respeitando a densidade do que sentem, acertam em cheio. E o final feliz, como há, sugere a promessa de um encontro ideal, unindo o cabeludão migrante e a mocinha carioca, figuras atemporais de uma juventude eternizada.