A exemplo do que aconteceu em “O Olho Mágico do Amor” (1981), José Antonio Garcia e Ícaro Martins, jovens mancebos egressos da ECA-USP, correram à Boca para o financiamento de “Onda Nova” (1983) e do posterior “Estrela Nua” (1984).
By Olympus Filmes, de Adone Fragano, “Onda Nova” consagrou-se como colcha de retalhos entre referências pop e udigrudi, repleta de séguizo, rodado com a saliência de quem está se divertindo no recreio e plantando um dane-se aos que não entendem o porquê de tanta “pornografia”.
Aliás, é preciso que falemos claramente deste aspecto, já que causa espanto os espectadores atuais ainda se assustarem com cenas que na escala Richter da explicitude não chegam nem a 0,1% do que os delírios de Passolini causaram há mais de 30 anos em platéias mundo afora.
“Onda Nova” usa o mote de narrar as peripécias do “Gaivotas Futebol Clube”. Um time feminino de futebol, que estréia com a presença dos corinthianos Casagrande e Wladimir no lado adversário, trajando vestidos de chita e cofiando as trancinhas.
Poderíamos dizer, pomposamente, que o filme articula um debate sobre o masculino e o feminino. A troca de papéis é uma constante, trabalhando com escracho, malícia e joie de vivre imensos as toscas convenções sociais de nossa provinciana brasilidade.
Por outro lado, podemos afirmar, igualmente, que se trata de um desbunde oitentista, em que mullets e perfumes Gelatti plantam a cenografia para a sucessão de gags da dupla de diretores-roteiristas.
O nonsene é vital. No meio do nada, perguntas e declarações absurdas, como a da patricinha Rita que cisma em querer encontrar um famoso diretor paulistano.
“Você conhece o Walter Hugo Khouri? Já ouviu falar? Cineasta. Tava precisando falar com ele.” Minutos depois, a hilária repetição após um papo sem qualquer conexão com o assunto: “Escuta, Lili, você conhece o Walter Hugo Khouri?”
A Lili em questão é Lindóia, goleira da equipe, personagem de Cristina Mutarelli – produtora do curta “A Estória de Clara Crocodilo” (1978), baseado na música do messias dark, Arrigo Barnabé –, e que também assina a direção de arte.
Lindóia – assim batizada porque a mãe (Patrício Bisso. Sim, leitor, Patrício Bisso, feminíssimo em clima absoluto de Doris Day, encarna a mãe de Lili) foi passear na estação de águas homônima para se recuperar de gravidezes problemáticas do passado. Já o pai de Lili (Luiz Carlos Braga) segue o hobby do tricô por recomendações médicas. E ambos, pappys e mammys, são terminantemente contra os modos masculinizados da filha, tentando impedi-la de jogar futebol.
Mal sabem que Lili, rechonchuda e desbocada, vive um trisal com Ruy e Marcelo. As cenas desta “trilogia” não são mostradas, mas os encontros de vários casais – entre eles Caetano Veloso vivendo o próprio, com uma amiguinha – no táxi de Cyda Moreira rendem um bocado. Beijos, sarros e nus gays de Ruy e Marcelo complementam este rodeio de conflitos que pela descontração – corajosa, diga-se de passagem – entraram para o raro, e ainda a ser trabalhado, imaginário GLBT do cinema brasileiro.
Importante notar que Camuratti, Mutarelli, Bisso, Moreira e Zimmerman são figuras constantes nas três parcerias cinematográficas de Garcia e Martins – a primeira participou, ainda, das outros duas: “O Olho Mágico...” e “Estrela Nua”.
Em “Onda Nova”, além dos “democratas corinthianos” Casagrande e Wladimir, há a presença de Osmar Santos – narrando, é claro, um confronto do Gaivotas F.C. –, da diva-escritora Edla Van Steen, do onipresente Sergio Hingst (dirigente do clube) e de José Antonio Garcia, naquele look Arnaldo Batista, quase irmão gêmeo do entertainer mutante da Pompéia.
Os vocalizes de Cyda e de Tânia Alves (namorada do personagem de Ênio Gonçalves, pai da atacante Batata) caem bem. Da mesma forma, o cadillac lilás de Rita, o namoro inter-racial de uma das jogadoras com o treinador, as menções a James Dean, ao velho guerreiro Chacrinha, às músicas de Michael Jackson e de Rita Lee, os teclados, o neón, o bafão.
Complementando o verdadeiro sururu de referências, podemos dar finalmente a histriônica escalação do Gaivotas: Neneca, Geléia, Zita, Valentina, Nonoca, Batata, Rita, Vera e demais que aparecem sem revelarem seus intrigantes nomes.
Fotografia de Antonio Meliande, montagem de Éder Mazzini. Meliande trabalharia em “O Corpo” (1991), um dos últimos longas de Garcia, falecido em dezembro de 2005. Décadas antes do fim trágico e prematuro, mascando chiclete e bebericando vodka, entre o deboche e a seriedade, a turma de Zé Antonio e Ícaro enfrentava as intempéries econômicas dos anos 80. Movida, sobretudo, a inventividade, paixão e doses cavalares de companheirismo.
By Olympus Filmes, de Adone Fragano, “Onda Nova” consagrou-se como colcha de retalhos entre referências pop e udigrudi, repleta de séguizo, rodado com a saliência de quem está se divertindo no recreio e plantando um dane-se aos que não entendem o porquê de tanta “pornografia”.
Aliás, é preciso que falemos claramente deste aspecto, já que causa espanto os espectadores atuais ainda se assustarem com cenas que na escala Richter da explicitude não chegam nem a 0,1% do que os delírios de Passolini causaram há mais de 30 anos em platéias mundo afora.
“Onda Nova” usa o mote de narrar as peripécias do “Gaivotas Futebol Clube”. Um time feminino de futebol, que estréia com a presença dos corinthianos Casagrande e Wladimir no lado adversário, trajando vestidos de chita e cofiando as trancinhas.
Poderíamos dizer, pomposamente, que o filme articula um debate sobre o masculino e o feminino. A troca de papéis é uma constante, trabalhando com escracho, malícia e joie de vivre imensos as toscas convenções sociais de nossa provinciana brasilidade.
Por outro lado, podemos afirmar, igualmente, que se trata de um desbunde oitentista, em que mullets e perfumes Gelatti plantam a cenografia para a sucessão de gags da dupla de diretores-roteiristas.
O nonsene é vital. No meio do nada, perguntas e declarações absurdas, como a da patricinha Rita que cisma em querer encontrar um famoso diretor paulistano.
“Você conhece o Walter Hugo Khouri? Já ouviu falar? Cineasta. Tava precisando falar com ele.” Minutos depois, a hilária repetição após um papo sem qualquer conexão com o assunto: “Escuta, Lili, você conhece o Walter Hugo Khouri?”
A Lili em questão é Lindóia, goleira da equipe, personagem de Cristina Mutarelli – produtora do curta “A Estória de Clara Crocodilo” (1978), baseado na música do messias dark, Arrigo Barnabé –, e que também assina a direção de arte.
Lindóia – assim batizada porque a mãe (Patrício Bisso. Sim, leitor, Patrício Bisso, feminíssimo em clima absoluto de Doris Day, encarna a mãe de Lili) foi passear na estação de águas homônima para se recuperar de gravidezes problemáticas do passado. Já o pai de Lili (Luiz Carlos Braga) segue o hobby do tricô por recomendações médicas. E ambos, pappys e mammys, são terminantemente contra os modos masculinizados da filha, tentando impedi-la de jogar futebol.
Mal sabem que Lili, rechonchuda e desbocada, vive um trisal com Ruy e Marcelo. As cenas desta “trilogia” não são mostradas, mas os encontros de vários casais – entre eles Caetano Veloso vivendo o próprio, com uma amiguinha – no táxi de Cyda Moreira rendem um bocado. Beijos, sarros e nus gays de Ruy e Marcelo complementam este rodeio de conflitos que pela descontração – corajosa, diga-se de passagem – entraram para o raro, e ainda a ser trabalhado, imaginário GLBT do cinema brasileiro.
Importante notar que Camuratti, Mutarelli, Bisso, Moreira e Zimmerman são figuras constantes nas três parcerias cinematográficas de Garcia e Martins – a primeira participou, ainda, das outros duas: “O Olho Mágico...” e “Estrela Nua”.
Em “Onda Nova”, além dos “democratas corinthianos” Casagrande e Wladimir, há a presença de Osmar Santos – narrando, é claro, um confronto do Gaivotas F.C. –, da diva-escritora Edla Van Steen, do onipresente Sergio Hingst (dirigente do clube) e de José Antonio Garcia, naquele look Arnaldo Batista, quase irmão gêmeo do entertainer mutante da Pompéia.
Os vocalizes de Cyda e de Tânia Alves (namorada do personagem de Ênio Gonçalves, pai da atacante Batata) caem bem. Da mesma forma, o cadillac lilás de Rita, o namoro inter-racial de uma das jogadoras com o treinador, as menções a James Dean, ao velho guerreiro Chacrinha, às músicas de Michael Jackson e de Rita Lee, os teclados, o neón, o bafão.
Complementando o verdadeiro sururu de referências, podemos dar finalmente a histriônica escalação do Gaivotas: Neneca, Geléia, Zita, Valentina, Nonoca, Batata, Rita, Vera e demais que aparecem sem revelarem seus intrigantes nomes.
Fotografia de Antonio Meliande, montagem de Éder Mazzini. Meliande trabalharia em “O Corpo” (1991), um dos últimos longas de Garcia, falecido em dezembro de 2005. Décadas antes do fim trágico e prematuro, mascando chiclete e bebericando vodka, entre o deboche e a seriedade, a turma de Zé Antonio e Ícaro enfrentava as intempéries econômicas dos anos 80. Movida, sobretudo, a inventividade, paixão e doses cavalares de companheirismo.

