quarta-feira, outubro 29, 2008

O Amor Está No Ar


Praticamente inédito no eixo Rio-Sp, "O Amor Está no Ar" (1997) entra em qualquer lista bem-intencionada de melhores filmes brasileiros da década de 90. Inteiramente filmado no Espírito Santo pelo saudoso jornalista, documentarista e crítico Amylton de Almeida - que morreu de câncer sem vê-lo terminado - o projeto foi obsessão e razão de viver para Amylton, que sonhava fazer um filme na linha de Douglas Sirk, profícuo realizador de melodramas em Hollywood nos anos 50.

Vale dizer que Douglas Sirk povoou o cinema com obras que em nada lembram o vanguardismo expressionista de seus colegas de geração e nacionalidade. Alemão, tendeu à linha do final feliz, apesar de uma nesga de crítica social ter sido apontada e resgatada a partir dos anos 60 e 70 - vide artigos no Cahiers du Cinema. "Imitação da Vida" (1959), estrelado pela poderosa Lana Turner, conta a história de conflitos inter-raciais numa estrutura mezzo cínica, mezzo radionovelística, e é um dos momentos mais conhecidos de sua obra.

Fugindo da referência, o projeto de Amylton de Almeida destaca-se por ir além deste estilo sirkiano, remontando com segurança uma grande questão nacional: o choque entre cultos e incultos, entre civilização e barbárie. A paixão da radialista Lora (a bela Eliane Giardini) pelo lumpen Carlos Henrique (Marcos Palmeira) serve de pretexto à observação sociológica, bem-elaborada e honesta, pois não encontra vilões nem mocinhos, apenas a busca de um sentido para a vida.

O argumento nasceu do documentário "Cupido no Ar", feito por Amylton sobre as rádios populares de Vitória. Trafegando em um universo pra lá de pitoresco, criou Lora, vitoriense quarentona, classe-média alta, que apresenta um programa casamenteiro em uma rádio local. Um dia, o jovem desempregado Carlos Henrique aparece em busca de pretendente. Fascinada pela simplicidade - suposta ingenuidade - do rapaz, Lora lhe dá casa, comida, enche de presentes, cuidados - e pouco a pouco destrói a própria vida naquele amor sem qualquer futuro ou redenção.

A progressiva clivagem entre as perspectivas de Lora e Carlos sustenta a trama. Em âmbito maior, representa o autêntico divórcio de interesses que move o país: uns estudam, outros não tem vontade; uns empreendem, outros querem favores do pai-estado; uns guiam-se pela ética, outros pela malandragem.

Percebam que isso nada tem a ver com pobreza ou riqueza: é traço cultural, de formação, de caráter. Ricos preguiçosos, primitivos - e mesmo vítimas - ou pobres empreendedores, globalizados - e mesmo vilões - existem aos montes, mas infelizmente tornou-se cômodo para o cinema brasileiro - influenciado por proselitismos políticos e lobbies acadêmicos - representar sempre uma filosofia absoluta: Deus e o diabo na terra do bom contra o mau. Muito além dos pornôs imaginários de Pedro Cardoso, esta é a grande monotonia que precisamos superar.

Carlos Henrique ganha uma chance da apaixonada Lora; não aproveita porque não quer. Prefere ficar jogando videogame com o amigo, também desocupado, ao mesmo tempo que arruma uma namoradinha da sua idade e trai Lora sem pesar ou escrúpulos. A mulher mais velha, que parecia tão firme de si, demonstra-se uma tonta masoquista, a ponto de seguir Carlos para vê-lo aos beijos com a namorada. Descobre que nem toda a inteligência e beleza que sabe possuir serão suficientes para cooptá-lo, para incluí-lo no seu projeto.

Lora é assistida pela empregada e pelo motorista (Ênio Gonçalves), que reiteram para a patroa essa impossibilidade de comunicação com o amante. Os colegas da rádio engrossam o coro, mas Lora é paciente crônica: simula abstinência, retornando voraz toda vez que a ocasião propicie o desejo. E Carlos Henrique cumpre seu papel autômato, oportunista, desprovido de lógica e pleno de significados.

As primeiras filmagens de "O Amor Está no Ar" se deram em agosto de 1994. Quando estreou, em 1997, Amylton de Almeida já estava morto. Saudado como um dos primeiros filmes de longa-metragem feitos no Espírito Santo, teve atenção pífia no Sul-Sudeste - alguns o consideraram amador demais; e como se não bastasse, a Rede Globo exibia uma novela homônima no mesmo ano.

Divulgação regional, elenco frouxo e esforço cinéfilo de artista apaixonado, em nada diminuem a importância de "O Amor Está no Ar" no panorama brasileiro dos anos 90. Indo contra o folclore, a comédia carioca vazia e a proto-sociochanchada, foi um híbrido capixaba e cosmopolita, provinciano e sofisticado. Naquele momento em que a produção tendia às escolhas que perduram até hoje, mergulhando no esquema e desaprendendo a sutileza (o caos) da natureza humana, pode-se dizer que Amylton de Almeida deu um grito póstumo de lucidez, de resistência íntima frente à imbecilidade.


11 comentários:

Anônimo disse...

Eu entro neste blog todo dia, por isso sou quase sempre um dos primeiros a comentar rsrsrs. Cara Andrea, gostei muito do teu puxão de orelha no Pedro Cardoso, que falou bobagem. Sinceramente, não conhecia esse filme, nem seu diretor, Amylton de Almeida. Mas confesso que ao ler a crítica, fiquei bastante ansioso pra um dia ver a fita. Creio que a mesma garra e batalha que nossos cineastas tem para realizar seus filmes, é a mesma que você tem para escrever essas criticas. Mais uma vez você deu aula. Parabéns.

Anônimo disse...

Esse primeiro comentário foi meu, Matheus Trunk
www.revistazingu.blogspot.com

Marcelo V. disse...

Que ótimo poder ver filmes como este resgatados. Pena que fica bem inacessível para quem não tem um Canal Brasil...

"o poeta da verdade" disse...

Ola boa noite neste momento que digito aqui das paragens do sul. Ha tempos assisti o filme Lucio Flavio o passageiro da Agonia e pesquisando no virtual encontrei seu blog. Realmente é notável a nostalgia do cinema nacional que poderia ter alguns resgates de época e diante dos seus arquivos apreciei muito os posts e agora irei atras do livro escrito por Jose louzeiro . Um forte abraço ...

Luiz com Z disse...

Andréa, a cereja do sundae foi lembrar da novela. Antes mesmo de ler o texto, lembrei da demora que ocorre entre a produção e lançamento de um filme no Brasil. E quando vi o título e o ano entre parênteses, a primeiríssima coisa que pensei foi: "coitado do diretor". A morte pré-parto só agrava o sentimento. Mas parafraseando o hilário Sílvio Luiz, "o importante é que nossa emoção sobreviva"... em celulóide ou digital. Um brinde póstumo e em vida aos mestres e aos heróis da nossa cinematografia. E os picaretas que olhem essa festa conceitual da vitrine. Beijo.

Anônimo disse...

Andrea,
Atenda meu apelo.
É só linkar no meu novo blog
http://minhainsensatez.blogspot.com/
Bjs
Adilson Marcelino

Andrea Ormond disse...

Obrigada, Matheus. "O Amor Está No Ar" passava no Canal Brasil uns anos atrás, depois nunca mais vi. É um filme que foge bastante daquele esquema dos anos 90 que a gente conhece bem.

E o Canal Brasil já teve programação melhor, Marcelo. De uns tempos pra cá repetem vários filmes e sumiram com outros bem raros. Exemplo: cadê o "Memória de Helena", do David Neves?

Olá, poeta. A entrevista do José Louzeiro aqui no blog narra a realização do "Lúcio Flávio", depois dê uma conferida. Um grande abraço!

Pois é, Luiz, esse problema de timing é às vezes irreversível. No caso do "O Amor Está no Ar" fica ainda mais gritante... Beijos

Adilson, obrigada pelo carinho, vc é sempre de uma sensibilidade incrível. Eis que o Estranho Encontro voltou, e longa vida ao seu blog! Bjs

ADEMAR AMANCIO disse...

Eu acho que o Pedro cardoso tem suas razões,em novelas por ex o nu devia ser excluído.

Anônimo disse...

Olá!! Procuro por esse filme e está muito difícil achar ele! Alguém sabe onde tem para baixar ou mesmo para comprar o DVD??? Agradeço qualquer resposta. Meu e-mail: desuso@bol.com.br. Atenciosamente, Eduardo Lima.

Liliane Carneiro disse...

Boa Tarde Andrea! primeiramento gostaria de parabenizá-la pelo belo Blog e crítica sobre o filme O Amor está no Ar! Por acaso você sabe de algum lugar que eu consiga esse filme para comprar? Pois procuro em todos os lugares e não encontro de jeito nenhum, nem mesmo uma cópia! Então resolvi lhe escrever com desespero e na esperança de talvez você poder me dizer aonde poderei encontrá-lo! Qualquer coisa meu email é: lilianelisboa80@yahoo.com.br

Um Abraço!

Andrea Ormond disse...

Eduardo e Liliane, infelizmente o filme é raríssimo. Passou no Canal Brasil no final dos anos 90. Talvez acompanhando a programação vocês consigam vê-lo. Abraços