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sexta-feira, junho 27, 2008

Onda Nova


A exemplo do que aconteceu em “O Olho Mágico do Amor” (1981), José Antonio Garcia e Ícaro Martins, jovens mancebos egressos da ECA-USP, correram à Boca para o financiamento de “Onda Nova” (1983) e do posterior “Estrela Nua” (1984).

By Olympus Filmes, de Adone Fragano, “Onda Nova” consagrou-se como colcha de retalhos entre referências pop e udigrudi, repleta de séguizo, rodado com a saliência de quem está se divertindo no recreio e plantando um dane-se aos que não entendem o porquê de tanta “pornografia”.

Aliás, é preciso que falemos claramente deste aspecto, já que causa espanto os espectadores atuais ainda se assustarem com cenas que na escala Richter da explicitude não chegam nem a 0,1% do que os delírios de Passolini causaram há mais de 30 anos em platéias mundo afora.

“Onda Nova” usa o mote de narrar as peripécias do “Gaivotas Futebol Clube”. Um time feminino de futebol, que estréia com a presença dos corinthianos Casagrande e Wladimir no lado adversário, trajando vestidos de chita e cofiando as trancinhas.

Poderíamos dizer, pomposamente, que o filme articula um debate sobre o masculino e o feminino. A troca de papéis é uma constante, trabalhando com escracho, malícia e joie de vivre imensos as toscas convenções sociais de nossa provinciana brasilidade.

Por outro lado, podemos afirmar, igualmente, que se trata de um desbunde oitentista, em que mullets e perfumes Gelatti plantam a cenografia para a sucessão de gags da dupla de diretores-roteiristas.

O nonsene é vital. No meio do nada, perguntas e declarações absurdas, como a da patricinha Rita que cisma em querer encontrar um famoso diretor paulistano.

“Você conhece o Walter Hugo Khouri? Já ouviu falar? Cineasta. Tava precisando falar com ele.” Minutos depois, a hilária repetição após um papo sem qualquer conexão com o assunto: “Escuta, Lili, você conhece o Walter Hugo Khouri?”

A Lili em questão é Lindóia, goleira da equipe, personagem de Cristina Mutarelli – produtora do curta “A Estória de Clara Crocodilo” (1978), baseado na música do messias dark, Arrigo Barnabé –, e que também assina a direção de arte.

Lindóia – assim batizada porque a mãe (Patrício Bisso. Sim, leitor, Patrício Bisso, feminíssimo em clima absoluto de Doris Day, encarna a mãe de Lili) foi passear na estação de águas homônima para se recuperar de gravidezes problemáticas do passado. Já o pai de Lili (Luiz Carlos Braga) segue o hobby do tricô por recomendações médicas. E ambos, pappys e mammys, são terminantemente contra os modos masculinizados da filha, tentando impedi-la de jogar futebol.

Mal sabem que Lili, rechonchuda e desbocada, vive um trisal com Ruy e Marcelo. As cenas desta “trilogia” não são mostradas, mas os encontros de vários casais – entre eles Caetano Veloso vivendo o próprio, com uma amiguinha – no táxi de Cyda Moreira rendem um bocado. Beijos, sarros e nus gays de Ruy e Marcelo complementam este rodeio de conflitos que pela descontração – corajosa, diga-se de passagem – entraram para o raro, e ainda a ser trabalhado, imaginário GLBT do cinema brasileiro.

Importante notar que Camuratti, Mutarelli, Bisso, Moreira e Zimmerman são figuras constantes nas três parcerias cinematográficas de Garcia e Martins – a primeira participou, ainda, das outros duas: “O Olho Mágico...” e “Estrela Nua”.

Em “Onda Nova”, além dos “democratas corinthianos” Casagrande e Wladimir, há a presença de Osmar Santos – narrando, é claro, um confronto do Gaivotas F.C. –, da diva-escritora Edla Van Steen, do onipresente Sergio Hingst (dirigente do clube) e de José Antonio Garcia, naquele look Arnaldo Batista, quase irmão gêmeo do entertainer mutante da Pompéia.

Os vocalizes de Cyda e de Tânia Alves (namorada do personagem de Ênio Gonçalves, pai da atacante Batata) caem bem. Da mesma forma, o cadillac lilás de Rita, o namoro inter-racial de uma das jogadoras com o treinador, as menções a James Dean, ao velho guerreiro Chacrinha, às músicas de Michael Jackson e de Rita Lee, os teclados, o neón, o bafão.

Complementando o verdadeiro sururu de referências, podemos dar finalmente a histriônica escalação do Gaivotas: Neneca, Geléia, Zita, Valentina, Nonoca, Batata, Rita, Vera e demais que aparecem sem revelarem seus intrigantes nomes.

Fotografia de Antonio Meliande, montagem de Éder Mazzini. Meliande trabalharia em “O Corpo” (1991), um dos últimos longas de Garcia, falecido em dezembro de 2005. Décadas antes do fim trágico e prematuro, mascando chiclete e bebericando vodka, entre o deboche e a seriedade, a turma de Zé Antonio e Ícaro enfrentava as intempéries econômicas dos anos 80. Movida, sobretudo, a inventividade, paixão e doses cavalares de companheirismo.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Estrela Nua


A morte era obsessão para Nelson Rodrigues. Suburbano universal, criado no então longínqüo bairro de Aldeia Campista, no Rio, Nelson aproximava-se da morte com a curiosidade dos tempos de menino, quando assistia de calças curtas a velórios “sicilianos”, em que as viúvas agarravam-se aos caixões.

Nelson partiu aos 68 anos, em 21 de dezembro de 1980. Enquanto celebravam-se ainda os vinte e cinco anos de seu desaparecimento, no dia 22 do mesmo mês de 2005, há exatamente uma semana atrás, falecia prematuramente o diretor José Antônio Garcia, aos 50 anos de idade.

Além de “O Corpo” (1991), filme que sempre surge à tona quando se toca na produção cinematográfica de José Antônio, a trilogia formada por “O Olho Mágico do Amor” (1981), “Onda Nova” (1983) e “Estrela Nua” (1984) é particularmente saborosa. São obras da mais plena juventude e todas elas co-dirigidas em parceria com o amigo Ícaro Martins.

O roteiro de Garcia “Estrela Nua” traz também uma ponte interessante para o imaginário de Nelson Rodrigues – aspecto nem sempre diagnosticado por parte da crítica –, em um elo de ligação que reflete o entendimento artístico entre os dois.

Glória, dubladora escolhida para substituir Ângela (Cristina Aché) – estrela de cinema, vítima de um acidente de carro –, incorpora fantasmagoricamente a personagem vivida pela atriz. Incestuosa, a personagem de Ângela era adepta de um romance doentio com o pai, levado às últimas consequências com todas as fantasias do gênero.

“O Casamento” – livro célebre de Nelson, espécie de “Ritual dos Sádicos” da literatura nacional, em função dos problemas com a censura – tinha uma mesma personagem central chamada Glória, filha do Dr. Sabino, que sublimava o amor carnal pelo pai através de gestos e atenções. José Antonio e Ícaro colocam o pé no acelerador e em diálogos explícitos ou subentendidos, usam da mitologia rodrigueana combinada com a tendência de subversão da linguagem fílmica.

Mas este é apenas um dos fragmentos que encantam o espectador de “Estrela Nua”. São muitas as informações jogadas pela dupla e que vão se acumulando. Clarice Lispector – lida por Glória e recuperada na narrativa –; cigarros Hollywood – nem tanto pelo merchandising, mas pela lembrança do cinemão americano –; o poster de “Quelé do Pajeú” – filme maldito de Anselmo Duarte –; as músicas dos Mutantes – quando pairava sobre o grupo um certo ostracismo, nos anos oitenta –; Jean-Luc Godard de “Uma Mulher é Uma Mulher” – no apelo bastante feminino do filme.

Assim, a manipulação das regras do cinema – traço marcante em outro colega de “geração” da dupla, Guilherme de Almeida Prado – é um mote utilizado diversas vezes. Quando acaba a projeção, percebemos que na verdade assistimos a três filmes embalados em um único: o “Estrela Nua” de Garcia e Martins; o outro, dublado por Glória; e o terceiro, sonhado por Glória e Ângela, quando então percebemos que são amantes.

Outra característica da trilogia Garcia-Martins está nos personagens homossexuais – lésbicas e gays –, com a non-chalance de quem não via neles qualquer tabu que desmerecesse sua apresentação ao público brasileiro. Moralistas e conservadores devem ficar até hoje com os pêlos em pé ao acompanharem as andanças de Glória e Ângela, do casal Tamara (Vera Zimmerman) e Renée (Selma Egrei), além de Serginho (Patricio Bisso, na voz de Sérgio Mamberti), freqüentador de sauna gay.

Há também uma trupe de profissionais repetida nos filmes, o que os torna afetivamente próximos dos projetos que os diretores criavam. Camurati e Moreyra aparecem nos três, Bisso e Zimmerman em “Estrela Nua” e “Onda Nova”, Arrigo Barnabé – músico e ator em “O Olhar” e “Estrela Nua”. José Antônio e Ícaro surgem em aparições-relâmpago.

A capacidade de superação da dupla sofreria com a política czarista dos anos Collor. Separados, cada qual tocaria suas atividades, ampliando mesmo a atuação, dividida entre o cinema e o teatro. José Antônio dirigiu em 2005 a peça “A Pecadora Querimada e os Anjos Harmoniosos”, baseada uma vez mais nos escritos de Clarice Lispector – como havia sido “O Corpo” e as citações de “Estrela Nua”.

Para relembrá-lo, vale assistir seus divertidíssimos filmes, repletos de um humor sacana e gaiato que não existe mais. E acima de tudo, pensar na arte como o gigante que engole o mundo, e que despreza a barreira misteriosa da morte, eternizando a vida.