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quinta-feira, janeiro 21, 2010

Snuff, Vítimas do Prazer


Nos anos 1970 todos os limites da liberdade foram testados. Não à toa, ali por 1972, 73, o sexo explícito começou a se institucionalizar nos Eua e na Europa, e a década legou à história filmes clássicos do gênero. No rastro do megasucesso de “Deep Throat" e “Behind The Green Door", diversos nomes transitaram rapidamente do soft para o hardcore e abusaram de criatividade insana.

Parte deste fenômeno infelizmente acabou mitigado pela revolução do homevideo, quando as produções deixaram de ser exibidas no cinema e eram editadas às toneladas direto para o videocassete. Assim, em retrospectiva, a impressão que ficou é a de que os anos 80 representaram o máximo em pornografia no mundo.

Mas como esquecermos a obra-prima sadomasoquista “The Punishment of Anne”, de 1975? E quase tudo o que Radley Metzger aka Henry Paris dirigiu? Como esquecer Brigitte Lahaie? Por mais que tenha ganho em quantidade, o “pornô” em vhs passa a léguas de distância do universo dionisíaco das chamadas “salas especiais”.

Nesse contexto, de espaços escolhidos e escondidos nas grandes cidades, foi que nasceu a lenda urbana dos snuff movies. Seriam filmagens clandestinas, exibidas para um público seleto, onde após o ato sexual os protagonistas eram literalmente assassinados.

Muitas produções americanas e européias da época fazem referência aos snuffs. Desde “Emanuelle in America” (1976), passando pelo doentio “Last House on Dead End Street” (1977) até o hollywoodiano “Hardcore Life” (1979), os snuffs estavam na boca do povo, como a provar que a bestialidade humana é uma janela aberta para o infinito.

“Snuff, Vítimas do Prazer” (1977), de Cláudio Cunha, poderia ser apenas tentativa oportunista de pegar carona no assunto, não fosse o sarcasmo que perpassa o roteiro, escrito por Cunha e Carlos Reichenbach.

Dois gringos, Michael Tracy (Hugo Bidet) e Bob Channing (Fernando Reski), desejam realizar um snuff no Brasil. Para isso contratam um técnico falido, Edson Lima (Carlos Vereza), auxiliado por Juarez (Canarinho), um grupo de atrizes na corda bamba -- Lia de Souza (Rossana Ghessa), Tati Ibanez (Nadir Fernandes), Glória (Lúcia Alvim) --, além de um ator louco, Sérgio Bandeira (Roberto Miranda). Carregam a equipe para uma fazenda no interior e iniciam as filmagens.

“Vítimas do Prazer” não é sobre a nobre arte de se fazer obras homicidas, nem documentário ao tema, mas simplesmente um olhar debochado à miséria humana. Espectadores de estômago fraco, criados pela avó, poderão deduzir com prazer que o mundo mudou bastante, e dificilmente hoje alguém teria coragem de fazer tamanha crítica ao ofício que exerce. Pois a miséria humana retratada ali, nada mais é do que a deles mesmos, cineastas brasileiros e paulistas, e a produtora falida poderia ser qualquer uma, à mercê de propostas esdrúxulas e pagamentos duvidosos.

Esse bater de frente consigo mesmo, essa vontade de perder os amigos mas nunca a piada, é que salva o filme do fracasso. Tedioso, de estrutura mambembe, “Snuff” nem parece dirigido por Cláudio Cunha, que sempre teve imenso cuidado formal em suas produções. Salva-se o elenco afiado, com destaque para Hugo Bidet, falecido em abril de 77, dois meses antes do lançamento.

Chegando aos cinemas em junho, recebeu boas críticas, principalmente em São Paulo. Porém o consenso da chacota etnocêntrica, repetido desde a estréia, sinaliza uma provável overdose de didatismo. O slogan "Tudo Foi Filmado na América Latina, onde a vida humana é muito barata", confirma ainda mais essa impressão.

Aliás, Cláudio Cunha e Carlos Reichenbach teriam escrito o roteiro em uma sala de escritório na Boca, muito parecida com a que criaram para o desafortunado Édson Lima. E, segundo entrevista que Cunha concedeu à Zingu!, durante as filmagens Hugo Bidet já apresentava ímpetos suicidas, que concretizaria logo depois. Em um filme sobre o desespero moral e a precariedade existencial de cineastas e atores no Brasil, ao que parece eles estavam encenando também um psicodrama histérico e farsesco, de deixar o médico Jacob Levy Moreno intrigado.

Como última curiosidade, vinte e cinco anos depois -- em 2002 -- o escritor e cineasta Marcos Fábio Katudjian voltaria a tratar a idéia de snuffs brasileiros no ótimo romance “Snuff Movie: Depois do Fim do Mundo”. Recomendo o livro tanto quanto o filme. Ambos investem na idéia de que em um país pobre vale tudo, até se usar o aparato do dinheiro para a satisfação cinéfila de uma elite de sádicos.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Pra Quem Fica, Tchau!


Não sei a opinião dos leitores, mas acredito que a exibição de certos filmes brasileiros deveria constar na grade curricular de universidades, colégios e cursos, não apenas como ilustração para métodos educacionais, mas também por joie de vivre, aquela espécie de lição que nossos avós nos deixam, que se resume em "aproveite a vida enquanto é tempo".

O cinema comercial do final dos anos 60 e início dos 70 estava repleto desse mandamento, que no fundo refletia a chamada "revolução jovem" -- a nova ordem mundial que fazia acreditar que era proibido proibir e que todo mundo com mais de trinta anos era digno de desconfiança. Ato contínuo, ganhar dinheiro no cinema também passou a significar vender não doença, estados mórbidos ou desgraças, mas liberdade, curtição e sexo: pulsões de vida, ou Eros, como diria Freud.

O cenário, forjado na Zona Sul do Estado da Guanabara (a atual cidade do Rio de Janeiro) e os protagonistas (a juventude dourada e abastada) estavam lá, à espera de quem quisesse vê-los. Foi assim que a chamada "pornochanchada" carioca nasceu e vingou, sendo exportada para os quatro cantos do país e, posteriormente, para a América do Sul e muitos países da Europa.

Filmes com rapazes e moças hypados, festas inacreditáveis, trilhas-sonoras pra frentex e Copacabana ao fundo acabaram sendo produzidos até o esgotamento, a ponto de, ainda na metade da década de 70, a maioria dos diretores e produtores que se dedicavam ao gênero terem começado a explorar o avesso disso na pobreza, nos subúrbios e periferias, algumas vezes com resultados também interessantíssimos.

Dentre os filmes iniciais da época de ouro das comédias urbanas cariocas as dirigidas e produzidas pelos irmãos Faria -- Reginaldo, Roberto, Rogério e Riva -- criaram uma espécie de modelo, a partir de "Toda Donzela Tem um Pai que é uma Fera", de 1966, e indo até "O Flagrante" de 75, quando a abordagem já trafegava para homens casados, não mais jovens em eternas férias. De fato, Reginaldo Faria já era um respeitável balzaquiano quando dirigiu seu filme de estréia "Os Paqueras" em 69, o que talvez tenha facilitado sua visão de um desfrute urgente e pleno.

"Pra Quem Fica, Tchau!" (1970) , segunda tentativa de Reginaldo na direção, explora uma recorrência do tema. Jovem chegado do interior, Lui (Stepan Nercessian) vai morar com o primo boa-vida em Ipanema, Didi (o próprio Reginaldo), que tem amigos da "estirpe" de Flávio Migliaccio e Hugo Bidet, com quem passa a se divertir e realizar importantíssima atividade: cantar o maior número de mulheres nas ruas de Ipanema e Copacabana.

Claro, não demora Lui se apaixona por uma das paqueras, a deslumbrante Maria (Rosana Tapajós), e, no esquema de qualquer trama romântica, a coisa evolui entre tropeços e acertos, festas psicodélicas e bodes homéricos. O minúsculo apartamento de Didi é um santuário da perdição; no entra e sai de garotas de minissaia e blusas coloridas fica claro que se a vida é só uma, aqueles meninos já tinham descoberto o que fazer de bom com ela.

Stepan Nercessian, que vinha de "Marcelo Zona Sul" e aos 16 anos crescia rápido, não só em tamanho mas em competência profissional, encontra no papel de mineiro deslumbrado uma proximidade com sua realidade de garoto criado no interior de Goiás. Reginaldo Faria e Flávio Migliaccio, rapazes mais crescidos, faziam ali uma espécie de transição para a idade adulta, enquanto Hugo Bidet se limitava a ser apenas Hugo Bidet.

Este último, quase sempre visto como personagem ao invés de ator, trabalhou em mais de duas dezenas de filmes, ainda que fazendo papéis parecidos. Figura folclórica de Ipanema, malandro até dizer chega, Bidet deve ter antecipado o fim daquela era no dia 11 de abril de 1977, quando no seu apartamento ipanemense, na rua Jangadeiros, deu um tiro na cabeça, limitando aos filmes e livros o prazer que proporcionava ao mundo com sua presença.

Odes à felicidade, com data certa para acabar mas vivida plenamente, os filmes de Reginaldo Faria precisam ser apreciados por gente de todas as idades. E se exibidos em clubes, escolas, motéis ou associação de moradores, fariam pessoas mais alegres, sociedades mais saudáveis e arrancariam tantos sorrisos nos rostos quanto em 1971. Assim como feriado prolongado e pipoca com guaraná, impossível que alguém em sã consciência desgoste-os, senão por motivos alheios ao bem-estar humano.