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quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Sobre Lula, o Filho do Brasil


Grande parte do que se escreve sobre arte no Brasil nada tem a ver com arte.‭ ‬Tal como em uma sessão de psicanálise lacaniana,‭ ‬precisamos investigar o discurso e descobrir,‭ ‬por trás das palavras,‭ ‬seu real manifesto.‭ ‬Precisamos conhecer a quem o crítico deseja agradar,‭ ‬qual‭ ‬status quo necessita manter,‭ ‬a qual grupo de pressão ou panelinha pertence.‭ ‬E que relação terá isso com o objeto analisado‭? ‬Praticamente nenhuma.‭

‬Bons escribas e bons pesquisadores deveriam engolir o choro quando se deparam com algo que vai contra seus interesses pessoais ou profissionais,‭ ‬contra suas posições políticas e vínculos de amizade.‭ ‬Mas isso é raríssimo no país.‭

‬E não pensem que organizo aqui uma pregação de liberdade absoluta.‭ ‬Até porque Sigmund,‭ ‬fumando‭ ‬Reinas Cubanas às quartas-feiras em um gabinete com seus pares,‭ ‬sairia de lá com o vaticínio de que o absoluto,‭ ‬infelizmente,‭ ‬não existe.‭ ‬O que creio ser possível é o pensamento honesto,‭ ‬a idéia‭ ‬--‭ ‬e não a conveniência,‭ ‬o imediatismo,‭ ‬as relações públicas‭ ‬--‭ ‬como norte de trabalho.

‬Na época do lançamento de‭ "‬Lula,‭ ‬o Filho do Brasil‭" (‬2009‭) ‬nunca antes na história deste país críticos e opinião pública em geral se distanciaram tanto da análise do objeto artístico em si,‭ ‬para travarem um duelo de máscaras e oportunismos.‭ ‬Percebam que oscilamos entre o terrorismo‭ ‬à la Regina Duarte e a subserviência respeitosa à figura do presidente,‭ ‬o que,‭ ‬em ambos os casos‭ ‬--‭ ‬ridiculamente‭ ‬--,‭ ‬não tinha ligação com a obra de Fábio Barreto.

‬Zumbaieiros consideraram o filme‭ "‬excelente‭" ‬e respiraram por alguma sinecura estatal.‭ ‬Outros confundiram sua ojeriza ao político‭ (‬e ao que ele representa‭) ‬com ideal estético.‭ ‬Também criou-se a terceira via dos moralistas‭ (‬sempre eles‭!)‬,‭ ‬que acusaram o filme de proselitismo oficial em ano de eleição,‭ ‬apesar de não ter um centavo de verba pública.‭ ‬Quase ninguém pareceu interessado no produto,‭ ‬mas sim em debater sua repercussão‭ (‬real ou imaginária‭)‬.

‬Despidos os véus da histeria,‭ ‬as camadas e camadas de hipocrisias inúteis,‭ "‬Lula,‭ ‬o Filho do Brasil‭" ‬não é tão ruim.‭ ‬Revisto em‭ ‬blu-ray,‭ ‬melhora.‭ ‬Fosse Itamar Franco,‭ ‬grande parte dos espectadores enxergaria ali minúcias de cinema popular ingênuo:‭ ‬desde o arremedo‭ ‬kitsch de‭ “‬Vidas Secas‭” ‬até a pena calculada que sentimos do garoto,‭ ‬refém da maldade de Aristides‭ (‬Milhem Cortaz‭) ‬e salvo pelo incondicional amor de Dona Lindu‭ (‬Glória Pires‭)‬.

‬Édipo mal resolvido,‭ ‬parece‭ “‬De Charcot a Bion,‭ ‬Uma Viagem ao Maravilhoso Mundo da Psicanálise‭” ‬--‭ ‬desfile que nenhuma escola de samba levou à Sapucaí.‭ ‬A cena do pai bebendo cachaça,‭ ‬ao lado do menino choroso no colo da mãe,‭ ‬define em um segundo toda a infância de Luiz Inácio.‭ ‬Guri batuta sofre,‭ ‬vende laranjas e uma professora zelosa‭ (‬Lucélia Santos‭) ‬quer até adotá-lo.‭ ‬A mãe impede,‭ ‬diz que tem condições de manter sozinha os filhos.

‬Acordamos na parte em que o protagonista cresce e vira um mocetão garboso.‭ ‬1958,‭ ‬Lula vai ao cinema ver‭ “‬O Noivo da Girafa‭”‬,‭ ‬de Amácio Mazzaropi.‭ ‬Todo este adágio da juventude,‭ ‬o flerte com Lourdes‭ (‬Cléo Pires‭)‬,‭ ‬a morte da esposa grávida e a melancolia em que o viúvo trafega,‭ ‬são momentos preciosos.‭ ‬Cléo e Glória Pires,‭ ‬semelhança física evidente,‭ ‬representando dois pólos de amor,‭ ‬guardam uma delicadeza tosca.

‬Gafe cronológica,‭ ‬às vésperas do AI-5,‭ ‬no final de‭ ‬68,‭ ‬o casal baila ao som de‭ “‬Você‭”‬,‭ ‬música de Tim Maia lançada no lp de‭ ‬71.‭ ‬A canção,‭ ‬depois da tragédia,‭ ‬torna-se um fantasma que persegue o rapaz até o desenlace com Marisa Letícia‭ (‬Juliana Baroni‭)‬.

‬Conhecendo Marisa,‭ ‬algo de esquisito se passa.‭ ‬A dicção de Rui Ricardo Dias,‭ ‬o protagonista na fase adulta,‭ ‬modifica-se.‭ ‬Aparecem e desaparecem,‭ ‬por encanto,‭ ‬aquela língua presa e aquele tom gutural que toda criança lembrará, no futuro, de ter imitado na escola.‭ ‬Algo na linha do‭ “‬brasileiras e brasileiros‭”‬,‭ que os ‬fiscais do Sarney repetiam com pachorra,‭ ‬após ouvirem os discursos do inflacionário presidente na tv.‭

Crescendo no sindicalismo,‭ ‬a premissa de humanizar Lula se esvanece.‭ ‬Temos aquele herói forçado,‭ ‬de anedota.‭ ‬Bastam umas cinco frases simples,‭ ‬gritadas em assembléias que mais parecem reuniões de condomínio,‭ ‬para que seja ovacionado.‭ ‬O nome urrado,‭ ‬punhos como dos Panteras Negras nas Olimpíadas do México.‭ ‬Vai daí a escapadinha para se ver no filme um toque chucro,‭ ‬de ufanismo.‭

Barreto se atrapalha quando abandona o homem e flerta com o mito.‭ ‬Quando troca Freud por Marx.‭ ‬Embora não chegue aos dias de hoje‭ (‬preocupação excessiva em desculpar-se‭)‬,‭ ‬é obrigado a mostrar como Lula chegou a ser Lula,‭ ‬o que inclui greves,‭ ‬comícios.‭ ‬E seu ar messiânico nos deixa com saudades do indivíduo,‭ ‬que poderia continuar a ser retratado sem a mão pesada e contraditória do didatismo fatalista em que mergulha.

Curioso é que o Lula‭ “‬anônimo‭” ‬lembrava uma daquelas figuras de Ozualdo Candeias,‭ ‬ou um daqueles transeuntes da Boca do Lixo.‭ ‬Quase podíamos vê-lo na Major Sertório,‭ ‬na Bento Freitas.‭ ‬Vá lá que as moças em torno possuem cara de figurantes escaladas por preparadores de elenco,‭ ‬sem o encanto genuíno das‭ ‬lókis de uma antiga noitada de sexta-feira na capital.

Lula preso e mãe doente,‭ ‬a crise extrema devolve por um triz a humanidade ao agente histórico,‭ ‬mas o quiprocó acaba.‭ ‬Um resquício de Emílio Fernández,‭ ‬fora de lugar.‭ ‬Eu,‭ ‬por exemplo,‭ ‬queria ver Lula sem dormir,‭ ‬tensão a pino,‭ ‬nos bastidores do debate contra Collor em‭ ‬89.‭ ‬Queria vê-lo em meio à família perdendo três eleições.‭ ‬E,‭ ‬no final,‭ ‬a alegria íntima da vitória de‭ ‬2002.

‬Aqui o parênteses:‭ ‬e uma cinebiografia de Leonel Brizola‭? ‬E outras dos presidentes militares‭? ‬Quero ver Figueiredo projetado em tela grande,‭ ‬jogando peteca em Copacabana.‭ ‬Quero ver Brizola apavorado no Hotel Liberty,‭ ‬em Buenos Aires,‭ ‬achando que iam assassiná-lo no meio da madrugada.‭ ‬Que tal Adhemar de Barros na cama da amante,‭ ‬no Rio,‭ ‬discutindo para onde levaram o cofre‭? ‬Políticos também fascinam e merecem filmes,‭ ‬que retratem suas vidas.‭ ‬E críticos que enxerguem nesses filmes qualquer coisa além da oportunidade de puxa-saquismo ou oposicionismo explícitos.

‬O lugar certo para‭ “‬Lula,‭ ‬o Filho do Brasil‭” ‬só estará onde o poder não mais existir,‭ ‬quando seus desdobramentos de afronta ou reverência finalmente significarem nada.‭ ‬Isso porque toda a elipse de representações,‭ ‬de falsa surpresa,‭ ‬de ponderações indignadas são‭ ‬--‭ ‬diria La Lupe‭ ‬--‭ ‬puro teatro.‭ ‬Cães ora ladram,‭ ‬ora botam rabinhos entre as pernas.‭ ‬Só a aventura fílmica brasileira segue e a imagem permanece.
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