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quinta-feira, outubro 12, 2006

Prova de Fogo


“Prova de Fogo” (1980) é um pequeno filme sobre um grande tema. Dirigido pelo então muito jovem Marco Altberg – de apenas vinte e sete anos – a história narra a vida de Mauro (Pedro Paulo Rangel), imigrante nordestino, como tantos outros no Rio de Janeiro, que divide seu tempo entre a faculdade, o trabalho como bancário e uma missão espiritual em um centro de umbanda.

Dito assim, o filme parece banal. É só impressão. Riquíssimo, tomado por elementos da cultura brasileira, o roteiro de Agnaldo Silva e do próprio Altberg – baseados em histórias de Névio Ramos – cria uma atmosfera tão favorável ao personagem e à fé, que fica difícil não simpatizarmos com sua busca. Goste-se ou não desse tipo de religiosidade, os cânticos (pontos) e as ambientações são de uma beleza incrível; também a caracterização de personagens como a mãe-pequena Sandra (Maitê Proença) e o pai-de-santo João (Ivan de Almeida).

No início, Mauro aparece perturbado por visões, sonhos. Uma amiga, Wanda (Lígia Diniz), sugere que ele visite um terreiro. O rapaz acata a sugestão e passa a freqüentar o local, avisado de que necessita “se desenvolver”. Logo, a mãe de santo Lurdes (a cantora Elba Ramalho) tem um surto de loucura e eles precisam de uma nova pessoa para comandar a “casa”, a “terra” – algumas das diversas maneiras como se nomeia o espaço de cultos ao longo do filme.

Mauro procura o recomendado João em uma favela. João diz que já comandou duas “terras”, reluta um bocado, mas acaba aceitando. Dali em diante temos a rotina do terreiro, de Mauro e de Sandra, que nutre um amor platônico pelo rapaz. Todos são muito pobres, mas Mauro é um obstinado e consegue conciliar estudo, trabalho e religião. Além do “Boiadeiro”, passa a “receber” também a “Ciganinha”, entremeado por dramas populares, como a obsessão de um homem de meia-idade, homossexual conflituoso, por Esther, sua esposa infiel (a doidivanas, por sinal, é a impressionante Marta Anderson, dos clássicos “A Prisão” e “Perdidos no Vale dos Dinossauros”).

Quem conhece um pouco os rituais de umbanda e espiritismo vai perceber que a casa, anteriormente guiada por um caboclo, com a chegada de João passa a ser orientada por um preto-velho. E são tantos os elementos nativos presentes que fica difícil enumerá-los: no cabeleireiro de subúrbio onde Sandra trabalha, uma mulher conta sobre seu amante décadas mais novo; o colega de Mauro no banco (Helber Rangel) tem um caso sadomasoquista com outro rapaz, e pede conselhos amorosos à Ciganinha para “amansá-lo”.

Uma das coisas mais interessantes em “Prova De Fogo” é a utilização do segundo plano nas cenas, onde sempre parece estar acontecendo alguma atividade paralela ao foco principal. Como é passado em grande parte dentro do barracão, o recurso enriquece bastante o filme – além de gerar piadas engraçadas, como o rapaz gordo que na consulta ao pai-de-santo ouve que “se não parar de comer, num adianta não, misifio!”

Um conflito entre Mauro e João não demora a acontecer por conta dos temperamentos opostos e, em uma noite, quando o pai de santo insiste em prosseguir o culto madrugada adentro baixando Exus, os dois se enfrentam, cada um querendo provar ao outro que é mais forte: “Sunssê num tá com santo coisa nenhuma!” – “É sunssê qui num tá!” – o duelo parece dar empate, Pedro Paulo Rangel no auge da coisa é substituído na cena por um boneco, em “efeito especial” tosco; e João, possuído sabe-se lá por qual entidade, tenta se esfaquear e depois violenta a jovem Sandra, que veste nele a roupa do Boiadeiro, sonhando estar com Mauro.

Mas Mauro prefere Wanda a ela. O rapaz termina a faculdade, vai para Alagoas “fazer cabeça” e quando volta ao Rio, os dois se casam. Diferente dos colegas, que vão trabalhar em uma empresa estatal no Centro da cidade, ele se muda para um lugar muito longe (a bela Sepetiba, que em 1980 devia ser outro planeta), e lá abre sua própria “casa”, tornando-se famoso.

Se formos enxergar o personagem com olhos descrentes, vamos dizer que é um sonhador, um estereótipo que só se sustenta na ficção idealizada -- apesar dos percalços, seu destino está fadado a dar certo. Mas, longe disso, em sua simplicidade obtusa, Mauro traz no aparato religioso a noção de que todos precisamos de uma razão para viver – e a dele, por circunstância, foi o desenvolvimento espiritual.

Ao não buscar questionamentos mais sólidos, “Prova de Fogo” permanece na mente do espectador pelo estilo de sinceridade ingênua, onde qualquer estilização intelectual é envolvida pela força do assunto tratado – e a curiosidade que, involuntariamente, provoca. Uma produção da LC Barreto, não faria feio se fosse relançado nos cinemas – apenas pelo gosto de ouvirmos sua linda trilha-sonora remasterizada em Dolby Digital 5.1.