terça-feira, março 03, 2009

Roberto Carlos Em Ritmo de Aventura


Com a ridícula interdição da biografia escrita pelo pesquisador Paulo César Araújo, Roberto Carlos jogou fora uma parcela -- ainda que pequena -- da admiração pública por sua incrível trajetória. Além disso, sufocou um movimento espontâneo, honesto, de revisão intelectual de sua obra.

Quem se lembra do Roberto dos anos 70 e 80, olhado como o ídolo das mocinhas sessentistas -- que envelheceram e viraram donas de casa -- notará que o Roberto do séc. XXI -- analisado em retrospectiva como um dos grandes compositores brasileiros -- é, em parte, fruto do esforço de críticos e pesquisadores. Não só Paulo César Araújo, mas também Pedro Alexandre Sanches -- que escreveu o delicioso "Como Dois e Dois São Cinco" -- e uma multidão de anônimos, que formam grupos de bar e comunidades no Orkut para discutirem as canções do Rei, da mesma forma que debatem sobre Quentin Tarantino e Clarice Lispector.

Na verdade, a parcela bem-pensante da intelligentsia brasileira conseguiu elaborar o óbvio: artistas como Roberto, Erasmo, Antônio Marcos, Fernando Mendes e até a ternurinha Wanderléa são simples apenas na aparência. Assim como certos filmes de Jean Garret, ocultam atrás do fenômeno popular uma essência feroz, obsessiva e repleta de vícios e segredos da alma nacional. Brasileiros todos que somos, reconhecemos neles nós mesmos.

Em 1968, já consagrado pelo televisivo domingueiro "Jovem Guarda", Roberto Carlos estreava no cinema pelas mãos de Roberto Farias. E, ao contrário de hoje, muitos impropérios devem ter sido ouvidos no Paissandu e adjacências contra tamanha alienação, pois "Roberto Carlos em Ritmo de Aventura" trazia mais do mesmo para os fãs: piadas, perseguições, música. Muita música.

A cena inicial, quando Roberto dirige um conversível vermelho pela Estrada do Corcovado e é seguido em alta velocidade por uma quadrilha de bandidos, dura o tempo exato da canção "Eu Sou Terrível". Roberto sobe as escadas do Cristo Redentor em disparada e descobrimos que aquilo é um filme dentro do filme. Reginaldo Faria, de barba postiça, grita "Corta!" e aparece como o diretor das filmagens em que atuam Roberto e os perseguidores.

O resto é um fio de história. De Paris, chega o vilão Pierre (José Lewgoy) que sempre morre no final da trama, mas que dessa vez não quer morrer. E Roberto continua a ser perseguido e a fazer piadas, ao som das próprias músicas. Ora em gravações originais, ora executadas pelo RC-7, ora em versões instrumentais da Orquestra Brasileira de Espetáculos, que sobreviveu durante anos à sombra do ídolo.

Hospedado no Hotel Comodoro, centro de São Paulo, Pierre é deixado de lado e conhecemos uma vilã, que propõe: "Roberto, sabia que eu, você e a cibernética podemos ser muito felizes?". O cantor não se convence, foge e ganha uma nova inimiga. Apanha um helicóptero e faz vôo panorâmico pelo Rio de Janeiro, em cena antológica.

Vejamos: ao som de "Namoradinha de Um Amigo Meu", o helicóptero sobrevoa a Av. Infante Dom Henrique. Mergulha no Túnel do Pasmado (sim, enfiaram o helicóptero por dentro do túnel). Segue entre os fundos da sede do Botafogo e o Colégio Anglo-Americano. Depois, à esquerda, o mítico Solar da Fossa (hoje o Shopping Rio Sul). Então contorna o Túnel Novo, pela Ladeira do Leme, e chega em Copacabana, na altura da Praça Cardeal Arcoverde. Um corredor pela orla e avistamos o transatlântico Eugênio C.

Acabou? Que nada. De repente, estamos no Centro. Ao som de "Canzone Per Te", a Av. Presidente Vargas, a Igreja da Candelária e a lateral da Cinelândia, mirando o falecido Palácio Monroe. Encerra dando uma volta ao redor do Cristo, e aterrisa no heliporto do Banco do Estado da Guanabara. Reginaldo Faria, diretor do filme dentro do filme, faz troça metalínguistica, elogiando a competência e a beleza da sequência.

No filme dentro do filme, muitas emoções: Roberto quase leva um tiro de Pierre -- o vilão refastelado em uma "poltrona mole", invenção do arquiteto Sérgio Rodrigues -- e desce de guindaste do alto de um prédio. Não satisfeito com o helicóptero, faz peripécias de avião junto com a Esquadrilha da Fumaça. Quando suas fãs são seqüestradas, embarca em um container da PanAm, rumo a Nova York.

Em Manhattan, Roberto dá um giro noturno de carro que lembra um pouco o futuro "Taxi Driver" -- sem coleção de armas nem Jodie Foster -- ou certas sequências inspiradas de Clery Cunha. Modesto, aproveitando a Guerra Fria, chega ao espaço. Claro, ele foi pro espaço. Quando a nave sobrevoa o Brasil, se entedia e salta.

Atravessa a atmosfera (eu não bebi, por favor) e cai em Gericinó, na época distrito de Bangu, bairro da zona oeste do Rio. Perto de onde, desde 1987, funciona o famoso complexo de presídios. Naqueles confins, uma guerra lollipop entre Roberto e Pierre se inicia. Tudo termina em um "Bye!" e enxurrada de novas canções, incluindo a histeria do público, à la beatlemania.

"Meio bilhão de cruzeiros", foi manchete dos jornais de abril de 68, fazendo alusão aos custos do filme. Desvairado, mas de apuro técnico único, não poderia ter gasto pouco. Dali a menos de um mês, os jovens de todo mundo iriam para as ruas gritar que era "Proibido Proibir", enquanto filas davam voltas nas metrópoles brasileiras, para ver os Robertos -- Farias e Carlos -- ironizando a realidade, pairando acima do bem e do mal.

Sobre ironia à realidade, não podemos esquecer que o roteiro de Farias foi elaborado com auxílio do escritor Paulo Mendes Campos. Sabe-se que Mendes Campos, em 1962, viveu intensa experiência com LSD, droga que defendia e sobre a qual escreveu crônicas corajosas. Pois em trechos de "Roberto Carlos em Ritmo de Aventura" aspectos de psicose -- induzida ou não -- esquizofrenia e cisão de ego merecem ser percebidos.

A barba de Reginaldo Faria que some, a voz invisível (de Milton Gonçalves) e um inexplicável comentário a Pitágoras -- mais do que cacoetes da era psicodélica, parecem inferências de alguém que realmente vivenciou sensações alucinógenas. Por mais careta que fosse, Roberto viu-se refém desse ethos maravilhoso, o que distancia "Em Ritmo de Aventura" do pastiche e o torna manifestação viva de indagações datadas e complexas. Se o Rei não tomou ácido, muita gente tomou por ele -- e ao som dele.

8 comentários:

Fofão disse...

Os filmes de Roberto são importantes para que se tenha um painel mais completo da cultura brasileira nos anos 60.
Tem gente que acha que só havia festivais da canção, Cinema Novo e teatro de vanguarda, e esquece Roberto, Mojica, as telenovelas etc. Deve ser aquele velho recalque em relação à cultura popular.
Não vi esse todo, mas gostei muito da parte que vi. E a trilha sonora é sensacional.

Adilson Marcelino disse...

Eu adoro a trilogia do Roberto Carlos no cinema.
Bjs

Adilson Marcelino disse...

E não comentei, mas achei fabuloso sua descrição do rasante pelo Rio feito no filme.
Bjs

Rafael Ribeiro (o Lusitano) disse...

Andréia, você esqueceu de citar uma das passagens mais insólitas do filme e que comprova as altas doses de LSD ingeridas: o Rei, reconhecidamente manco e deficiente, no alto do Terraço Itália, cantando com fãs e a banda, na época um dos (senão "o") ponto mais alto da cidade de São Paulo

Alexandre disse...

Uma vez dei de presente um dos filmes do RC para mim minha mãe que é fã dele das antigas... Achei que estava agradando e que ela adoraria.....Engano. Ela não teve a menor paciência em assistir as aventuras do rei na telona(risos)!

Sergio Andrade disse...

Também adorei a descrição do vôo panorâmico pela Cidade Maravilhosa. Me senti dentro daquele helicóptero rsss!

Andrea Ormond disse...

Exatamente, Fofão. E o fato é que o RC foi além dos 60, personificando muito da cultura pop brasileira dos anos 70. Nos 80, 90 e 2000 já era mito, perdeu bastante em inspiração...

Obrigada, Adilson, um vôo clássico que me marcou desde a primeira vez que eu vi.

Rafael, são muitos momentos lisérgicos, bicho. Esse é um deles, criativo e naquele ritmo próprio. E a cena em que ele vai beijar a fã e os rostos vão se aproximando?

Talvez o filme tenha um pique agitado demais, Alexandre. Tente os discos dos anos 70 rsrs

Sergio, pena que não dá para se ter a sensação in loco. Adoraria um vôo absurdo de helicóperto, como esse rsrs

Antônio Lídio Gomes disse...

Um filme confuso, infantil e ingênuo.
Não sei de onde tiraram tanta asneira e enfiaram num filme tosco e fraco.
Ou seja, diretores e atores, como tentaram fazer de Roberto Carlos um deles, eram beeeem amadores!