domingo, março 07, 2010

Borboletas e Devassas


Nesta semana passei por duas experiências audiovisuais completamente opostas: primeiro assisti ao curioso “An Education”, dirigido por Lone Scherfig, roteiro de Nick Hornby. Uso o adjetivo “curioso” para evitar o ansiolítico “detestável”. Ficaria bem mais tranqüila em colocar história tão maniqueísta e reacionária na lista de meros acidentes espúrios. Acontece que o rocambole guarda desculpas: é baseado nas memórias da jornalista Lynn Barber.

Obra de ficção, só faltaria a triunfante entrada do Geninho, aquele bichinho fantástico que, no final de cada episódio do desenho “She-Ra”, surgia para dar conselhos edificantes à criançada:

“Lembrem-se, amiguinhos. Conheçam Paris, mas só depois da faculdade e bem acompanhados!” -- quem teve o desprazer de ver o filme vai compreender exatamente por que estou babando de sarcasmo.

Em processo de desintoxicação, recebi uma cópia de “Borboletas e Devassas”, documentário sobre a Boca do Lixo, dirigido por Valter Noronha, do qual participei como entrevistada, ao lado de um monte de gente que respeito: Carlos Reichenbach, Alfredo Sternheim, o jornalista Gio Mendes, o pesquisador Beto Ismael, a atriz Débora Muniz e o cineasta Virgilio Roveda.

Embora analise a pornochanchada do ponto de vista somente paulista – quando parte da sua graça esteve do outro lado da ponte-aérea – as entrevistas são boas o suficiente para que esqueçamos este lapso. Além disso, a chamada fase explícita é finalmente discutida sem medos ou ressalvas.

Como os entrevistados sabem do que estão tratando, o diálogo oferece várias interpretações – e enseja desdobramentos para os temas mais palpitantes. A figura de Sady Baby, por exemplo, clama por um doc só seu.

Entendo que a maioria das pessoas lembre da Boca somente como centro de pornôs monomaníacos. É o mesmo preconceito que enxerga o Brasil como a terra do Zé Carioca e os argentinos como milongueiros insuportáveis. Porém, o trabalho do Valter foi lúcido: insistindo que a Rua do Triumpho não produzia apenas sexo, dá meia-volta e discute o sexo mostrado na Boca em contraponto ao atual – de Brasileirinhas, Sexxxy World e afins.

Tal debate não guarda qualquer nostalgia, nem a vitimização cretina que certos saudosismos atraem. Olhar o passado tem sentido óbvio: de retorno a uma linha evolutiva para criarmos um futuro melhor. Adorando cultura pop dos anos 60, parte da minha geração – nascida nos 70 – deu salto de qualidade intelectual formidável. E ninguém virou hippie ou se perdeu em Abbey Road por causa disso. Trazer de volta o cinema popular brasileiro é simplesmente lembrar que outro mundo é possível.

E como prefiro chuva em São Paulo que sol no Rio de Janeiro, desconfio do politicamente correto, sou bissexual assumida, magra de ruim, fã do Jece Valadão e achei "Avatar" meio parecido com o "Guarani"
versão Norma Bengell bastou continuar nesta toada exótica e a conversa fluiu bem.

Em suas participações, Beto Ismael e Gio Mendes trazem contextualização ampla do fenômeno pornochanchadeiro, que acrescenta bastante para quem chega verde na história. Já Reichenbach, Virgilio, Alfredo e Débora Muniz fornecem testemunho ocular dos fatos. Débora, mulher serena e inteligente, quebra o estereótipo da "atriz pornô". Entre cineastas de um lado e pesquisadores de outro, sua presença talvez seja a mais significativa.

Editado com poucos recursos, "Borboletas e Devassas" me parece superior em conteúdo e sinceridade a muitos docs que ganham o circuito. Melhor do que aquela elegia ao Paulo Francis certamente é. Claro, fica fácil apontar imperfeições em quem está só começando. Mas habitante de um tempo e um meio de siliconadas histéricas e rapazes musculosos sem testosterona, o Valter ergueu altar aos peitinhos naturalistas da Sandra Graffi e mostrou a que veio. De onde saiu esse, pode sair muito mais.


PS - Por diversas razões o blog fica parado durante longo tempo. Em algumas delas o problema foi de saúde na minha família – questão que infelizmente não terei mais, já que meu pai faleceu em novembro de 2009. Outras vezes tive que suspender os escritos por conta de compromissos profissionais e de estudo inadiáveis.

Gostaria muito de viver de escrever – principalmente de escrever sobre cinema, e, mais especificamente, sobre cinema brasileiro – mas a verdade é que ganho muito pouco, ou quase nada, com isso. Não vou desistir – é algo que sempre me deu prazer – mas acabo tendo que mudar o foco para um lado real e menos glamouroso do cotidiano.

Sobre este velho e universal dilema, recomendo aos leitores “O Feijão e o Sonho”, romance lançado em 1938, de Orígenes Lessa – pai de Ivan Lessa, aquele do Pasquim. Campos Lara, o poeta-protagonista, é esta que vos fala. O centro de São Paulo é minha Capinzal. Estranho Encontro, Longa Carta Para Mila e o que mais chegar são meus “Flocos de Espuma”. E por aí vai.


Chistes à parte, o blog sobrevive. Mas não tenho a mínima condição de garantir atualizações diárias, semanais ou qualquer coisa que se pareça com assiduidade. Recomendo para os fanáticos em cinema popular brasileiro – nós existimos e somos muitos – os textos quase diários que o querido Adílson Marcelino vem publicando no
Insensatez.

11 comentários:

Adilson Marcelino disse...

Andrea, querida.
Você pode até às vezes demorar, mas toda vez que publica um texto é um arraso!
O Valter Noronha fez contato comigo e me disse do documentário e que você indicou o Mulheres para ele.
Muito obrigado.
E muito obrigado também pela distinção ao Insensatez.
Um beijo

Matheus Trunk disse...

Oi Andrea, tive o prazer de colaborar de alguma maneira com o doc do amigo Valter e estive na primeira (e especialíssima) exibição do filme. Sei da seriedade do trabalho dele, um cara realmente empenhado em fazer um bom documentário. E você foi muito feliz em seu texto, porque o filme dele trata o tema da Boca do Lixo sem glamour e/ou saudosismo. O passado é mostrado com suas qualidades e defeitos, sem qualquer tipo de visão romântica.

Matheus Trunk
www.violaosardinhaepao.blogspot.com

Valter Noronha disse...

Oi, Andrea.

Gostei muito da sua resenha. Eu até quis abordar as pornochanchadas cariocas, mas acho que elas merecem um doc a parte. O período explícito realmente é pouco abordado e muito escondido, sendo que mesmo nele há obras interessantes de cineastas como Mojica, Jean Garret e Ody Fraga. Espero atrair pelo menos a curiosidade dos interessados a respeito desses filmes e mostrar uma outro lado do nosso cinema. As comparaçõpes com os filmes atuais ficaram bem legais e tb acho que Sady merece um doc urgente.

No mais, continue sempre com suas ótimas resenhas!

Gio Mendes disse...

Oi, Andrea. Também gostei bastante da sua resenha. Existe um mini doc muito interessante sobre o Sady Baby chamado Marquês Sady, feito por dois jornalistas que ainda estudavam na PUC. Também fui um dos entrevistados nesse doc, ao lado de gente bacana como Sady Baby, Jota Santana, Eduardo Janks e Luana Scarlet. Um colega que mora no Rio de Janeiro também fez um documentário sobre o Sady em 2006 e parece que ele começou a editar o material somente neste ano.

Alfredo Sternheim disse...

Bárbaro o teu texto sobre o Anselmo (e também sobre o documentário Borbobletas e Devassas).
Realmente, o Anselmo foi uma das grandes vitimas da guerra midiática criada pelos cinemanovistas e
(posteriormente, muitos deles) filhos da Embra. E você soube muto bem colocar essa situação, deu a justa revelevância à Anselmo, assimo como você foi brilhante no documentário e, agora , no texto sobre o filme.
Quanto a Anselmo, ele também colaborou para seu isolamento.
Sempre respeitei e admirei Anselmo, gostava de ouví-lo contar suas histórias, frequentei a sua residência. Porem, ele tinha um temperamento dificil e em dado momento de sua vida, cismou comigo, dizendo que eu tinha escrito no Estadão uma crítica contra O Pagador de Promessas. E me desqualificava publicamente em TV, etc. Por duas vezes, lhe expliquei que nunca tinha escrito uma linha a favor ou contra O Pagador e que no documentário A Batalha dos Sete Anos até louvo a vitória em Cannes com música grandiosa de Schumann. Quem escreveu no Estadão em 1962 foi o falecido Fernando Seplinski que assinava FS. Eu assinava AS. Na terceira ocasião que ele provocou num jantar, perdi a calma e ai
a briga ficou feia. Mas em 2004 conversamos bastante como se nada tivesse acontecido. E em maio de 2009, no aniversário de 80 anos do John Herbert, ele foi amável, mas já estava bem debilitado.
Como você disse, "calhou de Anselmo Duarte ser a vítima de tantas esperanças, cercado de derrota por todos os lados." O dia da vitória do Pagador foi inesquecível, um clima legitimo de esperança e orgulho na Boca.

Renato Vieira disse...

Andrea, em tanto tempo de EEnc, talvez esse seja o texto mais pessoal que vc escreveu, contando coisas sobre sua personalidade. Algum motivo especial pra isso? Gostei, achei bacana essa abordagem.

Eu quero ver o doc!!

Almir disse...

Andrea, existe a possibilidade de postar esse doc na web ?
Abs

Leonardo Bomfim disse...

Adorei ler isso aqui. Saí do cinema com vergonha do "Educação". Eita filme moralista!

Estou bem curioso pra ver o "Borboleta e Devassas".

Andrea Ormond disse...

Adilson, então a demora acaba tendo um quê de especial, bom saber rsrs Em relação ao Valter e ao documentário, vc é o tipo de audiência qualificada, agrega muito ao debate. Um beijo grande, querido.

Realmente, Matheus, o trabalho do Valter é sério. A seleção dos entrevistados ajuda a tratar de vários ângulos diferentes o tema, sem falsos heroísmos ou moralidades.

Olá, Valter. Percebi esse vácuo sobre as pornochanchadas cariocas, mas o doc tem méritos, como venho comentando. A ponte entre o passado e o presente é um desses aspectos, por exemplo. Sucesso pra vc.

Olá, Gio. O Sady nas fileiras universitárias não deixa de ser interessante. Os departamentos de comunicação descobriram ele, imagine as caras dos professores.

Alfredo, obrigadíssima pelos elogios. Informações de um participante efetivo da Boca, como vc, humanizam os dados, as histórias ficam mais saborosas. Anselmo é folclórico, cercado dessa cortina de poeira, e para piorar ainda arranjou de alcançar um sucesso imperdoável.

Renato, esse toque acho que se deveu pela conjunção de fatores pessoais, como coloquei no texto :) Veja com o Valter o que ele pode fazer a respeito do doc.

Almir, essa parte só mesmo com o diretor, como eu estava falando com o Renato. Abs

Leonardo, mais um que sobreviveu ao Educação. Resta fazermos uma tomografia, para saber se ele não te deixou nenhum estrago rsrs O doc vale a curiosidade.

Luis Santos disse...

Andrea, desculpe comentar um post tão antigo. Mas não conseguia deixar de lembrar de você e de seu comentário sobre "An Education". Assiti "Chloe" (http://www.imdb.com/title/tt1352824) recentemente. Pra variar não lembro do título nacional, totalmente deturpado como de praxe.

Se você achou "An Education" moralista talvez ache essa ainda mais, a despeito da bonita cena de sexo entre Juliane Moore e Amanda Seyfried.

Queria que, se possível, você assistisse para conhecer sua opinião.

Abraços,
Luis Santos

Andrea Ormond disse...

Luis, a promessa de um encontro entre Juliane Moore e uma colega de elenco até que alivia um pouco a barra do filme rs Vou conferir e aviso, mas pelo que você falou já imagino o tamanho do problema. Abraços