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segunda-feira, novembro 27, 2006

Os Machões


Espécie de "Shampoo" brasileiro - três anos antes do filme de Hal Ashby se tornar clássico instantâneo dos anos 70 - "Os Machões" (1972) explora uma realidade que, naquela época distante, já era febre entre as mulheres: os feéricos salões de cabeleireiro, visitados como continuação da sala de estar, onde o cabelo, a unha e os cremes viram nobres justificativas para a convivência - pacífica ou não - entre os seres do sexo feminino.


Como bons malandros cariocas, o trio Didi (Reginaldo Faria), Telecão (Erasmo Carlos) e Juca (Flávio Migliaccio) tem por este sexo feminino aquela espécie de furor que Nelson Rodrigues descreveria como iracundo, quase obsessivo, antecessor em cinco minutos à gênese da humanidade. Certo dia conhecem uma jovem mona, que narra as maravilhas da convivência nos salões de beleza, cheios de lindas mulheres nas suas dependências. Basta para que os amigos decidam imediatamente entrar para a profissão de cabeleireiro.

As comédias de Reginaldo Faria têm a qualidade de prenderem a atenção do espectador do início ao fim; com "Os Machões" não é diferente. Extremamente cuidadosos na produção, os irmãos Faria usam e abusam do auxílio luxuoso da trilha-sonora de Erasmo Carlos e da onipresente e paradisíaca cidade, dessa vez emprestando um deslumbrante apartamento no alto da Avenida Niemeyer, onde Erasmo é visto dormindo, assediando a arrumadeira e consumindo ovinhos de codorna para melhor desfrute da vida.

Reginaldo (repetindo o personagem Didi, de "Pra Quem Fica, Tchau!") poderia rivalizar em beleza com o trintão Warren Beaty de "Shampoo", e não faz por menos, se envolvendo com mãe (Neuza Amaral) e filha (Kate Hansen, como diria Ibrahim Sued, "linda de morrer"), além de metade da população do estado da Guanabara.

Juca, o terceiro amigo, aos poucos vai se libertando do oportunismo e encontrando seu verdadeiro self. Se os outros dois acompanhassem o conflito sofrido por ele, o filme ganharia, além de humor, também uma dose maior de inteligência. Didi chega perto, flerta com o professor gay, mas para tristeza de muitos, mantém até o fim o armário trancado consigo dentro.

Quem gosta de moda conseguirá apreciar (sob o patrocínio de Helena Rubinstein) um pouco do funcionamento dos salões e das tendências de beleza, apesar do tom um tanto caricato. Enquanto correm atrás de aprenderem o ofício para melhor conhecerem "as madames", os três rapazes fazem uma incursão bem documentada por locais datadíssimos, que na tenra infância da geração entre 25-35 anos de hoje ainda existiam.

E se todas as gerações que cresceram no Rio de Janeiro, a partir dos anos 80, tomarem como referência essas comédias urbanas cariocas do passado, concordarão de vez com a máxima saudosista de que "Ipanema era só felicidade". Realidade ou idealização, vale lembrar que a dolce vita da Zona Sul da antiga capital do país é quase um lugar-comum nas manifestações culturais brasileiras do século XX.

De Reginaldo Faria a Mozael Silveira, os diretores populares dos anos 70 souberam capitalizar esse paradigma com maestria. No caso de Reginaldo, transformando histórias divertidas como "Os Machões" e "Pra Quem Fica, Tchau!" em revistas de atualidades da metrópole, apresentadas na medida certa de um produto consumido pelas grandes massas. Não é de se espantar que pareçam ingênuas por um lado, e por outro envelheçam cada vez melhores e mais exuberantes.

sábado, setembro 16, 2006

Ritmo Alucinante


Nelson Rodrigues diria o seguinte: “Dez anos, amigos, não são dez dias!” Portanto, todos os descontos devem ser dados a “Ritmo Alucinante” (1975), filme-registro do longínquo festival de rock realizado no campo do Botafogo, sob o patrocínio dos cigarros Hollywood, em fevereiro de 1975.

Quase dez anos exatos antes do primeiro Rock in Rio (janeiro de 85) colocar milhares de pessoas assistindo a dezenas de shows nacionais e estrangeiros, o modesto festival de 75 não poderia ser mais improvisado: somente artistas nacionais, um espaço pequeno encravado na Zona Sul do Rio, e uma sensação de heroísmo no ar, do tempo em que Rita Lee dizia que “roqueiro brasileiro tinha cara de bandido”.

Bandidos ou não, lá estavam a própria Rita, na flor dos 27 anos – com o grupo Tutti Frutti –, a banda Vímana (de Ritchie, Lobão e Lulu Santos, quase imberbes), Erasmo Carlos, Celly Campello, O Peso e, finalizando, Raul Seixas, em uma performance espetacular.

As lendas que envolvem a preparação e execução do projeto são inúmeras. Nos quatro sábados em que durou o espetáculo aconteceu de quase tudo: um desabamento no palco, uma chuva torrencial e, principalmente, o longo e heróico discurso de Raul a favor da Sociedade Alternativa, em pleno governo autoritário do general Ernesto Geisel.

Grande parte disso foi registrada no filme e está pronta a ser apreciada. Uma óbvia inspiração de “Woodstock” – o documentário de Michael Wadleigh, feito seis anos antes – é evidente, e a chuva deve ter contribuído ainda mais para que o ouriço fosse lembrado. Mas não se iludam: o que “Ritmo Alucinante” mostra é a luta comovente de jovens do terceiro mundo, em um país fechado e paranóico, na tentativa de respirarem vida e criarem uma cultura única, de referências globais mas com o sabor de coisa local, bem brasileira.

Essa questão acentua-se nas entrevistas que permeiam os números musicais, quando Scarlet Moon (futura esposa de um dos músicos presentes, Lulu Santos), conversa com os artistas e busca contextualizá-los para o espectador. Erasmo Carlos, por exemplo, surge reclamando da censura, de chapéu negro e cabelos compridos, sentado no meio do campo da Rua General Severiano. Logo depois Celly Campello está ao lado dele, ainda com um ar jovial de boa moça, contando um pouco da sua carreira para uma atenta (e também muito mocinha) Scarlet.

A parte principal é ocupada pelas apresentações: Rita Lee aparece como um Ziggy Stardust renascido, inclusive nos trejeitos; o Peso e Vímana estão na sintonia do público; e Celly e Erasmo não ficam mal em roupagem setentista. Mas quase tudo parece uma preparação para Raul Seixas – quando o filme termina apoteótico.

Somente por adendo, algumas fontes citam que o Terço e os Mutantes (de Sérgio Dias) se apresentaram, mas eles não são mostrados – ao menos não na antiqüíssima versão lançada em Vhs que possuo. Uma boa razão para isso pode ter sido a chuva, que espantou técnicos e público do local no segundo sábado de shows – e que quase fez com que a continuação na semana seguinte fosse cancelada.

Dirigido por Marcelo França, realizado com duas câmeras (uma fixa e outra em movimento) e imagem muito granulada, “Ritmo Alucinante” talvez seja o mais importante registro do rock brasileiro nos anos 70. Depois maiores e menores festivais vieram até que, em 1985, o país entrasse definitivamente na rota mundial deles. Só que os tempos eram outros e não coube ao cinema, mas à televisão, registrar o momento histórico.

E sob a perspectiva de 2006, quando o Brasil exporta seu know-how na realização de mega-eventos e até os Rolling Stones se apresentam em plena Praia de Copacabana, vale a pena lembrarmos da época em que – no bairro vizinho, Botafogo – tudo foi tão mais difícil e incerto. Graças ao faro documental de alguns, a história começava a ser contada, para deleite dos sortudos presentes e das futuras gerações.